Carlos Emanuel Melo fala sobre atual situação financeira do Hospital Martagão Gesteira - 27/02/2012
Bahia Notícias - O Hospital Martagão Gesteira está realizando um trabalho em termos de cirurgia cardíaca para crianças. A gente gostaria de saber como tem sido desenvolvida essa ação?
Carlos Emanuel Melo - O problema da cirurgia cardíaca em crianças é universal. No Brasil o quadro é extremamente grave porque há um grande quantitativo de crianças que necessita desse tipo de cirurgia, mas ainda não teve a oportunidade de ser submetida ao procedimento, justamente por conta da complexidade e da dificuldade de realizar essa cirurgia de grande porte e custo muito alto. No estado da Bahia, estima-se uma fila de 600 crianças aguardando a cirurgia, o que vem gerando um desconforto muito grande em todos os envolvidos no sistema de atendimento às crianças. No ano passado, o Hospital Martagão Gesteira entendeu que esse problema também era dele e que ele deveria tentar resolvê-lo. Passamos então todo o ano de 2011 trabalhando em um projeto, que lançamos no mês de novembro, chamado “600 corações”. Este é um projeto ambicioso, de metas extremamente arrojadas, onde nós pretendemos operar 600 crianças em dois anos. A nossa meta é zerar a fila de cirurgias cardíacas no estado. Nós lançamos o projeto, conseguimos apoio de entidades governamentais e não-governamentais, bem como da iniciativa privada, e iniciamos as operações em janeiro deste ano. Neste tempo, já conseguimos atingir um número extremamente relevante, de 22 cirurgias no primeiro mês de atividade, o que chamou a atenção dos nossos apoiadores e também do Ministério da Saúde e do ministro Alexandre Padilha, que quis conhecer pessoalmente esse trabalho.
BN – Já existe um convênio firmado com o Ministério da Saúde para apoiar esse projeto? Ele tem o apoio da Secretaria Estadual de Saúde?
CEM – O projeto 600 Corações é desenvolvido pelo próprio Martagão Gesteira. A Secretaria Estadual de Saúde apoiou custeando as cirurgias e o hospital está levantando recursos para a parte de investimento dessas cirurgias, que custam em torno de R$ 22 mil cada. Para atingir a meta de 600 cirurgias, nós vamos precisar construir uma nova UTI e para isso buscamos e já conseguimos apoio de iniciativas privadas. Alguns equipamentos, por exemplo, já estão chegando lá por meio de doações, como é o caso de um equipamento para anestesia, que custa R$ 60 mil e já está em funcionamento [...] Além disso, tem todo um envolvimento das pessoas que participam do projeto, todo mundo cede um pouco. Fornecedores dão descontos, a equipe médica trabalha com valores abaixo do mercado, os funcionários aceitam remunerações mais baixas, tudo para que a gente consiga fechar as contas.
BN – Qual o resultado dessas 22 cirurgias já realizadas?
CEM – O resultado foi satisfatório. Nós tivemos apenas dois óbitos, considerando que começamos pelos casos mais graves, onde a taxa de mortalidade é maior. [...] São crianças que deveriam ter sido operadas com 2 anos e estão sendo operadas com 6, 7 anos. Mas, devemos dizer, a mortalidade delas não operada é muito mais alta. A cardiopatia congênita é, hoje, a segunda causa de mortalidade infantil no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.
BN – As famílias têm algum custo com as cirurgias?
CEM – Não, nenhum custo, até porque elas não teriam condições de arcar com as cirurgias porque são famílias, na maioria das vezes, muito pobres. Muitas vezes a gente tem que ajudar a trazer as famílias do interior para Salvador, por exemplo. A realidade social dessas pessoas é realmente muito comovente.
BN – Recentemente, você reclamou da falta de apoio do Município. Agora há pouco, você citou pessoas físicas, jurídicas, a Secretaria de Saúde do Estado, o Ministério da Saúde, mas não citou o Município. A prefeitura de Salvador continua sem ajudar o Martagão Gesteira?
CEM – A prefeitura de Salvador extinguiu os débitos com o Martagão Gesteira, exceto um percentual de recursos de produção extra-teto de R$ 400 mil, que hoje já está em quase R$ 500 mil. A prefeitura não paga porque não tem recurso. Então qual é o sentimento que eu tenho hoje em relação à Secretaria Municipal de Saúde? Que eles já entenderam o problema, têm vontade de melhorar o contrato com o hospital, de corrigir os erros passados, mas não têm orçamento para isso. O que mudou principalmente, do ano passado para cá, foi o espaço de diálogo. Antes eles não pagavam nem o que era contratado. Hoje eles reconhecem que o hospital precisa de mais recursos e que precisam pagar regularmente para que o hospital tenha condições de funcionar, mas nos informam que não têm orçamento para isso. Na prática, continua a mesma coisa, os contratos não mudaram, o subfinanciamento continua, mas hoje o diálogo existe e eles manifestam as limitações deles.
BN – Desde que você assumiu a gestão do hospital, em 2009, tivemos os secretários José Carlos Brito, José Saturnino Rodrigues e agora Gilberto José. Quais dessas gestões, em termos de apoio ao Martagão Gesteira, foi a mais complicada?
CEM – José Carlos Brito foi o secretário que chamou o corpo clínico do hospital, através de mim, e disse: “Nós precisamos mudar o hospital porque se não ele vai fechar”. Na época, o hospital vivia um período muito difícil e se hoje ele está de portas abertas se deve a uma intervenção direta de Brito. Já com o Saturnino nós não chegamos nem a ter contato, foi um período muito curto, de apenas três meses. Nos 60 dias iniciais ele estava tomando pé da situação, pediu a todo mundo que desse um tempo para ele e depois começou a receber os prestadores. Na semana em que nós iríamos sentar com ele para conversar a reunião foi desmarcada porque ele já sabia, provavelmente, que não ficaria no cargo. Com Gilberto José já foi realmente a fase mais conturbada. Gilberto alega que isso acontece porque ele herdou uma situação que não foi criada por ele – e talvez isso seja verdade mesmo –, mas foi onde nós sentimos o maior problema de caixa, principalmente, porque o Hospital Martagão Gesteira não tem lucro e não tem como evitar que o paciente chegue a ele. Quando paramos de receber os recursos, começamos a atrasar os pagamentos de fornecedores, de médicos e, por último, de funcionários. Quando faltam os recursos, os nossos fornecedores têm uma flexibilidade que não passa de 60 dias e aí deixam de entregar no prazo. Se eu ficar 90 dias sem receber, como eu fiquei, o hospital não tem como funcionar porque não há dinheiro guardado em caixa. E foi justamente isso que ocorreu na época de Gilberto José, houve atrasos sucessivos que extrapolaram essa linha de segurança, de complacência que o mercado permite e que os próprios funcionários aceitam. Por isso eu tive que avisar que o hospital ia parar, quebrar mesmo. Foi realmente um período de crise extremamente angustiante, até porque eu identifico o problema antes, mas até sensibilizar o gestor há uma negociação que muitas vezes pode parecer um exagero dos fatos, mas não é. O hospital andou bem perto de parar, cirurgias foram desmarcadas e alguns setores, inclusive, chegaram a parar. Teve paciente que economizou dinheiro, vendeu porco e galinha para comprar passagem, veio do interior para fazer cirurgia que foi desmarcada e não tinha onde ficar, nem como voltar para sua cidade. Em alguns casos eu tive que tirar dinheiro do próprio bolso para ajudar os pacientes a voltarem para sua cidade. [...] Isso mostra que instituições como o Martagão Gesteira, Aristides Maltez e Irmã Dulce, que são focadas especificamente em SUS, não têm reserva de caixa para lidar com atrasos de repasses. Isso tem que ser feito de forma regular e sagrada.
BN – E qual é a situação financeira atual do hospital?
CEM – Eu assumi o hospital em 2009, em um momento em que o hospital ia fechar. O José Carlos Brito me chamou e disse: “Emanuel, ou você, que tem representação lá dentro, faz uma mobilização com as pessoas ou o hospital vai fechar”. Eu relutei, disse a ele que não tinha condições, que não era gestor, mas ele disse “tem que ser você e eu vou te ajudar”. Quando eu entrei, encontrei o hospital com R$ 26 milhões de débito, 120 ações trabalhistas em fase de execução, três meses de salários atrasados, mais de R$ 400 mil de débito com médicos e quase R$ 600 mil de débito com fornecedores. Nesse momento, se o Martagão Gesteira fechasse, provavelmente não se derramaria uma lágrima porque ele não tinha, inclusive, representação nenhuma no sistema público de saúde [...] Quando eu assumi, chamei todo mundo – funcionários e médicos – para conversar e disse que ia precisar do esforço de todos. Falei que a gente teria que trabalhar dois ou três anos com remunerações abaixo do mercado e trabalhar com eficiência para gerar recursos, pagar boa parte dos débitos que estavam aí e voltar a ser importante para o estado. Em seguida, comecei a buscar quais eram os problemas mais graves que afligiam as crianças. Identificamos então que havia crianças no Roberto Santos morrendo de hidrocefalia porque não eram operadas. Havia sempre uma média de 6 ou 7 crianças internadas com o problema e, na época, o Ministério Público estava ajuizando uma ação contra o Estado por conta disso. Então eu vi aí uma oportunidade para o Martagão voltar a ser importante. Pedi ao secretário estadual da época um tempo para resolver o problema e estimei que com R$ 5 mil – considerando que uma válvula custa R$ 2 mil, mais as despesas com material e medicamentos – dava para realizar a cirurgia no próprio Martagão, com a ajuda de um amigo cirurgião pediátrico que aceitou fazer as cirurgias sem cobrar quase nada, na amizade mesmo. Ele fez um mutirão de cirurgias, resolveu o problema da hidrocefalia e está com a gente até hoje. Isso não gerou dinheiro, mas gerou credibilidade para o hospital e espaço para pedir, com o apoio do secretário Jorge Solla, um financiamento na Caixa Econômica para quitar algumas dívidas. Conseguimos R$ 5 milhões e usamos esse dinheiro para pagar tudo aquilo que era impeditivo para o hospital funcionar – renegociamos dívidas com fornecedores e pagamos algumas execuções trabalhistas que estavam bloqueando as contas do hospital. Em seguida, buscamos outro problema para resolver, dessa vez a questão da oncologia. Na época, Salvador vivia uma crise porque havia mudança no tratamento e não tinha onde dar seguimento ao tratamento dessas crianças. Havia uma reunião na Secretaria Estadual de Saúde, com a presença do Ministério Público e vários hospitais, para saber o que iria ser feito com essas crianças. Então eu fui e disse que o Martagão poderia resolver isso. Deram risada, gargalhada. Eu deixei todo mundo rir e ri também, mas disse que só precisava que equipassem a nossa UTI, que na época só funcionava com um leito, com respiradores, monitores e camas. Como eram sete leitos, dava R$1,5 milhão em equipamentos. O secretário concordou e, em 30 dias, os equipamentos chegaram e nós reativamos a UTI. Médicos e enfermeiros que trabalhavam com um leito passaram a trabalhar com oito e o mesmo salário, assim mesmo, na base da compreensão. Hoje, temos na oncologia 120 crianças fazendo quimioterapia. Na medida em que o hospital foi ganhando credibilidade, as pessoas do hospital começaram a acreditar nele e toda uma lógica se inverteu. Em 2011, o grande passo que o hospital deu foi em relação à cirurgia cardíaca e o nosso guia para isso foi o Ministério Público, que ia apontando onde estavam os problemas. Hoje, três anos depois, já quitamos quase todas as ações trabalhistas, reduzimos o débito para R$ 18 milhões, o faturamento de prestação de serviços públicos que era de R$ 600 mil vai passar, em 2012, para R$ 2 milhões. Hoje, a operação do hospital, especificamente em relação ao SUS, gera um resultado positivo de 7%. Ou seja, sobra por mês aproximadamente R$ 150 mil da operação do hospital, mas na linha de baixo tem todo um parcelamento de dívidas do passado que nós temos que pagar, o que dá mais ou menos R$ 400 mil por mês. Então a situação é patética porque temos um hospital que está gerando receita, mas que fica com um déficit em torno de R$ 250 mil no caixa por causa do parcelamento de dívidas anteriores. É isso que vou pedir ao ministro [Alexandre Padilha], ajuda para equilibrar o caixa do hospital, coisa que ele já fez por outras instituições. Vou mostrar a ele que o hospital tem sido gerido com responsabilidade e competência nos últimos três anos e pedir ajuda para pagar essa herança que herdamos.
BN – Sendo bem sincero, corre risco ainda de o Hospital Martagão Gesteira quebrar em 2012 e, se isso acontecer, qual será o impacto no sistema de saúde de Salvador?
CEM – O caixa do hospital, hoje, está novamente zerado e eu preciso refinanciar esse déficit e escalonar com 10 anos para pagar, com um ano de carência e com juros baixos, como qualquer empresa em reestruturação. Se eu tivesse isso, diria que não há nenhuma possibilidade de o hospital quebrar. Mas nós não temos isso. Então o que precisamos fazer é refinanciar essa dívida, ainda que não em condições ideais. Temos hoje, na Caixa Econômica Federal, um refinanciamento da dívida que, segundo fui informado, está tecnicamente bem encaminhado. Com isso, o problema de hoje será jogado para 36 meses à frente, tempo suficiente para resolver, acredito eu. Como isso está praticamente encaminhado, o risco de o hospital quebrar está afastado. Mas se esse refinanciamento não sair, teremos crise novamente. Não tenho a menor dúvida, é matemática, não tem como fazer mágica. A outra forma de nós anteciparmos coisas para o Martagão é conseguir, através do Ministério da Saúde, uma portaria especial para zerar esse déficit. O ministro pode fazer isso, ele já fez isso por outros hospitais. Se ele fizer isso, o hospital estará saneado. Mas, se hoje o Martagão Gesteira fechar, o impacto será muito grande, seja na retaguarda de toda a rede ou na formação de profissionais – uma lacuna que nós conseguimos preencher, principalmente no que diz respeito à formação médico-pediátrica. Além disso, haveria também um desequilíbrio absurdo no atendimento oncológico e nas cirurgias cardíacas.
BN – Para finalizar, gostaríamos de saber o seguinte: O vereador licenciado, Gilberto José, vai concorrer à eleição e terá que se desincompatibilizar em abril. O que você espera do próximo secretário municipal de Saúde?
CEM – Eu espero muito do próximo secretário, mas, principalmente em relação ao Martagão Gesteira, espero que honre com o pagamento da dívida que ainda falta, esses R$ 450 mil que para o hospital faz muita diferença; que ele readeque o plano operativo do hospital, percebendo que o hospital de 2009 não é o mesmo de agora, mas nós temos o mesmo contrato até hoje. Espero que o secretário perceba a evolução do hospital e tenha um olhar diferenciado para isso. Espero que ele tenha um planejamento financeiro mais organizado porque as instituições filantrópicas não suportam atrasos no repasse de recursos e espero que o próximo secretário entenda que o sistema de saúde de Salvador é dependente das instituições filantrópicas e tenha um olhar mais atento para elas.
