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Gilberto Gil diz que "esquerdas estão em xeque" e avalia se filiar ao Rede - 11/02/2013

Por Evilásio Júnior

Gilberto Gil diz que "esquerdas estão em xeque" e avalia se filiar ao Rede - 11/02/2013
Fotos: Betto Jr./ Ag. Haack/ Bahia Notícias

Bahia Notícias – Desde 2010, com o "Fé na Festa", não sai um disco de inéditas. Gil já prepara o repertório para lançar um trabalho com canções novas?

Gilberto Gil –
Não. Eu tenho tentado me aproximar de uma percepção do que seria voltar a compor intensa e intensivamente, coisa que eu não tenho feito há muito tempo, desde o Fé na Festa, exatamente. Mas eu fico muito absorvido pela sequência dos trabalhos anteriores que vão gerando excursões, compromissos, viagens e tal. E fora também da música, porque eu sou solicitado para isso, para aquilo, para participar de coisas diferentes, dar palestras, enfim. Tenho uma vida que complica muito para encontrar o tempo adequado, sem pressão, para compor, assim, para pensar. Porque hoje em dia... Na época da minha juventude, em que o periscópio estava o tempo todo rodando, girando 360 graus, captando coisas, havia aquele desejo natural de interpretar o entorno, de descrever coisas que estavam acontecendo no plano pessoal, no plano essencial e no plano da vida em diálogo com os outros, com a sociedade, com o mundo. Havia mais volúpia também na vontade de realizar. Hoje em dia é menos. Então isso já é um complicador para essa coisa de entrar em períodos intensos de produção e criação. O outro é a complexificação do mundo. Antigamente, você queria descrever coisas, falar da sociedade, do ponto de vista das assimetrias sociais...

BN – Época da ditadura...

GG –
É. As coisas eram mais óbvias, mais simples. As escolhas eram mais ou menos compulsórias. Esperava-se que você falasse sobre aquilo. Com relação às questões de hábitos e costumes também. Era tudo mais simples. A vida complexa do mundo de hoje e o fato de que há uma quantidade enorme de arte produzida, exatamente na incumbência da descrição, da discussão, da avaliação, das leituras etc., etc. etc., toda essa fenomenologia contemporânea, é uma coisa enorme tudo isso. As escolhas, portanto, ficam mais difíceis. Que música eu vou fazer? Sobre quê (risos)? O que é que vou falar? O que é que eu vou dizer? Especialmente para artistas como nós, que se especializaram nessa coisa de repórteres, o máximo possível fieis de interpretações e leituras sobre o mundo. Eu tenho a impressão que isso dificulta muito para um artista como eu. E, nessas duas coisas que eu falei, evidentemente o que mais pesa é a agenda. Por exemplo, em uma entrevista que eu dei no final do ano passado a um colega seu, do Rio ou São Paulo, ele me perguntava coisas desse tipo: 'e aí? O próximo de inéditas? Como é que e vai ser e tal?'. E eu dizia, 'olha, eu estou pensando que no verão da Bahia possivelmente vou ter um tempo para me dedicar a isso, para pensar, escolher temas, esboçar canções, desenhos de canções', mas eu não tive esse tempo. Os primeiros 10, 15 dias de verão aqui eu aproveitei para descansar, porque eu vinha de uma maratona incrível. Aí o corpo pedia mais horas de sono, mais horas de descanso, mais horas de contemplação e aí não tinha espaço para música. A música não vinha, não penetrava, não ocupava o espaço mental e sentimental para se insinuar. Agora, depois de 15 dias, já veio o ciclo do carnaval, já vieram os convites para participar dos shows e cantar em Santo Amaro, cantar com Márcia Castro, cantar com Luiz Caldas, e isso e aquilo. Aquele tempo vazio, que é onde...

BN – ... Nasce a criatividade...

GG –
Exatamente. A criatividade vem como preenchimento daquele vazio. Nisso tudo eu não tenho tido tempo. Antigamente, e eram muito menos frequentes esses vazios, quando encontrava dificuldades de encontrar os trilhos da criatividade, eu me avexava muito, ficava angustiado. Agora eu não fico mais não.  

BN – Agora, hoje em dia, há uma demanda muito grande, ao tempo em que as pessoas não têm tempo, elas querem mais e mais e mais...

GG –
Mas as pessoas querem mais e mais e mais do mesmo. Especialmente nessa coisa da arte, de consumo, o repetitivo é um dado fundamental de hoje. As pessoas querem as coisas parecidas, que as expressões sejam feitas na retórica, na linguagem, no léxico compreensível, traduzível, adaptável...

BN – Mas essa é a própria simetria da música pop...

GG –
O léxico musical também, mas é o literário, o poético. Então, é muito difícil escapar.

BN – A gente vê as pessoas na internet baixando muitas músicas e busca-se muito material, por exemplo de Gil, de sobras de estúdio, material que não foi lançado, enfim, material inédito. Você tem muita coisa ainda guardada?

GG –
Não. Até porque o Marcelo [Fróes, produtor-executivo da Warner Music] há muitos anos atrás se interessou por essa coisa de resgatar sobras de arquivo e lançou muita coisa. Ele fez complementações nos discos. Por exemplo o Realce (1979). Você tem o repertório do realce e depois uma demo: quatro, cinco, seis músicas que foram resgatadas de estúdio. A mesma coisa com o Um Banda Um (1981), Parabólicamará (1991), os discos todos. Então, esse trabalho de garimpo está praticamente feito. Não tem mais nada para fazer, não. Aqui, ali, uma coisinha ou outra, mas esse trabalho já foi feito.

BN – Mas não tem nenhuma música que você deixou de gravar, que está em casa, escrita?

GG –
Não tem mais nada.

BN – Como nasce a obra do Gil? Você primeiro escreve a letra ou encaixa o texto na música?

GG –
Varia muito. Às vezes a melodia vem inteira, vem fragmento e aí a letra se inicia e vai dialogando com o fluxo da complementação da música. Às vezes é um poema inteiro, uma letra inteira que sai, depois você vai musicar. Nesses anos todos, varia muito.

BN – Então, em 2013 você vai ficar mais focado nos shows do que no lançamento de um disco?

GG –
Eu não sei. Eu ainda tenho pretensão de começar a me debruçar sobre o trabalho do disco de samba que eu venho prometendo há muitos anos, para o qual eu já tenho algum material que venho armazenando nesses últimos três anos.

BN – Um disco mais de intérprete, né, Gil?

GG –
De intérprete.

BN – E aí vai resgatar Noel Rosa, Vadico, Cartola, Ary Barroso, Braguinha...

GG –
Não sei (Risos). Possivelmente.

BN – Tem coisas de samba da Bahia também, Batatinha, Riachão?

GG –
Coisas da Bahia também. Temos vários sambas, né? Tem muitas vertentes do samba... um disco que dê conta um pouco disso. Não sei se eu vou ter condições este ano de começar. Hoje em dia também já não é praxe você começar trabalhos e levar muito tempo porque a voragem consumista é muito grande. Você começou a gravar e daqui a dois, três meses tem que estar na rua, tem que fazer, tem que lançar.

BN – É a sociedade efêmera da qual você falava...

GG –
É. Muito assim. Esses processos de decantação já não são muito plausíveis nos modelos vigentes de criação, produção e consumo. Então eu também não quero me avexar com nada disso, entendeu? Quero ficar tranquilo e na hora aparece, enfim... pronto!

BN – (risos) Agora, com certeza, quando aparecer vai ser livre, né? Você tem brigado muito sobre essa questão dos downloads e softwares livres e esse caminho parece inevitável nos tempos de internet, com redes sociais e compartilhamentos...

GG –
Acho que já não é nem preciso comentar isso. A fase dessa questão em disputa com o modelo tradicional anterior já passou. Esses modelos contemporâneos já são vitoriosos. Já foi. O disco já acabou. Existe residualmente. O percurso convencional de você gravar, levar para a loja, da loja para o consumidor, do consumidor para a audição doméstica, isso tudo já acabou. As pessoas estão com os seus celulares nas ruas e baixam o que quiserem...

BN – Montam o seu disco, o seu próprio repertório...

GG –
Pois é. Então, isso já não está mais em discussão. Não é mais essa a questão.

BN – Você disse que o disco acabou, mas esse pessoal da chamada nova MPB, Marcelo Geneci, Tiê etc., tem lançado até vinil.

GG –
São nichos. Meu filho, Bem, é totalmente devotado...

[Uma produtora do camarote Expresso 2222 interrompe a entrevista:

- Gil, a Flora está precisando de você.
- Mas eu estou no meio de uma entrevista.
- Eu vou dizer a ela. Você vai demorar ainda?
- Pelo menos 15 minutos. Pelo menos. É uma entrevista mesmo, que todo ano eu dou a ele. Já é tradicional. Diga a ela que já é do repertório do 2222. Faz parte (muitos risos)!]

GG – O meu filho, Bem, coleciona, tem se preocupado em fazer uma pequena parcela de discos em vinil para os lançamentos que eu tenho feito...

BN – Então, foi relançado muito material de Gil em vinil, de novo?

GG –
Tem, tem. Mas é residual, uma coisa pequena. Em uma tiragem normal de 50 mil discos, digamos que saem uns mil em vinil. É muito pouco. É quase nada. É exatamente para esse de pessoas saudosistas.

BN – Como eu...

GG –
(risos) Como ele também. Ele prefere ouvir tudo em vinil.

BN – Até porque, era uma obra feita pensada naquilo: no lado A, lado B. Qual música que vai abrir um lado, que vai abrir o outro. Não é aquela coisa cansativa do MP3 que você tem, sei lá, 200 músicas em um pen drive. Eram 10, 12 músicas.

GG –
Mas o capitalismo não pensa nisso não. O capital e a vertigem produtiva do capital não pensam em nada disso não. A indústria não pensa nisso. A indústria quer criar mercados, criar alternativas de mercado, renovar. Ela precisa dar vazão aos inventos tecnológicos, ao desenvolvimento tecnológico. Esse desenvolvimento tecnológico cada vez canibaliza mais a produção artística, no cinema, na música, no próprio livro... os Harry Potter da vida etc...

BN – Os Tons de Cinza da vida...

GG –
Os Tons de Cinza da vida. Eu tenho a impressão de que isso está posto.

BN – Consolidado...

GG –
Está posto. Está posto. Isso é uma fragmentação. Eu, dez vez em quando, gosto de chamar de pós-moderno, o que caracteriza essa efemeridade do mundo contemporâneo. Por isso que eu gostei do Psirico (risos). Não tem propriamente mais canções ali... Psirico é uma...

BN – Sonoridade...

GG –
Uma sonoridade e uma montagem vertiginosa, ofegante de muitas coisas, de pequenos discursos, pequenas provocações, trechos instrumentais, reflexões instantâneas, rápidas, sobre comportamentos, sobre isso, sobre aquilo. E é uma beleza! Psirico é uma beleza. (risos) Quando passa pelo camarote, eu fico babando com aquilo. Aquilo é uma coisa. É a própria contemporaneidade.

BN – Indo para a política, também 'já foi' um movimento que você iniciou, sobretudo aqui na Bahia, com Juca Ferreira, que é o Partido Verde. O PV agora está na gestão do atual prefeito de Salvador, que é o ACM Neto (DEM), tem a vice-prefeita, Célia Sacramento, e sofreu uma debandada muito grande. Figuras importantes da sua época, que têm um trabalho reconhecido no país na questão da sustentabilidade, estão partindo para uma coisa nova, que é o partido que a Marina Silva está fundando. Gilberto Gil pretende seguir esse movimento?

GG –
Olha, qualquer iniciativa, qualquer novo direcionamento que esteja em função da Marina, da sua movimentação, eu abraço. Eu adoro ela, gosto muito dela. Gosto dessa perseverança que ela tem, no sentido de um sonho de renovação da política, de renovação dos compromissos da política com a sociedade. Enfim, eu gosto muito de tudo isso, como o próprio meio ambiente, que é de onde nasce essa última vertente. Eu já venho há anos dizendo que eu não quero ficar no Partido Verde e que vou sair. Por interseção do Alfredo Sirkis [deputado federal pelo Rio], ou do Juca, ou de um ou outro... O Juca finalmente saiu...

BN – Foi para o PT.

GG –
Eu venho dizendo que não quero ficar no Partido Verde. E, como estou te dizendo agora, qualquer movimento que a Marina faça eu vou acompanhar com muito interesse, com muita curiosidade e, eventualmente, mesmo me deixando levar pelo magnetismo dela para onde ela for. Se ela fundar um novo partido...

BN – Gil pode se filiar?

GG –
É. Eu posso acabar indo para lá. É bem possível. Eu não garanto isso, até porque eu sei que os partidos são necessários. É um dado formal da democracia. A democracia institucional precisa dos partidos para que as eleições aconteçam e os projetos políticos se manifestem. A via é essa, né? Os partidos políticos são a via, mas eu não sei. Eu sempre tive, como artista, uma vivência muito fora dos partidos, mesmo quando eu me filiei ao Partido Verde, nunca tive propriamente uma vivência partidária muito grande, mas gosto. Tudo o que eu puder fazer para Marina realizar o sonho dela, o desejo dela, o projeto dela, eu farei.

BN – Então, em 2014, com certeza Marina Silva será candidata a presidente com o apoio de Gilberto Gil?

GG –
Se ela for candidata em 2014 terá o meu apoio, sem dúvida alguma. A certeza que eu não tenho é de que ela será candidata, porque vai depender de tudo isso, até da fundação desse novo partido, da consolidação desse partido e da atração de quadros suficientes. A questão das novas formas de financiamento de campanhas, que deve ser uma causa também que ela deverá abraçar, como o Obama abraçou nos Estados Unidos. Um dos dados básicos da viabilidade da primeira eleição dele foi o financiamento alternativo, que ele criou. Marina, possivelmente, irá por aí também. Então, eu estou aí para ajudar. Estou com ela, isso sem dúvida alguma (risos).

BN – A reforma política que está no Congresso já prevê mudanças em relação ao financiamento das campanhas políticas e quem vai tocar esse projeto na Câmara e no Senado são duas figuras contestadas: respectivamente, o Henrique Eduardo Alves (RN) e o Renan Calheiros (AL). São dois integrantes do PMDB, com um milhão de denúncias sobre eles, mas com a responsabilidade de liderar os debates sobre toda essa temática de financiamento público de campanhas, reforma política, distribuição dos royalties do petróleo... Gil vê como esse cenário político?

GG –
A questão de desempenho deles, como de qualquer outro, ou outros quaisquer, vai depender da força da capacidade de pressão da sociedade. Não só de pressão, mas da capacidade de conceituação e reflexão da sociedade. A sociedade vai conseguir apresentar ideias interessantes, projetos interessantes, modelos interessantes? Realmente novos e avançados em relação ao que está aí? Se sim, com que força esse novo ideário, com relação à vida política, chegará ao Congresso? Vai depender disso. A força com que a força da voz das ruas chegará ao Congresso. Isso é que vai determinar o modo de se comportar do Renan, do Henrique, de todos que estão lá. De qualquer um. Porque, se ficar tudo na mão deles, eles vão fazer conforme o que eles acharem (risos).

BN – Você não acha que a sociedade brasileira é desorganizada o suficiente para ver tudo de camarote, não?

GG –
Não sei. Ninguém sabe. O mundo está começando a mudar um pouco: a Europa, o Oriente Médio, mesmo nos Estados Unidos você tem movimentação social, original, nova.

BN – Mas nós tivemos um fenômeno recente de um chamado retrocesso, no caso de a direita conseguir voltar a ocupar alguns espaços importantes da Europa – a França só é exceção desde o ano passado –, inclusive o leste europeu, onde prosperou o comunismo, e até mesmo aqui em Salvador, com a eleição do ACM Neto. Isso não mostra um retrocesso e não um avanço da concepção política da sociedade?

GG –
Mas aí já é outra coisa. As esquerdas também estão todas em xeque. Estão todas contestadas no mundo inteiro. Toda essa franja da social-democracia, quer dizer, onde a gente pode inserir PT, PSB, PCdoB e mesmo o PSDB, tudo isso está, enfim, da mesma maneira que DEM. O descrédito com a política é muito grande no mundo inteiro. Você está vendo a Espanha agora. Se socorreu de uma alternativa de direita, depois dos anos todos de Partido Socialista e está lá decepcionadíssima, apavorada, sem saber o que fazer por causa das denúncias de corrupção, de incompetência, de incapacidade de lidar com a crise.

BN – A própria Itália também com Silvio Berlusconi e, agora, com Mário Monti...

GG –
A Itália nem se fala. E a Grécia, e a Irlanda e Portugal e A e B. E a incapacidade de a política conceber uma forma de o Estado se tornar um agente importante dessa coisa da regulação do mundo financeiro, do mundo produtivo etc., e as marcas estão reinando soltas (risos). O capitalismo está totalmente autônomo. O capitalismo está totalmente voltado para si mesmo.

BN – Adam Smith estava certo, né (risos)?

GG –
O fato de que o setor financeiro é o setor mais importante do capitalismo contemporâneo é um sintoma disso. O capitalismo está todo voltado para si mesmo, ele só produz para si mesmo. A sociedade está à deriva. Completamente solta no mundo. Mas ela está começando a perceber isso.

BN – Que ela está surfando em uma onda da qual não controla...

GG –
Ela está percebendo isso e está começando a se manifestar. Os movimentos todos nos Estados Unidos, mesmo em áreas ainda 'atrasadas' do Oriente Médio, a voz da rua, da sociedade, está começando. Eu acho que tudo isso pode levar a uma transformação compulsória, a um avanço compulsório. Voltando aí à presidência da Câmara e do Senado é exatamente isso.

BN – Não há alternativas?

GG –
Não há alternativas.

BN – E aí, Gilberto Gil poderia se colocar como alternativa ou acabou em 2008 [quando deixou o Ministério da Cultura] o seu ciclo de vida pública?

GG –
Não, não. Se tornar ou se capacitar a ser uma liderança hoje em dia é uma coisa muito complicada. Complicada por causa de tudo isso. Você vai liderar o quê? Quem? Em nome de quê?

BN – Qual a bandeira?

GG –
É tudo muito fragmentado, fragmentário...

BN – É um mosaico...

GG –
Um mosaico enorme de coisas, enfim. Acabaram aqueles líderes consensuais e etc., etc. etc. de uns tempos atrás. Eles já não estão mais aí hoje. Você vê as dificuldades de um cara preparadíssimo, competentíssimo como Obama, por exemplo, nos Estados Unidos, onde a sociedade está lá: metade quer ir para onde ele vai e a outra metade quer ir para longe (risos).

BN – Lá, ele esbarra em uma Câmara dos Representantes de maioria republicana...

GG –
Em todos os lugares é assim. O outro, [François] Hollande [presidente francês, sucessor de Nicolas Sarkozy], vem do campo socialista, se elege na França e fica sem poder fazer nada, obrigado a contemplar itens da agenda conservadora por força desse mínimo balanço, desse mínimo equilíbrio político, dessa mínima estabilidade política que é preciso perseguir o tempo todo... Tudo isso está em xeque. A crise é séria, é grande no mundo todo. Não é um problema só brasileiro.

BN – Então, vamos fazer a interseção entre o princípio e o meio da nossa conversa para fechar a entrevista?

GG –
Sim.

BN – Considerando a sua veia criativa, você não acha que poderia colaborar como artista, como músico, trazendo estes temas às suas composições? Falar do problema da crise de identidade e atuação política e ajudar as pessoas a compreenderem o mundo no qual estão mergulhadas?

GG –
Claro que sim. Mas imagina o tempo, a intensidade no modo de me dedicar a isso. São necessários esse tempo e esse modelo de modo de dedicação para dar conta de tal complexidade. Falar dessas coisas, sim. Mas como falar? Por onde começar? Você faz um disco a partir dessa postura crítica, analítica, de aprofundamento de visão sobre as coisas e etc., etc., mas ao mesmo tempo você tem que tocar no rádio. Você tem que tocar na rua, você tem que cair na boca do povo, você tem que fazer sucesso. É muito complicado.

BN – Mas aí você enche o refrão de onomatopeias...

GG –
(muitos risos) Vou te chamar para você vir compor comigo. Parceiro (muitos, muitos risos)!

BN – Eu topo (muitos risos)!