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Entrevista

César Borges prevê continuação do carlismo após morte de ACM - 06/08/2007

Por Daniel Pinto

Foto: Orlando Brito

Por Daniel Pinto

O Sr. já deve ter respondido esta pergunta muitas vezes, mas agora, após uma reflexão mais profunda, o que muda na política baiana com a morte de ACM?
César Borges –
Olha, Daniel, são mudanças em vários níveis. No nível mais geral, deixamos de contar com um líder com força nacional e que usava seu prestígio para impor os interesses do nosso Estado, o que ocorreu sempre. Não há quem possa ocupar esta função, neste momento, o que exige de todos nós muito mais capacidade, para que a Bahia se apresente forte e unida. Para o nosso grupo, especificamente, ficará o legado e o exemplo de Antonio Carlos Magalhães.

Agora, o destino do Democratas está dissociado do futuro do “carlismo”?
CB –
Acho que o chamado “carlismo”, como ação política-administrativa, vai continuar através da geração de políticos revelados para a vida pública através de Antonio Carlos Magalhães, que têm como ponto de distinção com relação às demais forças políticas do Estado, a preocupação com o resultado administrativo, baseado num forte senso de responsabilidade com o equilíbrio financeiro, com a eficácia dos serviços públicos e com a atração de investimentos para a criação de empregos. Esta geração de políticos vai servir à Bahia baseada nestes valores, seja no Democratas, seja em outros partidos, como aliás já ocorre hoje, com antigos companheiros filiados a legendas como o PP, PR, PSDB, PDT, PTB, entre outras.

Nos últimos anos, desde a época do PFL, o grupo político ao qual o Sr. pertence está aparentemente dividido entre os que criaram raízes no “carlismo” e outra ala que aspirava um modelo político mais pluralizado. Este é o fim da verticalização e centralização do poder no grupo?
CB –
A centralização que havia estava baseada na liderança natural de Antonio Carlos Magalhães, na sua capacidade política de apontar caminhos para nós, políticos mais jovens, que o acompanhavam. Isto, realmente, se encerra com ele. Isto não quer dizer que não havia debate nem pluralidade interna. Antonio Carlos soube conviver muitas vezes com o dissenso, e apoiou opções que eram melhores para o grupo, como um todo.

Qual o risco do Democratas perder quadros importantes para outras legendas?
CB –
O risco existe, não se pode negar. Ele será maior se alguém tentar enfeixar um poder à semelhança do que Antonio Carlos Magalhães teve entre nós. Entendo que as lideranças que o sucedem precisam ter a humildade, e no meu caso estou consciente de que devo fazê-lo, de recusar qualquer hipótese de verticalização do grupo em torno de alguém. Do contrário, o Democratas vai perder quadros para outras legendas.

Os rumores quanto a sua mudança de partido têm fundamento?
CB –
Não, exatamente. Continuo trabalhando, como inicialmente, para ampliar os espaços de debate e participação dentro do Democratas, sem deixar de contemplar outros projetos e conversar com outros partidos onde tenho amigos e portas abertas.

Como político experiente, que já foi governador do Estado, o Sr. acha que o DEM atingiu maturidade suficiente para manter a unidade em prol das eleições municipais do ano que vem?
CB –
A formação das executivas municipais será decisiva para isto. Como o partido Democratas é provisório, as executivas estão sendo nomeadas agora, e é preciso que todos os nossos companheiros se sintam contemplados, para que o partido não entre fraturado nas próximas eleições. O partido tem que demonstrar sua capacidade política exatamente neste momento.

E quais são as prioridades do partido para a disputa das eleições em 2008?
CB –
Você fala de prioridade de disputas? Claro que é preciso ter uma aliança vitoriosa em Salvador, porque é o ponto de retomada do governo do Estado, juntamente com a ampliação da nossa presença nos principais municípios baianos, naqueles que são pólos regionais. Do ponto de vista temático, as questões municipais sempre preponderam, mas é claro que o Governo do PT na Bahia, mal-avaliado pelo que dizem as pesquisas, também será debatido.

O Sr. era muito próximo ao ex-senador ACM e também sempre manteve uma postura muito discreta. O que te motivou, logo após a morte de ACM, a expor desavenças com o presidente do DEM-BA, Paulo Souto?
CB –
Todos nós acreditávamos que o senador Antonio Carlos Magalhães poderia se recuperar e conduzir o processo de entendimento interno da sigla na Bahia. Infelizmente, a sua morte precipitou um debate que já vinha ocorrendo, inclusive nos jornais, desde o início de julho. Talvez por ser, como você diz, discreto, ou conciliador, como acho que seria mais exato, há os que acham que eu aceite decisões de que não participei. Os que são discretos e conciliadores sempre pagam este preço.

Verdade que vocês nunca foram lá grandes amigos e agora romperam relações definitivamente? 
CB –
De Paulo Souto? Não é verdade. Sempre fomos amigos e continuamos conversando neste momento. Não acredito que o debate político torne as pessoas inimigas umas das outras. No meu modo de ver, já era tempo de Paulo Souto buscar a integração do partido após esta disputa que dividiu o grupo, que foi a disputa da executiva estadual. É isto que defendo e isto que eu espero que aconteça.

Qual o futuro de César Borges na política após 2011, quando chega ao fim o seu mandato no Senado?
CB –
Fui um governador bem avaliado, tive conquistas importantes, como a Ford. No Senado, tenho feito um trabalho digno dos votos que recebi. Tenho defendido a Bahia, tenho relatado projetos de interesse nacional que foram viabilizados somente pela negociação que conduzi entre governo e oposição, tenho aprovado projetos que hoje já são leis – como o da partilha e do divórcio em cartório e o do uso das Forças Armadas na segurança pública. Por tudo isso, me considero credenciado a participar do processo político-eleitoral de 2010. Agora, em qual posição, isto será definido no momento mais oportuno.