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Bahia Notícias - A saída do deputado Reinaldo Braga (PR) da liderança da oposição na Assembleia Legislativa foi de fato um acordo já negociado em 2011, como foi dito? Ou foi o próprio deputado que pediu para sair ou os partidos que pediram para que ele deixasse o cargo?
Paulo Azi - Houve um entendimento no início de 2011 para que houvesse um rodízio de todos os partidos que fazem parte da bancada de oposição. No primeiro ano foi o PR, este ano é o DEM, possivelmente no próximo ano deve ser o PMDB ou o PSDB, mas isso efetivamente foi acordado. Até porque, entendemos que é uma maneira de oxigenar a oposição. Oxigena-se o discurso. É algo novo que está se iniciando e é uma forma de fortalecer a oposição. Houve este entendimento. Diversos deputados, inclusive, propuseram que o deputado Reinaldo Braga continuasse, mas ele próprio achou por bem confirmar esse entendimento que havia tido no início da sua gestão. Então, foi perfeitamente acordado e consensual.
BN - E como a oposição chegou ao seu nome para comandar a minoria na Casa?
PA - O próprio Reinaldo Braga sugeriu. Lá atrás, em 2011, coincidentemente fui eu que sugeri o nome dele. Eu não sei se foi uma maneira de retribuir, mas ele sugeriu e, pela relação que nós temos na bancada, o nosso nome foi aceito pela unanimidade.
BN - Muitos dizem que o deputado Reinaldo Braga teria sido um líder de oposição muito brando. Qual a avaliação que o senhor faz do deputado à frente da oposição e o que o senhor pretende fazer de diferente?
PA - Na realidade, Reinaldo Braga tem um estilo próprio. Pela sua experiência, de muitos anos na vida pública, ele tem um estilo muito moderado. E essa moderação foi transferida para a atuação dele. No primeiro ano de um governo reeleito, a oposição tem que ter uma atuação moderada. Um governo que continua respaldado pela vontade popular é necessário até que se dê um certo tempo para que esse governo comece a mostrar a que veio. Então, não cabe à oposição logo no início de governo já partir para o enfrentamento. Por isso que, na época, nós entendemos que Reinaldo tinha um perfil adequado para assumir a liderança. Agora já muda o foco. Já estamos praticamente no segundo ano de governo e é necessário que a oposição tenha uma atuação mais aguerrida e mais vibrante. É claro que nós não temos a pretensão de derrotar o governo nas votações. O que nós queremos é tentar fazer com que a nossa voz, a voz da oposição, seja a voz das insatisfações da sociedade em relação à atuação do governo. Esse é o nosso principal objetivo e desafio. E nos utilizando disso, nós podemos dar a nossa contribuição. Aliás, no próprio período da liderança de Reinaldo Braga, foi a oposição que, mesmo não tendo votos para derrotar o governo, mas, ao denunciar determinados pontos, trouxe benefícios diretos à população. O projeto do Planserv, por exemplo, que era muito ruim, ficou menos pior em função da maneira com que a oposição o denunciou à sociedade. Agora, na discussão do projeto da Polícia Militar, foi a atuação da oposição que fez com que o governo recuasse e alguns pontos, inclusive aquele que vinculava a hierarquia ao benefício da GAP (Gratificação de Atividade Policial). Então, nós entendemos que não temos condição de derrotar o governo nas votações, mas temos a condição, com a nossa voz e com o nosso posicionamento, de forçar o governo a recuar em determinados pontos que nós entendemos que podem ser prejudiciais à sociedade.
BN - Quais os setores que a oposição se concentrará mais em cobrar do governo do Estado?
PA - Nós vamos primeiro tentar ampliar os nossos mecanismos de fiscalização. E aí engloba todas as áreas do governo. O governo tem um discurso de muita transparência, mas, na realidade, a transparência do governo é mais uma peça de propaganda do que efetivamente uma realidade. Nós já estamos oficializando, fazendo alguns ofícios ao secretário da Fazenda e o de Planejamento no sentido de que eles, definitivamente, deem à oposição as condições para que ela possa exercer o seu papel de fiscalização. O Transparência Bahia tem dados editados que o governo coloca o que quer. Coloca hoje um dado, amanhã, se esse dado não for interessante, ele retira. Nós queremos fazer um acompanhamento online da execução orçamentária do governo e, para isso, precisamos que o governo libere os instrumentos próprios para isso. Eu fiquei muito surpreso com uma declaração do líder do governo, deputado Zé Neto, dizendo que não poderiam fornecer esses dados porque o sistema não era seguro. Coincidentemente, era o discurso que na época o ex-governador dizia que realmente o sistema não era seguro e, naquela época, já tinha contratado uma empresa para poder fazer um novo sistema que possibilitasse a divulgação, não para a população em geral, mas para o Poder Legislativo, porque é a nossa função constitucional fiscalizar as ações do governo. Esse é um ponto. O outro ponto é focar nas questões ligadas à sociedade. Nós entendemos que a crise da Segurança Pública é algo que o governo tem que tomar uma decisão de enfrentar definitivamente. Salvador é a capital com maior taxa de crescimento de homicídios do país. É a quarta capital brasileira mais violenta do Brasil e a 22ª cidade mais violenta do mundo. Enquanto isso, o governo, neste último ano, do total de investimentos aplicados, R$ 1,7 bilhões, aplicou em Segurança Pública apenas 1,69%. Portanto, existe um problema claro de má gestão e falta de projeto. Isso se reflete na mudança contínua, seja do secretário de Segurança, seja do Comando da Polícia Militar, aliás já se fala em uma nova alteração no Comando da PM. Então falta projeto, falta gestão e falta prioridade, porque é um governo que não destina recursos suficientes para enfrentar o problema. A outra coisa que nós estamos observando claramente é uma diminuição da alocação de recursos em Educação. Quando esse governo assumiu, o orçamento do Estado, da receita corrente líquida, quase 30% era investido em Educação. Ele ano a ano vem reduzindo e, no último ano, foi a maior diminuição de recursos para Educação nos últimos 10 anos. Era 30%, foi para 29%, 28%, 27%, 26% e agora está em 25 e alguma coisa, que é o limite constitucional. Ele praticamente chegou ao mínino que ele pode aplicar em Educação. E isso se reflete na absoluta falta de projeto nessa área. O governo usa o Topa [Todos pela Alfabetização] como algo de peça de publicidade, propaganda e de marketing, mas você não vê nenhum projeto consistente, a médio e longo prazo, que modifique a face da educação na Bahia, que foi considerada a pior educação do Brasil. E isso é dado oficial. Levantamento feito no final do ano passado constatou que a Bahia tem a pior Educação do país e a 22ª pior saúde pública do Brasil. Então, esses são os dados oficiais que o governo teima em não querer enfrentar. E aí se utiliza de uma propaganda maciça e poderosa tentando fazer com que as pessoas enxerguem ou imaginem outro universo que não é a realidade.
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BN - Você denunciou outro dia um rombo de R$ 2 bilhões nas contas do governo estadual, que já anunciou um contigenciamente para este ano que poderá chegar a R$ 750 milhões. Agora, o governo pediu um empréstimo que já foi aprovado pelos deputados. Como o senhor vê essa questão?
PA - Com relação ao empréstimo, a oposição colocou algumas emendas que, se fossem aceitas, a oposição poderia, inclusive, votar a favor. A oposição fez uma emenda para que ficasse explícito que este empréstimo seria destinado exclusivamente para ações ligadas a infraestrutura e inclusão social. Ou seja, recursos diretamente destinados a investimentos. E que o governo apresentasse um plano de aplicação desses recursos. Então, se o governo atendesse a essas emendas, a oposição poderia até votar a favor. O governo simplesmente não aceitou. E por que não aceitou? Porque nós sabemos que, infelizmente, parte desse recurso será utilizado para o pagamento das suas despesas correntes, como foi feito em 2009, quando quase metade dos R$ 500 milhões, também tomados de empréstimo, foram utilizados para pagamentos de despesas correntes. E o governo tem uma lógica muito simplista de se lidar com esta questão. Ele gasta mal, gasta desordenadamente, principalmente. Isso ocorreu em 2010, ano das eleições. E ficou comprovado, agora quando ele apresentou o demonstrativo de execução fiscal, que o governo faz malabarismo contábil. Como o recurso vai para um caixa único, ele tira de um lugar e coloca em outro. Então, ele cometeu uma ilegalidade ao utilizar recursos que são vinculados, que têm aplicação e destinação específica como o Fundeb, Planserv, Fundo de Combate à Pobreza. Todos esses recursos têm uma destinação específica por lei. É a lei que diz que, por exemplo, o Fundo de Combate à Pobreza só pode ser utilizado em determinadas situações. Mas o governo se fez de cego e aí esses recursos que deveriam ter essas aplicações foram utilizados para cobrir as suas despesas correntes, que é ilegal, e o buraco está lá. E ele só tem duas formas de tapar esse buraco, porque será obrigado a demonstrar que utilizou esse recurso nesta destinação. Prefeitos têm contas rejeitadas ano a ano muito por conta disso. No final do mandato dele, se isso ficar comprovado, terá problemas sérios. Então, ele só tem duas formas de cobrir isso: fazendo um ajuste fiscal muito grande, economizando, cortando despesas ou apelando para o empréstimo. E é isso que o governo tem feito ao longo dos quatro anos. Para se ter uma ideia, com este empréstimo que foi aprovado agora de US$ 700 milhões, nós chegamos à marca de R$ 5,2 bilhões que o governo já tomou de empréstimo. Isso é uma conta que virá lá na frente, porque esses empréstimos geralmente são pagos a médio e longo prazo, então não será ele que pagará. Esse é o quadro geral e a situação da Bahia nesse aspecto de arrecadação é muito ruim. Aliás, é o reflexo da situação econômica que nós vivemos. A Bahia deixou de ser a 6ª economia do Brasil e foi ultrapassada por Santa Catarina. Possivelmente será ultrapassada agora pelo Distrito Federal, em que passará de 6ª para 8ª economia. Isso significa menor crescimento econômico. Aliás, os números oficiais comprovam que, esse último ano, a Bahia cresceu dois pontos percentuais, abaixo da média do Brasil, que foi 2,7% e muito abaixo da média dos principais estados do Nordeste. Pernambuco cresceu 4% e Ceará cresceu 3,3%. Então, a Bahia tem crescido muito menos e, consequentemente, diminuido a sua arrecadação própria. A arrecadação de ICMS da Bahia, a sua principal fonte de receita, em 2011, foi a 25ª menor arrecadação de ICMS do Brasil, e isso é um reflexo do baixo crescimento econômico. Infelizmente, essa é a realidade.
BN - Então, podemos afirmar que a máquina pública estadual está parada? Não há investimentos no estado?
PA - Muito pouco. Observem, por exemplo, essa questão grave que a Bahia atualmente está enfrentando por conta da seca. O governo, mais uma vez, tem aí mais uma peça de propaganda que é esse ‘Água para Todos’. Se nós fomos avaliar quais foram as ações estruturantes feitas nos últimos cinco anos de efetivo combate à seca, você não encontra. Os governos anteriores tinham um programa claro de fortalecimento da estrutura hídrica do interior do estado, como a construção de grandes barragens e de grandes adutoras, que contribuíram para diminuir, e muito, o sofrimento da grande maioria das cidades do interior que estão no semiárido. Não se construiu uma barragem no governo Wagner; uma grande adutora de distribuição de água não existe. O governo se concentra na construção de cisternas, que é bom e importante para cada pessoa ter a sua captação própria de água, mas serve apenas para a pessoa beber e cozinhar. Não é um insumo que pode ser utilizado na produção e na geração de força de trabalho. E aí, no ano passado, o governo gastou em torno de R$ 106 milhões em todas as ações destinadas ao fortalecimento da infraestrutura hídrica. Este ano, o orçamento já foi reduzido para R$ 56 milhões, e olha que todo mundo já sabia desde o ano passado que iríamos agora enfrentar um período de seca complicado. Então, o governo reduziu praticamente à metade do seu orçamento do ano passado para este ano de recursos destinados à seca. E, neste ano, nós já estamos no final de março, dos R$ 56 milhões previstos, o governo só investiu pouco mais de R$ 4 milhões. Então, é um governo paralisado que produz muito no discurso e na propaganda, mas efetivamente nas ações não se encontra.
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BN - O senhor acha que o governador Jaques Wagner inaugura ações como a Fiol e o Porto Sul até o final do seu mandato?
PA - Primeiro são ações que não têm um centavo do governo do Estado. A construção da Ferrovia Oeste-Leste e do Porto Sul, que são ações importantes, mas são as únicas ações indutoras de desenvolvimento no estado, com visão de futuro que existe na Bahia, são feitas pelo governo federal. Se nós formos comparar com outros estados nordestinos é um pingo d’água no oceano. Mas são ações do governo federal que enfrentam sérios problemas, muitas delas por falta de planejamento e de gestão. O Porto Sul, que já é alardeado há mais de um ano, ainda está se discutindo a questão ambiental. A Ferrovia Oeste Leste em muitos trechos não há nem sinal de início de obras. E isso por quê? Falta de planejamento, erro no projeto por ter sido feito às pressas, tem áreas de reserva indígenas que a ferrovia está cortando, e aí aparecem os problemas ambientais. Enfim, uma série de questões que demonstram que foram obras que não tiveram o planejamento devido. Mas, são ações do governo federal. Você veja que agora, nessa crise que os municípios estão enfrentando com relação à seca, você não viu uma única ação concreta do governo do Estado. A única ação foi ir ao governo federal pedir ajuda. Mas e ele? O que ele vai fazer? E os recursos do Estado? Porque não são disponibilizados para ajudar os municípios para o interior? É muito simples e muito fácil ter um problema e ir lá no governo federal e transferir o o problema ao invés de assumi-lo. O problema é do Estado, a responsabilidade é do Estado, então o Estado tem recursos que podem ser alocados também para ajudar, mas não, simplesmente vai lá e joga a responsabilidade no colo do governo federal.
BN - Como é que está o andamento do caso do deputado Rogério Andrade (PSD)? Qual a opinião do senhor neste processo que poderá beneficiar um colega seu de partido?
PA - Eu não estou acompanhando muito esta questão. A informação que tenho é que foi designado o deputado J. Carlos [PT] como relator. J Carlos teria dado um prazo para as partes se pronunciarem e posteriormente ele dará um parecer. Eu ainda não conheço quais são as justificativas que o deputado Rogério vai apresentar. Mas as justificativas que foram apresentadas na Comissão de Constituição e Justiça, não por ele, mas pelo relator, não são convincentes. Agora, o regimento e a própria Constituição falam nas ressalvas que são feitas para justificar as ausências. Então, teremos que esperar quais são as justificativas que ele vai apresentar para ver se se enquadra nas exigências que estão previstas tanto na Constituição quanto no regimento interno. Isso é uma coisa pessoal e cada deputado tem a sua postura. O partido fez a solicitação atendendo a um pedido do suplente [Carlos Gaban]. Cabia ao partido fazê-lo para atender a um filiado. Agora, como isso vai se desdobrar, dependerá muito de como essa questão será tratada na Mesa Diretora. É lá que será resolvido. A decisão, neste caso, não irá nem a plenário. A decisão é exclusiva da Mesa e é ela quem vai decidir. Quem se sentir prejudicado tem a Justiça para recorrer.
BN - Você também foi convidado a integrar o PSD, assim como Rogério Andrade, Gildásio Penedo e outros tantos do Brasil afora que trocaram o Democratas pelo partido de Gilberto Kassab e de Otto Alencar aqui na Bahia. Por que não aceitou o convite?
Na realidade, eu não cheguei a ser convidado. Sempre tive uma relação de amizade com o vice-governador Otto Alencar. Sou uma pessoa amiga dele, sempre que nos encontramos discutimos e falamos de política. Naquele período, em algumas ocasiões, nos encontramos casualmente e tratamos de questões, mas nunca houve nenhum convite formal. Até porque, ele sabia do meu posicionamento. Primeiro, a existência da oposição é fundamental para que você possa ter uma democracia consolidada e, segundo, é muito importante para a política e para os políticos a manutenção das suas coerências. É muito chato isso e é um dos motivos que a cada dia a opinião pública tem uma imagem ruim dos políticos por causa dessa mudança de lado. Eu não me sentiria bem e à vontade a continuar tendo uma trajetória política, virando as costas para tudo o que eu acreditava. Então, os principais atores do governo já sabiam desse posicionamento meu e, por isso, nunca houve um convite formal. O que a gente lamenta é essa nítida atuação do PT na tentativa de esmagamento da oposição. O partido se utiliza do aparelho do Estado para fazer as cooptações e para diminuir as forças das oposições. Na última eleição, o resultado das urnas colocou 33 deputados do governo e 30 da oposição. Isso seria bom para a democracia. A oposição fortalecida seria até bom para o governo, mas a ótica do governo não é essa. É esmagar a oposição e, ao mesmo tempo, com essa maioria esmagadora, dificultar os instrumentos de fiscalização ao próprio governo. Nós hoje na Assembleia Legislativa temos uma dificuldade enorme por falta de número regimental até para aprovar um simples requerimento de informações, porque o governo não permite. Quando o governo sabe que nós vamos tentar aprovar um requerimento nas comissões, eles [os deputados da base] simplesmente não dão quórum. É um viés político no sentido de esmagamento da oposição, mas também de impedir que a oposição se utilize dos instrumentos regimentais para fiscalizar o governo. Então, esse discurso da transparência, mais uma vez, não se observa na prática.
BN - Esse enfraquecimento da oposição na Assembleia Legislativa se dá muito pelo enfraquecimento do DEM, um fenômeno que não ficou isolado na Bahia, mas aconteceu em todo o Brasil. Como o senhor avalia esse enfraquecimento? O partido caminha para ser extinto e as pessoas devem fundar outro partido com outras legendas de oposição?
PA - Nós não tínhamos uma experiência de militar na oposição. Isso criou uma dificuldade enorme para o desempenho desse papel, que só agora estamos começando a aprender, mas comparado ao PT, estamos engatinhando. Outro aspecto é que existe uma cultura do adesismo. Você tem de um lado um governo que abre as portas do seu aparelho estatal para cooptar e do outro você tem um desejo de uma classe política de pertencer a um governo, seja ele qual for. Então, a conjunção desses dois fatores, fatalmente, dá aquilo que ocorreu de um enfraquecimento que não foi só do DEM, mas de todos os partidos de oposição, não só na Bahia como no Brasil. De uma forma tal que a oposição é hoje muito maior na própria população do que na representação da classe política. A oposição que saiu das urnas, da vontade popular, era muito maior do que ela é hoje, em função da diminuição que ocorreu, exatamente por esses dois fatores. Do desejo de ser governo e da cooptação que o governo realizou. Isso é um fato. Cabe [a crítica] àqueles em que optaram em ficar na oposição, e só quem faz esse tipo de opção é quem tem ideais e acredita em um modelo diferente. Ninguém fica na oposição obrigado. No governo pode até ficar obrigado, mas na oposição não.
BN - E o caminho é fazer uma nova legenda?
PA - Essa discussão existiu naquele período em que surgiu esse novo partido. Existiu uma discussão em nível nacional de uma fusão com PSDB, ou com o PMDB, mas esse assunto foi, eu não diria totalmente abandonado, esquecido. O futuro do partido passará pelo resultado das eleições de 2012. A maneira como ele vai sair das urnas é que identificará o caminho que deve seguir. Se deve continuar e tentar se fortalecer ou partir para um entendimento de fusão a outro partido. Eu, pessoalmente, acho que esse pluripartidarismo no Brasil é um dos grandes erros que temos no nosso sistema político. Se formos ver o que existe em outras partes do mundo, você não encontra nada nem parecido com o Brasil. Vinte e sete partidos. Isso é um absurdo, principalmente quando se fala de oposição. Já é muito difícil você estar na oposição e fazer oposição, e ainda fragmentada, dividida e com discursos de que o objetivo é único, mas os caminhos são diferentes. Isso causa uma dificuldade muito grande. Então, essa análise tem que ser feita e será aprofundada depois das eleições.
BN - O episódio em Itabuna na semana passada, durante a Assembleia Itinerante, seria uma reação natural da população. Como o senhor disse, dos 30 eleitos em 2010 para fazer oposição, mais da metade se tornou governo. Isso seria uma traição ao eleitor? Por conta disso, houve a reação dos itabunenses?
PA - Claro que houve uma traição. O eleitor, quando votou em Paulo Azi, votou acreditando nas ideias que Paulo Azi apresentou e no discurso de Paulo Azi, que era contrário ao governo. Então, houve efetivamente uma traição. Agora, o que aconteceu em Itabuna é um reflexo da insatisfação que nós estamos começando a observar no seio da população. Houve, realmente, uma reação espontânea muito grande contrária ao discurso do governo. Isso ficou claro no evento em Itabuna. Deputados do governo não conseguiram falar e foram vaiados. E foi um episódio espontâneo. Ali não foi nada organizado, preparado e isso é um reflexo da insatisfação que nós começamos a observar em diversos setores da sociedade.
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BN - Como o senhor avalia a questão do senador Demóstenes Torres, do seu partido, que é acusado de envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira?
PA - Para mim, foi uma surpresa muito grande. Eu tinha o senador Demóstenes Torres como um dos quadros, não só do DEM, mas da política brasileira na mais alta conta. Agora, o DEM foi o único partido que teve até hoje a coragem de expulsar um governador do Estado de suas fileiras [José Roberto Arruda, do Distrito Federal, por corrupção]. E isso muitas vezes não é reconhecido. O partido teve a coragem de, ao identificar que o governador praticou atos contra a ética e a moral, expulsá-lo. E é o caminho agora. Não tenho dúvidas de que, se realmente ficar comprovado que o senador Demóstenes cometeu atos que desabonem a conduta do parlamentar, ele será afastado do partido. Agora, é preciso que ele tenha o direito de se defender. Se ele não conseguir se defender e convencer a população de que a relação dele com esse cidadão não ultrapassou os limites da ética, ele será afastado.
BN - O senhor acredita ainda na propagada união das oposições para disputar a prefeitura de Salvador? O DEM abriria mão de lançar a candidatura do deputado ACM Neto? Qual cenário seria possível?
PA - A gente sente muito claramente que existe um desejo dos partidos de oposição de conseguirem encontrar um caminho que signifique a união. Até porque, isso é quase que uma exigência da população de Salvador. Nós observamos também uma tendência e uma insatisfação da população, o que leva um desejo de mudança que represente uma mudança ao que está aí, tanto à prefeitura quanto ao governo do Estado, que são os dois responsáveis pelo caos que Salvador vive. Então, existe um sentimento muito forte de mudança e de que as oposições marchem juntas. Agora, se por um lado esse desejo é concreto e real, existe pelo outro os interesses de cada partido. É legítimo que cada partido procure se fortalecer e crescer. Existe também as especificidades de cada um dele. Essa questão da postura política do PMDB, efetivamente, é dificultadora por ser oposição aqui e ser governo em Brasília. Eu ainda acredito que venha existir a união, se não total, mas pelo menos parcial, e que ela se consolide em um eventual 2º turno. Agora, o deputado federal ACM Neto, nas conversas que sempre teve, nunca colocou a candidatura dele como imposição ou algo irreversível. Ele sempre colocou a candidatura dele como algo que estava posto na mesa, mas também aberto a composições. Eu não teria condições de dizer aqui em qual cenário ele poderia não ser candidato. Mas eu imagino que, ele ou qualquer outro, tem que ter um cenário em que todos ganhem. Que os horizontes de 2012 e 2014 fiquem claros e que todos ganhem e que não tenha nenhum derrotado. Que aquele que, por ventura venha a desistir, não saia derrotado, mas que saia vitorioso nesse processo. Então, se for possível construir esse cenário, em que todos serão vencedores, aí sim será possível que exista esse entendimento da candidatura única, que é um desejo pessoal meu, é o desejo da maioria da população de Salvador e é também o desejo das principais lideranças dos partidos.
BN - Tudo isso que aconteceu em Salvador é uma questão nacional, em que DEM e PSDB têm que chegar a um entendimento sobre as candidaturas de José Serra, em São Paulo, e Aécio Neves, para presidente. Paulo Azi defende que, em 2014, o DEM apoie a candidatura de Serra, Aécio ou defende um nome próprio do partido?
PA - Essa relação com São Paulo é natural, e não ocorre apenas com o DEM e o PSDB. Existe uma negociação quase que geral entre os partidos, no sentido de que cada partido, onde se achar mais forte, procure os demais partidos para receber o apoio e oferecer o apoio em contrapartida em cidades em que a situação é inversa. Eu ainda enxergo o cenário de 2014 muito longo. Eu não advogo a tese de várias candidaturas na oposição. Isso enfraquece a oposição. Eu não enxergo 2014 com o PSDB com um candidato e o DEM com outro, porque se partidariamente é importante, porque fortalece o partido, para um projeto de retomada de poder é prejudicial. Mas isso está muito longe. O ex-governador José Serra é candidato a prefeito de São Paulo, possivelmente vencerá as eleições e já tem declarado que não vai postular a candidatura [a presidente], porque ficaria muito mal para ele. Então, existe a figura do senador Aécio Neves, nome nacional, de muita força política em Minas Gerais, e já se articulando em outros estados. Possivelmente, deverá ser o nome natural. Mas isso não quer dizer que não aparecerão outros nomes. É natural, em um momento próprio, que algum nomes possam surgir. Eu só espero que se busque um entendimento para que essa disputa interna, que é saudável, não ultrapasse o limite da boa convivência e que não venha a prejudicar os passos futuros. Mas ainda estamos um pouco distantes desse horizonte.
BN - A única certeza seria que, em 2014, o PMDB não deverá marchar com esses partidos?
PA - Dependerá do arranjo que se construir aqui. Eu sinto o PMDB, em nível estadual, muito próximo do PSDB e do DEM. Não vejo como, não sinto nenhum desejo, nenhum sinal de aproximação do PMDB com o PT. Sinto que existe um distanciamento muito grande, quase que definitivo. Eu imagino que vamos estar juntos em 2014. Agora, qual cenário, como isso vai ocorrer, dependerá muito de como as coisas serão encaminhadas aqui na eleições de Salvador. Principalmente em Salvador, porque em 99% dos municípios do interior já houve o entendimento de candidatura praticamente única. Se construir esse consenso em Salvador, será um caminho natural, até porque esse consenso passará fatalmente pelo arranjo em 2014. Então, a tendência natural é a de que nós estejamos juntos lá na frente.