Manoel Machado revela os principais problemas enfrentados por rodoviários na sociedade contemporânea - 30/04/2012
Bahia Notícias: A gente está em período de campanhas salariais de várias categorias e os rodoviários é uma delas. Inicialmente vocês pedem 8%. Como foi definida essa pauta de reivindicações?
Manoel Machado - A nossa pauta foi publicada no Diário Oficial para desenvolver o trabalho de maneira legal. No dia 20 convocamos uma assembleia para a aprovação da pauta. No dia 27 aconteceu a assembleia, no dia 29 foi entregue a pauta ao patronato já aprovada na assembleia no dia 27. E a nossa pedida, polêmica para a cidade, não é 8%, é 8% de ganho real mais a infração do período. Isso deve dar quase 14%. No entanto, a oposição está batendo falando que é 8%, mas não é.
BN: Teve um grupo essa semana que chegou a falar que na reunião isso não ficou acordado com todas as partes do sindicato, que teria havido algum tipo de boicote para que eles não participassem do encontro, e que a proposta desse grupo é bem diferente. Seria 30% de ganho, teria outros incrementos, redução de jornada de trabalho para seis horas. O que aconteceu para que não houvesse sintonia?
MM - Esse grupo é o mesmo que criou problema em 2009. Na eleição, ele perdeu o tempo para a inscrição de chapa e posteriormente veio querer se inscrever fora de prazo. A mesma coisa fez agora. Foi feito conforme a lei manda: dia 20 edital convocando a assembleia, dia 27 aconteceu a assembleia, foi aprovada a pauta, e no dia 29 foi entregue ao patronato, sendo que a lei exige que seja entregue até o dia 30. Quinze mil boletins foram entregues à categoria e em todas as redes sociais.
BN: Foi conversado com o diretor do sindicato, Hélio Ferreira, no dia que houve uma passeata do Campo Grande até a Praça da Sé e ele me informou que algumas reuniões estavam acontecendo para discutir o andamento da situação, se iria ou não haver greve, mas disse que ainda não tinha uma posição. Já foi decidido, vai haver greve?
MM - Hoje foi a 6ª rodada de negociação. Imagine que esse grupo, que fez a caminhada a qual se refere, apareceu na assembleia do dia 18 querendo inserir uma pauta, pauta essa que a única coisa que difere da nossa são os 30% de aumento, que é uma coisa irreal. Nas outras coisas, o que não está igual a nossa está superior. E em relação a greve, não havendo possibilidade nenhuma de negociar na mesa de negociação, com certeza iremos a greve. Isso acontece em todos os anos, a gente busca sempre a negociação mesmo, não havendo possibilidade termina em greve. E pelo que está desenhado até agora, hoje com a 6ª rodada sem avanço nenhum, tudo está indicando o caminho da greve, e estamos dispostos a fazê-la caso não sejam atendidas as principais exigências da categoria.
BN: E qual é o prazo que os empresários têm para dar uma resposta aos pleitos dos trabalhadores?
MM - Hoje foi aberto um novo calendário de negociações, onde tem duas previstas para os dias 3 e 8 de maio. Até o dia 8 de maio esperamos que tenha avanço, não havendo, nós vamos pedir a mediação da SRTE [Superintendência Regional do Trabalho e Emprego], e posterior a essa mediação da SRTE, continuando sem avanço, aí a greve acontecerá. E isso poderá acontecer por volta do dia 15, no início da segunda quinzena de maio.
BN: Uma coisa que a população sempre reclama é que nesses movimentos de protestos dos rodoviários a cidade acaba sendo prejudicada e não há uma pressão que seja mais efetiva ao patronato. Houve movimentos na campanha anterior de se fechar a estação da Lapa, de se parar ônibus em determinados locais para atrapalhar o trânsito, e isso poderia ser feito nas garagens das empresas ou de outra forma. A população reclama disso. Porque sempre a atitude é de empatar a mobilidade, mais ainda, de uma cidade que já trágica, em vez de fazer uma ação direta ao empresário?
MM - É porque a nossa categoria atinge diretamente ao passageiro, a circulação. É uma categoria que movimenta a cidade, principalmente essa cidade que o ônibus é um dos únicos meios de transporte. Mas, há uns dois ou três anos nós paramos de fazer esse tipo de manifestação. Já tem dois anos mais ou menos que estamos fazendo manifestações na garagem, para tentar evitar esse tipo de questionamento. No entanto, qualquer que seja a manifestação que façamos, a crítica vem dura para cima da gente. Porque mesmo em casa, ou você ficando na rua, o passageiro não vai ficar satisfeito em ficar sem o ônibus. Então, a nossa situação é um tanto crítica, e diante da necessidade da nossa mão de obra, o poder concedente deveria pressionar o patronato.
BN: Teve um episódio durante a última eleição, que foi a morte de Paulo Colombiano e Catarina Galindo, que eram do PCdoB , ligados a outro grupo dentro do sindicato. Na época, foi ventilada a possibilidade de ter sido um crime político. E tem o grupo de J.Carlos, o qual o senhor faz parte. Como vocês viram esse crime e dessa possibilidade, que ainda está sendo investigada, de crime político?
MM - Nós achamos aquela situação absurda, estamos sentidos até hoje pela perda do companheiro e da companheira. O companheiro Paulo já vinha junto com a gente. Já tinha deixado de ser oposição a gente há uns dois anos antes da eleição. Já tínhamos formado uma aliança para a próxima eleição e de repente acontece aquele absurdo. Mas o absurdo maior foram as acusações, praticamente diretas, do nosso concorrente da chapa perdedora. Eles usaram os meios de comunicação fazendo acusações, que foram escancaradas a mim e ao companheiro Jota. Com os comentários que fizeram, a polícia veio direto atrás de meus documentos na entidade que eu presido. Porque? Porque o pessoal da oposição direcionou mesmo a questão política. Aquilo ali eu achei um absurdo mesmo, achei que desviou o caminho correto da polícia. Espero que a polícia não tenha trilhado somente esse caminho, porque ele foi criado para tirar do rumo. A polícia levou tudo para revistar: computadores, livros, todas as contas nossas para investigar. Graças a Deus tudo foi devolvido à entidade. Contudo, estamos ansiosos, aliás, o movimento sindical brasileiro, sem falar de toda a população, para saber todo o acontecimento: quem matou, quem mandou.
BN: Dentro do sindicato alguém foi chamado para depor?
MM - Eu acho que todos ou quase todos. E tem mais uma. No dia seguinte, eu estava na entidade com tudo à disposição da polícia, porque o mais interessado era eu. Até hoje, eu tenho certeza, se eu não for o mais interessado, eu sou igual. Não tem ninguém mais interessado na resolução desse crime do que eu. Eu acho que a família deve estar ansiosa, mas eu devo estar igual. Na ocasião, a polícia me chamou para depor e eu fui sem advogado sem nada. A maioria dos funcionários também, sem preocupação nem nada.
BN: Esse grupo opositor responsável por essa acusação é ligado a qual partido?
MM - Hoje ele está ligado ao pessoal carlista. Eu acho que ele não é filiado, mas é ligado à política desse pessoal aí agora, mas eu nem sei verdadeiramente de que partido ele era. Ele é um cara totalmente avariado.
BN: Como é o nome dessa pessoa?
MM - O nome dele é Mário Cléber. Ele foi da Força Sindical, já foi expulso da força, mexeu no transporte alternativo, já expulsaram de lá também; tentou criar um sindicato urbano nosso aqui, tentou criar um metropolitano, tentou criar a Federação do Servidor Público, mas não teve sucesso. Ele não conseguiu mobilizar a nossa categoria e passou a tentar se envolver com os servidores públicos. Então, é um cara totalmente avariado. No sindicato do alternativo deu confusão e foi expulso. Vive assim. Eu tenho a impressão que ele não gira bem não.
BN: O pessoal do PCdoB hoje está junto com vocês?
MM - Continua junto com a gente. O diretor do sindicato, Hélio Ferreira, é do PCdoB, inclusive, e está com a gente. É o sucessor do companheiro Paulo, e isso nos trás a maior preocupação. Hoje eu ando com segurança, ele anda com segurança. Nós vivemos sem paz. Evito de ir até para lugares mais movimentados para estar andando. Eu gostava muito de frequentar a Abaeté para dançar, mas tive que parar de ir. Parei tudo isso aí porque ando preocupado. Tenho cinco filhos, doze netos, 58 anos, e tenho muito a viver ainda.
BN: Em nome do sindicato, o que esperam os rodoviários do próximo prefeito de Salvador?
MM - Com certeza esperamos que o próximo prefeito de Salvador que resolva as pendências da nossa categoria, que vem rolando desde o governo carlista e até hoje não se resolveu. As questões de terminais, as questões de multas desse sistema são um absurdo. Queremos que a questão de carga horária, o abuso de multas, as questões dos terminais sejam resolvidas. Além disso, queremos participar do conselho do carnaval e queremos gratificações no período do carnaval que temos, mas achamos o valor muito baixo. Então, temos uma pauta que é importantíssima para a categoria rodoviária e nós esperamos contar com o apoio desse candidato eleito.
BN: Diante do cenário instalado, o presidente garante que, mesmo em caso de uma deflagração da greve ou se não houver acerto nas próximas rodadas de negociações, não haverá manifestações com o fechamento das estações de grande circulação da cidade e, com isso, o impedimento do trânsito?
MM - Não, eu não estou garantindo isso. O que posso garantir é que vamos evitar ao máximo, vamos buscar uma saída negociada que não afete tanto a população. Agora, em determinado momento é inevitável a pressão, e quando fazemos pressão vai de encontro a população mesmo, não tem jeito. Paralisação de estação, por exemplo, nós estávamos prestes a fazer e hoje, ainda, estamos prestes a fazer, como manifestações na estação Pirajá, que está intransitável, insuportável, não tem estrutura nenhuma. Não tem banheiro, não tem água. Fica uma situação difícil. Então, nós estamos próximos a interditar. Isso poderá acontecer.
