Guilherme Bellintani fala sobre desafios para alavancar receitas de Salvador na área de Cultura - 14/01/2013
Bacharel em Direito, mestre em Educação e doutor em Desenvolvimento Urbano, Guilherme Bellintani assumiu há menos de um mês a Secretaria de Desenvolvimento, Turismo e Cultura de Salvador, mas traça planos a longo prazo. Segundo ele, uma de suas principais missões será equilibrar financeiramente o Carnaval da capital baiana. Ciente da responsabilidade que tem diante da pasta que pode alavancar as receitas do município, Bellintani prometeu a instalação de uma nova política cultural na cidade, na qual a Fundação Gregório de Mattos desempenhará um papel de relevância. “Uma coisa que eu determinei para mim mesmo, para eu conseguir dormir, é que eu não vou usar a falta de orçamento como desculpa para a falta de resultado”, afirmou o novo secretário. Em entrevista ao Bahia Notícias, Bellintani reconheceu não ter grandes experiências administrativas com Turismo ou Cultura, mas destacou sua “habilidade gerencial” como fator determinante para que fosse escolhido como parte da equipe de governo do prefeito ACM Neto. Além de defender a junção de Turismo, Cultura e Desenvolvimento em uma só pasta, apresentou um resumo da filosofia que tentará implantar à frente da secretaria. “A forma de surpreender o turista não é com uma boa sinalização, uma cidade limpa, organizada ou com um mapa entregue para o turista na hora que ele chega ou um receptivo em inglês no aeroporto. Esse é o básico. A forma de surpreender o turista é ser mais do que uma cidade limpinha e organizada. É ser uma cidade vibrante, muito bem definida e avançada culturalmente e que faça o turista ter aqui uma experiência que ele não tem em nenhuma cidade do mundo”. E surpreendeu ao argumentar a necessidade de rever os conceitos de defeitos e valores. “Eu sou um pouco crítico daquela visão: ‘como é que vamos receber o turista se o nosso taxista não sabe falar inglês?’. Isso é importante, mas Paris é o maior destino turístico do mundo e os franceses só falam francês”, comparou.
Guilherme Bellintani - A expectativa é boa, naturalmente, como é o Carnaval da Bahia. O Carnaval ultrapassa simplesmente discussões de infraestrutura ou organização da festa. Sempre é um Carnaval bom. O que a gente vem trabalhando é para que ele seja melhor em termos de organização. Mesmo tendo pouco tempo de trabalho, a gente quer fazer com que ele seja o mais estruturado possível e, de certa forma, acho que a população pode ficar tranquila, porque vamos fazer um grande Carnaval.
BN - Como será esta questão, já que o prefeito anunciou que a equipe que fará o Carnaval será basicamente da Saltur ainda da gestão de Jonga Cunha, que é da prefeitura de João Henrique? Como será trabalhar com isso?
GB - Na verdade, a gente entende que seria uma irresponsabilidade nossa mudar o desenvolvimento do Carnaval a 40 dias do Carnaval. Mas é uma determinação do prefeito que a gente possa colaborar com o que for possível, colocar a mão na massa e mudar o que for possível para melhorar. Sem mudanças significativas, já que não há tempo para isso. Portanto, a gente absorve o trabalho de Jonga, que é um trabalho bom e sério. Jonga tem sido muito colaborativo com a nossa chegada na secretaria, no sentido de já dividir com a gente os elementos principais do Carnaval.
BN - Quais são as principais alterações?
GB - As alterações representativas são poucas. O que a gente vem buscando, primeiro em relação a estrutura, é melhorar o que tem sido criticado nos últimos anos. Eu cito algo que se refere à organização de táxi e trânsito. É uma reclamação contínua. A organização dos ambulantes, sobretudo em relação à localização deles durante a noite. Os acampamentos tem sido excessivos nos últimos carnavais. Alguma questão de banheiro químico. São esses os elementos estruturantes mais criticados. No que se refere à programação do carnaval, a gente vai intensificar um trabalho que vem sendo feito em relação à Praça Castro Alves, já trazendo a Fundação Gregório de Mattos para a discussão do palco da Castro Alves, como forma de já começar a sinalizar um novo modelo de Carnaval que nós queremos.
BN - No evento da Governadoria, durante a assinatura da cota de patrocínio, tanto o senhor quanto o prefeito comentaram da necessidade de se pensar um novo carnaval. Qual é a principal insatisfação com o modelo vigente?
GB - O modelo vigente vem trazendo uma lógica de 15 ou 20 anos. E isso desgasta. É notória, de certa forma, a avaliação de que o carnaval precisa retomar caminhos ou absorver novos. Vamos passar por uma discussão ampla e seremos efetivos em relação a isso. Primeiro, há a percepção de uma razoável carência de criatividade e novas manifestações, que sempre foram um diferencial do Carnaval da Bahia. Se eu pudesse resumir isso, eu diria que o carnaval tem nos surpreendido muito pouco. E isso é ruim. Carnaval bom é aquele que traz surpresas positivas, sobretudo em manifestações culturais e do povo, como um todo. Como ele tem sido muito mais linear nos últimos anos, acho que está na hora de mexer. Vamos mexer com muito cuidado. É importante dizer que tudo que a gente quer controlar demais termina saindo errado. Vamos pontuar coisas. Não passa pela nossa cabeça achar que a prefeitura vai controlar todo o carnaval, porque ele é do povo e deve também ser controlado pelo povo.
BN - Você falou de mudanças em relação aos ambulantes. Haverá mudança de local dos acampamentos?
GB - Primeiro, a gente vai buscar fazer um controle maior em relação à instalação de acampamentos no meio da rua, o que é prejudicial para a relação com o espaço público e também para os próprios ambulantes. Muitos deles trazem crianças, ficam com crianças no meio da rua. O Município tem que se posicionar em relação a isso. Por isso estamos trazendo a Secretaria de Ação Social para um trabalho conjunto, que não seja simplesmente afugentar os ambulantes, e sim posicionar o espaço público e a ação dos ambulantes da melhor forma possível, evitando cenas dramáticas e ruins para o Carnaval de Salvador e para os seres humanos ali envolvidos.
BN - Em relação ao trânsito, uma crítica que todo mundo faz é o acesso aos circuitos. Se dizia até que era uma tática da prefeitura para ganhar dinheiro com multas com aquele mundo de carros que chegam muito perto do circuito e acabam por estacionar em local indevido. Além do fato de as pessoas saírem no final da festa, não pegarem táxi ou transporte público e dirigirem mesmo depois de consumirem bebida alcoólica, sendo barradas depois em blitz. Esse modelo vai continuar pelo menos este ano?
GB - A lógica do carnaval seguirá um pouco a lógica do sentido do trânsito na cidade para o resto do ano, que é privilegiar o transporte público. É difícil falar isso em uma cidade que tem lacunas relevantes no transporte público, mas não podemos deixar de incentivar a relação do cidadão com o coletivo no carnaval, especialmente ônibus e táxis. Sem dúvida nenhuma, aquele que vai de carro e quer se aproximar muito do circuito tem que ser limitado nesse aspecto. É uma visão minha e também do secretário [de Urbanismo e Transporte] Aleluia, de que devemos permitir o maior espaço possível para as zonas de ônibus, táxis e pedestres. Quando cada um viaja, estamos acostumados a andar bastante em cidades do exterior. Mas a gente não quer andar na nossa cidade. É confortável chegar de carro o mais perto do circuito, mas desde que isso não afete o funcionamento geral da coletividade.
BN - Há um contrato da Mago/OCP que designou este ano R$ 3,8 milhões para a prefeitura de Salvador. O convênio se encerra este ano ou no próximo?
GB - O contrato tinha vigência até 2012 e foi aditado por mais dois anos.
BN - Como será feito o processo de nova cota de publicidade? Você pensa em incrementar isso para os próximos anos? Porque em termos comparativos até o Festival Folclórico de Parintins, no Pará, tem mais recursos do que aqui em Salvador e, ao que me parece, até a cota de televisão, por exemplo, está muito abaixo do valor de mercado do que o Carnaval do Rio de Janeiro, que tem um tempo de exibição inferior.
GB - Eu falei isso no encontro com o governador e o prefeito. A gente precisa de uma readequação econômica do Carnaval de Salvador. Eu tenho um sonho e uma missão determinada pelo prefeito de fazer com o que o Carnaval de Salvador seja equilibrado financeiramente, ou seja, que o custo dele seja o mais próximo possível do que é a receita. Para isso, teremos que mudar o plano de arrecadação financeira do Carnaval. Há um contrato em vigor, logicamente, mas o que a gente quer fazer em relação a isso é ajustar, a partir do ano que vem, um novo modelo de captação. E, tão importante quanto isso, é falarmos em um modelo de custo e investimento. Eu tenho certeza absoluta que a gente pode não só aumentar a arrecadação do Carnaval, como reduzir significativamente o custo. Hoje, o custo é mal pensado, mal administrado, descentralizado e não há processos racionais de gestão do investimento do Carnaval.
BN - E qual será o plano para melhorar esta situação?
GB - Em relação a custo, primeiro nós temos um custo elevadíssimo com terceirizados no Carnaval, espalhados em várias secretarias. Hoje, um terceirizado que avalia a adequação da publicidade no Carnaval não avalia, por exemplo, a adequação de um ambulante. Nós temos uma pessoa que avalia o ambulante e outra, a publicidade. Pensar isso no século 21 é uma grande irracionalidade. Quem está preparado para verificar se o ambulante está de acordo com a norma tem que estar preparado para verificar a publicidade. Então, a primeira atuação em relação a economia é rever o modelo de contratação de terceirizados. Outra coisa é tentar contratar com maior antecedência. Quem contrata mais tarde contrata pior. Então, será fundamental um planejamento de contratação. Ainda nesse mesmo aspecto, precisamos entender sob o ponto de vista de equipamentos e estrutura, até que ponto o modelo de estruturação do carnaval está de acordo com o que nós queremos. Às vezes, a gente pode ter um investimento muito alto em estrutura tubular, por exemplo – não é isso que eu estou dizendo – mas podemos ter e a substituição por outro modelo de carnaval pode reduzir custos significativamente e melhorar a relação do cidadão com o carnaval. Isso tudo será avaliado por mim e por uma comissão que será convocada imediatamente após o carnaval.
BN - O segundo carnaval na Copa do Mundo de 2014 não vai saturar a cidade?
GB - Acredito que não. Acho que a Copa é um evento que cria um novo momento na cidade; não acho que haverá saturação. Logicamente, vamos tomar todos os cuidados para que seja um carnaval diferente. Não vai ser um carnaval repetindo o de fevereiro. É um novo e específico carnaval, fora do tempo, e deve ser tratado desta forma. Vamos cuidar para que seja uma nova experiência de carnaval, cujas vantagens possam ser absorvidas pelo carnaval regular de Salvador.
BN - Jonga Cunha fica ou outra pessoa entra na Saltur?
GB - A gente tem conversado abertamente com Jonga, que tem sido um parceiro muito importante. Eu prefiro discutir modelos de Saltur do que pessoas na Saltur. Para definir quem vai entrar ou sair, temos que definir que modelo de empresa a gente quer. Naturalmente, vamos adequar a pessoa, seja Jonga ou outra que venha, ao modelo que a gente imagina. O que eu já sei sobre esse modelo é que será enxuto, racional, que trate o dinheiro público de forma clara, transparente e dinâmica. E, para isso, vamos encontrar as melhores pessoas possíveis para compor a equipe da nova Saltur.
BN - Secretário, eu gostaria que o senhor fizesse um pequeno histórico seu e dissesse se já tinha relações com os segmentos de Cultura e Turismo. Se não, qual tem sido o principal desafio?
GB - Eu sou um amante e um cidadão muito participante da Cultura da cidade. E também sou um amante do Turismo como viajante. Conheço uma série de países, tenho viajar como principal hobby e tenho uma atividade empresarial de 12 anos na iniciativa privada. De certa forma, esta atividade fez o prefeito identificar alguém capaz de gerenciar um novo modelo de desenvolvimento da cidade, do turismo e uma nova política cultural para a cidade. Não tenho grandes experiências administrativas ou gerenciais em nenhum desses setores, mas tenho uma formação generalista. Sou advogado, bacharel em Direito, fiz mestrado em Educação, doutorado em Desenvolvimento Urbano. Portanto, eu acho que o mais importante é a minha habilidade para gerenciar processos, ouvir pessoas e a minha sensibilidade diante dos problemas. Essa habilidade gerencial, com a capacidade de ouvir, foram identificadas pelo prefeito como os diferenciais para gerir isso. Mais do que experiência em um setor específico, eu acho que foi a minha história de vida que fez com que eu estivesse aqui.
BN - Assim como você, eu gosto de sair da cidade. E quando a gente volta, fica deprimido de ver em outros lugares e não aqui a oferta de eventos, de locais para visitar, mobilidade. Em contrapartida, Salvador tem geograficamente o grande benefício de ser uma cidade bonita. É a primeira capital do país, com vários edifícios históricos sendo degradados. Como fazer para Salvador voltar a ser uma cidade atraente turisticamente?
GB - Eu acho que, para o turismo, estamos pensando fundamentalmente a ação em três concentrações. A primeira delas é fazer com que a cidade tenha a melhor estrutura possível. Isso inclui limpeza, conservação, segurança, uma série de estruturas que não servem somente ao turista, mas sobretudo aos baianos e soteropolitanos. E a gente tem uma visão de que, sendo uma boa cidade para os soteropolitanos, ela naturalmente conseguirá atrair turistas em nos ver e visitar. O segundo eixo é da infraestrutura turística, especificamente. Entra aí o maior avanço possível na formação de malhas aéreas, melhor estrutura possível na chegada do turista – seja no aeroporto, no porto ou na rodoviária – um amplo sistema de informação e atendimento ao turista. Por fim, o terceiro eixo, não menos importante – talvez até o mais importante – é fazer com que a gente seja capaz de potencializar o diferencial de Salvador. Porque a gente volta deprimido no que se refere aos dois primeiros eixos: a estrutura da cidade como um todo e para receber o turista. Mas o terceiro eixo, que eu acho que é o nosso grande diferencial, é mostrar para as pessoas o quanto Salvador tem de diferente de todas as outras cidades do mundo. Essa nossa relevância cultural, nossa identidade como uma cidade que se diferencia mundialmente – apesar de não ter muitas vezes uma projeção mundial. A gente vai fazer com que o turista veja o que ele não vê em lugar nenhum do mundo. E é basicamente um turismo sensitivo e de experiências. É lógico que a nossa história, o nosso parimônio histórico é muito importante, mas não é dos mais relevantes do mundo. A nossa beleza natural é importante, mas não é das mais relevantes do mundo. Há cidades mais bonitas do que a nossa em vários aspectos. Mas quando entendemos a beleza em um sentido mais amplo – e aí a gente entra em toda a nossa cultura, vivência e capacidade de ser criativo – colocamos Salvador como uma cidade única no mundo. Vamos cuidar bem da cidade, criar uma infraestrutura turística, mas sobretudo potencializar os nossos diferenciais. É isso que podemos oferecer para o turista. Porque quem vai visitar Havana, em Cuba, por exemplo – e Cuba fez do turismo um grande diferencial – não vai porque ela é limpa ou organizada. Vai para entender o que ela tem de diferente. E assim acontece para quem visita Auckland, Sidney, Istambul ou Havana. É o diferencial da cidade.
BN - Mas você não tem o mesmo entendimento que eu, de que sinalizações, por exemplo, são importantes, como ‘aqui morou Castro Alves’, ‘aqui foi instalada a primeira basílica da Bahia’? Coisas de prédios históricos que muitas vezes estão degradados e que a gente não sabe nem a importância da própria história que temos.
GB - Eu concordo plenamente, mas eu acho que isso é básico. Eu estou falando de uma nova percepção. Isso é básico. Isso é o elemento mais primário para quem quer receber o turista. E concordo que a gente não tem. Mas eu sou um pouco crítico daquela visão: ‘como é que vamos receber o turista se o nosso taxista não sabe falar inglês?’. Isso é importante, mas Paris é o maior destino turístico do mundo e os franceses só falam francês. E te recebem bem se você se aproxima com alma saudação em francês, mesmo que na sequência você fale em inglês. A gente precisa rever os conceitos de defeitos e de valores, para que tenhamos isso que você falou – que é básico – mas que a gente saiba que a forma de surpreender o turista não é com uma boa sinalização, uma cidade limpa, organizada ou com um mapa entregue para o turista na hora que ele chega ou um receptivo em inglês no aeroporto. Esse é o básico. A forma de surpreender o turista é ser mais do que uma cidade limpinha e organizada. É ser uma cidade vibrante, muito bem definida e avançada culturalmente e que faça o turista ter aqui uma experiência que ele não tem em nenhuma cidade do mundo.
BN - Houve algumas críticas, secretário, à junção, na mesma pasta, de Cultura, Desenvolvimento e Turismo. O vereador Hilton Coelho foi uma das pessoas que falaram sobre o assunto; chegou a dizer que cultura não pode ser confundida com setores econômicos e como ‘algo para inglês ver’. O queo senhor acha dessa visão?
GB - Eu acho que a organização da secretaria passou por uma visão estratégica do que a gente quer da cidade e por uma necessidade de adequação da organização administrativa. Começando pelo segundo ponto, a cidade tem apenas 12 secretarias. É uma das capitais com o menor número de secretarias, por uma questão de custo. A gente está vendo o quanto o prefeito ACM Neto está herdando da gestão anterior em restos a pagar, despesas que estão sobrando na história, e sabe que Salvador é a penúltima capital em arrecadação per capita. Portanto, há necessidade de adequação de custo. Em segundo momento, eu sou um empolgado com esta ideia, sobretudo porque temos dois instrumentos muito importantes na nossa secretaria, que são a Saltur e a Fundação Gregório de Mattos. A fundação está esquecida no município hoje e nós vamos potencializá-la. Eu sou um grande empolgado em trazer a fundação para o ponto número um da gestão municipal. Fernando Guerreiro foi escolhido com esse viés e, na minha percepção, foi uma excelente escolha. Eu e o prefeito decidimos pela escolha de Fernando. E a Fundação Gregório de Mattos vai exercer um papel de referencial cultural na cidade, que eu espero que seja como poucas secretarias de Cultura aparecem no Brasil. Então, mais importante do que a forma – Desenvolvimento, Turismo e Cultura – é o conceito que iremos dar a cada elemento desse tripé. O Desenvolvimento, de atração de investimentos privados e de intervenção urbanística. O Turismo, com uma boa política estruturante e Saltur operando essa política. E a Cultura com o viés de uma nova política cultural na cidade e a Fundação Gregório de Mattos ganhando uma nova dimensão institucional e econômica, porque também passa por necessariamente rever o orçamento da fundação. Porque, do jeito que está, não dá para trabalhar.
BN - Aí entram duas questões. Fernando Guerreiro é um nome indiscutível na cultura do estado, mas a Fundação Gregório de Mattos, durante muito tempo, foi sucateada, sobretudo por falta de recursos. Em um momento de contingenciamento, como fazer da fundação algo relevante com pouco orçamento? Vai aumentar o orçamento da fundação? O que será feito para ela sobreviver? O senhor não teme que a sua pasta seja uma das mais prejudicadas, já que há um compromisso constitucional para se investir em Educação e Saúde, por exemplo?
GB - Eu sou um otimista por natureza. E uma coisa que eu determinei para mim mesmo, para eu conseguir dormir, é que eu não vou usar a falta de orçamento como desculpa para a falta de resultado. Eu vou buscar muita criatividade e, lógico, vou buscar ocupar um espaço na cidade que justifique o crescimento desse orçamento. É preciso a gente refletir se a Fundação Gregório de Mattos está sumida porque tem pouco orçamento ou se tem pouco orçamento porque está sumida. Na minha gestão, eu prefiro acreditar que vou conseguir, com o reaparecimento da fundação, fazer com o que o seu orçamento ressurja. E aí eu não trato exclusivamente do orçamento público. Eu falo de cinco níveis de orçamento. O primeiro é o orçamento público direto. O segundo é o orçamento público vindo através de convênios. E acredito muito que o sistema nacional de cultura hoje permite muitos convênios diretos para os municípios. O terceiro é a parceria com o setor privado. O quarto é um novo modelo de captação de recursos. E aí a gente entende que trazer equipamentos que funcionam hoje na cidade para aumentar o orçamento da Cultura vai ser importante. Eu dou como exemplo o Mercado Modelo. Acho que a gente pode trazê-lo para fomentar um novo orçamento. Hoje, o município não arrecada nada com o Mercado Modelo. E, por fim, um compromisso que o prefeito tem com a política cultural da cidade é promover novas formas de captação. Isso eu prefiro não explicitar, porque é uma coisa ainda muito embrionária. Mas pode ter certeza que a Cultura vai ser bem recebida pela nova gestão municipal.
BN - O mainstream na Bahia é o axé music. E há um conflito entre os artistas que estão fora deste circuito com a indústria. Como é que vai ser administrar essa questão de tentar fomentar o turismo pela música do carnaval, que é majoritariamente axé, em contraponto com Fernando Guerreiro, que é um artista do segmento de teatro, que tem poucos espaços? E muitas vezes a gente vê os grandes atores e diretores daqui indo para fora por não ter como sobreviver em Salvador diante deste quadro em que o axé music tem muito dinheiro e as outras categorias artísticas praticamente ficam esmagadas pela exploração cultural do mainstream...
GB - Essa sua pergunta é muito importante e eu começo fazendo uma referência clara à escolha de Fernando Guerreiro. Acho que a indicação dele já é um sinal de um novo modelo de desenvolvimento da cultura da cidade. Eu tenho conversado muito com Fernando, a gente tem criado uma boa parceria e temos fundamentalmente uma estrutura de trabalho que se baseia em três eixos mais específicos. Primeiro, a necessidade de fazer uma mudança material de eixos e de prioridades na cultura da cidade. Vamos fazer com que a cidade potencialize manifestações culturais que já existem e estão, de certa forma, escondidas, mas também que ela seja capaz de criar novas manifestações culturais. Não me interessa fomentar uma guerra do axé contra a cultura de raiz, ou de base, ou a chamada cultura alternativa, ou, pior ainda, o que chama de artistas independentes – que também não é a expressão mais adequada, porque parece que os outros são dependentes. Enfim, não nos interessa criar esta guerra. O que nos interessa é marcar posição de que Salvador e sua política cultural serão muito, muito, muito, muito mais do que simplesmente uma política de entretenimento. Vamos poder responder a esta crítica na prática. Eu sou um homem de discutir conceitos, mas de mostrar na prática o que será a nossa política cultural. Com Fernando Guerreiro, pode ter certeza que conseguiremos trazer um resultado de inovação e nova vibração na política cultural da cidade, muito além do que simplesmente olhar para o axé ou o Carnaval. Isso é importante para a cidade, sem dúvida nenhuma, mas estamos marcando a postura de que Salvador tem um novo modelo de gestão cultural.
BN - O afródromo vai acontecer? Você vê com bons olhos esse projeto de Carlinhos Brown?
GB - Eu vejo com excelentes olhos; sou muito simpático à iniciativa. Acho que tudo que puder favorecer os blocos afros é positivo. De certa forma, ele tem uma dificuldade estrutural. A gente sabe disso. Chegamos na secretaria a 40 dias do Carnaval e não tinha um modelo resolvido para o afródromo, tanto juridicamente – no que se refere à utilização de espaço público para a comercialização de patrocínio e algum conflito com o contrato que está hoje em vigor com os outros patrocinadores – até questões estruturais: por onde vai sair o trânsito, quem vai fazer a limpeza, qual será o custo agregado a isso – já que a prefeitura está passando por dificuldades. A gente procurou superar essas dificuldades. Foi muito difícil. O próprio Carlinhos nos procurou e disse da dificuldade de seguir adiante nesse processo. A gente tem sido parceiro do afródromo. Vamos resolver de algum jeito, em alguma hora, se possível em 2014 ou em um novo modelo durante o ano, mas para esse Carnaval tornou-se uma dificuldade muito grande viabilizar o afródromo.
BN - Não foi principalmente por causa da guerra de patrocinadores, já que o Itaú está com o Carnaval de Salvador e Carlinhos Brown tem o patrocínio da Caixa?
GB - Foi também por isso. Mas, de certa forma, há uma marca clara de uma frase que eu vou usar aqui, do prefeito ACM Neto. Quem manda em Salvador não é contrato de patrocínio; quem manda em Salvador é o prefeito no poder legitimado pelo seu povo. Portanto, a dificuldade jurídica de implementar um novo modelo, sem que haja riscos na captação ou pagamento do patrocínio, foi uma das coisas que a gente discutiu. Mas tem muitas coisas além disso, por exemplo, como a cidade vai acrescentar custos de limpeza, postos de saúde s segurança, que é do Estado, a 30 dias do Carnaval. Essas foram as dificuldades que a gente tentou e diria que continua tentando superar.
BN - Você tem noção de que a pasta em que está é justamente onde os especialistas apontam que Salvador pode ter uma melhora na arrecadação? Você sente o peso desse desafio?
GB - É uma pergunta interessante. Em geral, todo mundo pergunta se teremos mais orçamento para gastar ou investir. Isso responde a uma pergunta anterior, em relação ao porquê de Turismo e Cultura estarem juntas com Desenvolvimento. É um desafio que a gente tem de gerar novos modelos de desenvolvimento. E eu não falo só de desenvolvimento econômico, mas no que se refere a cultura, desenvolvimento humano e social. Sem dúvida, é um grande desafio. O turismo é uma das economias mais importantes do mundo e gera empregos em países do mundo inteiro. E em muitos deles é o principal elemento gerador de emprego e renda. O que eu quero ressaltar sempre é que a cultura jamais estará a serviço de um modelo de desenvolvimento econômico. Ela pode contribuir, mas nunca pode ser estruturada para gerar o desenvolvimento econômico. Ela tem que ser fomentada, incentivada e desenvolvida para ela mesma. Para a riqueza cultural da sua própria cidade. Se isso, eventualmente ou de uma forma planejada, também se tornar um produto, um movimento econômico que gere consumo para turistas ou os próprios soteropolitanos, ótimo. Mas ela deve existir independente disso, no seu conceito mais puro e real. Mas, sem dúvida nenhuma, há relações muito claras entre cultura e desenvolvimento econômico que precisam ser estudadas e fomentadas.
BN - Você estima que já conheceu quantas cidades?
GB - Não contei muito recentemente, mas eu acho que conheço perto de 30 países, mais ou menos. De cidades maiores ou culturalmente mais relevantes, certamente mais de 100, além das brasileiras.
BN - Qual é a situação de Salvador hoje entre as cidades que você conhece? Ela está mais perto de qual? Você pretende colocá-la mais próxima de qual? Só que, na verdade, você promete que ela chegue mais próxima de qual?
GB - Das cidades que eu conheço do mundo, Salvador tem muito de Havana, um pouco de Istambul, muito de Lisboa, naturalmente, mas eu diria que a gente pode ter uma organização de sentimento com o trato da sua cidade idealizado em Tóquio, por exemplo, onde as pessoas usam pinças grandes para cuidar da limpeza urbana, porque não tem o que varrer. Acho que a gente pode ter uma vibração e uma retomada do desenvolvimento por meio do turismo como Sidney, na Austrália, ou como algumas cidades da Nova Zelândia, que conseguiram. Acho que temos uma riqueza cultural como cidades da Índia, como Nova Deli, Varanasi ou Agra. E acho que a Europa é sempre uma percepção clássica de entendimento do turismo. Eu estou falando isso tudo para dizer basicamente que não há um único modelo de cidade. O que há, naturalmente, são percepções construídas pela coletividade. Se eu fosse construir uma cidade ideal, essa cidade seria Salvador com melhorias decorrentes de cada uma dessas cidades. Eu conheço várias cidades do mundo, conheço o Brasil inteiro, mas nunca pensei em morar fora de Salvador. E essa vibração me faz pensar que essa é a nossa cidade. A cidade ideal nunca vai ser construída, mas devemos tentar construí-la com a riqueza que a gente tem e buscando experiências, mas certamente fazendo com que elas venham acrescentar. A cidade que a gente já tem é essa. Não vamos construir uma nova; vamos construir essa mesma cidade com um novo modelo. E a gente tem que se orgulhar disso. Pode ter certeza: de todas as cidades que eu citei aqui, poucas são as que tem uma percepção cultural, uma construção coletiva da cultura, uma matriz tão diversa como a nossa. Eu não acho Salvador a cidade mais bonita ou mais estruturada do mundo. Mas eu diria certamente que Salvador está entre as cidades mais pujantes e vibrantes sob o ponto de vista cultural e do dinamismo urbano que eu já conheci na minha vida. Eu não tenho nenhuma dúvida disso.
