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Segunda, 28 de Abril de 2014 - 11:00

Joaci Góes

por Evilásio Júnior/ Marcos Russo/ Luana Ribeiro | Foto: Francis Juliano

Joaci Góes
Foto: Bahia Notícias
Pré-candidato a vice-governador pela chapa das oposições este ano, ao lado do postulante a governador Paulo Souto (DEM) e o aspirante ao Senado, Geddel Vieira Lima (PMDB), Joaci Góes (PSDB) autodeclara a Educação como a sua principal bandeira. Em entrevista ao Bahia Notícias, o tucano defende métodos como a "competitividade" e a "meritocracia", diz que o prefeito ACM Neto (DEM) "está certíssimo" ao implantar o programa Alfa e Beto, apesar de contestações de educadores, e critica as escolas, que privilegiariam "muito mais a postura ideológica" na preparação dos docentes. "O cara pode ser analfabeto, desde que ele tenha uma postura ideológica progressista, essa coisa boçal, que não suporta absolutamente uma resistência mínima. [...] As escolas são verdadeiros universos de mediocrização. [...] Essa ideia no Brasil de não ter competição, essa teoria é da boçalidade: é a teoria do bolivarianismo, de Hugo Chávez, de Evo Morales. Não tem nenhum país no mundo desenvolvido que adote essas diretrizes. Isso é uma estupidez. [..] E aí vem a outra boçalidade, que é a nota, que 'cria um clima de competitividade que conduz ao capitalismo selvagem'. Deve conduzir ao enforcamento das pessoas que pensam dessa forma, porque você retira o aluno da realidade. Quando ele chega para fazer um vestibular, ele está despreparado para isso, porque a vida é competição", argumenta. Ele cita como base da sua tese números de pesquisas que apontam que apenas 25% dos alunos da rede pública chegam ao ensino médio e, destes, 1% consegue alcançar a universidade. "As pessoas deveriam fazer parcerias com setores privados da sociedade, convocar empresários. Mas não! 'Esses empresários podem desnaturar a pureza ideológica de nosso sistema'. Que sistema?! É uma gente marginal, despreparada. Isso é um crime contra a sociedade. Qual o modelo? Você imagina a gente seguindo o modelo de Cuba, meus amigos? Um país que não é capaz de produzir elementos para si. A Venezuela não é capaz de produzir alimentos", compara. Joaci também critica as leis de cotas nas universidades e, mais recentemente, na carreira pública do Município e do Estado. "Eu não as teria criado, mas, uma vez criadas, devem permanecer", decreta. Clique aqui e confira a entrevista na íntegra. 

Bahia Notícias: Você se sente confortável em estar em uma chapa junto com um outro anticarlista, que é Geddel, mas com o último governador da era carlista, que você tanto combateu, que é Paulo Souto? Como Joaci Góes está neste cenário?

Joaci Góes:
O carlismo morreu na Bahia, morreu com Antônio Carlos Magalhães. No momento em que o próprio [ACM] Neto diz 'é muita honra ser neto de quem sou e a ele devo o começo da minha carreira política; mas ele pensava de um modo e eu penso de outro modo...' Além disso, eu nunca deixei de ter relações com os irmãos e com os filhos de ACM. No mais, a vida é dialética. No momento em que o Brasil vive uma grande crise moral, dentro daquela linha que foi preconizada no início do século XX, do Lord Acton: 'Todo poder tende a corromper e o poder absoluto, a corromper absolutamente'. Então, o PT já está há muito tempo no Brasil e na Bahia já está há tempo suficiente para mudar. Alternância do poder não é só própria da democracia, mas também é uma coisa muito salutar para a vivência democrática.

BN: Existe uma frustração quanto ao PT no comando? Como você avalia os anos do partido no poder?

JG: Imensa, e quem pode falar sou eu, porque votei muitas vezes no PT, em várias ocasiões. No plano nacional e também no local. E o que aconteceu foi isso que se viu. O PT, que era um partido que trazia dentro de si muita esperança de renovação, uma vez que chegou ao poder cuidou de fazer aquilo que todo mundo vê: agir, com todos os mecanismos possíveis e imagináveis, com o propósito de preservar o poder. E como consequência disso nós vemos todos os excessos que têm sido praticados contra a moralidade, contra o erário e contra os princípios mais saudáveis da República.

BN: Você estava afastado da política, foi deputado constituinte em 88, mas há muito tempo não fazia parte de campanha eleitoral. O que o motivou a voltar à política partidária?

JG: Como foi dito à sociedade, o que ocorreu é que na disputa de Geddel e Paulo Souto para liderar a chapa – todos acompanharam, durante quatro longos meses – no final permaneceu o nome de Paulo Souto e Geddel esteve na iminência de sair candidato solo. Como sou amigo dele e as pessoas me pediam, conversei muito com ele e ele acabou me dando um golpe de misericórdia, porque me perguntou: 'se você estivesse em meu lugar, você faria ou não a composição da chapa? E você, pessoalmente, estaria disposto a fazer alguma contribuição?'. Me pegou assim com a palavra, nunca poderia me passar pela cabeça. Ele disse: 'Pois é, eu aceitarei me compor com as oposições desde que você aceite compor a chapa como vice-governador'. E eu relutei o quanto pude, até por questões familiares etc. No final das contas, ele deixou ver que isso era para valer. E as pessoas disseram: 'não, pelo amor de Deus, vamos fazer as pazes'. E de fato, eu vim, um pouco relutante no princípio, mas agora estou inteiramente solidário com aquela canção: 'eu dou um boi para não entrar na briga, mas uma boiada darei para não sair dela'.

BN: O vice-governador, até então, tem um papel extremamente figurativo...

JG: Claro, é um coadjuvante.

BN: Você pensa em mudar o formato?

JG: Não, eu não penso em mudar nada no nosso sistema. Até pouco tempo, relativamente, para mim, você votava no candidato a governador e votava no vice. Aqui na Bahia nós tivemos o caso de Orlando Moscoso, como vice, se elegeu duas vezes e o cabeça de chapa não se elegeu. Portanto, não pretendo, não tenho nenhuma razão para modificar isso. O que me sensibilizou no convite, e isso foi uma coisa que bateu fundo, é porque de fato há um terreno que eu me sinto muito à vontade para discutir com quem quer se seja, que é a questão da educação.Tema ao qual venho me dedicando, já escrevi livros, artigos, faço comentários em rádios etc. E a expectativa é de que eu possa contribuir, menos como uma contribuição física, que não me fascina de modo algum, por exemplo, exercer uma secretaria. O que me fascina é poder influir para que nós possamos imprimir a educação em um padrão que ela não tem no Brasil, de um modo geral, e na Bahia, em particular. Porque, aqui, isso é uma tragédia social. Das 27 unidades da Federação, a Bahia tem uma das piores posições. E veja que o Brasil é um país que é a sétima economia do mundo e, em matéria educacional, está no octogésimo lugar. Na sociedade do conhecimento em que nós vivemos, fora da educação não há salvação. No passado você poderia avançar sem educação. Na virada do século XIX para o XX, 90% dos brasileiros eram analfabetos; 85% dos portugueses também. Era responsabilidade da nossa matriz. Mas, a partir do início da revolução digital, existe uma relação linear entre IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que é a coisa mais importante para medir o bem-estar dos povos e não o volume da riqueza, como muitos supõem. O Brasil está ficando cada vez mais para trás. Questões fundamentais como segurança, violência e corrupção têm na deficiência educacional a sua matriz principal. E a Bahia está atrasada dentro do Brasil, muito abaixo de estados como Acre, por exemplo; e, sobretudo, muito abaixo do seu vizinho Minas Gerais, que tem aplicado critérios meritocráticos. Ou seja, a Bahia continua aplicando princípios como o seguinte: na boca do cofre, no final do mês, o professor relapso recebe a mesma coisa que o professor que faz da sua profissão um sacerdócio. Isso não funciona aqui, nem em nenhum sistema competitivo do mundo. Então, essa mentalidade atrasada, sindical, que dominou a educação aqui na Bahia, é fruto dessa tragédia: a gente está descendo a ladeira.

BN: O que é extremamente controverso, porque temos nomes como Anísio Teixeira...

JG: É um contrassenso!

BN: Os programas do governo da gestão anterior a Jaques Wagner tinham um laço maior com a educação principalmente nas regiões menos favorecidas, com programas como o Viva Nordeste, que acabou. Vocês [integrantes da chapa da oposição] pensam em retomar tais iniciativas?

JG: Em primeiro lugar, nós pensamos em fazer uma parceria intensa com o magistério. Não tem educação sem professor. Você acha que é possível? Os professores são verdadeiros instrutores de estadistas. A questão da rentabilidade do professor é apenas um dos problemas. Mas a questão da formação continuada do professor, as escolas que os preparam aqui no Brasil, de um modo geral, privilegiam muito mais a postura ideológica. O cara pode ser analfabeto, desde que ele tenha uma postura ideológica progressista, essa coisa boçal, que não suporta absolutamente uma resistência mínima. Então, as pesquisas feitas por organismos dos mais importantes, como a Fundação Getúlio Vargas, acompanhado de personalidades como Cláudio Moura Castro, como o Gustavo Ioschpe; eles mostram à saciedade pesquisas revelando professores despreparados para o exercício da sua função. E aí um equívoco: nós temos uma ideia errada de que o professor universitário é que tem que ser o porreta, o sabichão. É o contrário. Eu já disse a professores meus, de escola, de faculdade, que eu me sinto, apesar de ser bacharel em Direito, em condições de reger qualquer disciplina como física, química, teologia, qualquer uma. Porque o cara que está na faculdade tem que ser autodidata, que é uma coisa que as pessoas esquecem. Aquele negócio do professor chegar em uma sala de aula e blá-blá-blá-blá, já morreu há muito tempo. Quando eu fiz um curso na década de 70, lá nos Estados Unidos, em Stanford, esse assunto já tinha morrido. A sala de aula não é o local para o professor apresentar o tema em primeira mão: é uma oficina para o trabalho de reflexão. Agora, quando você vai à escola, quanto mais elementar o curso, aí não estou preparado para ser professor de menino de 5, 6, 7, 8, 9, 10 anos, porque você tem que ser uma pessoa muito especial. São psicologias para não acontecer o que sucede: todos nós conhecemos colegas nossos, quando éramos pequenos, que eram espertos, vivazes e na escola viraram um fracasso. Simplesmente porque a escola não estava preparada para aproveitar o potencial específico daquele aluno. As escolas são verdadeiros universos de mediocrização. O professor, quando dá uma aula para 50 alunos, vai dar para quem? Para os 10% melhores? Para os 20% piores? Ou para a média? Então, há um equívoco. Você tem que fazer uma revolução desde o momento do magistério. Outro detalhe importante: o volume de dinheiro aplicado na educação no Brasil, pelo menos nos orçamentos – se ele chega ao destino, é outra história –, está acima da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em termos de percentual do PIB. Por isso a nossa questão é de gerência, de gestão. Não secretário ou ministro de Educação que fará alguma coisa se o presidente da República, no caso do ministro, mantiver essa mentalidade. Tiveram Rivardavia e Sarmiento, no século XIX, na Argentina. Como não havia professores capazes, Sarmiento mandou buscar professores nos Estados Unidos e o professor ficava na sala com intérpretes. Ele fez essa revolução e universalizou a educação na Argentina no século XIX. Calculem! Nesta época, não havia uma escola pública em São Paulo. Para você ver como já vem de longe. E outra coisa: no Brasil, o que se gasta com ensino superior público nas outras etapas, é uma inversão completa. E uma prova de que o problema é de gestão são os alunos da 5ª Série de Sobral no Ceará, que têm obtido resultados 50% superiores aos alunos da cidade de São Paulo, enquanto estes custam R$ 6 mil, cada um, e os de Sobral, R$ 3,1 mil cada um. A melhor escola do ensino médio no Brasil fica no interior do Piauí. A Globo fez até uma grande matéria sobre isso: se viu lá que a diferença estava no envolvimento do professor e do magistério. Portanto, foi a possibilidade de poder contribuir e o convite que foi feito em nome disso. Eu estou lançando um livro, vai sair agora, o título é ‘As 51 mais marcantes personalidades do Brasil’ – são 50, a 51ª é o leitor que tem que por lá. O Anísio Teixeira é uma delas. Se eu fosse escrever sobre as dez, cinco personalidades, ele estava lá. E ele deu aquela receita, que continua atual mais do que antes, e aí eu concluo: você só vai mudar a questão da educação quando o gestor público vir no menino pobre da periferia, da cidade ou do interior, não um ônus para o estado, mas um potencial. Machado de Assis, um Joaquim Barbosa, Marina Silva, um Marechal Rondon, um Alberto Guerreiro Ramos, daqui da Bahia... e tantos outros que foram transformados pela educação. A mentalidade de que esse pessoal é um ônus é uma inversão. Nós estamos na contramão do mundo. Uma coisa interessante: eu fui constituinte, e teve um aspecto do orçamento pelo qual eu briguei muito, que é essa obrigatoriedade de [aplicação no orçamento] 18% para Município e 25% para o Estado. Eu dizia que essa não é uma questão de governo, é uma questão de Estado, ponto! Só que hoje a educação é uma questão que continua sendo, na prática, uma questão de governo. O prefeito de Juazeiro do Norte, há dois anos, diminuiu os salários dos professores para aumentar a verba da Câmara de Vereadores. Isso daria prisão em qualquer lugar do mundo. Um detalhe: vocês sabiam que nunca, depois da Segunda Guerra Mundial, salvo um episódio, uma cidade europeia teve dez assassinatos em um dia? Nunca! Aqui a gente se acostuma com isso. Só essa grevezinha [da PM] agora foram 104. Dizem – há quem diga que foi mais. Em um dia, em Feira de Santana, cidade com 500 mil habitantes, foram 21. Isso é quase o número de assassinatos em um ano em Madri. Com o detalhe, que são assassinatos de caráter passional e com 25% de desemprego. Nós estamos perdendo o bonde da história, estamos imersos em uma guerra civil – as mortes que se praticam no Brasil são piores que dessas guerras modernas. No livro que vou lançar em sequência, está praticamente pronto, 'As sete pragas que assolam o Brasil' são educação, saúde, segurança pública, impunidade, corrupção, infraestrutura e licenciosidade político-partidária. Não é possível você fazer política decente com essa quantidade de partidos. Isso só serve para o vereador achacar o prefeito; para o deputado estadual achacar o governador; os deputados federais e senadores, na medida dos seus interesses, achacarem os titulares dos três poderes. Os partidos se desnaturaram completamente e perderam completamente sua razão histórica de ser.

BN: O coordenador do processo de escolha da candidatura de oposição foi o prefeito ACM Neto, que uma das suas primeiras medidas no Executivo foi contratar o Instituto Alfa e Beto (IAB), que – já que uma de suas bandeiras é a educação – coloca como meta alguns desempenhos contestados por educadores, como a questão das notas...

JG:
Ele está certíssimo, está certíssimo...

BN:... Estudiosos, inclusive alguns do MEC, dizem que o IAB vai na contramão do construtivismo, corrente que tem sido defendida aqui no Brasil. O que o senhor acha do programa? O senhor gostaria que fosse implantado no Estado?

JG: Eu sou o consultor do projeto educacional das Obras Sociais Irmã Dulce, lá em Simões Filho, que recebe o lamentável título de ser a cidade mais violenta do Brasil. E essas crianças são originárias dos estratos mais carentes da sociedade. Eu me dispenso de fazer maiores comentários por questões óbvias. Nós estamos avançando, e muito. E as resistências e as dificuldades para avançar decorrem das diretrizes da Secretaria de Educação, que fornece os professores. E há alguns que não são do Estado e esses são censurados porque querem fazer acontecer. Essa ideia no Brasil de não ter competição, essa teoria é da boçalidade: é a teoria do bolivarianismo, de Hugo Chávez, de Evo Morales. Não tem nenhum país no mundo desenvolvido que adote essas diretrizes. Isso é uma estupidez, os números estão absolutamente claros. Desde o sistema de alfabetização que você aprendeu, “be-a-bá, be-é-bé”. Nenhum país aplica isso. E aí vem a outra boçalidade, que é a [crítica sobre aplicação de] nota, que 'cria um clima de competitividade que conduz ao capitalismo selvagem'. Deve conduzir ao enforcamento das pessoas que pensam dessa forma, porque você retira o aluno da realidade. Quando ele chega para fazer um vestibular, ele está despreparado para isso, porque a vida é competição. Mas a criança tem que aprender desde cedo que se ela não tiver uma postura de avanço pessoal, ela vai ser passada para trás. É uma traição que se comete contra um jovem deixar de adverti-lo tempestivamente da necessidade que ele tem de aprender, porque a vida é competição. Agora, você querer fazer desses jovens cobaias para mudar o mundo... O Brasil não tem condições de modificar o mundo. Você vai simplesmente levar esse jovem a cair fora da sala de aula. Você sabe qual é o percentual dos alunos da rede pública que chegaram ao 2º grau? 25%. E sabe quantos chegam à universidade? 1%. As pessoas deveriam fazer parcerias com setores privados da sociedade, convocar empresários. Mas não! 'Esses empresários podem desnaturar a pureza ideológica de nosso sistema'. Que sistema?! É uma gente marginal, despreparada. Isso é um crime contra a sociedade. Qual o modelo? Você imagina a gente seguindo o modelo de Cuba, meus amigos? Um país que não é capaz de produzir elementos para si? A Venezuela não é capaz de produzir alimentos. Você sabe que tem uma crise de desabastecimento... E a gente usar o dinheiro público no Brasil para fazer Porto de Mariel em Cuba? Sabe quando a gente vai reaver esse dinheiro? Não recebe. Nunca. E você olha para o mar da Bahia, vê um monte de navios, por causa [da falta de profundidade] do Porto de Salvador. Sem falar nos outros portos brasileiros...

BN: Ainda sobre o IAB, queríamos que o senhor analisasse alguns aspectos: o presidente é criticado porque é consultor e não tem nada a ver com educação. Segundo: ele dá uma premiação em dinheiro para o prefeito que conseguir os melhores resultados dentro do programa. E o terceiro, o material didático do IAB foi considerado racista, porque trazia o exemplo de boneca negra como feia. Ainda assim, você acha recomendável a aplicação dos métodos deste instituto?

JG: Em primeiro lugar, nós cometemos alguns excessos no julgamento de algumas coisas. Por exemplo: houve um movimento para modificar a obra de Monteiro Lobato. Não é possível. Todas as pessoas têm capacidade de contextualizar as coisas. O que é racista e o que não é, há uma linha limítrofe que é extremamente discutível. Por exemplo: existe um americano, o [Thomas] Sowell, que é negro, e é um dos dez mais conceituados intelectuais do mundo. Nos EUA não sei se tem três do tamanho dele e ele é impressionante. É doutor por não sei quantas disciplinas, pelas universidades de Columbia, Chicago, Harvard e Stanford. Um assombro! Ele tem um livro que é o mais completo que já se escreveu sobre ações afirmativas no mundo, onde ele mostra o fracasso dessas ações. Essa maneira, no Brasil, de dizer que o cara que não é favorável às cotas é racista... Não é isso. O que você tinha que dar é educação ao menino, filho das camadas mais pobres, do mesmo padrão da elite. É isso que vai resolver, você vai transformar aí. Quando o cara se forma, os concorrentes dele depois, em cursos como Medicina, ele pode ser apontado como “doutor das cotas”. Ou seja, se um branco comete um erro – qualquer médico comete um erro –, aquilo é considerado natural. Se um cotista cometer o mesmo erro, ele terá cometido o erro porque veio das cotas. Isso é chamado de efeito bumerangue: quando você investe contra a natureza das coisas, você acaba tendo um efeito oposto ao que você desejava. Portanto, não foi um ponto isolado aqui. Em cada caso é preciso você estudar para determinar quando houve excesso. Mas não é porque alguém diz que uma postura ou uma proposta é considerada racista que ela se transforma em racismo. O Brasil se tornou um país patrulhado, as pessoas tem uma covardia muito grande. Poucas pessoas têm autoridade que eu tenho para fazer isso: eu enfrentei duas vezes Roberto Campos. Uma vez, quando ele foi eleito, e eu era estudante, para ser presidente do BNDES e a outra quando ele foi nomeado para ser embaixador dos EUA. Coisas dessas da vida, eu fui visitar os EUA quando era estudante e fomos recebidos na embaixada dos EUA. Ele era o embaixador. Lincoln Gordon estava lá, era gente do Brasil inteiro, daqui da Bahia teve Zé Mascarenhas, que foi presidente da Federação das Indústrias, João Alves [Filho], Marco Maciel, [Pedro] Malan. Na hora de tirar foto – e eu fazia parte dos que conversavam mais fiado – eu fiquei distante e o Roberto Campos se aproximou e eu fiquei no lugar. Na Constituinte, ele era senador e visitou meu gabinete para me apresentar uma proposta de incorporar o código do consumidor. E aí eu me lembrei: 'senador, o senhor se lembra daquela visita?'. Ficou famosa essa visita. Nós estivemos com o presidente [John] Kennedy e saiu uma manchete grande no Washington Post: ‘Estudantes vermelhos do Brasil desacatam o presidente dos EUA’. Aí ele disse: sim, eu me lembro. Eu falei. 'eu estava lá'. 'Ah, você estava lá?'. 'O senhor se lembra do episódio de um aluno que na hora de tirar foto ficou afastado, e o senhor puxou, e todo mundo percebeu isso?'. Ele disse: 'isso aí eu me lembro perfeitamente bem'. Eu disse: 'Pois é, sou eu' (risos). 'Que coragem intelectual tinha aquele sujeito, a competência que ele tinha, de dizer não enquanto todos estão dizendo sim'. Então você verifica o seguinte, eu até fiz um artigo sobre isso: eu enfrentei a revolução [o Golpe Militar de 64]; a Tribuna da Bahia, que era dirigida por mim, abrigava os jornalistas que eram 'malditos'. Fizeram um depoimento recente, que eu não ouvi, mas soube, destacaram isso. As brigas que eu tive com a Polícia Federal, com Luís Arthur [de Carvalho, coronel apontado como torturador durante a ditadura, que foi superintendente da Polícia Federal e Secretário de Segurança Pública da Bahia]. Eram vários, vários comunistas. Eu enfrentei tudo isso e lamentei tudo isso. Eu acho que quem fez tortura – porque quem matou, matou, coisa do passado; mataram de um lado, também mataram do outro – mas tortura, ao meu ver, é um crime imprescritível, então devemos condenar. Mas essas esquerdas que condenam tanto a revolução brasileira, que, na contabilidade, entre mortos e desaparecidos, ficou entre 300 e 1.215 – não há ninguém que aponte mais. O Emiliano José aponta 1.125, é um dos historiadores importantes – alguns dizem que foi só 300, no total. Já tortura, pior do que uma são duas, pior do que duas são três, pior do que uma execução sumária são duas, e assim por diante. E as centenas de milhares que Cuba matou, ninguém diz nada? Execuções sumárias, ninguém diz nada? Ninguém diz uma palavra contra Stálin, que matou 40 milhões? Sessenta milhões, é a conta dada a Mao Tse-Tung. Agora, você vê, as execuções na Venezuela. Ninguém diz nada, percebeu? Quando você defende a liberdade, tem que defender em qualquer lugar. Talvez eu tenha me afastado um pouco do tema que nós estávamos discutindo, mas foi para dizer isso: em matéria de educação, você tem que verificar. Você veja o que os sul-coreanos fizeram em 40 anos. A Coreia do Sul , há 40 anos, era um país paupérrimo. Hoje é uma potência. Vamos verificar o que eles fazem e vamos fazer, não ficar copiando o que a Venezuela faz, o que Cuba faz, porque isso não é modelo para nada nem para ninguém. 

BN: O senhor demonstra ser contra a Lei de Cotas, mas governo e Município, também, recentemente aprovaram uma série de medidas para promover a inserção de cotas no serviço público. O senhor confirma ser contra a Lei de Cotas? O vice-governador vai lutar para modificar as regras que aí estão?

JG: Você tem que cobrir o bem-estar emocional das pessoas. Essas regras que aí estão têm que permanecer porque já foram criadas. Eu não as teria criado, mas, uma vez criadas, devem permanecer. Agora nós temos eu atuar na base, lá atrás, para que, daqui a 15 anos, você não tenha mais razão para aplicar as cotas. Enquanto você dá uma educação de terceira aos meninos de 5 a 18 anos, as cotas não vão resolver isso. É isso que eu quero dizer. O cara vai ter anel, vai ter título de doutor, mas ao longo do prazo isso não vai resolver. Quem quiser resolver ouça o Thomas Sowell, esse americano de que falei que é uma sumidade. No livro dele, não sei se está traduzido, mas é capaz de estar – Ações afirmativas através do mundo' –, em que ele faz um inventário nos EUA, na Índia, na China... É uma coisa sensacional.

BN: Então o senhor é contra as leis de cotas?

JG:
Eu não as teria criado, lá atrás. Depois de criado, você não pode remover, porque você pertubaria... A mesma coisa, por exemplo, eu acho que o Bolsa Família, que foi criado por Fernando Henrique Cardoso, pode ser melhorado. Sinceramente, eu não acho que R$ 70, R$ 80 seja expressão. Melhorar como? É o seguinte: além do que o cara recebe, ele receberia algo a mais, para cada filho que ele tivesse, por seu desempenho acadêmico; podendo dobrar ou triplicar o valor da Bolsa Família. Aí sim você incluiria o elemento transformador. Agora, claro que algum idiota que vai ouvir aqui na rádio (sic), vai dizer: ele é contra. São pessoas desonestas, que não querem colocar a discussão no plano que você a situa. O Bolsa Família é uma declaração, o reconhecimento, de que a educação pública no Brasil é de má qualidade. E é de má qualidade, meus amigos, é como foi dito aqui há pouco: é a Escola Parque de Anísio Teixeira. As principais fontes de educação de uma criança são, por ordem, o berço e a escola. O berço é mais importante no processo educacional do que a escola. Eu posso citar inúmeros casos: Abraham Lincoln passou 59 dias em uma sala de aula. Thomas Jefferson saiu da sala de aula quando tinha 9 anos, porque – é uma história bonita, a dele, eu cito isso em livro – ele ouviu quando o diretor da escola pediu ao inspetor para afastá-lo porque ele não tinha capacidade para acompanhar a aula... Então é o berço, a casa. O dele foi a mãe, o caso de Lincoln foi a madrasta. Essas crianças carentes do Brasil, que perderam a oportunidade do berço, elas não podem perder a segunda oportunidade que é a da escola. Os meninos de posses podem cursar a escola só um turno. Mas os carentes têm que cursar uma escola que seja uma verdadeira festa, onde ele passaria sua vida acadêmica, social e esportiva. Que ao fim da sua terceira refeição, ao fim do dia, ele já vá para casa pensando em voltar para a escola. Esse é o investimento que tem que ser feito. E aí você tem um trabalho intenso de conversa com os professores, de entendimento, de cooperação, não de confronto. Não pode haver confronto com o magistério. É preciso não nós aqui e os professores lá. Não. Professores somos nós todos. É conversar com eles, verificar sua situação. A tragédia maior é como de uma pessoa, que eu não vou citar o nome, nem nada, porque é trágico demais. Família importante. Ele tinha dois filhos, pequenininhos. Um caiu do 20º andar quando tinha três anos. Caiu, como foi? A babá disse: 'Ah, ele subiu aqui na cadeira, não aguentou, ai, ai, ai, ai...'. Menos de um ano depois, o de um ano apareceu morto. Fez-se a autópsia, o menino morreu sufocado. Investigação: a babá matou os dois. O que quero com isso dizer é que, naturalmente, essa babá foi mal escolhida. Você não pode entregar seus filhos a uma pessoa que você não conhece. Eu, desde cedo, chega a babá dos meus filhos, netos: exames médicos completos! Saber qual a origem: é uma pessoa da família, vai tomar conta de seus filhos. Um professor tem que ser tratado da mesma maneira, sobretudo do ensino básico, primário, fundamental. Tem que ser tratado com muito carinho, uma política de crescimento, de assistência do professor. Uma coisa alta, o professor; o futuro do Brasil está na mão dessa gente. Quando é que você viu um administrador visitar uma escola aqui na Bahia? É o caráter simbólico, você entrar na sala, os meninos levantarem, você ver ali... A escola virou uma ponte, uma estrada. Não há noção, tradicionalmente, do significado da escola. 'Venha cá, você não acha que está falando demais de escola, de educação, não?'. E vou falar cada vez mais. Porque fora da educação não há salvação. A educação é o caminho mais curto entre a pobreza e a prosperidade.

BN: O maior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da Bahia hoje é da cidade de Licínio de Almeida, que é administrada pelo presidente do PV, Alan Lacerda. Lá foi implantada uma medida semelhante à do projeto do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), de que todo homem com mandato público tem que colocar o filho na escola pública. O senhor acha que é uma medida eficiente para mudar a realidade que está aí? O senhor apoia uma medida como esta?

JG: Eu acho que é uma medida revolucionária. Ela trará inconvenientes, problemas para muitas famílias em um primeiro momento, mas eu confesso que sim. Meu filho, se eu não vier a subir o posto, poderia até não botar, mas acho que o administrador público sim, para ver se ele olha para a escola. Eu estudei no Severino Vieira e no Central, e o Central era a escola de Ruy Barbosa, de Castro Alves, de tanta gente importante, e o que ocorreu também com a escola pública? O que é que mudou? As vagas para essas escolas não eram plenas, sempre faltaram. Então, o populismo diz: 'Não, vaga de escola pública é para os pobres. Aqueles que tiverem dinheiro, botam na escola particular'. O que é que aconteceu? Os pais dos meninos da classe média iam para escola, para cobrar o desempenho. E esses pais que não tiveram educação, dos meninos pobres, que tiveram a prioridade para ir à escola – olha o efeito bumerangue – não cobravam o desempenho da escola. Então, a escola caiu de qualidade. O Central não é nem mais sombra do que foi, nem o Severino etc. Então, sou favorável a essa iniciativa sim.

BN: Se Paulo Souto não for eleito, Joaci Góes também fica sem mandato. Se for convidado por Rui Costa (PT) ou por Lídice da Mata (PSB) para assumir a Secretaria de Educação o senhor aceita?

JG: Não, de maneira nenhuma... Acredito que as matrizes ideológicas de um e de outro são ultrapassadas e prejudiciais à educação. 

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