Naomar Almeida: "Estudantes estão defendendo a universidade da época do regime militar" - 22/11/2007

"Os estudantes estão defendendo a universidade da época do regime militar"
Por Daniel Pinto e Cíntia Kelly
A tomada da reitoria foi por conta da reforma universitária. Quais as principais alterações que o Reuni propõe para as universidades federais?
Naomar Almeida – É um programa de expansão com abertura de mais vagas para as universidades públicas. A Ufba vai passar de 20 mil para 38 mil alunos na graduação. A pós-graduação também vai crescer. O Prouni também é um programa de inclusão social, por isso a maior parte das vagas vai ser noturna para aperfeiçoar os recursos e equipamentos da universidade pública. Vai haver também a recomposição do quadro. A nossa universidade vai ganhar mil professores novos por meio de concurso público para o preenchimento das vagas hoje ocupadas por professores substitutos. Aliás, essa sempre foi uma das críticas dos alunos.
O senhor só apontou vantagens.
NA – Eu só vejo vantagens. E acrescento, ainda, que vamos ter mais recursos para investimento em infra-estrutura. Nossa dotação orçamentária é de R$ 86 milhões para investimento. Vamos construir pavilhão de aula, laboratórios, auditórios, centro de idiomas. É um pacote grande. É o maior investimento na historia das universidades federais.
Então, por que essa resistência por parte de uma parcela dos alunos?
NA – Tem toda uma conotação política. Há grupos partidários que são contra o governo. Tem também a questão da política interna. Há grupos dentro da Ufba contra o viés de crescimento que adotamos na universidade. Tem ainda a desinformação. O aluno não lê. Botamos no site o projeto e os alunos não leram e ficam com mitologia sobre o projeto. A principal caracaterística do projeto da Ufba é a reestruturação da arquitetura curricular da universidade para que ela seja menos profissionalizante e mais cultural. A universidade brasileira está ficando cada vez mais tecnológica. Você entra e já fica com a formação bitolada e estreita. Quem entra no curso de Economia, por exemplo, já tem o cardápio pronto do primeiro ao último ano do curso. Então, a nossa universidade faz proposta de flexibilização em que o aluno pode trocar o curso dentro da universidade, criando eixos de formação que depois faça sua escolha. Essa é uma tendência mundial e o Brasil está ficando para trás. O nosso modelo de universidade é do século XIX. Nós ainda mantemos o sitema que foi reformulado no auge da ditadura militar, em 1968. A invasão e a rejeição dos alunos ao Prouni traz um paradoxo que os estudantes estão defendendo a universidade do regime militar. Para mim que participei do período é difícil compreender e defender a univerisdade do regime militar.
Eles falam que não houve a particpação dos alunos no processo, na sugestão de propostas.
NA - Eles tiveram a oprtunidade de sugerir. Alguns participaram e outros não do processo. O tema está em discussão desde agosto de 2006. Fui a todas as escolas levando as propostas. O conselho universitário definiu que eu devia fazer isso e eu fiz e foi muito útil. Alguns aspectos foram incorporados. O projeto quando foi apresentado já tinha a contribuição de várias escolas, fizemos vários seminários. O Conselho Universitário, eu e o Consepe fizemos reuniões conjuntas. Todas as vezes que o MEC solta um documento nós fazíamos reuniões. Levamos para as 30 unidades da Ufba e 26 delas aprovaram o projeto.
O senhor falou que há envolvimento partidário na resistência, que é contrário ao governo.
NA – Não tenho dúvida nehuma quanto a isso. Eles aproveitam o campus da universidade para expressar o descontentamento. Mas isso é nacional. São 53 universidades federais que são potencialmente participantes do Reuni. Desse total, 37 já decidiram entrar. Em todas elas houve movimento ligado a partidos, em 17 houve invasões e em nove delas os reitores pediram reintegração de posse. O que aconteceu aqui foi um enredo ensaiado de todas as grandes universidades. Até o modo de obstruir foi igual à ocupação do Conselho Universitário para impedir que ele deliberasse. Como a deliberação já estava certa, porque 26 de 30 é maioria esmagadora, eles tentaram impedir a reunião. Tivemos que conduzir o processo deliberativo sem debate. Mas nós votamos. Os 29 diretores votaram contra, os alunos não assinaram a lista de presença. Defenderam que a reunião não existiu. Disseram que não teve ata e teve. Está tudo protocolado no MEC. Aí eles radicalizaram. Eles passaram a proibir os funcionários da reitoria a entrar para trabalhar, buscamos a negociação, mas a pauta deles era impossível de aceitar: uma era revogar o decreto, a outra era anular a reunião do conselho e, por último, convocar assembléia geral com voto universal.
O processo não vai ter mais retorono?
N A - Não terá.
E quando terá a aplicação prática?
NA - Começa em janeiro de 2008. Esse é o prmeiro programa que a expansão ocorre depois do investimento. Antes abria turma e a gente ia buscar os investimentos. Esse não. Em 2008 o compromisso é investir. Vamos contratar 246 professores, na primeira leva, e 100 funcionários. São R$ 10 milhões em investimentos.
Não houve violência na reintegração de posse?
NA - Eu me abstenho de entrar nesse mérito. Há um monopólio da força que no Estado democrático é da polícia. Não existe nenhum Estado sem polícia. Nem a Suiça, que é o Estado mais pacifista do mundo. Esse monopólio da força é para garantir a justiça. A Polícia Federal só atua obedecendo ordem judicial.
O vestibular foi comprometido com essa polêmica?
NA - Neste ano tivemos uma das menores abstenções. E o número de inscrito caiu pouco. Na Bahia o número de oferta é maior do que a de vagas públicas. Foram 39 mil inscritos, desse total 6% não fizeram a prova. O episódio não afetou o vestibular, mas podia tê-lo feito. Estudantes impediram um gabinete de funcionar, mantiveram a pró-reitora em cárcere privado e toda equipe do CPD. Eles foram mantidos reféns e os oficiais de Justiça viram isso. Eles revistaram as bolsas e pastas, uma ação criminosa. A escalada seguinte era tomar o Centro de Dados Acadêmicos da Ufba e a Secretaria Geral de Curso. A ação da PF pode ser interpretada de diversas maneiras, mas conduzimos dentro do direito. Quem encaminhou tudo foi a Procuradoria Jurídica da Universidade. A avaliação deve ser feita da seguinte forma: quem começou a ilegalidade violenta? Os invasores. Quem aprofundou a ilegalidade na violência? Os manifestantes. Quem desobedeceu uma ordem judicial? Eles.
A Ufba sempre foi referência na produção acadêmica na pesquisa. Após o Reuni o potencial da Ufba vai ser ampliado?
NA - Não tenho dúvida. Tem também a massa crítica. A nossa universidade está no limite da pós-graduação. Nós tivemos crescimento nos doutorados nos últimos 4 anos. Tínhamos 17 doutorados, hoje temos 32. É o maior do Brasil. Precisamos de mais docentes para sustentar essa expansão, porque a massa crítica é necessária. Não basta ter 3 ou 4 pessoas com doutorado. Precisamos ter um número maior. O que está se propondo é uma reestruturação curricular, fazendo com que os cursos sejam reestruturados em função da pesquisa e não da formação profissional.