Eliane Kruschewsky: "Meu grande público mesmo é o de arquitetura de interiores" - 10/10/2006

Por Isabela Nery
Fale um pouco sobre o seu trabalho.
Eliane Kruschewsky – Eu me formei em 81. Sou arquiteta, mas atuo muito na área de decoração. Cerca de 70% dos meus projetos são de arquitetura de interiores. Gosto de fazer outros projetos comerciais, residenciais, de hospitais, etc., mas o meu grande público mesmo é o de arquitetura de interiores.
Eu faço uma interferência no projeto, desde uma pequena reforma – como num projeto já sendo executado e eu entro para adequar, a família me diz o que quer e aí a gente faz a distribuição dos ambientes, conforme estas solicitações.
O que mudou na tendência da decoração de interiores?
EK – Eu venho observando uma coisa bem interessante, que é o uso da televisão na casa. Comecei a pensar um pouco nisso e observar mesmo.
Logo que eu comecei, não existia na casa, no núcleo da família, uma sala de televisão. Aliás, vamos começar um pouco antes. Desde que a televisão apareceu, ela veio para a sala. Colocou-se aquela coisa enorme na sala – enorme não, que no máximo era, acho que 20 polegadas. E aí a gente tinha a televisão na sala. Todo mundo assistia junto, fazia silêncio na hora da novela, na hora do jornal. Então, como a televisão, esteticamente, era uma coisa meio grande, pesada, as famílias começaram a querer um espaço próprio para a televisão. A gente pegava um ambiente da casa, vamos dizer um quarto e transformava em sala da TV e gabinete. Sempre tinha as duas funções juntas. E colocava uma estante, a televisão no meio, e ali, junto, tinha uma mesa de som. E as pessoas ficavam com a casa grande, com living, varanda, o que tivesse, mas todos ali contidos naquele ambiente da televisão.
Isso fez com que surgisse uma nova estética dos interiores?
EK – Sim. Houve uma época – não sei medir em que tempo – em que as pessoas partiram para ter a televisão no quarto. Primeiro no quarto do casal, por que na sala era aquela bagunça, não dava para todos assistirem. Um estava deitado no sofá, o outro tinha que sentar numa poltrona ou no chão. Aí aquilo começou a não ter o conforto, nem podia assistir ao programa direito. Então, a família começou a ter a TV nos quartos – é o que eu chamo de terceiro período. E foi criando, eu acho, um isolamento da família, essa coisa curiosa, que desprendeu a família.
E como surgiu a necessidade de mudança?
EK – Hoje em dia as pessoas buscam muito ficar em casa, até pela questão da segurança. E agora, acho que a gente está numa nova fase. Eu já vinha analisando e fiquei encantada com comentários de alguns clientes, falando dessa coisa boa, que foi voltar a ter a família toda reunida de novo. É uma nova fase, eu acho, de uns dois anos para cá. Então, a gente começa a ver a televisão no Home, e eles investindo mesmo. Às vezes até – eu posso falar porque lido com a família, com o marido, com a esposa – eles definem num instante o que querem do Home. E compram, muitas vezes até mais caros do que os móveis que vão ser adquiridos para a casa. Mas eles fazem isso com o maior prazer. Então, compram a televisão, colocam o telão e agregam outros valores.
Além da sala de TV, a senhora pode citar outros espaços da casa que servem para aproximar mais a família?
EK – Conversando aqui, já percebemos dois espaços importantes: o Home e o espaço do computador – essa coisa interativa, da internet. Agora já tem mais facilidades. Você já pode ter o computador na televisão, as duas coisas estão muito próximas. A televisão já em plasma, LCD, o computador também. Os equipamentos que estão se ajustando a esta necessidade. O living, por exemplo, que antes era um espaço para receber a visita. Em minha casa mesmo, é mais ou menos isso. Eu quase que não vou ao meu living. Agora mesmo eu estou fazendo uma reforma para trazer a televisão para a sala. Para aproveitar, curtir, porque você tem o apartamento, tem uma área gostosa, então, você tem o prazer que você não estava usufruindo. Outro espaço é a adega. Agora a gente voltou a ter a adega, uma coisa que já foi tida até como cafona, mas o gosto de querer tomar um vinho com a temperatura adequada, fez voltar. Eu fiquei contente com o resultado. A adega, agora, é um móvel. Há um tempo atrás, eu tinha um cliente que deixava o ar condicionado 24 horas ligado, para refrigerar um cômodo, que ele chamava de adega. Hoje em dia isso não existe mais. A praticidade está acima de tudo. Temos que querer conforto e praticidade.
E o resultado que essas mudanças trazem para a família?
EK – Hoje em dia, com todas essas pesquisas, os sociólogos todos mostrando, sobre a família, o convívio dos pais com o adolescente, estar próximo, vigilante. Uma coisa está muito interligada a outra. Eu tenho uma cliente, por exemplo, que mora em uma casa, e os netos vão para a casa dela. Ela já fez essa parte de Home e agora está fazendo o de multimídia – o que eu estou chamando de Home Office – porque ela quer seis pessoas ao mesmo tempo.
O que mudou nos projetos arquitetônicos das construtoras?
EK – O que eu vejo das construtoras é que, cada vez mais, os projetos arquitetônicos têm que se diferenciar. Eles querem lançar novidades.
Para isso, o arquiteto tem que estar antenado a essas mudanças. Então, eu acho que veio do projeto querer oferecer algo mais. Essa busca do prédio ter tudo. Ter sauna, salão de festas. Os prédios também já têm o multimídia. Então, quando ele não tem condição de oferecer na unidade, ele oferece no prédio. Eu acho que vem da aspiração, do querer buscar um apartamento que lhe ofereça o máximo. O que está legal agora é que a arquitetura busca abraçar todas essas tecnologias, que poderiam separar a família, de uma forma que agregue. É aí que entra o arquiteto de interiores, para ter esta percepção e poder oferecer, da melhor forma possível, adequar a uma residência que já existe, que não foi preparada para isso, mas que consiga deixar esses espaços bastante harmoniosos.
Como foi que a residência se adaptou a essas mudanças?
EK – O mobiliário tentou dar um conforto maior. Hoje em dia você tem várias opções. O sofá, por exemplo, você pode regular o encosto. Quando a gente faz o projeto de decoração, a gente coloca “pufs” em frente aos sofás, ao invés de mesas. Ou então a gente mistura as duas coisas, para a pessoa ter a liberdade de por os pés encima, sem constrangimentos. Os sofás sofreram esta mudança, na profundidade, na largura. Cortina nem se fala, tem uma infinidade de modelos, uma variedade infinita. A iluminação, a mesma coisa. Hoje em dia você pode ter a iluminação misturando os tipos de lâmpadas.
Se o cliente realmente estiver procurando este conforto, ele vai encontrar sem dúvida alguma nas lojas, com a orientação de algum profissional. Nós temos muitas ferramentas, com as quais podemos tornar estes espaços mais confortáveis ainda. Cada dia mais estes fornecedores estão tentando fazer com que a arquitetura corra atrás para usufruir da tecnologia.
E como fica o relacionamento cliente / profissional, quando o cliente não quer seguir as sugestões do profissional?
EK – Aí vai depender do cliente e vai do profissional. O profissional tem que conseguir mostrar ao cliente que aquilo que ele está pretendendo não é a melhor forma. E nós terminamos conseguindo. Nós temos argumentos técnicos e práticos para mostrar a ele que para aquele ambiente, o que ele quer não fica bom. E depois, quando percebem o resultado, eles nos agradecem.