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Entrevista

Olívio Dutra percorre as principais cidades do país para discutir propostas e programas políticos - 07/05/2012

Por Evilásio Júnior / Rodrigo Aguiar

Olívio Dutra percorre as principais cidades do país para discutir propostas e programas políticos - 07/05/2012
Fotos: Felipe Campos / Bahia Notícias

Bahia Notícias – Na sucessão em Porto Alegre, Olívio Dutra vai entrar na disputa ou vai apoiar alguém?

Olívio Dutra –
Eu sou um militante do Partido dos Trabalhadores e atualmente sou presidente de honra do PT do Rio Grande [do Sul]. O meu trabalho é discutir ideias, propostas e reforçar o partido no estado inteiro e também no país. O que eu quero é que o Partido dos Trabalhadores possa se apresentar nestas eleições com a sua fisionomia, com a sua identidade e que o seu programa seja, evidentemente, debulhado para as realidades municipais. O município é o local do exercício das cidadanias. Temos que discutir propostas e programas para o desenvolvimento sustentável e descentralizado, a fim de que a gente possa estimular a cidadania a ser exercida em sua plenitude. Minha tarefa é esta. Eu não sou candidato, não quero ser e não devo ser.

BN – Quem seria, então, o nome preferencial dentro do PT para disputar a prefeitura de Porto Alegre?

OD –
A pré-candidatura que está posta é do deputado estadual Adão Villaverde. Um militante antigo do nosso partido que, se eu não me engano, já está no terceiro mandato. No meu governo, da Frente Popular, de 1999 a 2002, ele foi secretário de Ciência e Tecnologia. Tem muita experiência e é um quadro importante. Nós, evidentemente, queremos discutir com todas as forças sérias que tenham alguma afinidade com o exercício de um governo local, com respeito ao dinheiro público, à coisa pública e os movimentos sociais. Temos que nos relacionar na região com os demais municípios – o Rio Grande tem 496 municípios – de forma fraterna e solidária com o nosso governador Tarso [Genro] e a nossa presidenta Dilma [Rousseff] e, também, preferencialmente, com os partidos do campo popular democrático. Mas nós temos uma realidade, que não é só em Porto Alegre, mas em todo o país, em que os partidos que estão na base do governo do Estado, na base do governo federal, em nível local, tem candidaturas interessadas. Mas eu penso que o PT não pode baixar a guarda e, por conta disso, deixar de discutir conteúdo programático, que é isto que o povo quer: que os partidos não sejam um balcão de negócios, um toma-lá-dá-cá de distribuição prévia de cargos. O povo quer saber como é que o dinheiro público vai ser bem aplicado para qualificar a vida, não só de poucos ou de alguns, mas da maioria da população. Então, o PT tem que ter esse compromisso.

BN – Eu obtive uma informação de que o PCdoB colocaria como condicionante de apoio a Nelson Pelegrino, que é o candidato do PT aqui em Salvador, uma aliança do Partido dos Trabalhadores, em Porto Alegre, à candidatura da deputada federal Manuela D’Ávila. Como estão os detalhes dessa negociação e o que tem sido engendrado pelo PT em relação a isso?

OD –
Olha, com todo respeito ao PCdoB, um partido do campo da esquerda, nosso aliado tradicional, governou conosco o Rio Grande e está governando agora, também no plano federal, mas respeitar-se é bom, não só na minha Bossoroca, que é o município onde nasci, como em qualquer lugar e há qualquer momento. A Manuela é uma mulher combativa que merece o nosso respeito, mas nós temos uma candidatura de um companheiro que também merece o nosso respeito e do PCdoB. Então, não tem porque estar tergiversando. Eu acho que a esquerda não tem que estar disputando entre si qual é o candidato da esquerda que melhor contempla o [campo] centro-direita. Os partidos da esquerda têm que delimitar os seus contornos para precisar programas comuns e, tendo feito essa discussão, o que não foi feito, aí sim, dentro do campo democrático popular, com um programa estratégico que não se esgota apenas em um mandato, fazer um escalonamento. Nesse mandato, tal programa estratégico vai ser executado com o PT na cabeça. No próximo, pode ser o PSB, o PCdoB, pode ser até o PDT, do trabalhismo histórico, mas antes disso não pode ser um arranjo de cúmplices. Tem que ser decorrente de uma discussão de médio e de longo prazo, que possa ser construída nessa alternância entre os partidos. Então, nesse aspecto, esse campo está devendo, não a si mesmo, mas à população.

BN – O senhor chegou a ser procurado para esta negociação com o PCdoB, em que o partido apoiaria, em Salvador, a candidatura de Pelegrino, em função de uma aliança do PT com Manuela, em Porto Alegre?

OD –
Olha, eu sou muito respeitado pelo PCdoB e eu tenho certeza que foi por isso que não fui chamado para esta conversa. Até porque, eu não sou instância partidária (risos).

BN – Como é a relação do PT com o PCdoB no Rio Grande do Sul? Aqui a gente tem notado um certo distanciamento, em função de movimentos sindicais...

OD –
A relação é de respeito. Nós somos partidos que convivemos nas lutas sociais e populares, de forma conjugada, comum, vivenciando experiências, desafios. Nós temos uma história entrelaçada com as lutas sociais. O PT e o PCdoB não são partidos de caciques políticos, que mandam e desmandam. Aliás, os partidos têm que ser assim para promover o bem comum: uma escola política permanente, onde não tem de um lado professor e do outro alunos.

BN – Estou vendo aqui em um panfleto que nos foi passado [sobre o ciclo de debates que o ex-governador gaúcho faz em diversas cidades do país] que ‘o Estado brasileiro não foi mexido em sua essência’. Isso quer dizer, então, que o PT não mexeu nas velhas fórmulas da política?

OD –
Até porque nós não governamos sozinhos nem nunca tivemos essa pretensão. Nós não somos defensores de um partido único. Nós temos que sempre argumentar, contra-argumentar e conviver com os diferentes. Evidentemente que temos que ter composições que se aproximem do compromisso com o programa.

BN – Os partidos aliados hoje da base do governo federal correspondem a esse programa?

OD –
Nos dois governos do presidente Lula, nós fizemos coisas importantíssimas, que qualificarão a vida de milhões de brasileiros. É um marco histórico do Brasil. Mas é evidente que a estrutura de poder do Estado não foi mudada. A reforma agrária está longe de ter acontecido com a profundidade e a largueza que é necessária para o desenvolvimento social e econômico do país inteiro. A reforma urbana também está para acontecer. A reforma tributária, que o presidente Lula mandou para o Congresso em abril de 2003, está lá parada. Temos ainda 16 milhões de brasileiros que vivem com uma renda diária inferior a R$ 5 por dia. Em termos de concentração de renda, o Brasil, aqui na América Latina, só perde para o Haiti e para a Bolívia. Quer dizer, o Estado brasileiro tem funcionado muito bem para muito poucos e muito mal, ou quase nada, para a maioria. Discutir política é discutir essas questões e não o varejozinho, do que é que eu levo com tal cargo, do que é que eu posso distribuir para os meus eleitores, para o meu curral eleitoral. Não. Vamos discutir estruturas e o funcionamento da máquina pública, para a maioria e não para poucos. A sociedade brasileira tem que se mobilizar e se organizar para controlar o Estado e não se deixar controlar por ele.

BN – Em janeiro, nós tivemos aqui na Bahia um episódio de conflito entre policiais militares grevistas e agentes da Força Nacional e do Exército, convocados pelo Estado, com aval da União, para tentar coibir o movimento de ocupação da Assembleia Legislativa. Agora, nós enfrentamos uma mobilização não tão conflituosa, mas de bastante embate entre professores e governo, que requereu, inclusive, o decreto de ilegalidade da paralisação e mandou cortar o ponto dos grevistas. Enquanto petista e fundador da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o senhor avalia que há um distanciamento do PT às suas raízes depois que ele virou comandante do Executivo?

OD –
Não. O que eu penso que avança, tanto no PT quanto nos movimentos sociais, é a compreensão de que chegar em um cargo Executivo e Legislativo não é ter todo o poder para fazer as mudanças com a radicalidade que precisam ser feitas. Os movimentos sociais fazem as suas reivindicações – e elas são importantes –, mas o atendimento vai bater com relação a recursos, receita ou a despesa pública. Eu penso que os movimentos sociais têm que exigir, cada vez mais, transparência na discussão do orçamento público no Município, no Estado e no país. A grande parte do funcionalismo ganha mal? Isso são coisas estruturantes. Isso tem que fazer parte do debate e ele não se esgota em uma discussão sobre essa ou aquela realidade dos professores, do pessoal da segurança, da área da saúde. Então, acho que está crescendo a consciência de que temos limites em um Estado que tem essa estrutura, que tem que ser democraticamente mexida. Tem um processo desencadeado e eu acho que não podemos confundir, nem o movimento social com o partido, nem o partido com o governo. O partido tem um projeto a longo prazo. No governo, ele tem um programa limitado a um mandato e com as forças que pode reunir em torno disso. Não pode achar que tudo vai ser resolvido agora que está no governo e nem achar, por outro lado, porque são governos de partidos com esse compromisso que os movimentos sociais têm que recuar ou abaixar suas bandeiras. Não. Tem que manter a sua autonomia, exercitá-la e bem. Os movimentos sociais não podem ser correia de transmissão dos partidos. O governo não pode ser mero reflexo dos movimentos sociais. Os governos têm o limite da sua institucionalidade, mas os partidos não podem reduzir o seu programa estratégico às possibilidades do que os governos podem fazer.

BN – Olívio Dutra milita em qual corrente do PT?

OD –
Em nenhuma, agora eu sou da vertente sindicalista.

BN – Como sindicalista, como o senhor avaliaria um governo que confronta a PM com gás lacrimogêneo e Força Nacional e os professores com corte do ponto?

OD –
Olha, eu fui grevista e houve momentos arriscados até do ponto de vista físico e do direito de ir e vir na época da ditadura. Mas também fiz greve antes da ditadura, em 1962, dois anos antes do golpe, lá em São Luís Gonzaga, 540 quilômetros a oeste de Porto Alegre. Eu tinha sido elevado, em concurso, para o Banco do Estado [Banrisul]. Não passaram nem dois dias e veio uma ordem de acabar a greve pela Federação dos Bancos. Foi rejeitada essa negociação, mas por quê? Eu sei que essa pergunta ficou batendo na minha cabeça por uns 10 anos. Para entrar na greve tinha havido reunião, para acabar nem isso. Você veja, em 62. O sindicato não tinha um trabalho mais intenso na base, o município era pequeno, os bancários viviam uma situação difícil de salário, de condições de trabalho. Era 11h e nós decidimos ir ao palácio do governo. O governo era do Brizola e ele nos recebeu: ‘Vocês acham que o governador pode estar, a qualquer hora, conversando com as pessoas sobre o que elas querem que se converse? Mas eu estou aqui e quero ouvir vocês’. ‘Olhe governador, a gente não quer que a polícia fique na porta dos bancos, porque a gente vai fazer um esforço com as rádios e tal’. ‘Não, não, se é só isso, tenho certeza de que vocês vão fazer tudo em ordem, sem estripulia. O Estado não vai impedir nada nem colocar obstáculos’. Ocorre que, no dia seguinte, tinha uma convenção do PTB, que era o partido que estava no governo, para decidir o candidato do governo naquela eleição. A escolha recaiu sobre o Egídio Michaelsen, que era um cidadão que era diretor do sindicato dos bancos. No dia seguinte, o Brizola chama o comando de greve no palácio: ‘olha, vocês estão sabendo da convenção’ e nós pensávamos que teríamos como fazer uma ponte. ‘Vocês não vão colocar isso no colo do nosso candidato. Agora vocês têm que resolver de forma diferente e eu, como governador, não posso deixar de dar segurança para os bancos que são de responsabilidade do Estado. Então, a partir de amanhã, a brigada e a força pública vão ter que dar as suas caras. Convenhamos, o sindicato não é do governo. É de vocês’. Bueno, o movimento sindical da época se imaginava no poder porque podia ir ao gabinete do governador, talvez até no Ministério do Trabalho, com a maior facilidade, e não tinha relação com a base, com o associado e o seu lugar de trabalho. E, em 62, o banco anotou na carteira profissional, o que é contra a Lei, ‘participou da greve, tal e tal’. Para quê? Para criar um constrangimento, você ser preterido na carreira e coisa que valha. Então, eu acho que essa coisa de que nós estamos no governo utilizando instrumento da repressão, não. Eu acho que a gente vai para uma greve e sabe que tem preço. Tu vai deixar de trabalhar, tu vai deixar de ganhar ou tu vai deixar de atender ao público. O público vai ter demandas sobre o governo e sobre o próprio trabalhador. A greve tem que levar em conta também demandas da cidadania. Eu acho que todo e qualquer governo do PT tem que negociar no máximo, mas não se pode fazer da greve uma coisa gratuita, que acontece por facilidades do Estado. Esse é um bom debate.

BN – Há pouco tempo, o deputado baiano Afonso Florence foi demitido do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que, tradicionalmente, é ocupado por políticos do PT gaúcho. Chegou-se a dizer que houve um boicote do partido no Rio Grande do Sul ao PT da Bahia...

OD –
O PT é um partido do povo brasileiro. O PT tem um projeto de país, que não pode ser reduzido a mandatos localmente. Evidentemente, o PT tem uma vida interna rica de debates e que bom que ele possa manter-se assim. O que deve nos diferenciar da política tradicional é justamente a construção coletiva e solidária da política. O PT tem que ter quadros capazes de executar as políticas definidas pelas instâncias partidárias...

BN – Então, o senhor acha que é legítimo o PT-RS cobrar o MDA ao governo federal?

OD –
Não é ilegítimo ao PT de qualquer estado do país cobrar dos nossos governos – locais, estaduais ou federais – o funcionamento adequado na execução de programas decididos nas instâncias. O PT é o partido da transformação e não da acomodação.

BN – Pretende se candidatar novamente, algum dia?

OD –
Não. Não sou candidato e não tenho essa vocação de ser candidato em tudo que é eleição. Contribuo bastante com propostas ao partido que ajudei a construir. Isso você faz sem cargo ou mandato, mas sim como militante, como cidadão.

BN – Tem uma história que liga muito a trajetória de Olívio Dutra à Bahia, que é a perda da Ford pelo Rio Grande do Sul. Hoje o PT retomou o comando do estado, com Tarso Genro, mas isso foi muito explorado nas campanhas dos ex-governadores Germano Rigotto (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB). O senhor faria diferente hoje?

OD –
O Rio Grande não perdeu a Ford. A Ford, para estar no Rio Grande, tinha que pagar os impostos que as pequenas e as médias empresas pagam. A troco de quê uma empresa desse porte, em nível internacional, retirava recursos públicos que o Estado mantinha para financiar micro, pequenas e médias empresas dos mais variados setores do estado? Ou retirar da saúde ou do funcionalismo público? Foi uma decisão soberana. Acertada. O Rio Grande não perdeu nada com a saída da Ford. Aliás, a economia cresceu acima da média nacional em todos os setores, inclusive, no PIB industrial do estado. Gerou-se mais emprego e o desenvolvimento do estado desconcentrou-se, descentralizou-se e espraiou-se nos espaços econômico, social e cultura do Rio Grande. Aquela senhora [Yeda] era da bancada de oposição ao governo. O Congreso votou contra o Rio Grande e a favor da Ford. Eu não esperava um discurso diferente.

BN – O que faria Olívio Dutra tirar o bigode, que é a sua marca registrada?

OD –
Acho que nada... nunca levantei uma hipótese dessa... nunca imaginei... nunca me fizeram essa pergunta. Não me preocupa isso (risos). Não me sinto nem mais nem menos com o meu bigode, mas ele faz parte da identidade da gente, né?