Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
Você está em:
/
Entrevistas

Entrevista

Fernando Boulhosa propõe lei para obrigar artistas a tocarem na Avenida - 18/04/2011

Por Rafael Rodrigues / Fernanda Figueiredo

Foto: Tiago Melo/BN

Por Rafael Rodrigues e Fernanda Figueiredo

Bahia Notícias: Ano após ano o circuito Osmar tem perdido força com a fuga dos grandes artistas. Qual a solução que se vislumbra para tentar contornar este problema?

Fernando Boulhosa:
As pessoas precisam ter atitude. O Conselho do Carnaval, que trabalha na montagem da fiscalização do carnaval, ele se preocupa com isso. Para ser conseguido objetivamente precisa ter o envolvimento muito amplo. O carnaval não pode ser feito por um segmento ou uma pessoa. Precisamos do envolvimento com a Câmara de Vereadores, que criou o Conselho Municipal do Carnaval, e existem lá pessoas que gostam muito da festa e pessoas que não gostam. Tem que se pegar esse grupo que gosta e começar a trabalhar junto com o conselho. Para resolver o problema do Osmar, se as pessoas, artistas, entidades carnavalescas não quiserem participar, vamos criar leis e obrigá-los, com punições severas. Mas o conselho não tem esse poder, de determinar isso, mas quando você cria uma lei, e para criar essa lei os vereadores tem que participar. Queremos uma coisa decente, com participação, não é simplesmente retaliar ninguém.

BN: Seria algum dispositivo legal que obrigaria os artistas que quisessem participar do carnaval no Barra-Ondina a também desfilar na Avenida?

FB: 
Também. É uma situação. Eu vou citar alguns nomes, nada pessoalmente contra eles. Armandinho, Dodô e Osmar; por que Armandinho só pode desfilar na Barra? Aí você diz “mas eu sou o trio elétrico do povo”. Mas o seu povo é só o da Barra? Vamos criar uma lei para você ter dias na Barra e dias na Avenida. Assim será Carlinhos Brown e todo mundo. Não tem demagogia. Se o Ilê ou Olodum quiserem desfilar no meio, intercalado entre os blocos de trios, vai desfilar, agora não pode é no discurso dizer que vai desfilar, mas na hora não desfila. O que a gente precisa é unir essas forças e transformar isso em regras com punições severas para qualquer um. Não pode ter privilégios, de chegar algum fulano e dizer “eu não posso”, aí vem um político de lá e pede uma coisa, e aí acaba conseguindo fazer as coisas e o carnaval vai minguando, e a Barra, por sua vez, inchando ao ponto de explodir.

BN: A Barra está inchada mesmo de camarotes. Parece mais um carnaval indoor, com pouco espaço para o folião pipoca. Isso pode ser revertido ou já virou característica daquele circuito?

FB: 
Pode ser revertido. Há 20 anos surgiu essa polêmica sobre o direito de arena, que ninguém levou adiante, e agora algumas pessoas estão pontuando, não com uma motivação sobre este direito em si, porque nem sabem do que se trata, e começam fazer política em cima disso. Eu acho o camarote muito importante para o carnaval. É uma fonte geradora de emprego, de turistas para a cidade. Sou contra os que ocupam os espaços públicos, mas a maioria deles é em áreas privadas e os que estão em área pública foram licitados pela prefeitura. Eu vejo às vezes a notícia de que o camarote faturou R$ 15 milhões, agora pagam os impostos.

BN: Os camarotes são os que mais lucram no carnaval hoje?

FB: 
É possível. Mas eles tiveram essa capacidade de fazer isso, de trazer essas pessoas que têm condição para ir para os camarotes. Tem camarotes de R$ 1,7 mil a diária. Mas ninguém é obrigado a pagar, eles oferecem o serviço. Tem camarote em Salvador que paga de imposto municipal mais do que todos os blocos do circuito Batatinha juntos. Isso é importante para a cidade. Agora, a gente tem que acabar com muitos privilégios que se tem. Por exemplo, eu sou contra aquelas gruas que colocam nos camarotes que engarrafam tudo. Enquanto não prejudicar a festa está ótimo; aquelas gruas atrapalham. O direito de arena existe, agora tem de ser avaliado.

BN: Explique, por favor, para o nosso leitor, o que seria o direito de arena.

FB: 
Se eu tenho uma entidade que sai nos circuitos da festa, eu tenho direito a pleitear esse direito de arena, onde estão aqueles camarotes. O que não pode é uma entidade que sai no Batatinha pleitear o direito de arena na Barra. Ele vai ter que pleitear, se tiver camarote, ali no Batatinha. Mas antes de você partir para uma briga, que começou há 11 anos atrás, porque não se senta na mesa para tentar negociar? Alguém viu a lei como é? Alguém vai pegar em dinheiro? Não. Você vai reverter em benefícios para a entidade que realmente precisa.

BN: Mas não há uma contradição? Enquanto os camarotes são os que mais lucram, os blocos, que fazem a festa acontecer, estão em crise? Isso não pode atrapalhar o carnaval?

FB: 
É uma questão de competência. A gente tem que inibir dos camarotes alguns excessos, agora proibí-los, a gente não pode. O cara tem um espaço privado dele, e ele investe e traz turistas para cá. São mais de 900 empregos que cada camarote proporciona. Isso é substancial. Existem algumas coisas nocivas que têm que ser corrigidas, mas quem tem que dizer é esse grupo gestor do carnaval.

BN: E quanto a essa crise que atinge os blocos, o ex-prefeito Antônio Imbassahy (do PSDB, agora deputado federal) até prometeu que ia isentar as dívidas das agremiações, mas até hoje esse perdão não saiu. Isso prejudica?

FB: 
Promessa é o que tem mais, e pouca ação. Precisamos de menos conversa e mais atitude. Não é faltando 15 dias ou um mês para o carnaval que temos que pensá-lo. O carnaval já tem uma estrutura, que não podemos jogar por água abaixo. Precisamos é de criar leis para regulamentar algumas situações.

BN: O senhor então se coloca como contrário à proposta encabeçada pelo Otto Pípolo, de tranferir 30% dos lucros dos camarotes para os blocos?

FB: 
Isso não existe. Nenhuma empresa hoje tem um lucro de 30%. É um radicalismo, um oportunismo, não de Otto nem do escritório de Aras, mas de algumas pessoas que estão envolvidas, que eu chamo de eminências pardas, que não têm entidade, nunca participaram e vivem na ponga do negativo. Não trazem nada de positivo para o carnaval.

BN: Seriam pessoas então dispensáveis para o carnaval?

FB: 
Completamente dispensáveis. Otto é uma pessoa direita, que tem uma filosofia. Mas os que estão acompanhando ele não têm o mesmo pensamento. Envolvem ele, mas o que eles querem é coisa puramente eleitoreira. Tem até ex-candidato a vereador querendo voltar via uma negociação que não é a verdadeira, enganando algumas entidades que não têm o conhecimento. São entidade pequenas, que a maioria delas já está saindo desse imbróglio que eles criaram, porque perceberam que não é assim que se faz as coisas. Se existe esse direito de arena, vamos sentar e resolver isso. E não fazer estardalhaço, conjecturando coisas que não existem. Hoje em dia a coisa cresceu tanto que os blocos e camarotes não sonegam mais impostos, e o governo sabe disso, porque arrecada. Os blocos estão sofrendo, estão. Porque tem muita gente que está pegando os blocos, inclusive muitos destes que estão reclamando, e aluga seus blocos para ganhar algum dinheiro. Não tem compromisso.

BN: A venda do lugar na fila é ilegal. Como combatê-la?

FB: 
Não pode, mas tem alguns que fazem isso. O Ministério Público, junto ao Conselho, está atuando. Estamos preparando um documento para enviar ao MP, dizendo exatamente quem faz parceria, que é uma coisa normal, e quem tem um espaço na fila e arrenda esse espaço. Qual o compromisso que ele tem com o carnaval? Zero. Agora fazer parceria com alguém competente, uma parceria clara, cristalina, estou fazendo um negócio. Isso é empreendedorismo.

BN: O carnaval que movimenta a economia, que se tornou uma indústria, pode ser considerado um bem cultural?

FB: 
É também, porque muitas vezes, na interpretação, cada um puxa para o seu lado cultural. Os blocos das matrizes africanas são cultura. Até que ponto são cultura? A maior marca do carnaval da Bahia chama-se Olodum. O Ilê é um dos blocos que mais arrecadam no carnaval, aí, muitas vezes, essa demagogia que eu não concordo. Eles pegam essas entidades menores, de matrizes africanas do circuito Batatinha, que é muito importante, e aí fazem demagogia com essas pessoas. Eles não dizem quanto arrecadam no carnaval, quanto de patrocinadores eles têm. Já que eles defendem tanto a cultura afrodescendente, por que não ajudam? Eu vejo um out-door do Ilê cheio de patrocinadores, agradecendo pelas ruas. Por que ele não pega uma pontinha desse dinheiro para dar às entidades menores? Eles só vêm em cima dos camarotes, dos blocos grandes? Os blocos grandes tiveram a capacidade como ele de crescer. Essa demagogia que não cabe mais no carnaval.

BN: Estão crescendo no carnaval baiano os blocos de fanfarra. Na sexta-feira da semana que antecede o carnaval, e na quarta antes do início oficial da festa, a Barra estava lotada de pessoas que foram atrás destes blocos, que não são licenciados. Não há o ordenamento de trânsito da Transalvador, nem policiamento da PM e da Civil. Como fazer para incorporar estes dias também à programação do carnaval?

FB: 
É muito bom. É salutar pro carnaval. O carnaval é uma mistura de musicalidade. O carnaval de Salvador cresceu por essa pluralidade. Então, essas fanfarras retornando, que era o carnaval antigo, é bacana. O governo e Município têm que chegar junto, têm que ter estrutura para esse carnaval. Aí vão dizer: “A Barra não suporta mais”. Então vamos arrumar um lugar para colocar essas fanfarras, que vão continuar existindo, estão crescendo e têm que ser incentivadas. O povo gosta disso.

BN: Inclusive no Rio de Janeiro este modelo de carnaval tem crescido, e o prefeito de lá, o Eduardo Paes, até disse que iria proibir trios que tocam axé e cobram pela fantasia...

FB: Isso aí eu acho que ele foi infeliz. A configuração do nosso carnaval é completamente diferente da do carioca. O carioca é conhecido, e eles acham que é a maior, nas escolas de samba. É pouca gente nas arquibancadas, em relação as 2 milhões de pessoas do nosso carnaval. Em três horas acaba, e o cara tem que ficar com a bunda sentada ali, e não pode levantar para fazer xixi senão perde o lugar. E os grandes magnatas naqueles hipercamarotes, e aquele glamour das fantasias, das mulheres bonitas. Esse é o carnaval do Rio. O outro carnaval é o que a demagogia do prefeito do Rio está fazendo. É o carnaval que tem algumas agremiações tradicionais, que eles esqueceram, e agora estão indo no vácuo. Mas já fizeram propostas para os grandes artistas de Salvador para ir para lá cantar.

BN: Acredita que o crescimento deste carnaval do Rio pode gerar uma fuga de artistas e turistas para o Rio?

FB:
 Pode sim. Se a gente não cuidar dessa festa, sem vaidade, sem dizer "eu sou o melhor, eu sou o bom, o bacana". Bacana é o Carnaval de Salvador. Tem que escolher as pessoas certas para trabalhar e a gente sabe quem são as pessoas certas. A empresa que capta patrocínio para o Carnaval de Salvador, além de ser competente para captar, porque antes eram R$1,6 milhões e agora são R$ 16 milhões, e aí o cara, em vez de elogiar a empresa, quer saber quanto ela vai lucrar. A empresa está preocupada, inclusive, com a questão do Campo Grande, porque eles estão sentido que os grandes patrocinadores do carnaval começaram a ficar com medo de investir.

BN: O noticiário negativo da Rede Globo, que promove apenas a folia nas praças em que tem sedes próprias, atrapalha?

FB: 
Muito. Quando você vê o noticiário com o carnaval de Recife, vê que é uma coisa diferente da nossa. Nego vem aqui, e brinca quando tem dinheiro, quando não tem, a hora que quiser, no circuito que quiser. Lá não. Você fica parado concentrado vendo um bocado de grupo tocar bumba meu boi, você não participar. Como existe uma tendência natural de falar bem do carnaval do Rio e de Recife, e falar do baiano só quando tem violência, cabe à imprensa daqui mostrar o que há de positivo aqui.

BN: Um diretor do banco Itaú reclamou que, mesmo sendo cotista principal do carnaval de Salvador, sua marca apareceu menos do que a de um concorrente, o Bradesco, que investiu em blocos e camarotes. Como tornar o patrocínio do carnaval atraente? O que há de errado?

FB: 
O cara perdeu uma boa oportunidade de ficar calado. Se você tem o patrocinador máster do carnaval, mas não tem uma grande equipe de marketing por trás para pegar sua marca e fazer sua gestão, vem outro, com um custo talvez até menor do que o dele, e aparece mais. Isso é questão de competência, você não pode criticar o carnaval de Salvador. Você não pode impedir que meu bloco tenha um patrocinador diferente do oficial do carnaval. A estratégia tem que focar os espaços onde a mídia mostra, porque a marca aparece. Não adianta estar pulverizado pela cidade.