Álvaro Lemos fala sobre situação da Santa Casa de Misericórdia da Bahia - 20/08/2007

Por Daniel Pinto
Qual a situação financeira da Santa Casa de Misericórdia hoje?
Álvaro Lemos Filho – Olha, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, como algumas das Santas Casas do Brasil, é uma instituição filantrópica que mantém suas contas equilibradas. È claro que com muito esforço e austeridade, mas, hoje, nós não devemos nada a ninguém e temos um bom crédito na praça.
Esse equilíbrio é uma situação comum nos hospitais filantrópicos de nosso Estado?
ALF – Não! Não é mesmo. O nosso diferencial é que, além dos atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), nós também temos convênios com planos de saúde, o que não nos torna tão dependentes dos repasses do SUS.
Mas, a Santa Casa também recebe doações?
ALF – Claro que sim! Nós aceitamos e incentivamos qualquer tipo de doação, inclusive também contamos com serviços voluntários. Mas, hoje, com tantos impostos, está cada dia mais difícil contar com a colaboração financeira de qualquer pessoa. O cidadão comum já é tão sacrificado com impostos, que sobra pouco ou quase nada para a caridade.
A Santa Casa pode ser considerada uma instituição de cunho religioso?
ALF – Olha, posso te afirmar que, apesar da inspiração cristã, a Santa Casa não é uma instituição religiosa. Pode parecer estranho, mas a Santa Casa é laica. Só para você ter uma idéia, além de missas independentes, não há nenhum outro rito religioso.
Quais são os serviços prestados pela Santa Casa?
ALF – A Santa Casa de Misericórdia da Bahia foi fundada em 1549. Ela é primeira instituição filantrópica do nosso Estado e segunda do Brasil. Nessa época, a Santa Casa veio trazer a Salvador, pouco tempo depois da fundação da cidade, o amparo aos seus primeiros pobres: marinheiros, escravos, índios. Quase 500 anos depois de sua criação, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia do século XXI constitui-se num sofisticado complexo assistencial, empregando mais de 3.900 funcionários e uma moderna estrutura administrativa no cumprimento de sua nobre missão. O que não muda o compromisso em assistir os mais necessitados, expresso no Artigo 1º do seu Estatuto:
“A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, Irmandade instituída, por prazo indeterminado, ao tempo do Governo de Thomé de Souza, composta de pessoas de ambos os sexos, admitidas sob a denominação de Irmãos, é uma associação beneficente, de fins não lucrativos, que se propõe o exercício da caridade e prestação de assistência médica e social aos enfermos e desamparados”.
Qual o perfil das pessoas que procuram a Casa e quais são as especialidades disponíveis?
ALF – Atendemos, em média, mais de 700 pessoas diariamente no serviço médico ambulatorial. Também fazemos mais de 500 cirurgias por mês. Depois das Obras Assistenciais de Irmã Dulce, somos a instituição filantrópica mais atuante do Estado da Bahia. O centro médico conta com um corpo clínico de profissionais experientes e altamente qualificados, em diversas especialidades médicas, como Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, além de uma equipe multidisciplinar composta com nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas, possibilitando um atendimento global e que privilegia todos os aspectos da saúde. Nós oferecemos aos pacientes do SUS a mesma qualidade de serviços prestados aos pacientes dos planos de saúde. Geralmente as pessoas que nos procuram são muito carentes e, na grande maioria das vezes, elas vêm por indicação do sistema de regulação do Estado.
Mas, os repasses do SUS não são feitos através da prefeitura?
ALF – São sim. Desde a implantação da gestão plena de saúde no município que os repasses do SUS são efetuados através da prefeitura de Salvador. Mesmo assim, atendemos pessoas vindas de toda a Bahia. Não existe nenhum tipo de triagem neste sentido.
Esse dinheiro atende à demanda?
ALF – Não. Ele não é suficiente, mas conseguimos equacionar as contas com investimentos da própria casa.
Que tipo de investimentos?
ALF – No ano passado o faturamento da Casa foi de R$ 230 milhões. Nós investimos na infra-estrutura das unidades, dos centros hospitalares, na área social. Também compramos um prédio no Comércio. A intenção é fazer uma reforma e depois alugá-lo. O dinheiro será investido na estrutura, conservação, ampliação e manutenção da instituição.
Quanto à verba do SUS, a Santa Casa recebe por produtividade ou por meta estabelecida?
ALF – Agora vamos entrar no sistema de controle por meta. Só para se ter idéia, as Santas Casas de todo Brasil são responsáveis por 40% de todo atendimento do SUS. Acredito que aqui na Bahia, juntamente com as outras instituições filantrópicas, a Santa Casa também atenda a esse percentual.
Em média, quantos atendimentos são realizados mensalmente?
ALF – Mais de 17 mil atendimentos médicos, além da assistência social na área de creche, educação e acompanhamento familiar. Atendemos mais de 770 crianças. Apenas no Centro Integrado de Educação (CEI) Juracy Magalhães, atendemos atualmente a 270 crianças de 01 a 06 anos de idade, provenientes de famílias em situação de risco social.
A Santa Casa de Misericórdia da Bahia possui algum convênio com o governo do Estado?
ALF – A partir do governo anterior passamos a administrar a maternidade José Magalhães Neto, no bairro da Caixa D’água, a maior maternidade do Estado e que se tornou um centro de referência com quase 13 mil metros quadrados de área construída e capacidade instalada total de 238 leitos. Apesar da mudança de governo, nós já estamos viabilizando a manutenção do contrato de gestão.
Qual o estado de conservação do patrimônio histórico e artístico da Santa Casa de Misericórdia da Bahia?
ALF – Ao contrário do que se pensa, nosso acervo artístico e cultural não é composto apenas de arte sacra. Nós temos documentação histórica sobre a construção do edifício da Santa Casa, documentos de estudos genealógicos, história da medicina e da farmácia, história da escravidão. Temos a capela de Nossa Senhora da Vitória, construída em 1874. Também temos um acervo inestimável no Cemitério do Campo Santo.
E o que o Sr. pode dizer da utilização do cemitério do Campo Santo como um museu a céu aberto?
ALF – A Santa Casa também administra o cemitério do Campo Santo, na Federação. Na verdade, a intenção é explorar as instalações do cemitério como um circuito cultural. Existe muita riqueza arquitetônica, cultural e artística nas inúmeras estátuas, mausoléus, jazigo, etc. Seus mausoléus ornamentados por magníficas estátuas atraem diariamente estudantes, pesquisadores, arquitetos, historiadores e até turistas. A "Estátua da Fé", que orna o mausoléu da família do Barão de Cajahyba, é um dos destaques do acervo. Posso dizer que essa é uma tendência na Europa. Abrimos o espaço para visitação. Através do pagamento de uma pequena taxa, qualquer pessoa ou grupo, pode fazer esse passeio. Dispomos de um guia para acompanhar os visitantes durante todo percurso e também, logo na entrada, o visitante passa a conhecer toda a história do Campo Santo através de um sistema de áudio com fones de ouvidos. A gravação pode ser escutada em inglês ou português. Tanto o Campo Santo quanto o cemitério da Misericórdia estarão abertos à visitação pública.