Segunda, 24 de Novembro de 2014 - 11:00

Mário Negromonte Jr.

por Luiz Fernando Teixeira/ Fernando Duarte

Mário Negromonte Jr.
Foto: Luana Ribeiro/ Bahia Notícias

Depois de quatro anos na Assembleia, o deputado estadual Mário Negromonte Jr. (PP) chegou à Câmara Federal para ocupar a vaga deixada pelo pai, Mário Negromonte, hoje conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios. Prestes a embarcar para Brasília, Negromonte Jr. faz um balanço positivo da sua experiência nas urnas, em 2010 e 2014, e, apesar de ter o sobrenome citado na Operação Lava-Jato, acredita que o pai não tem qualquer envolvimento com as denúncias. Para o tio, Adarico Negromonte, no entanto, ele é mais ponderado. “Se o meu tio errou, eu digo muito claramente, ele deve ser punido. Em relação a isso, a minha família, eu volto a dizer: eu não posso jamais responder pela atitude dos outros”, frisou. Do deputado estadual do “cacetinho baiano” a deputado federal, Negromonte Jr. promete defender os 169.215 – seis a mais que o pai em 2010 – o progressista admite a inspiração no genitor, mas garante que caminha com as próprias pernas.
 
Qual a avaliação que o senhor faz do primeiro mandato como deputado estadual, agora com essa migração para a Câmara?
Primeiro, foi uma experiência extraordinária. Eu acho que é algo que vai ser muito importante, uma base muito importante para mim na Câmara Federal. Eu tive em 2010 eu já tive uma votação que me deu responsabilidade muito grande, fui o segundo mais votado para deputado estadual com aproximadamente 114 mil votos. Isso me trouxe uma responsabilidade muito grande para poder ter que trabalhar e corresponder à expectativa das pessoas que votaram em mim. Então, eu procurei, dentro desses quatro anos, fazer isso. Defender teses, defender segmentos da sociedade que eu acreditava que eu tinha visto na campanha que precisava da gente fazer um trabalho e defender o interesse da sociedade de uma forma geral. Por exemplo, por iniciativa nossa, a gente criou uma comissão para poder acompanhar o concurso dos cartórios. Foi uma vitória muito grande, o presidente [do Tribunal de Justiça] Eserval Rocha chamar o concurso desses 1.383 cartórios extrajudiciais, para poder realmente a gente de fato mudar o sistema dos cartórios na Bahia e, de fato, vai mudar, porque hoje só tem 145 cartórios que optaram, que estão “privatizados”, e a gente precisa mexer nesse sistema para poder melhorar realmente, dar mais celeridade. Isso vai acontecer, nós estamos na terceira fase já do concurso, de seis fases, e eu acredito muito que a partir daí a Bahia vai viver um novo momento. Além dos cartórios, a gente trabalhou muito a questão da telefonia. A CPI da telefonia culminou com a votação e a aprovação do relatório final e também da assinatura do Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal e Estadual, visando pressionar as empresas – vamos dizer assim – uma forma para que eles possam criar algumas situações no estado, por exemplo, como o mutirão que vai ser feito em diversos municípios, se não me engano são em 27, para poder ouvir e ver as necessidades e corrigir, com penas de multa diárias para o não-cumprimento dessas empresas. Mas eu acho que não para por aí, eu quero lutar na Câmara Federal por um marco regulatório, se criar a primeira CPI nacional. Esse é o grande objetivo das CPIs que ocorreram em todos os estados, a exemplo daqui da Bahia, e a gente fazer a nível nacional e criar esse marco regulatório, para que a gente possa realmente discutir e cobrar das empresas que a gente possa acabar com as quedas de ligações, que ninguém entende essas quedas, o problema do callcenter, às vezes até a falta de respeito com os consumidores, e tem outras coisas, que envolvem a questão das telecomunicações, como também da internet. Que tem diversas questões que envolvem a Bahia, a 4G que a Bahia já deveria estar e, infelizmente, não houve esse upgrade. Em muitos lugares, em muitos municípios, não tem nem 3G. Essa é uma coisa também que eu quero focar. Eu fui também relator de um projeto que foi um dos mais importantes para a Bahia e para a sociedade de uma forma em geral, porque você vê, a gente trazer um projeto dos terceirizados e ser o segundo estado a definir uma relação entre os entes públicos, governos estadual e municipal, as empresas terceirizadas e os trabalhadores, foi um fato quase que inédito. Esse projeto que foi aprovado aqui, do qual fui relator e o governador Jaques Wagner sancionou, vai, sem dúvida nenhuma, trazer segurança jurídica na relação, que não existia entre os trabalhadores, as empresas e os governos de uma forma geral. Eu acredito muito que a partir daí as pessoas vão ter mais garantias que vão poder dizer no final do mês: “eu vou conseguir colocar a comida da minha mesa, porque eu sei que os encargos a gente vai ter a garantia que as empresas vão estar fazendo tudo corretamente”. E também o estado, de que o serviço vai estar sendo prestado. E também as empresas de que o estado vai estar pagando para poder cumprir com os trabalhadores.
 
E o cacetinho de Negromonte?
Esse cacetinho foi seguinte: existia uma discussão a nível nacional, era o pão brasileiro, que era Alcione Barbalho a relatora. Depois a gente criou esse projeto do pãozinho baiano, que foi vocês do Bahia Notícias que criaram esse novo nome, cacetinho baiano. E esse projeto a gente teve que aguardar um pouco devido à seca. A gente não poderia criar uma demanda a nível de Bahia ou incentivar uma demanda a nível Bahia de fécula [de mandioca] se a gente estava vivendo uma das maiores secas de todos os tempos. Esse projeto certamente o deputado Eduardo Salles, que foi eleito agora, foi um dos deputados que a gente apoiou, vai desarquivar e tocar esse projeto. Agora, eu acredito que é um projeto que vai valorizar a cadeia produtiva da mandioca e, sobretudo, o agricultor familiar. Eu defendo e vou continuar defendendo. Se isso vier a ser discutido a nível nacional, o pãozinho brasileiro, certamente eu estarei nesse discussão também.

 

O senhor mencionou que foi o segundo deputado mais votado em 2010 para a Assembleia, também está entre os mais votado para a Câmara em 2014. O senhor achar que os votos tiveram relação? As pessoas avaliaram bem o seu mandato?
Eu fui agora o segundo de novo, agora federal...
 
Torce para o Vitória?
Eu sou Bahia (risos). Eu acho que foi um mix do meu trabalho, mas sobretudo uma coisa que certamente foi fundamental foi o trabalho de 24 anos de Mário Negromonte [ex-deputado federal e atual conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios]. Ali eu estava preenchendo um espaço que meu pai, Mário Negromonte, deixou ao ir para o Tribunal de Contas dos Municípios. Eu construí essa relação com a base dele, com os prefeitos dele e consegui manter alguns prefeitos que tinham relação comigo para deputado estadual. A ponto de eu conseguir praticamente a mesma votação. Mário Negromonte teve, em 2010, 169.209 votos e eu tive 169.215, foram seis votos a mais. Uma transferência realmente que superou seis votos. E, fora isso, eu tive ainda ajuda. Eu ajudei o deputado Eduardo Salles, que teve 78 mil votos e ajudei o candidato a deputado Dernival Oliveira Jr. que é da minha cidade, que teve 32 mil votos. A somatória deles, por coincidência, foi quase a minha votação de deputado estadual em 2010. Obviamente cada um teve o seu brilho, teve o seu trabalho próprio, e não foi só a nossa ajuda não, mas a nossa base, do nosso grupo político que Mário Negromonte liderou durante 24 anos foi a base tanto pra mim, quanto para Eduardo Salles, quanto para Val também.
 
O senhor foi o candidato da base aliada ao governador eleito Rui Costa mais votado. Contribuiu para a eleição de Rui também?
Eu fiz a minha parte. Até porque João Leão era o vice, o presidente do meu partido. E também porque eu acredito muito. Para mim é uma honra ter sido o mais votado de Rui e de Dilma aqui na Bahia, mas também eu acredito na performance de Rui agora como o chefe da caneta do governo do estado, porque eu acredito que o governador Jaques Wagner foi o melhor governador de todos os tempos, pelas ações dele, do governo, mas principalmente porque tudo o que Rui se envolveu, principalmente, nas obras de Salvador, Via Expressa, de mobilidade, metrô, viadutos, ele foi fundamental para que tudo isso acontecesse. Ao ponto de Rui ter ganho aqui em Salvador. O que me motiva, que me motivou trabalhar, é saber que onde Rui estiver, onde ele focar as ações, as coisas vão se concretizar. Vão sair do papel. Eu inclusive acho que Rui vai ser um governador muito melhor que Wagner foi. Wagner foi o melhor, mas acho que Rui vai se superar como governador.
 
Seu pai ainda é um mentor político seu, mesmo com esses quatro anos de experiência que o senhor obteve na Assembleia?
Como ele hoje não pode ter nenhuma ligação partidária, muito menos política, ele começa a me deixar muito seguir meu próprio caminho. Obviamente que se eu tiver qualquer dificuldade em termos de Brasília... Por exemplo, a gente vai a Brasília para saber o que acontece com apartamento funcional, o que acontece com gabinete, obviamente que eu tenho que ir perguntar a ele como é que funcionou isso, como é que funciona. Mas em termos de posicionamento político eu convivi com ele na política desde os 9 anos. Eu conheço bem meu pai e as posições políticas dele. Então eu acredito que serviu muito para minha experiência que eu tive com ele ao longo desse tempo, porém eu acredito que vou ter que caminhar com minhas próprias pernas e buscar abrir os caminhos através de minhas forças mesmo. E ele está deixando muito tranquilo nesse caminho.

 

Ele foi um dos nomes que supostamente surgiu na delação de Paulo Roberto Costa. Além dele, o seu tio Adarico foi mencionado na última fase da Operação Lava-Jato, Juízo Final. O senhor acha que a família do senhor estando envolvida nesse tipo de investigação vai influenciar de algum modo o seu mandato em Brasília?
Eu vou criar o meu próprio espaço. Estou começando a minha carreira em Brasília agora. É o meu primeiro mandato em Brasília, então eu respondo só por mim. Não posso responder por mais ninguém. Muito embora o que aconteceu com relação a Mário Negromonte foi o vazamento na revista Veja e não foi confirmado por nenhuma das autoridades que estão investigando, nem pela Polícia Federal, nem pelo juiz Sérgio Moro. Muito pelo contrário, não houve nenhuma citação ao nome dele em relação a investigação. Houve sim o vazamento por parte da Veja, durante o período eleitoral. Nem me recordo exatamente o que foi que vinculou, mas o nome dele estava lá, como o nome de muitos outros, o presidente do meu partido, ex-presidente, presidente do Senado, a presidência da Câmara... Portanto, com relação a Mário Negromonte não tem nada concreto. Só o vazamento que teve em relação a Dilma [Rousseff], em relação a Lula. E todo mundo sabe que naquela altura todas as investigações estavam ocorrendo em segredo de justiça e também estava sendo trancado num cofre. Portanto, inclusive, foi investigado e já foi detectado que houve um vazamento criminoso dessas investigações. Em relação ao nome dele, eu não tenho nenhum receio. Eu conheço muito bem o meu pai, sei que ele não tem nenhum envolvimento com esse fato que está ocorrendo no Brasil, que realmente vem para mudar muita coisa. Depois dessas investigações, o sistema político no Brasil precisa ser mudado e eu tenho certeza que será mudado. Mas em relação ao meu tio, é uma pessoa que eu não tenho tanta relação no dia-a-dia, e aquela coisa, eu não respondo pela minha família como um todo. Eu respondo pelos meus atos. Meu pai não pode responder pelos atos do irmão dele. Até porque ele tem 11 irmãos, se ele for responder por todos ficaria complicado. Apesar que todos vivem uma vida muito tranquila, em relação a meu tio eu acho que é aquela coisa: se ele precisar, eu sou uma pessoa de família, do meu apoio, eu vou estar sempre para ajudar, mesmo eu não tendo tido contato nenhum com ele desde que foi decretada essa prisão temporária dele. Eu não tive nenhum contato com ele, nem com meu primo, nem com ninguém relacionado a ele. Eu acredito muito que, para tudo isso, deva ter um devido processo legal. Acho que para uma pessoa ser condenada precisa ter provas primeiro. E precisa também ter o devido processo legal. Aí sim ser julgada e condenada. Ocorrendo isso, aquelas pessoas que tiverem provas, que tiveram o devido processo legal, e sejam condenadas, eu acho que devem responder pelos erros. Seja lá quem for. Se o meu tio errou, eu digo muito claramente, ele deve ser punido. Em relação a isso, a minha família, eu volto a dizer: eu não posso jamais responder pela atitude dos outros.
 
O PP foi um dos partidos mencionados como supostamente recebido esse dinheiro irregular através da Petrobras. Na sua arrecadação, três empresas, a OAS, a Odebrecht e a UTC Engenharia, doaram recursos para a campanha. O senhor achar que isso pode ser prejudicial, essa relação com essas empresas?
Não. Eu não tive contato nenhum com as empresas – contato direto. Nem conheço as pessoas que doaram, não sei nem quem são. Essa doação ocorre através do partido a nível nacional. E o partido nacional é que distribui para os deputados a nível de Brasil. Eu fui mais um dos deputados que o partido doou. Aqui na Bahia tiveram muitos outros deputados, não só do partido, que tiveram doação também, de outros partidos receberam doações dessas empresas que vocês acabaram de falar. Foi uma prática normal. Foi um recurso que foi feito de maneira oficial, seguindo as orientações do TSE [Tribunal Superior Eleitoral], então, portanto, uma coisa muito transparente. Não tenho nenhum problema em receber doações. Obviamente que naquela altura também nenhuma dessas empresas estavam sob suspeita de uma investigação da Polícia Federal e de um juiz federal. Se eu soubesse que tivesse alguma empresa envolvida com alguma coisa, eu teria recusado. Mas eu tenho certeza que o meu partido também não teria aceitado doações de alguma empresa que estivesse sendo investigada pela Polícia Federal e o juiz federal.

 

Já que o senhor está saindo da Assembleia e indo para a Câmara Federal, fica numa posição mais confortável. Marcelo Nilo está tentando o quinto mandato consecutivo na presidência, é um dos postulantes com provável condição de eleição. Não é prejudicial essa concentração de poder nas mãos de um único deputado?
Eu só puder ter a experiência de conviver com um presidente como Marcelo e Marcelo como presidente durante esses quatro anos. Ele foi presidente em dois biênios. E eu digo a você com muita sinceridade: Marcelo nos acolhe como se nós fôssemos filhos, irmãos dele. Marcelo foi um presidente que, se você ligar para ele, qualquer deputado, a qualquer hora do dia, ele atende. Se ele não atender, ele dá retorno. Se um deputado chegar no seu gabinete, ele pode estar atendendo quem for, ele deixa entrar e atende o deputado. É um tratamento que ele dá a um deputado muito especial. É uma forma que o deputado se sente confortável, se sente como se estivesse em casa. Ele é um animal político. Ele gosta dessa coisa da relação com o deputado. Ele foi, segundo alguns deputados, o melhor presidente da história. Talvez por isso que ele tenha tido esses números todos de mandatos consecutivos. E digo mais, a candidatura dele hoje ganha um corpo muito grande com os apoios que ele tem tido durante essa semana, apoios do PCdoB, do PSD. Eu acredito que ele é forte favorito para ser mais uma vez o presidente da Assembleia. Por esse trabalho, por esse tratamento que ele dá. Veja bem, se você está falando de democracia, de renovar, de ter renovação do poder, tudo isso é importante. Agora também muitos deputados pensam nisso, mas pensam: “Poxa, Marcelo tem um tratamento que é diferenciado. Será que se mudar o outro presidente vai dar esse mesmo tratamento?”. Muitos deputados já começam a aderir à candidatura de Marcelo por acreditar que ele é o melhor, vai representar melhor o parlamento, vai defender o parlamento da forma como os deputados querem. E vai dar mais conforto aos deputados, mais segurança aos deputados. É o que vejo hoje. Pode ser que daqui até fevereiro as coisas mudem. Mas hoje eu vejo a candidatura de Marcelo Nilo muito consolidada.    

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