Tatiana Paraíso fala que João Henrique é o "paraíso" dela e comenta ascensão na SMS - 21/05/2012
Fotos: Patrícia Conceição / Bahia Notícias
Bahia Notícias – Como a senhora encontrou a pasta assim que chegou na secretaria?
Tatiana Paraíso – Eu encontrei a pasta em uma situação difícil, no sentido de ser uma coisa que já vinha sendo destilada há algum tempo. O déficit financeiro da secretaria é de R$ 7 milhões a R$ 8 milhões, a depender do mês. Essa coisa é correlativa. Se você em um mês paga uma coisa vai prejudicar alguém, no outro faz a compensação, ou seja, você nunca tá ok com todo mundo. Isso gera uma situação bem desconfortável, tanto para nós, enquanto secretaria, quanto para o outro lado, dos filantrópicos. Não tem ninguém certo ou errado. Está todo mundo certo. As filantrópicas, no momento em que elas realizam exames além do teto, não fazem por má fé. Elas fazem porque o doente bate na porta. Imagine chegar uma pessoa com câncer e alguém dizer: ‘vá embora, não tem como atender não, porque já bateu o número do contrato’. Não tem condição. Por outro lado, eu não tenho dinheiro. Uma coisa é a vontade de pagar, outra coisa é ter para dar. Você dá o que você tem. Então, o que aconteceu de positivo é que, logo que assumi, uma semana depois, todo o grupo das filantrópicas me procurou e fizemos uma reunião excelente. Montamos um grupo de trabalho, de pessoas da secretaria e pessoas das filantrópicas. A gente está construindo para ver exatamente qual é esse déficit, fazer uma comprovação com números, porque hoje em dia não existe você ficar falando: tem que ter documento e estruturar. Aí nós vamos a Brasília pedir o apoio da bancada. Pensamos até em fazer um movimento nacional, porque com certeza esse problema não é só na Bahia. Deve ser de muitos estados. Então, assim, o bom dessa gestão, na minha percepção, é a questão do apoio, tanto das filantrópicas quanto do governo do Estado. É um esforço conjunto e eu tenho tido muito apoio, o que me dá uma certa tranquilidade, apesar da situação difícil.
BN – Qual avaliação a senhora faz do trabalho do antigo secretário Gilberto José?
TP – Eu acho que ele fez esforços, implementou mudanças positivas. Agora, veja só, é questão de, por exemplo, médicos. Você procura um médico e ele diz uma coisa para você, aí você vai em outro e diz outra coisa. Está todo mundo certo, entendeu? Então, é ponto de vista: é a sua maneira de gerir...
BN – Então, os dois diagnósticos estão certos?
TP – Não. Não os dois diagnósticos, mas as duas condutas: um é conservador, outro mais intervencionista. É o perfil. A questão é essa. Eu estava na gestão também, não participava diretamente das decisões, mas procurei sempre contribuir da maneira que eu podia.
BN – É verdade que a senhora pediu uma suplementação de R$ 80 milhões ao secretário da Fazenda, Joaquim Bahia?
TP – Não, não, não pedi, embora eu precise, mas eu não pedi.
BN – A relação da Secretaria de Saúde com a Fazenda vai bem então?
TP – Vai. Joaquim é muito gentil comigo, muito profissional. Sempre que a gente tem uma situação em que a gente precisa de um repasse entro em contato. Ele é bem correto com a questão dos 15%. Então, está tudo tranquilo.
BN – A senhora falou de um déficit de mais de R$ 7 milhões...
TP – Sete a oito milhões por mês.
BN – Como fazer, sem a suplementação da Fazenda ou do governo federal?
TP – É impossível, é impossível. É número, é conta, gente! Creio que pela questão financeira do Município, que é a penúltima pior arrecadação do Brasil, só perde, se não me engano, para Palmas, no Tocantins, só tem essa opção. A gente espera que o Ministério da Saúde recomponha esse teto e, creio eu, como a gente conseguiu com o Hospital Aristides Maltez, a gente vai conseguir.
BN – Sobre a indicação da senhora para ser secretária da Saúde, em algum momento temeu que a opinião pública fizesse críticas muito duras, mesmo sendo a número dois da pasta. Temeu que a imprensa e a opinião pública acreditassem que aquela nomeação foi pelo fato de ser a atual mulher do prefeito João Henrique?
TP – Não, eu achava que poderia ter, mas também achava que todo mundo ia pensar do outro lado. Primeiro, quando eu entrei na secretaria foi como subsecretária de [José Saturnino] Rodrigues. Então, foi uma indicação técnica de Rodrigues. Não tinha nenhum contato com ninguém da esfera municipal, absolutamente nenhum. Eu sempre fui uma pessoa que trabalhou no setor privado, tinha começado um ano antes a fazer assessoria médica para o Município, para a atenção básica. E eu já trabalhava com Rodrigues no Hospital Ana Nery. Ele já conhecia o meu trabalho e, por conta disso, me chamou: ‘Tatiana, acho que a gente pode fazer muita coisa’. E acredito que a gente poderia ter feito muita coisa mesmo, muitos planos, mas assim, coisas bem técnicas, e infelizmente não deu. Por conta disso, a argumentação, eu acho que ia ficar fraca. Eu tenho MBA em Gestão de Saúde pela Getúlio Vargas, já ocupava cargos administrativos. Estava tudo em uma linha que eu achava que as pessoas não iam falar muito, e eu acho que não falaram tanto por conta disso, da análise. Se você faz uma análise, acho que a coisa fica amenizada.
BN – A Secretaria Municipal de Saúde enfrentou vários problemas desde o início da gestão de João Henrique. Passaram por lá José Carlos Trindade, Luis Eugênio Portela, José Carlos Brito, Saturnino Rodrigues, Gilberto José, e agora a senhora. Nesse tempo todo, um caso não ficou explicado, que foi na época do segundo gestor, Luis Eugênio Portela, em que durante a administração dele apareceu morto o servidor Neylton Souto da Silveira. No Fórum Ruy Barbosa, as evidências condenaram dois vigilantes que teriam executado ele, mas também é citada a questão de uma relação política dentro da secretaria. Na Câmara, tentam instalar uma Comissão Especial de Inquérito para verificar os contratos, já que o Neylton era quem cuidava da parte de regulação e teria tido acesso a irregularidades. Tatiana Paraíso abre as portas da secretaria para esse tipo de investigação? Está a par do que aconteceu?
TP – Eu tenho procurado estar a par e as portas estão completamente abertas, tudo, absolutamente tudo, porque é uma vida que se foi, de um servidor, e no mínimo [a morte] deve ser bem investigada. Tem que ter toda a atenção para esse caso. Acho que é obrigação da gente, de todo mundo, e o que precisar da gestão está tudo aberto.
BN – Não teme que aconteçam operações de polícia, que levem documentos, computadores?
TP – Não temo absolutamente nada. Eu acho bom, inclusive. Acho muito bom, porque resguarda a gente, né? A transparência, para quem trabalha direito, resguarda. Está me ajudando na minha gestão.
BN – Mas a senhora quando chegou deve ter, claro, se ambientado, visto as contas, os contratos. Encontrou alguma coisa que achou estranha, que mandou cancelar, algo suspeito, ou estava tudo já corrigido dentro da secretaria?
TP – Não encontrei nada suspeito. Algumas coisas eu precisei cancelar, porque uma secretaria que custa R$ 64 milhões por mês e que você tem que fazer uma redução... Pense você ter R$ 25 milhões, mas não é até o fim da gestão não (risos), é mês. Imagine se você não tem que sair cortando. O serviço é preciso, contudo eu não tenho como oferecer. Tenho que priorizar o que é que posso fazer com a quantia que eu tenho. Então, a gente tem cancelado algumas coisas, mas unicamente em função disso. Se eu pudesse, ainda ampliava.
BN – A senhora já teve ou tem algum tipo de pretensão política, comentaram que poderia sair candidata, mas o prazo expirou. Teve essa ideia em algum momento?
TP – Nunca. Apesar de eu ter convívio com algumas pessoas, desde pequena, com pessoas do meio político, como Pedro Irujo, meu padrinho, mas nunca tive nenhuma vontade. Eu gosto de gestão, eu gosto de assistência, da cardiologia. É isso que eu gosto e todo o meu esforço, o meu investimento, tem sido nessa linha. Então, eu acho que seria pegar e jogar tudo isso, que não é pouco, pela janela em uma altura dessa da vida.
BN – Mas é filiada a algum partido, ou pretende se filiar?
TP – Não. Nunca pensei.
BN – A gestão termina agora em 31 de dezembro e Tatiana Paraíso vai fazer o que a partir de primeiro de janeiro?
TP – Espero retornar para a minha vida, à minha coordenação no Hospital Ana Nery. Eu era responsável pelo internamento e pela parte clínica de toda cirurgia cardíaca.
BN – A senhora não era conhecida do público geral até aquele discurso de Maria Luiza Carneiro na Assembleia Legislativa. Era bastante conhecida no meio médico, as pessoas sempre respeitaram a senhora como grande profissional, mas para o grande público, Tatiana Paraíso só ficou conhecida com a declaração de que ‘coisas aconteciam no subterrâneo do Palácio Thomé de Souza’. Quais eram estas coisas e o que a senhora tem a dizer sobre Maria Luiza Carneiro? Tem alguma mágoa?
TP – Não, eu não tenho nada a dizer. O bom, sabe o que foi? Os amigos ligando e falando ‘Ó Tatiana, você é o que você é, trabalhou sua vida toda, não ligue para isso’. Isso foi uma coisa que achei legal. Não tenho mágoa de nada, tiro esse lado positivo e vamos para frente.
BN – Agora a senhora não acha que tem havido uma exposição grande, não sei se parte da senhora ou do prefeito João Henrique? Se beijam publicamente no carnaval, aparecem em boate...
TP – Olhe, todo mundo vai para a boate... você vem até um período da sua vida normal, vai pra boate, vai no carnaval, beija normal, faz tudo normal. De uma hora para outra tudo aquilo que é normal deixa de ser normal? É um negócio muito estranho, por exemplo, naquela boate mesmo, eu não vi nada demais, todo mundo ali... (risos)
BN – A senhora é titular do primeiro escalão da prefeitura de Salvador. João Henrique é melhor como marido ou como chefe?
TP – Eu vou lhe dizer, eu procuro dividir isso bem, entendeu? Procuro saber, ‘está me falando como o quê? Está me contando como chefe?’. Se for, tenho que obedecer, até quando fico na dúvida... Ele é um excelente chefe, porque o que é um bom chefe na minha concepção: é aquele que te deixa produzir, que obviamente coloca as ideias dele, porque tem sempre algo a acrescentar, mas que te respeita e te trata muito bem. Isso dá uma tranquilidade muito grande para você trabalhar. E toda minha vida pensei nisso: eu só trabalho onde me sinto muito bem, porque você passa mais tempo no seu trabalho do que na sua casa, então você tem que estar se sentindo bem. Tem gente que produz na pressão, eu não. Para produzir, tenho que me sentir dessa forma, estar em um ambiente bom. Ele é um excelente chefe, para mim e para todos. E é um excelente marido também.
BN – Nos últimos meses comentaram muito essa mudança de postura do prefeito, o que aconteceu exatamente? É normal, como a senhora disse, ir para boate, para o carnaval, mas a gente não estava acostumado a ver o prefeito João Henrique nesse tipo de situação. Como a senhora avalia a mudança?
TP – Para quem está muito perto é mais difícil a percepção da mudança. As coisas acontecem naturalmente. Então, para mim, é natural. A vida toda eu fui atrás de Dodô e Osmar no trio. É um momento gostoso, de confraternização, de tranquilidade. É um dos melhores momentos do carnaval. Para mim isso é rotina. Então, é natural que a pessoa que está com você vá com você. Talvez essa nova postura seja uma coisa assim de um novo momento. Talvez antes não fosse da rotina porque, creio eu, isso é a rotina de todo mundo aqui.
BN – Toda mulher vai fazer sempre sugestões ao marido. Tatiana Paraíso prefere que João Henrique apoie a candidatura do PP com João Leão, ou que faça uma adesão com Nelson Pelegrino ou ACM Neto?
TP – Se ele me perguntar, João Leão, uma pessoa que já é do partido. Isso o credencia. Na minha cabeça, teria que ser ele. Veio para o governo dele, apoiou, trabalhou, trouxe coisas positivas, é uma pessoa operacional, muito ativa e bem intencionada. Se fosse eu, estaria fechado com João Leão.
BN – Todo político faz promessa, a senhora que está em um cargo político, promete aos dirigentes das filantrópicas que não haverá a mesma crise que houve na gestão de Gilberto José até o fim do ano?
TP – Crise não, com certeza não vai ter crise. Eles sabem, não precisa nem eu prometer.
BN – Não vai ter ameaça de fechamento de novo?
TP – Não precisa prometer não, nós formamos um grupo, a secretaria e as filantrópicas, entendeu? Somos uma coisa só. Então, crise não tem não. A relação da gente, do jeito que está, não tem como ter crise. A gente entende que somos nós pedindo o apoio de esferas maiores. E tenho certeza que, dessa forma, você consegue as coisas. A união fortalece, e a gente vai conseguir.
BN – Fica até o fim do ano ou pode sair no meio?
TP – Tenho que ficar, eu não costumo largar nada. Quando eu pego, só se for assim um impedimento, mas eu gosto de concluir as coisas que pego. Se depender de mim, claro, é um cargo de confiança, você entra com a vontade de ficar o tempo todo. Então, se ninguém me pedir o cargo, eu espero conduzi-lo até 31 de dezembro. Tenho trabalhado para isso.
BN – Se o prefeito João Henrique fizer o sucessor, e a senhora for convidada para continuar, vai também?
TP – A minha vontade, no atual momento, meu planejamento de vida, é voltar para a minha vida, dar continuidade. Como secretária, o tempo que me toma não me deixa desenvolver nada dos projetos que eu vinha desenvolvendo. Você sabe que o tempo passa, as oportunidades vão surgindo e vão passando, então assim, a gente perde oportunidade. Mas é claro, uma contribuição. Estou muito feliz em poder estar fazendo alguma coisa, não vou poder dizer que não pude fazer nada. Eu tive a oportunidade de fazer alguma coisa, então alguma coisa eu tenho que fazer. Antes eu criticava, ‘como é que ninguém faz isso?’. Atualmente eu sei porque, já que nem tudo que tem que ser feito pode. Ainda tem isso, a questão burocrática da legislação, mas estou tendo a oportunidade de melhorar algumas coisas. Eu espero ficar até dia 31 de dezembro e, em 1º de janeiro, retornar para a minha vida.
BN – E na sua vida, qual é o paraiso da Tatiana?
TP – Meu paraíso é João Henrique (risos).
