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Entrevista

Gilberto Gil critica gestão de Salvador, disse estar preocupado com o “déficit” de João Henrique e se mostra pessimista com o futuro - 05/03/2012

Por Evilásio Júnior

Gilberto Gil critica gestão de Salvador, disse estar preocupado com o “déficit” de João Henrique e se mostra pessimista com o futuro - 05/03/2012
Fotos: Thiago Barros/ AgFPontes/ Bahia Notícias

Bahia Notícias – Qual o balanço que você faz do carnaval deste ano?

Gilberto Gil –
Eu não gosto de fazer balanço. Eu vi coisas muito boas, muito lindas, especiais, como sempre, e coisas complicadas. Eu vi pouca violência esse ano...

BN – Também estava mais vazio...

GG –
É, estava mais vazio. Eu não vi nenhuma briga. Nos outros anos eu sempre via alguma escaramuça, esse ano não vi nenhuma. Eu fico pouco na rua, também. Mas eu venho a pé de casa para o camarote, passando assim meio solto pelos lugares. Quer dizer, hoje em dia, com os aspectos de acúmulo de pessoas, de variedade de gêneros e procedências, já é difícil distinguir o circuito da cidade do circuito da Barra. A Barra hoje já mistura muito. Vem gente de todos os lugares: classe média, gente muito pobre, enfim, antes você podia ter esses cortes sociológicos, socioeconômicos para poder, de certa forma, quantificar um pouco mais essa questão da violência, da exclusão, da questão sanitária. De uns anos para cá, eu tenho a impressão de que o carnaval da Bahia é o mesmo em todas as áreas. Um carnaval plurissocial, pluriantropológico e plurieconômico. A classe média já se habituou a ir para a rua, estabelecer o convívio com todo mundo, sem muito problema. Elege o carnaval para fazer isso. O carnaval é o momento de exercício dessa solidariedade, dessa dimensão solidária, de estarem todos juntos, brincarem e viverem. Filhos de Gandhy é um exemplo disso; os meninos dos Filhos de Gandhy vão trocar colares por beijos indiscriminadamente com todo mundo: com as turistas, com as meninas daqui, com as meninas da classe média. Então, é isso que a gente vê nos últimos carnavais e nesse não foi diferente. A greve da polícia deixou um certo trauma, que, de certa forma, também estimulou uma atitude mais proativa, tipo ‘eu vou me virar para fazer esse carnaval da melhor forma possível’. Como ele estava mais vazio também, e acho que por consequência, entre outras coisas, da desconfiança da capacidade de se policiar o carnaval, nesse sentido, tenho a impressão de que o carnaval é positivo. Achei também que a chuva ajudou, de certa forma, a manter uma temperatura mais baixa e a baixar o índice de fermentação dos detritos e da urina na cidade. Isso, de certa forma, ajuda. A água purifica levando a fermentação para o esgoto, propriamente, em vez de deixá-la no ar.

BN – Em termos artísticos, o que você entende como diferencial da festa em 2012?

GG –
Do ponto de vista da alegria, da folia, propriamente ditas, os trios passaram quase todos muito bem, com muito boa qualidade sonora, do ponto de vista técnico, e com boas performances. Em geral, nada fora do comum. O Harmonia do Samba trouxe o samba, processando essa última camada de transformação pela qual passa o carnaval da Bahia, que é justamente a chegada do samba-de-roda. Ele é responsável por isso: ele está em uma ponta inicial e o Psirico está em uma ponta atual. E aí você vê Daniela muito bem, que é uma coisa performática dela, enfim, sempre trazendo para a avenida os resquícios de bailarina clássica que ela foi ou pelo menos tentou ser na juventude. Margareth muito bem. Ivete excepcional, com uma banda que eu diria é a melhor banda do carnaval, mais completa, mais correta, mais técnica, mais ensaiada, mais arrojada no sentido da relação pop com o tradicional do carnaval. O Jau, muito bem. Magary Lord aparecendo como uma grande novidade, ocupando esse espaço anual do emergente que surge no carnaval da Bahia. Anos atrás você teve o Tomate, o Psirico.


BN – Em relação ao Camarote Expresso 2222, notamos uma mudança grande, com uma redução significativa no número de convidados...

GG –
Benéfica. O espaço ficou mais amplo nesse lugar que a gente ocupa há dois anos. Ano passado nós tínhamos dois andares e esse ano um só. A boate, que é o espaço da madrugada, da juventude, o espaço ‘balada’, ficou no meio do camarote, aberto, sem ser recluso, sem ser uma área específica e isso ajudou ao camarote inteiro a vir. O som também do Rodrigo Penna, que foi o DJ permanente este ano, ficou para dentro e fica para fora. Então, a balada do camarote também esteve na rua.Você passava 3h, 4h e ainda tinha centenas de pessoas nas ruas dançando com a música do camarote. Um baile aqui e um baile lá fora. Uma coisa que, na verdade, foi a varanda elétrica que possibilitou essa intermediação, porque foi o som da varanda elétrica que foi lá para fora e os foliões que se juntaram com as performances da varanda elétrica, desde o fim da noite até a madrugada. Nos outros aspectos, o camarote continua a ser uma extensão da folia. O camarote que foi feito para a família, a pedido dos meninos, a pedido dos filhos, e aí, aos poucos, foi estendendo o alcance, com a chegada dos patrocinadores. Mas o espírito ainda é esse. Flora recebendo, recepcionando os convidados, e eu interagindo com as pessoas o tempo todo. Enfim, é um camarote da gente mesmo e essa característica foi mantida e, enquanto o camarote existir, tenho a impressão de que essa vai ser a característica dele.

BN – Esse modelo vai ser mantido em 2013, com menos convidados, espaço mais amplo e interação mais próxima? A tendência é essa?

GG –
A tendência é essa, porque funcionou muito bem. De todas as pessoas, é quase unânime a avaliação da melhoria que foi fazer dessa forma. Eu acho que todos ficaram satisfeitos. A produção ficou satisfeita, os convidados ficaram satisfeitos, os patrocinadores ficaram satisfeitos, a imprensa ficou satisfeita. Então, a tendência é essa: encontrar um bom termo sobre a dimensão e o tamanho.

BN – Nem bem acabou o carnaval e o baiano já começa a se preparar para o São João. Para Gilberto Gil, vai ser um São João especial, afinal, dia 26 de junho completa 70 anos, sete décadas de uma vida vitoriosa. O que você pretende trazer de novidade para as festas juninas este ano?

GG –
(Risos) Eu não sei. A Flora vai fazer, já pelo terceiro ano, o São João carioca, que é uma festa junina no Rio de Janeiro, em um grande parque, em uma grande área pública, gratuita, para 200, 300 mil pessoas. Nos dois primeiros anos foi uma noite e neste terceiro ano serão duas noites. A primeira será pilotada pela Ivete e a segunda pelo Zeca Pagodinho, também com vários convidados. Isso será já na temporada junina, mas no pré-São João, na primeira quinzena de junho. E eu, como vou estar um pouco envolvido com este trabalho e um pouco com a ida à Europa – Olimpíada de Londres, onde eu vou ter uma atividade artística um pouquinho mais intensa na Inglaterra do que tenho tido em anos anteriores, e de lá vou estender a minha excursão para o resto da Europa –, vou cuidar um pouco disso. Também vou estar muito absorvido pela Rio+20, que também vai acontecer no mês de junho e vai implicar em atividades de militância ecológica e ambientalista, mas também artística, com alguns eventos dos quais eu vou participar. Então, no São João deste ano eu vou ficar um pouco menos envolvido. Nos anos anteriores, eu saí para tocar no interior da Bahia, no interior de Pernambuco, no interior do Ceará, da Paraíba, e nas cidades principais desses estados. Dessa vez, a minha participação vai ser mais retraída.

BN – Sobre os 70 anos especificamente, o que é que Gil prepara? É um momento de celebrar, de reflexão ou uma data comum mesmo? Pensa em fazer alguma comemoração?

GG –
Eu, nada. Particularmente, eu não estou querendo fazer uma festa especial nem nenhum projeto especial para comemorar, mas vejo que há movimentações em torno de mim. Várias pessoas que querem: é um livro, um show, um evento qualquer para celebrar, e eu não tenho dito não. Penso que vai acabar acontecendo qualquer coisa desse tipo aí para servir de comemoração. Claro que eu vou ter, de alguma forma, que contribuir para esses projetos, mesmo que não sejam de minha iniciativa, mas eu também não vou me movimentar para fazer nada especial.


BN – Você falou de militância, no Rio+20, e esse é um ano eleitoral. Você está afastado politicamente do PV, mas pretende apoiar, pelo menos com ideias, o debate da sucessão de prefeito em Salvador?

GG –
Na medida em que houver algum grupo de formadores de opinião, de pessoas influentes, que queira desenhar um esboço de crítica, no sentido daquilo que devemos nos livrar e no sentido construtivo daquilo que devemos alcançar, eu farei parte. Pessoalmente, eu não tenho nada para receitar para a cidade. Eu acho que o modo de se mexer das sociedades contemporâneas, principalmente em cidades grandes e importantes, como é o caso de Salvador, já é muito proativo, democrático, no sentido de que as pessoas têm visão crítica de modelo desejável de cidade e têm uma visão crítica profunda sobre transportes, sobre a urbanização, mobilidade urbana e a questão ambiental. A internet favoreceu muito a proliferação de protagonismos individuais ou microssociais, no sentido de pequenos grupos que se juntam. De gente não-especialista que se junta com especialistas, gente da academia, ciência e técnicos. Então, eu acho que isso vale. A cidade, no momento eleitoral, vai contar com esse acervo, digamos assim, de atitudes e de iniciativas da própria sociedade. Eu me juntarei a qualquer ou a quaisquer alguns deles na medida em que for chamado (risos), solicitado e etc. (muitos risos). É isso.

BN – Mas o que você acha que é o principal desafio que o próximo prefeito terá que enfrentar, você que vive no Rio de Janeiro, mas conhece muito bem a cidade e acompanhou as transformações nem tanto positivas pelas quais Salvador passou? Qual é o principal calcanhar de Aquiles da capital da Bahia hoje?

GG –
O calcanhar de Aquiles é a falta de atenção e cuidado por parte da administração. É a principal queixa e eu acho que é justa. A prefeitura atual, por razões que eu não posso nem propriamente identificar, tem uma certa desatenção com as questões da cidade, com as questões da urbanização, com as questões da construção civil, da limpeza pública, da ocupação e da regulação da ocupação dos espaços, dos transportes. São, de fato, problemáticas clássicas das obrigações, dos encargos da gestão municipal, e há uma ostentação de que essas são as questões que se ressentem de uma certa negligência da gestão atual.

BN – Ambientalmente, Salvador está muito aquém do que é feito em termos de sustentabilidade no mundo?

GG –
Essa é a questão. O uso do solo urbano, as territorialidades, que são para atender à construção. Assim como o atendimento à demanda habitacional. A demanda pela criação dos parques, na visão metropolitana do lazer público. A limpeza pública, a questão das praias, a questão da orla.


BN – Agora foi permitido até, com o aumento do gabarito da orla, que prédios façam sombreamento nas praias...

GG –
Essa é uma questão antiga e a cidade vinha tentando resistir a isso. Não sei como vamos terminar. Não sei como será o saldo dessa gestão que estamos terminando e vamos ver qual será o déficit e como é que a próxima gestão vai enfrentá-lo.

BN – Quem seria um bom nome, entre os que estão postos, para poder tentar implementar o desafio de melhorar Salvador e colocá-la, enfim, no século 21?

GG –
Sinceramente, não sei. Não tenho convívio nem proximidade com nenhum nome capaz e qualificado, no sentido da pergunta que você me faz, e com vontade política de assumir a prefeitura de Salvador, que pudesse ser um nome que eu sugerisse.