José Mascarenhas aponta demanda por “porto de qualidade” e critica “funcionamento da infraestrutura competitiva” - 18/11/2013
Presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e diretor da Odebrecht, o empresário José Mascarenhas acredita que, após a eleição para o cargo máximo da entidade estadual, em janeiro de 2014, ainda tem a contribuir com a instituição, depois de comandá-la entre 1992 e 2002 e, novamente, nos últimos três anos. “Sem falsa modéstia, é preciso de um pouco de experiência para que as coisas sejam feitas com controle, para que elas de fato sejam realizadas”, justifica ao Bahia Notícias, sem citar seu concorrente – o vice-presidente da Fieb –, Gilberto Farias. Como avanços de sua gestão, Mascarenhas lista o investimento em pesquisa e inovação, a nova estrutura do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), com uma “estrutura flexível”, que “pode fazer inovação, o desenvolvimento de assistência técnica e qualificação”, e o programa de interiorização “que não saiu dentro do cronograma esperado”. “Esse programa de investimento como um todo vai consumir alguma coisa como R$ 296 milhões. Já está todo lançado, mas ainda precisa ser executado”, informa o presidente, ao se considerar importante para a implantação dos projetos nos próximos anos. “Entendi que não seria interessante que eu me afastasse antes da consolidação desses programas”, pontua. Mascarenhas comenta ainda sua relação com o governo Jaques Wagner, aponta como a principal demanda do estado “um porto de boa qualidade” e como principal problema da Bahia “o funcionamento da infraestrutura competitiva”. “Evidentemente, temos críticas. Mas a crítica política eu não faço”, adianta. “A Bahia ainda não aproveitou substancialmente o que a Ford pode dar, como os mineiros fizeram com a Fiat. Hoje, a indústria age através de cadeias de produção. Então, uma empresa cabeça de cadeia, como a Ford, traz agregado um monte de empresas”, explica o gestor.

Bahia Notícias – Por que o senhor pretende ficar ainda mais tempo no cargo? Que projeto ainda pretende implementar à frente da instituição?
José Mascarenhas – Cheguei, há algum tempo, à conclusão de que eu devia ficar para completar o trabalho que está sendo feito. Nós temos trabalhos em várias frentes. Por exemplo, lançamos um centro de robótica. Antes, lançamos um centro de supercomputação no Cimatec [Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia]... São coisas que estão apenas lançadas, mas têm que ser realizadas. E eu entendo que é importante a minha presença para concluir esse trabalho de realização, porque são coisas muito novas, inclusive aqui no Brasil. Esse centro de robótica, por exemplo, ainda não tem nada aqui no Brasil dessa escala. É preciso criar, encaixar a estrutura nova na estrutura atual. É preciso planejar de tal forma que isso siga os passos indicados para que de fato traga resultados. Fora isso, nós estamos – eu peguei apenas essa primeira linha – em conclusão dos Cimatec 3 e 4 e já temos também os Cimatec 5 e 6 no BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] para serem financiados. Esses centros precisam ser realizados. E, sem falsa modéstia, é preciso de um pouco de experiência para que essas coisas sejam feitas com controle, para que de fato sejam realizadas. No Cimatec, nós estamos criando uma estrutura completamente nova. Há pouco tempo, estávamos lá com cerca de 800 funcionários e hoje já temos cerca de 2,4 mil. E vai crescer ainda mais. Ele vai triplicar de tamanho por causa dessas coisas todas que estamos fazendo. Nós vamos criar lá uma universidade nova, que já foi aprovada e leva pelo menos dois anos para ser realmente implantada, por causa de burocracia do MEC [Ministério da Educação]. Acontece que nós fomos responsáveis por resolver um problema nosso e de todas as unidades do Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] que queiram fazer coisa semelhante. O MEC exige uma estrutura de reitoria para aprovar uma universidade e isso não tem precedente na estrutura do Senai. E não é interesse nosso duplicar custo. Porque é preciso nomear reitor – isso tudo, na burocracia –, adjunto, uma série de conselhos, que são exigências do MEC. Então, tudo isso a gente está tendo que fazer simultaneamente e, de certa forma, eu fui – não posso dizer que apenas eu – o condutor do processo. Essas coisas são feitas com muitas outras pessoas. Eu entendo que essa é uma exigência, que eu fique, para completar esse trabalho. Mas não é só aí. No Sesi [Serviço Social da Indústria], nós estamos criando também uma educação de excelência, buscando em vários lugares do mundo o que a gente pode fazer para melhorar a qualidade do ensino. O Sesi deve ser basicamente o abastecedor de pessoas para o Senai, para formar essas pessoas que vão trabalhar em todos os graus da Indústria. Nós também lançamos um programa de interiorização muito forte e que não saiu dentro do cronograma que nós esperávamos, sobretudo por problema de aquisição de um dos terrenos, que é uma coisa muito burocrática, pelas exigências que os órgãos federais têm, pelo uso de recursos. É preciso avaliação de Caixa Econômica, enfim. Isso demorou mais do que nós supúnhamos. Então, é um programa que já está todo lançado, mas que ainda precisa ser executado. Esse programa de investimento como um todo vai consumir alguma coisa como R$ 296 milhões, financiados pelo Sistema S, pelo BNDES, alguma coisa vem de governo – federal e estadual, muito pouco – e a CNI [Confederação Nacional da Indústria] está nos transferindo alguma coisa como R$ 136 milhões. A nossa presença na CNI também ajuda a fazer com que esse recurso seja canalizado. Apenas estou citando três ou quatro programas, mas há vários outros com recursos. Então, eu entendi que não seria interessante que eu me afastasse antes da consolidação desses programas.
BN – Depois de 20 anos, a Fieb vai ter um bate chapa para escolher a presidência da entidade. O senhor se surpreendeu com a candidatura do atual vice-presidente, Gilberto Farias?
JM – Não me surpreendi porque, desde a vez passada, ele disse que queria ser presidente e, nesses três anos, trabalhou o tempo todo para isso – embora só tenha me comunicado isso recentemente.
BN – Na época da licitação do metrô, o governador Jaques Wagner atacou diretamente a OAS e a Odebrecht, ao dizer que as empresas foram irresponsáveis com a Bahia, que solicitaram informações sobre a licitação e não apresentaram proposta – ele dilatou o prazo da licitação em virtude das duas companhias. Logo na sequência, aparece um candidato que tem toda a pinta de ter o apoio do governo. O senhor acredita que essa é uma retaliação do governo do estado a José Mascarenhas?
JM – Não. É uma ilação dizer que esses fatos têm uma relação causal. Não acredito. Eu também não posso dar maiores informações sobre isso porque não estou ligado ao programa de obras e não sei o que aconteceu, mas acredito que nada disso tenha consistência.
BN – Mas como a Odebrecht recebeu essa crítica?
JM – Olha, eu não sou a pessoa mais adequada para responder porque não estou nessa linha de frente. Essas coisas todas têm história, tudo tem motivo, e eu não tenho informações suficientes para fazer uma análise disso.

BN – Gilberto Farias é, mesmo, o candidato do governo? Quem apoia José Mascarenhas contra essa empreitada do governo do estado para comandar a Fieb?
JM – Dizer que ele é o candidato do governo é uma coisa equivocada. Essa é uma eleição entre os empresários, de modo que o que interessa é o voto dos empresários. Segundo, o governador nos assegura de que ele é absolutamente neutro em disputas desse tipo porque, de fato, o governo não tem nada a ver com isso. Eu não estou muito preocupado com essa coisa de quem é ou não é o candidato do governo e acredito na palavra do governador, que sempre foi muito correto conosco. Não há motivo para desacreditar disso.
BN – O senhor falou do plano de interiorização, que está em curso. Gilberto Farias, em entrevista ao Bahia Notícias, pontuou que o interior do estado está muito desassistido. O senhor concorda?
JM – De fato, nosso trabalho sempre se fez aqui no litoral, na Região Metropolitana de Salvador, por vários motivos. Mas, desde que entrei [na presidência da Fieb], eu fixei umas seis ou sete metas e uma delas foi essa: interiorizar. Interiorizar não é apenas levar obras para lá. Interiorizar é estar presente, assistindo aos nossos companheiros que estão no interior. Primeiro, porque eu acho que a Bahia precisa, de fato, levar desenvolvimento ao interior. Essa coisa precisa ser mais equilibrada. Segundo, tirar pressão da Região Metropolitana; com isso você cria atividades do interior. Terceiro, de fato, a gente precisa estimular a difusão da Indústria aqui no estado para se ter um melhor equilíbrio até de transferência e infraestrutura. Uma infraestrutura que só funciona de um lado não é a melhor possível. Eu quero dizer: se um caminhão sai daqui cheio, se ele não tiver [infraestrutura], volta vazio. Isso termina significando frete mais alto. Então, há uma série de motivos para fazer a interiorização. Logo que nós entramos, começamos a levar uma série de ações para o interior. Agora, estrategicamente, nós escolhemos bases – Feira [de Santana], Oeste, Barreiras e Luís Eduardo Magalhães – que estavam, vamos dizer assim, ‘abandonadas’. A nossa obra começou agora, mas já modificamos substancialmente a nossa ação lá. Já se levou investimento, já se alugou sede nova. Depois, passamos para o sul da Bahia, para atingir Ilhéus e Itabuna. Em Ilhéus, nós tínhamos uma coisa interessante, que é uma base de produção para atender 42 empresas do setor de eletrônicos, e eles estavam absolutamente desvinculados da Bahia. Quando eu quis fazer uma reunião com eles, fui para São Paulo; era muito melhor reunir lá do que aqui. Hoje, nós já revertemos isso. Já foi criada uma associação que tem base aqui em Salvador e temos uma conexão direta com eles. Nós vamos instalar, possivelmente, uma escola de pesquisa para a área eletrônica, porque tem escala para isso. Já compramos o terreno, o projeto já está em andamento. Depois, nós passamos para Feira de Santana, que é uma área – não preciso dizer – com uma indústria mais diversificada. Cada área dessa tem uma característica diferente. Depois, nós fomos para Vitória da Conquista e, depois, para Juazeiro. Dessas bases, nós vamos irradiar o atendimento para áreas mais necessárias em torno dela, à proporção em que a gente possa, no futuro, conseguir mais recursos para fazer a expansão em outras cidades. Mas, durante esse tempo, nós já aumentamos substancialmente atendimento nessas cidades todas. Isso aí é fácil de comprovar porque, de fato, a gente está lidando agora com os empresários. Nós montamos uma estratégia de, em cada área dessa, nomear um diretor regional, para que eles tragam as demandas. De nossa parte, nós temos um serviço, que é o Cieb [Centro das Indústrias do Estado da Bahia], que nós designamos para atender exclusivamente o interior do estado. Então, esse dirigente faz o papel invertido: ele vai para o interior buscar quais são os problemas que estão lá. Nesse tempo todo, nós aumentamos bastante a nossa assistência no interior. E vamos aumentar mais.

BN – A industrialização da Bahia é sempre alvo de crítica, seja da imprensa de fora, seja da oposição ao governo Wagner. O senhor comandou a Fieb de 1992 a 2002. Agora, está em um novo período de mandato e tenta renová-lo. São, no total, portanto, já 14 anos à frente da principal instituição do Nordeste – o estado é o principal do Nordeste. Na sua avaliação, qual é a responsabilidade da Fieb, especificamente, na falta de industrialização da Bahia e na perda de grandes indústrias, sobretudo para Pernambuco?
JM – A Fieb não é responsável pelo desenvolvimento [da Indústria]. A responsabilidade dela é apoiar as ações de desenvolvimento: apoiar as indústrias que estão aqui e as que vêm. A toda indústria que vem, nós damos a garantia de que ela não vai deixar de operar por falta de trabalhador qualificado. Então, é só entrar em nossos serviços que nós providenciamos soluções para que eles tenham, efetivamente, os trabalhadores que precisam. E isso tem sido assim. Quando nós entramos, os trabalhadores estavam sendo qualificados fora do estado. Nós revertemos essa situação e hoje todas as empresas daqui trabalham com o nosso Senai. Eu diria que nosso Senai, hoje, sem falsa modéstia, é mais qualificado do que a maioria dos outros, pelos avanços que nós já demos. Agora, o Estado, por exemplo, nos contratou para fazer um programa de desenvolvimento. Nós fizemos, entregamos, mas o Estado é quem é o executor.
BN – E não executou até agora?
JM – O governador vem fazendo um trabalho. Ele próprio se deslocando daqui para ali. Eu acho que ele tem feito um esforço. Eu já o acompanhei em algumas ocasiões e vejo que ele tem um trabalho feito e se dedica pessoalmente a isso. A gente tem bons exemplos desse trabalho que ele vem desenvolvendo. Por exemplo, essa coisa toda da energia eólica. Não tem nada que é devido a uma coisa, somente. Não é só porque é o governador, mas porque a Bahia tem uma boa condição para a gente tratar a indústria eólica. Mas, se não der assistência, eles não ficam. Então, a gente tem que creditar esse trabalho e vários outros de industrialização a ele [Wagner]. Essa questão do estaleiro [Paraguaçu], a nossa empresa teve uma boa participação lá, mas ele teve que participar para superar, por exemplo, problemas ambientais, porque o governo federal tinha muito atraso. Eu não estou aqui para fazer a propaganda do governador, mas não posso deixar de falar. Agora, por exemplo, nós temos testemunhos de empresas importantes que vieram para a Bahia, que deram declarações como: ‘Estamos aqui na Bahia porque encontramos no Cimatec uma base de apoio necessária para o nosso trabalho’. É esse trabalho que temos feito, de assistência técnica, educação e inovação, que as empresas apreciam. Estava no lançamento do centro de robótica [Instituto Brasileiro de Robótica] e um empresário nos deu uma declaração muito interessante. Ele trabalha na cadeia da Ford. Ele disse que uma peça que foi colocada em um automóvel que é produzido na China foi testada e aprovada aqui na Bahia, nas instalações do Cimatec. Isso demonstra a qualidade com que o Cimatec atende. Ninguém brinca com esse negócio. Nós fizemos uma estratégia, que é o seguinte: quando se fala em Senai, se pensa logo na qualificação do trabalhador. Essa atividade permanece. É central e contínua. É uma atividade que nós temos que assegurar. Acontece o seguinte: quando a gente contratava professores para fazer esse treinamento, a gente concluía que eles eram capazes também de fazer outras coisas. Então, passamos a fazer assistência técnica, e as empresas precisam. Depois, concluímos que podíamos dar um passo adicional, que era desenvolver a inovação. Pesquisa em inovação. Então, andamos para esse caminho também. Hoje, temos uma estrutura que é flexível: ela pode fazer inovação, ela pode fazer o desenvolvimento de assistência técnica e pode fazer qualificação. Qualquer um dos centros do interior pode fazer isso, desde que tenha escala. Porque isso também não é brincadeira. É um instrumento muito grande e a gente não pode fazer dispersão disso. Mas, com isso aí, estamos dando um bom atendimento à Indústria. Nós estamos nos capacitando com os alemães para fazer coisas inéditas no país. Por exemplo, um robô subaquático que pesquisa o desenvolvimento da atividade de exploração do fundo do mar. Eles [alemães] demonstraram, no lançamento do centro de robótica, e isso não é uma atividade pouco sofisticada. Hoje, estamos fazendo pesquisa. Por exemplo, trabalhando com o ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica], para a Embraer [Empresa Brasileira de Aeronáutica], para empresas como Votorantim, General Motors. E quero logo fazer uma correção, porque dizem que estamos fazendo isso para as grandes empresas, o que é uma balela. Hoje, não tem mais nada, por exemplo, que não tenha Tecnologia da Informação. E ela pega desde a pequena empresa até a grande. O alemão também citou que, no instituto dele, já criaram 600 empresas, pequenas e médias, porque uma atividade dessas começa a dar o que eles chamam de ‘pin up’: são filhos. Cada um vai fazer uma parte daquele negócio, até fazer a montagem grande. Hoje, a indústria age através de cadeias de produção. Então, uma empresa cabeça de cadeia, como a Ford, traz agregado um monte de empresa que fornece para ela, que fornece para a que fornece para ela, e assim vai, até chegar no parafuso. Agora, a Bahia ainda não aproveitou substancialmente o que a Ford pode dar, como os mineiros fizeram com a Fiat. Mas já estamos com um trabalho nessa direção, discutindo com o Sindipeças [Instituto Sindipeças de Educação Corporativa], em São Paulo, para fazer um trabalho aqui na Bahia – claro, acreditando que eu vou ficar [na presidência da Fieb]. O estaleiro do Paraguaçu é outro projeto cabeça de cadeia que, estrategicamente, temos que aproveitar a posição. Interessa para essas empresas ter os fornecedores no local onde estão instaladas e interessa para o fornecedor trabalhar para uma empresa desse porte. Hoje, o que funciona é isso. Essas grandes cadeias entram nas cadeias de valor internacional. Infelizmente, a indústria brasileira, por falta de competitividade, ainda não tem essa condição e esse é um dos problemas que temos. Mas, por exemplo, a Ford da Bahia entrou. É uma das cinco empresas do mundo a fazer o carro mundial. Para fazer isso, ela teve que capacitar os fornecedores dela. É isso que nos interessa: fazer uma capacitação de toda a cadeia e entrar na corrente mundial. Porque aí você entra na economia grande. Agora, isso leva um tempo e é preciso inovação. A pequena empresa não pode se furtar da modernização do seu parque de produção. Não é o sujeito supor que as coisas vão cair no colo. Ele tem que sair, ver o que está sendo oferecido, participar e brigar pela empresa dele. Para isso, temos instrumentos para ajudá-lo.

BN – Como é a relação atual da Fieb com a CNI? O senhor considera satisfatória a participação da Bahia dentro da estrutura de poder da confederação?
JM – Na minha empresa, ninguém olha esse negócio de título. O que olha é a importância de cada um. Na CNI, não sou só vice-presidente, como tenho outras atividades: sou responsável pela coordenação da área de estrutura do Brasil todo, sou o principal responsável pela área de relações do Brasil com o Japão, além de outras demandas. Eu me considero muito bem relacionado, não tenho nenhuma queixa da CNI. Esse plano ao qual me referi, de R$ 296 milhões, tem R$ 196 milhões da CNI. Não é pouco dinheiro. É preciso um bom relacionamento e credibilidade, sobretudo, para entender justificável o deslocamento de recursos. Me considero absolutamente equilibrado dentro da CNI, não tenho queixas a fazer e acho que a Bahia está muito bem representada na confederação.
BN – O senhor destacou algumas ações que o governo tem feito para ajudar o setor industrial, mas existe falta de atração de empresas e de competitividade da Bahia – a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) não saiu, o porto não foi ampliado e há várias demandas colocadas pelo setor que não foram atendidas. Gostaria que o senhor destacasse as principais dificuldades que a Indústria enfrenta hoje para ficar mais forte na Bahia e que pedidos feitos a órgãos governamentais não foram cumpridos.
JM – Eu tenho dito ao governador que nós somos independentes. Ele, pessoalmente, é meu amigo, mas isso não interfere em eventuais críticas que ele queira nos fazer ou críticas que nós venhamos a fazer ao funcionamento do governo como um todo. E, de vez em quando, nós fazemos críticas, até porque o meu pessoal me pressiona. O meu papel é trazer essas críticas construtivas, sobretudo no sentido de buscar correções. Eu não tenho nenhum papel político. Zero. Não pessoalmente, porque eu não penso politicamente. Como presidente da federação, eu trabalho com o governo porque entendo que nós temos que trabalhar todos juntos para o desenvolvimento do estado. Nós temos atraso nisso e merece ser criticado, sim. É um projeto recente, com recursos alocados e que teve um mau projeto. Se tivesse feito um projeto bem feito, com cuidado, não teria tanto percalço. Mas não é um problema só da Fiol. É um problema de todas as obras. A gente tem conversado com o nosso ministro César Borges [Transportes] e ele fica indignado com as coisas que encontrou. Isso tem que ser corrigido, porque o Brasil precisa de maior eficiência na implantação de sua infraestrutura. Por exemplo, o governo não consegue gastar os recursos – que são poucos – que ele põe no orçamento para fazer as obras dele mesmo. Não consegue por ineficiência. Evidentemente que nós podemos criticar isso. Agora, frequentemente, estou criticando, por exemplo, a situação do Porto de Aratu. Nós precisamos de um porto de bom padrão, de padrão internacional. Quando eu digo isso, não é para criticar por criticar, mas porque precisamos de uma Indústria competitiva. Para isso, nós precisamos de um porto moderno e competitivo. Esse é o sentido da crítica que a gente faz. A crítica política eu não faço.
BN – E as demandas principais que não foram atendidas ainda?
JM – As demandas principais estão no setor de infraestrutura. A principal demanda aqui na Bahia ainda é um porto de boa qualidade. A gente tem um padrão de produção que é produção de bens intermediários e importação e exportação de bens intermediários. Então, o porto é a chave para o desenvolvimento da indústria atual, porque a Bahia não tem riqueza suficiente para justificar o mercado e ter unidades de grande escala produzindo para o mercado local. Hoje, o sistema disponível [para transporte] é o caminhão. Todo mundo sabe da ineficiência que é o caminhão em termo de custo. Para os outros dois sistemas, nós batalhamos o tempo todo: o porto, para fazer o transporte marítimo, e a ferrovia, que agora o governo diz que vai fazer uma ligando São Paulo à Região Metropolitana – e eu espero que faça, mesmo. Nós estamos acompanhando isso. Pelo menos a ideia de que deve fazer, para nós, já é um princípio de que as coisas podem ser feitas. Vamos acompanhar isso. A economia da Bahia é ligada à do Centro Sul. Evidente que é assim. O de menor potencial se guia pelo de maior, para melhorar e para funcionar. Essa ligação ainda é ineficiente. Esse é o nosso maior problema: o funcionamento da infraestrutura competitiva. Por exemplo, os nossos centros industriais do interior também precisam de mais atenção. Quando você convida alguém para sua casa, você limpa sua sala, bota uma flor. Nós precisamos fazer isso também nos nossos centros industriais: prepará-los para receber essas pessoas que são atraídas, para que eles não criem uma má impressão. Tudo isso eu faço com bastante transparência e honestidade. Qualquer estudo desse, a primeira coisa que eu faço é mandar para o Palácio [de Ondina], para ficar claro que não estamos fazendo nenhum tipo de atividade que não construtiva. O meu jogo é absolutamente transparente. Não tem nada que tenha segundas intenções ou terceiros propósitos.

BN – O senhor disse que pretende continuar à frente da Fieb. Para tanto, o senhor conta com maioria na entidade? Quais são as principais indústrias que apoiam a candidatura de José Mascarenhas?
JM – Cada um trabalha da sua forma. A minha é a seguinte: eu tento mostrar a todos a minha pessoal desimportância e a importância do que eu estou fazendo. Eu não quero que eles votem em mim, eu quero que eles votem nesses programas. A minha importância é ser apenas o condutor dessas políticas e é isso que deve ser comparado. Eu não fico diariamente contabilizando um e outro, mas posso afirmar com certeza que a parte substantiva da Indústria está conosco. Isso eu posso afirmar com certeza.
