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Entrevistas

Entrevista

Ney Campello acredita que gestão da Arena Fonte Nova precisa ser "inteligente" para não ficar às moscas - 15/08/2011

Por Rafael Rodrigues / Patrícia Conceição

Fotos: João Gabriel Galdea / Bahia Notícias

“Não fico torcendo contra projeto de ninguém, eu quero que todas as 12 sedes deem certo”.


Por Rafael Rodrigues / Patrícia Conceição

Bahia Notícias - Primeiro vamos falar de uma questão mais recorrente, mas ainda em voga, que é o financiamento da Arena Fonte Nova. Como é que foi resolvida a questão com o Tribunal de Contas do Estado? Há risco de a obra parar durante esse processo, já que a análise será feita gradativamente, na medida em que a verba for liberada?

Ney Campello - Nós temos dois fatos que consolidam a legalidade da obra. Primeiro, foi o reconhecimento da legalidade da modelagem de PPP pelo Tribunal de Contas da União. O segundo fato é a liberação pelo BNDES dos primeiros 20%. Quer dizer, se houvesse alguma suspeição de ilegalidade, como o BNDES iria fazer uma liberação de recursos? Esses dois fatos pontuais confirmam a legalidade da modelagem e do próprio fluxo da obra. Isso não significa que não possa existir futuramente algum tipo de entrave, não é? O TCE corroborou essas duas primeiras manifestações com a decisão de que, até o presente momento, não há também, por parte do TCE, nada que indique qualquer tipo de imperfeição ou suposta ilegalidade capaz de gerar uma reação de impedimento à obra. O momento agora é de entrega dos projetos executivos para que, debruçados sobre os projetos, onde o nível de detalhamento é maior, o TCE e a auditoria da UFBA, por ele contratada, possam ratificar ou se posicionar com algum tipo de providência. O governo do Estado, através da Procuradoria Geral da Secretaria do Trabalho e Esporte, que lidera o contrato, se vê de maneira muito tranquila e confortável quanto a isso, porque sabe da consistência do processo construído aqui. Não é por outra razão que ele é um processo mais avançado no aspecto do arranjo institucional e legal, tanto que foi o primeiro repasse para fins de obra entre as 12 sedes. Já havia repasse feito para Cuiabá e Manaus em relação ao projeto, mas em relação à obra o primeiro repasse do BNDES foi o nosso.

BN - Outra questão é a viabilidade financeira da Arena. O Bahia já concordou em jogar na Arena. O Vitória também? Como está essa negociação?

NC - 
O Bahia já bateu o martelo, assinou o memorando de entendimentos. É óbvio que isso depois vai se transformar em um contrato, com as condições estipuladas contratualmente. O Vitória até agora não se pronunciou. O conselho do Vitória não apreciou, houve uma primeira tentativa entre a FNP e a diretoria do clube, parte dela foi à Holanda e conheceu a modelagem de gestão da Arena do Ajax. No retorno houve uma conversação inicial, mas a decisão tem que passar necessariamente pelo conselho do clube. Eu inclusive sou um desses conselheiros e, na minha convicção –, eu não falo como secretário de Estado, mas como conselheiro e torcedor do clube – acho que esta proposição de o Vitória jogar na Arena é muito positiva sob vários aspectos. Primeiro, porque se o Vitória não for, vai consolidar a Arena Fonte Nova como arena do Bahia. Então, é preciso entender que a tomada de decisão negativa em relação a jogar na arena significa que ela vai se consolidar como de um clube só. E esse é um equipamento público: a Arena Fonte Nova não é apenas do Esporte Clube Bahia, ela é do governo do Estado do Bahia. A segunda razão é que, após a sua construção, a arena vai promover uma enorme atratividade no retorno de parcelas importantes do público que não costumavam frequentar o estádio, sobretudo as famílias. Porque, qual é o problema hoje? Segurança e conforto, essencialmente esses dois. Então, essas pessoas que não vão ao estádio hoje, vão passar a ir.


“Se o Vitória não for, vai consolidar a Arena Fonte Nova como arena do Bahia”.

BN - O Barradão tem hoje um problema de ônibus, de transporte...

NC - 
O Barradão tem uma enorme dificuldade em relação a transporte e a circulação. Também é um bom estádio, mas não vai oferecer as mesmas condições de conforto e segurança que a Arena Fonte Nova. Sob esse ponto de vista, eu acho que é interessante para o Vitória, inclusive pela questão econômica. Agora, é claro que eu respeito também a decisão da direção do clube. Na medida em que o clube tem uma arena, ele tem que conversar com muita calma para que a proposta da Fonte Nova Participações, que é a gestora do estádio, seja de fato uma proposta atrativa. Inclusive em condições paritárias com o Bahia para depois não haver condições mais vantajosas para um clube e menos vantajosas para outro. É importante para o governo do Estado que o Vitória vá também porque a sustentabilidade da Arena Fonte Nova resultará em redução da contraprestação do Estado.

BN - Tem um debate feito por parte da imprensa nacional de que essas novas arenas seriam projetos de elitização dos estádios. A gente já vê hoje em dia que o próprio Pituaçu tem uma média de público muito inferior à Fonte Nova, que tinha ingressos mais baratos. Espera-se que essa nova arena, que tem um custo de construção maior e é mais luxuosa, tenha ingressos mais caros. Há a possibilidade de o povo continuar a frequentar os estádios de futebol, considerando que a maioria é de classe média baixa?

NC - 
Essa é uma questão de gestão e de gestão inteligente. Eu não vou me referir a um clube especificamente por questão de respeito ético às decisões de cada uma das diretorias. Mas veja, não adianta cobrar um ingresso de R$ 50 e colocar 5 mil pessoas no estádio. É muito melhor cobrar um ingresso de R$ 20 e botar 50 mil pessoas. É uma conta simples, aritmética, de relativa facilidade de compreensão. Se você faz um barateamento do ingresso, isso resulta em uma maior ocupação da praça. A Arena Fonte Nova vai ter, é óbvio, uma segmentação de público, isso é importante dizer. Não há sustentabilidade para uma arena como essa apenas cobrando preços populares, aí ela se tornaria insustentável. A segmentação vai fazer com que a Arena tenha camarotes com preços superiores, camarotes vendidos, inclusive, por temporada para empresas. É um mix de tíquetes diferenciados que oportunizará a venda de ingressos populares. Não pode ser diferente disso, senão o efeito é contrário, é um tiro no pé, porque o efeito será uma menor ocupação e, naturalmente, uma menor receita. Outro ponto é que o estádio será multiuso, de modo que esse mix de preços tem que considerar não só os eventos de futebol. É óbvio que um evento com Paul Mccartney ou Lady Gaga, por exemplo, tem um preço, mas um evento de outra natureza tem outro. Acho que não vai haver problemas de acesso. Sobre essa questão, eu quero reiterar aqui que o governo do Estado, junto à Fifa, deve fazer um enorme esforço para viabilizar a presença de operários que estão participando da construção do estádio durante os jogos da Copa. É importante, à luz daquela música "Cidadão", cantada por Fagner, que diz que não adianta construir uma escola que meu filho não pode estudar ou um prédio onde nunca vou morar. Acho que também lá na Fonte Nova seria uma homenagem importante, não precisa ser necessariamente todos os operários, mas acho que deveria ter um mecanismo de sorteio ou premiação dos melhores para que uma parcela desses trabalhadores esteja presentes, como aconteceu na África do Sul. Inclusive a Fonte Nova Participações já nos informou que pretende fazer um primeiro jogo, um jogo-teste, entre os operários. Mas eu quero mais do que isso: quero que eles possam assistir a um jogo da Copa do Mundo.


“Não há sustentabilidade para uma arena como essa apenas cobrando preços populares”.

BN - O Itaquerão, o estádio em São Paulo onde havia a dúvida se conseguiria ser viabilizado ou não, vai sair. O próprio presidente do Corinthians, o Andrés Sanchez, já antecipou (apesar de não ser ele que tem que antecipar) que a abertura da Copa do Mundo será em São Paulo. A Bahia tem esperança de que a abertura venha para cá ou foi só uma estratégia para por o nome do estado em evidência e, quem sabe, lucrar com outros eventos importantes como semifinais ou abertura e fechamento da Copa das Confederações?

NC -
 Não foi nenhuma estratégia. Nós temos legitimidade de pleitear, continuamos pleiteando e só deixaremos de fazê-lo no dia em que a Fifa oficialmente disser que não é aqui. Nós temos grande esperança de que a Fifa repense isso. É óbvio que o lobby paulista é muito forte. Há um conjunto de manifestações que indicam que São Paulo é um fortíssimo candidato. Em nenhum momento nós nos colocamos de maneira arrogante de que só poderia ser na Bahia, porque é claro que quando você entra em uma disputa você pode ganhar ou perder. Mas essa é uma decisão da Fifa e nós temos que esperar. Agora, nós temos legitimidade por todas as razões que já apontei aqui. E digo mais, não fico torcendo contra projeto de ninguém. Eu quero que todas as 12 sedes deem certo, mas no caso particular do Itaquerão, por uma questão de prudência, é preciso aguardar não somente o anúncio da Fifa, mas o desdobramento da construção. Na última quinta (11), um site publicou que a Transpetro disse que, em absoluto, a situação dos dutos está resolvida, que a área ali está cercada e eles só tomarão qualquer decisão depois de saber exatamente quem vai pagar o deslocamento dos dutos e como isso vai ser feito. Então, veja que a cada dia uma notícia nos assusta quanto ao que pode vir a acontecer. E eu quero lembrar 2006, não pela mesma razão, em que o estádio de abertura da Copa era o Allianz Arena, em Munique, e seis meses antes foi transferido para Berlim. É possível acontecer tudo e nós temos que nos colocar como candidatos até o momento da decisão da Fifa, mas é óbvio que se não formos contemplados esperamos que a Bahia seja reconhecida em seu protagonismo, pela importância que tem para o Nordeste e para o país, e que nós recebamos eventos da Copa da grandeza da Bahia e não um evento qualquer.

BN - Estão na disputa por esses eventos cidades importantes, como Belo Horizonte, e é relatado pela imprensa nacional a ligação afetiva que há entre Aécio Neves e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Como ficam os critérios para essa disputa? Eles são objetivos ou são subjetivos?

NC -
 Deveriam ser objetivos e técnicos e a nossa expectativa é que assim seja.

BN - Mas não são?

NC
- Eventualmente, ouve-se nos bastidores essas manifestações. Como a gente não pode formar convicções a partir de opiniões de bastidores, eu acho que o mais adequado é aguardar o pronunciamento. Agora, eu já manifestei oficialmente que acredito que a Fifa tem que, no mínimo, anunciar os primeiros quatro eventos: abertura e encerramento da Copa das Confederações e abertura e encerramento da Copa do Mundo. O que não pode acontecer é que isso tudo esteja concentrado em uma única região do país ou em um único estádio. O ideal é que, em outubro, quando isso será decidido, a Fifa já possa também anunciar que cidades farão as oitavas, quartas e semifinais, a disputa entre o terceiro e o quarto colocados. Eu disse isso ao ministro Orlando (Silva, Esportes) e ele disse que concordava.


“O que não pode acontecer é que isso tudo esteja concentrado em uma única região do país ou em um único estádio”. 

BN - Mas a decisão é da Fifa e não do ministro...

NC
 - Não, não é, mas o ministro naturalmente se posiciona. Ele encaminhou uma carta, que não teve sucesso, sugerindo que a abertura fosse anunciada já no dia 30 e a Fifa não o fez.

BN - Isso mostra que é a Fifa quem decide.

NC
- E é, não tenha dúvidas disso, mas é óbvio que as manifestações de um ministro são ouvidas, assim como uma carta do nosso governador, para efeito de análise. E lá, conversando sobre isso com o ministro, eu disse que se apenas a abertura for anunciada, todas as outras cidades não contempladas vão reagir. Mas se anuncia um conjunto de eventos, você constrói uma ação, digamos assim, mais contemplativa de outras sedes.

BN - A Folha de São Paulo publicou uma matéria que fala que a Fifa teria enviado cartas às sedes da Copa para propor que os produtos licenciados não tenham que pagar 15% se as empresas que patrocinam, que são parceiras da federação, forem contratadas. Como essa contratação deve ocorrer por licitação, isso dá vantagem a essas empresas em relação aos preços das concorrentes?

NC - Eu não posso falar pelas outras sedes, mas nunca chegou uma carta dessas à Bahia e, se chegar um dia, será carta fora do baralho.

BN - Mas o senhor considera que há o risco de cidades-sedes que contratarem dessa forma terem vantagem em relação à Bahia para ganhar jogos importantes?

NC - Eu não imagino que a Fifa vá fazer esse tipo de associação. Isso seria absurdo, uma coisa esquisitíssima. O que eu acho é que se qualquer cidade – e eu espero que isso não aconteça – optar por um direcionamento desse tipo de contratação, isso gerará um problema com o Ministério Público e com o Tribunal de Contas. Eu não creio que nenhum gestor público, em função de fazer uma média ou ficar mais bem na fita com a Fifa, vá se submeter a um processo dessa natureza. A Bahia não o fará, nem sob a possibilidade de conquistar qualquer que seja o evento, nem para presidir os jogos de 2014. O governador nesse ponto é muito claro: tem que se cumprir a legislação brasileira.



“Nunca chegou uma carta dessas à Bahia e se chegar um dia será carta fora do baralho”.

BN - Sobre as cidades que funcionarão como centros de treinamento para as seleções que participarão da Copa – fala-se em Juazeiro, em Vitória da Conquista – já há essa definição?

NC -
 Houve uma primeira pré-seleção e oito cidades se inscreveram, totalizando 14 centros de treinamento, já que uma cidade pode ofertar mais de um. Na quarta-feira (10) saiu uma nova abertura para inscrição. A cidade de Juazeiro, por exemplo, não está inscrita. Vitória da Conquista se inscreveu, mas não foi pré-selecionada. Eu acho que serão poucas as cidades na Bahia, como em qualquer outro lugar, a receberem os centros de treinamento porque são 80, 90 municípios brasileiros na competição e existe um conjunto de outras cidades com bons equipamentos. Por exemplo, eu fui assistir a um jogo em Goiânia e vi lá um estádio de muito boa qualidade e a cidade é candidata a centro de treinamento. Então, os municípios baianos não vão disputar apenas entre si, mas com cidades como Aracaju, Maceió e outras cidades brasileiras que não foram contempladas na condição de cidades-sedes. Por isso eu acho que serão poucas as cidades baianas escolhidas. Agora, eu acho que nós temos algumas candidatas fortíssimas, como é o caso de Porto Seguro, uma cidade que tem uma localização geográfica estratégica do ponto de vista do deslocamento para o sul, sudeste, Europa etc., que tem 42 mil leitos e que foi o porto de chegada para o descobrimento desse país. Inclusive, estive lá para um fórum e o prefeito está conosco constituindo um projeto e um portifólio para nós levarmos à Federação de Portugal para tentar trazer a seleção portuguesa para fazer a aclimatação lá, por causa do vínculo histórico. Uma cidade como Porto Seguro reúne condições bastante vantajosas, mas às vezes essa decisão surpreende. O Brasil na Copa da Alemanha, por exemplo, ficou em uma cidade na Suíça com 4 mil habitantes. Às vezes uma cidadezinha tranquila como Lençóis, por exemplo, se tiver um centro de treinamento e um aeroporto, pode ser escolhida em detrimento a uma grande cidade. Sob esse ponto de vista, essa poderia ser uma desvantagem para Porto Seguro, que é muito frequentada. Isso pode ser um gerador de certa tensão no processo de escolha, mas o que nós fizemos no sorteio das eliminatórias foi o seguinte: nós apresentamos cartas a todas as federações que estavam lá, dos Estados Unidos, da Alemanha, da Inglaterra. A todas as seleções a gente entregou uma carta e um pen drive colocando a Bahia como alternativa.