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Entrevistas

Entrevista

Paulo Cavalcanti nega existência de um esquema que teria gerado um prejuízo aos cofres públicos - 01/09/2011

Por João Gabriel Galdea / Felipe Campos

Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias

"Que eu acredito que existiu exatamente um erro grave, desastroso da Polícia Federal na investigação, sim."

 

Por João Gabriel Galdea e Felipe Campos

Bahia Notícias – A investigação sobre esse suposto esquema de fraude denunciado na Operação Alquimia durou oito anos. Há oito anos qual era o tamanho das empresas que você detém ou é sócio e qual é o tamanho do seu patrimônio hoje?

Paulo Cavalcanti – Oito anos atrás, é óbvio que a empresa era muito menor do que é hoje. Agora, em termos de meu patrimônio, ele não se alterou tanto. A empresa cresceu, mas o patrimônio pessoal não. O nosso patrimônio continua sendo praticamente o mesmo em relação ao que tínhamos em 2002. Agora, botaram lá a ilha como marca da Operação Alquimia. A ilha é de 1987. Isso é que é importante. Eles exploraram a ilha e botaram lá: “Ouro na ilha do tesouro”. Isso foi muito forte. Quiseram mostrar o milionário sonegador de um bilhão. Um suposto esquema de sonegação fiscal de mais de um bilhão de reais onde eles ilustraram com a ilha fantástica maravilhosa com o ouro lá.

BN – O seu grupo cresceu muito e conquistou espaço no Sudeste brasileiro. Acredita que o avanço da Sasil poderia estar incomodando rivais? Essas investigações podem ter sido contaminadas por pessoas que agiram de má fé?

PC – Eu não posso acreditar em fantasmas nem posso acusar ninguém, como fizeram comigo. Agora é óbvio, é claro: dizer que começou um negócio de nove anos atrás de uma suposta sonegação fiscal e esperar nove anos para depois aparecer prendendo as pessoas é muito estranho. Agora, eu não posso chegar em qualquer lugar e acusar ou sair falando de Cicrano ou Beltrano. Que é estranho, é. Que eu acredito que existiu exatamente um erro grave, desastroso da Polícia Federal na investigação, sim. Acredito, sim. Houve uma má conduta, uma má construção de uma informação que não é cabível.

BN – Falam em 165 empresas no Brasil e 27 no exterior que estariam ligadas ao esquema deflagrado pela Operação Alquimia e que muitas seriam de fachada para beneficiar a Sasil Distribuidora de Produtos Químicos Ltda. Além das 26 empresas que abrangem o seu conglomerado (terceiro grupo do país, o 30º no ranking mundial), quantas empresas citadas no processo você pode dizer que tem ou já teve envolvimento?

PC – É o que eu desafiei eles a demonstrarem. Eu peguei e mostrei pelo menos nesses cinco anos que não existe relação com nenhuma das empresas que eles apresentaram para nós. A não ser as nossas próprias empresas, que não devem nada para ninguém [o número de 26 empresas pertencentes ao grupo Sasil não foi confirmado pelo empresário].

 


"Onde é que está essa conta? Foi o que eu perguntei à Polícia Federal. Cadê esse R$ 1 bilhão?"

 

BN – O secretário James Correa afirmou que “é preciso colocar nariz de palhaço para acreditar que uma empresa que fatura R$ 500 milhões por ano vá sonegar impostos no montante de R$ 1 bilhão” e defendeu a Sasil. Os valores divulgados à imprensa foram mesmo superestimados? Por quê?

PC – Sim. Absurdamente. Claro que sim. O que James Correa colocou é óbvio. É matemática. É ordem de grandeza. Primeira coisa: como é que uma empresa nossa, que agora fatura cerca de R$ 500 milhões em 2011, como é que você pode sonegar R$ 1 bilhão? O que ele quis dizer foi o seguinte: Como é que você pode, numa receita bruta, ter um faturamento desse e como é que você vai tirar R$ 1 bilhão se nem o faturamento bruto da empresa somado dá R$ 1 bilhão? Onde é que está essa conta? Foi o que eu perguntei à Polícia Federal. Cadê esse R$ 1 bilhão? Outra pergunta óbvia: Você tem o imposto de renda, a malha fina. Se tem uma coisa errada, automaticamente aparece. A Receita Federal passou dez anos me dando regularidade jurídico-fiscal, me deixando participar de tudo. Não devo um centavo, não caí em nenhuma investigação, nenhuma multa. Depois passam 10 anos e ela diz: “agora sim, agora o cara é suposto investigado de bilhões de reais”. Ela [Receita Federal] permitiu que eu levasse bilhões de reais para depois resolver vir me prender, e me prender por suposição! É importante vocês saberem o seguinte: a medida da prisão preventiva, que eles chamam, é exatamente quando se prende para investigar e para que a pessoa não atrapalhe. É um instrumento absurdo, brutal e que foi totalmente mal utilizado pelo delegado, pelo juiz que autorizou isso. É um absurdo. Prender para investigar uma suposta sonegação fiscal de R$ 1 bilhão. Não tem cabimento. É uma agressão e é exatamente isso que eu estou colocando para todo mundo e é por isso que James Correa colocou que só quem tem nariz de palhaço que acredita numa coisa dessa.

BN – Como as empresas estão funcionando? Todos os seus bens foram bloqueados?

PC – Todos. Todos os bens estão bloqueados. No nosso caso, o bloqueio foi feito em todas as empresas nossas. Em todas as contas nossas de toda a família. Se você perguntar para eles qual o valor da minha dívida, eles não têm. Dizem que estão investigando uma suposta participação em sonegação fiscal. No entanto, já bloquearam todos os bens sem saber. Até mesmo a ilha, que é nossa posse desde 1987 [o empresário apresentou durante a entrevista a escritura pública da ilha]. Imagine o seguinte: eles também disseram que minha ilha vale R$ 15 milhões. Eu também não botei à venda. A ilha é da minha família e da família do meu irmão. Então, aquilo também é uma mentira. Aquela ilha não é só de Paulo Cavalcanti.

BN – Se a ilha fosse para ser vendida, valeria quanto?

PC – Não está à venda a minha ilha. Eu nunca fiz essa avaliação.

 


"Essa ilha foi comprada por 300 mil cruzados em 1987."

 

BN – Se alguém tivesse essa ilha, você pagaria quanto?

PC – Eu também não posso lhe informar isso porque eu não sei. Não contratei nenhuma empresa para fazer a avaliação da minha ilha. Essa ilha foi comprada por 300 mil cruzados em 1987.

BN – E a respeito de barras de ouro encontradas?

PC – [O ex-presidente] Fernando Collor de Mello sequestrou a poupança das pessoas e houve uma grande instabilidade, dúvida sobre o que o governo ia fazer. Minha mãe, de 81 anos, então começou a comprar ouro da Ourobraz Carnê [ver documentos aqui, aqui, aqui e aqui]. Você compra esse carnezinho [mostrou o documento], em 1993. Está documentado em gramas. Minha mãe comprava e eu não sabia disso. Esse ouro todo deu 2,5 kg, que também está na Polícia Federal, que dá R$ 160 mil, que ela conseguiu juntar desses 20 anos dela.

BN – Então o ouro não estava em sua ilha?

PC – Tava não, tava na casa de minha mãe. Foi na busca e apreensão, numa caixa. Uma cartelazinha, e ouro escrito “Ourobraz”. Se você chegar no site e puxar aquela armação que eles botaram, tem uma que mostra a marca da Ourobraz. Eles fizeram aquela montagem para mostrar a ilha, o cofre e botar como se fosse um saco de ouro. Violaram a cartelinha e colocaram no saquinho para mostrar que é a “Ilha do Tesouro”. Isso é uma mentira, é um absurdo. E a polícia foi lá na casa de minha mãe, de 81 anos de idade. Aliás, eles passaram na casa de minha família inteira.

BN – A PF e a Receita também dizem que foram encontradas lá armas de uso restrito das Forças Armadas...

PC – Pois é. O que também é uma mentira. Se vocês pegarem lá, vocês vão ver que é um revólver que estava registrado, calibre 38.

BN – Foi um revólver só?

PC – Um revólver e uma garrucha que colocava na parede de decoração, de tão velha que era. Winchester.

BN – Como era o esquema de segurança da ilha?

PC – Um caseiro, que vocês vêem nas fotos, com um cachorro na mão. Não tem segurança armada lá. Um cara que mora lá. Eu não sei onde vocês querem chegar com essa pergunta.

BN – É só para esclarecer os fatos. Pelo que foi passado, parecia que havia um arsenal lá.

PC – Mas eu não tenho ouro na ilha. Por isso não tinha esquema de segurança.

BN – Mas são listados vários itens valiosos como jet skis, carros de luxo...

PC – Jet ski eu tenho, mas carro de luxo não, lá. Isso é mentira. Como é que coloca um carro de luxo lá. Vai dar aonde? Não tem estrada para andar ali. Agora, quadriciclo está no Imposto de Renda, jet ski eu também tenho. O fato de eu trabalhar 36 anos me dá direito a eu ter alguns confortos.

BN – Mas para proteger isso não teria que ter um bom esquema de segurança?

PC – Isso no seu pensamento, porque até hoje nunca roubaram uma bola de tênis lá.

 


"Não devo um centavo, não caí em nenhuma investigação, nenhuma multa. Depois passam 10 anos e ela diz: “agora sim, agora o cara é suposto investigado de bilhões de reais”.

 

BN – O senhor estava em viagem ao exterior, quando a Operação Alquimia foi deflagrada. Como o senhor ficou sabendo da operação?

PC – Por um telefonema. Minha filha ficou aqui. Na minha empresa. Invadiram a minha empresa, a minha casa, então, óbvio que eu fiquei sabendo porque as pessoas telefonaram pra mim.

BN – Qual foi a sua primeira reação?

PC – A minha primeira reação foi ligar pra tentar entender o que estava acontecendo. Liguei pra minha filha, pra minha empresa, meus funcionários... Eles falaram que estavam invadindo todas as minhas empresas no Brasil inteiro.

BN – Como as empresas estão funcionando?

PC – Graças a Deus, está tudo bem. Eu estava hoje em uma coletiva com todos os bancos. Já entrei em contato com todos os meus fornecedores, dos quais estamos tendo todo apoio. Nossos clientes... Nesse mês também não tivemos diminuição de faturamento em virtude desse episódio. As empresas continuam rodando bem, graças a Deus. Nós estamos com um problema do bloqueio das contas e eu estou lutando para pagar a folha dos funcionários.

BN – Quantas pessoas são empregadas por suas empresas?

PC – Em torno de 600 empregados, diretamente. Agora, é bom deixar claro que eu estou sendo culpado de nada. É uma investigação. Então, a empresa não está sendo acusada de nenhum crime ainda. Estão investigando.

BN – Como foi a experiência na prisão? O senhor chegou a ser algemado?

PC – Não. Não cheguei a ser algemado.

BN – Então como foi a sua prisão?

PC – Eu liguei pra eles espontaneamente, avisei que estava voltando, avisei ao juiz de Juiz de Fora, voltei e me entreguei. E o delegado da Polícia Federal estava me esperando.

 


"O fato de eu trabalhar 36 anos me dá direito a eu ter alguns confortos."

 

BN – E o tratamento dos agentes com o senhor, foi cortês ou o senhor tem alguma reclamação a fazer?

PC – Não tenho nada a reclamar, mas o tratamento em relação ao resto da minha família, ao meu irmão, à minha cunhada, e ao resto das pessoas que eles levaram, foi totalmente diferente. Aí sim houve algemas, houve camburão... Houve uma agressão, inclusive uma desobediência à orientação do juiz que mandou fazer a atuação. O juiz disse que não era pra vazar nenhuma imagem, nem nenhum nome. Está escrito na decisão e a primeira coisa que eles fizeram foi botar o helicóptero descendo na ilha, subindo na ilha, no site e em tudo que é lugar. Então, o inquérito era pra estar correndo em sigilo. Houve um brutal desrespeito ao direito do cidadão e uma desobediência judicial.

BN – Pensa em processar o Estado por isso?

PC – Claro. Óbvio. Já comecei. Contratei um advogado que já está tomando as medidas cabíveis contra as pessoas... Primeiro lugar, aonde apareceu o R$ 1 bilhão sonegado? Segundo lugar, cadê a minha dívida? Onde é que está? [Pergunta a um dos repórteres] Você tem pai, mãe, filho? Filho ainda não, né? Eu tenho filho. Esse cara que está ali. Meu filho [aponta]. Pediram a prisão dele. Minha mãe, entraram na casa dela. A minha casa, invadiram. Minha filha sozinha lá. Meu irmão, prenderam. Minha irmã, entraram na casa dela. A mulher dele, prenderam. A filha dele, pediram a prisão dela.

BN – Ao todo, quantos familiares do senhor foram presos?

PC – O mais certo seria você perguntar quantos que ficaram soltos. (...) Só sobrou um menino de 15 anos e minha mãe de 81 anos.

 


"Nós estamos falando aqui de direitos. Você não pode ser condenado primeiro, preso primeiro, antes de ser acusado [formalmente]. Isso é um absurdo."

 

BN – E na prisão, o senhor ficou quantos dias?

PC – Cinco dias.

BN – No Complexo de Mata Escura...

PC – No COP. Dentro do complexo.

BN – Prisão individual?

PC – Que individual? Ficamos em cinco. Aliás, comigo, seis pessoas numa cela. Está pensando que é fácil, é? Você já foi preso? [Pergunta a um dos repórteres]. Essa é uma das piores agressões a uma pessoa, que é inverter os papéis. Quando você é condenado e lhe cerceiam o direito de liberdade. O absurdo é tamanho... Eu sou um empresário, pai de família, pago meus impostos, não devo nada a ninguém. Tenho orgulho de tudo que eu tenho e do patrimônio todo que eu tenho construído com meu suor, com muito trabalho, tá certo? Então, o que estão tentando fazer a gente tem que parar, não pode existir isso. O cara manda prender para depois investigar, em uma coisa que você não foi nem ainda acusado. Qual é a acusação contra a Sasil e Paulo Cavalcanti? Não tem ainda. E eu já fui preso e julgado pela imprensa. Eu não vou contra a imprensa. Eu não posso ir contra ela, contra a Polícia e a Receita Federal, nem contra o Ministério Público Federal e o juiz que decidiu lá em Juiz de Fora... Lá fora, não é nem aqui na Bahia. (...) Nós estamos falando aqui de direitos. Você não pode ser condenado primeiro, preso primeiro, antes de ser acusado [formalmente]. Isso é um absurdo. O que a imprensa fez foi me linchar. Prepararam aquela ilha maravilhosa lá, tal, tal, tal, sonegação de R$ 1 bilhão e acabou, meu amigo. Disseram que eu não queria falar e que por isso eu era culpado, já que quem cala consente. Mas eu não podia falar porque eu estava preso. (...) Mas eu sou Paulo Cavalcanti e eu vou lá e falo. Fui lá no Estadão, falei com um cara que nunca tinha visto, não sabia nem quem era, mas haviam me dito que o cara era terrível. Que era contra os empresários, e tudo mais, mas eu disse que tudo bem. “É tudo isso?”, “é”, “então eu quero é esse”. “Pode perguntar o que quiser”. Como vocês estão me perguntando – que vocês parece que têm a mesma linha de perguntas –, e ele me perguntou tudo. Eu disse “pode perguntar o que quiser”. Eu não devo nada a ninguém. E vou botar a cara a vida toda. E podem me procurar a vida toda que eu vou falar. Agora, pra dar essas primeiras entrevistas eu escolhi aquelas pessoas que foram decentes comigo, e vocês foram decentes comigo. Por isso que eu estou aqui, porque quem foi decente comigo, eu estou procurando dar uma satisfação. Agora, a partir de amanhã, quem ligar pra mim pra poder falar, eu vou falar, porque eu não tenho nada a esconder.