José Carlos Aleluia: "O presidente Lula estava cometendo estelionato eleitoral" - 02/07/2007
Foto: site do deputado

"O presidente Lula estava cometendo estelionato eleitoral"
Por Daniel Pinto
Além de virar oposição, o que mais mudou na transição do PFL para o Democratas?
José Carlos Aleluia – Na democracia quem vence as eleições governa, quem perde as eleições tem o dever democrático de fazer oposição. O PFL, hoje Democratas, perdeu as eleições de 2002 e faz oposição conseqüente ao governo do PT. Ao contrário do que o partido do presidente fazia quando oposição. Que era uma oposição destrutiva. Predadora. Perdemos a eleição nacional em 2002 e também perdemos a eleição estadual em 2006, portanto, temos o dever de fazer oposição ao governo Jaques Wagner e ao Governo Federal do presidente Lula. Além desse dever democrático, nós temos trabalhado na formulação de alternativas. Queremos mostrar para a sociedade que existe uma outra forma de governar o Brasil, outro caminho para o Brasil e, particularmente, para a Bahia.
O Sr. acredita que Rodrigo Maia, ACM Neto e toda a Executiva Nacional do Democratas possuem condições de reestruturar um partido que no ano passado sofreu a maior de suas derrotas políticas com a perda das eleições em importantes Estados e o enxugamento do quadro no Congresso Nacional?
JCA – Nós tivemos resultados adversos na eleição de 2006, primeiro porque nós não nos preparamos para a verticalização, não apresentamos candidato a presidente da República. Nós não repetiremos a fórmula em 2010. Teremos candidato a presidente. Nas eleições municipais vamos apresentar candidatos nos principais municípios brasileiros. Em 2006, cometemos um equívoco, quando apoiamos um candidato, Geraldo Alckmin (PSDB), que tinha qualidades, mas não percebeu corretamente os nossos ideários. Alckmin teve uma postura no mínimo hesitante, com relação às questões importantes, como a bem sucedida privatização das telecomunicações e a economia estabilizada, quando estávamos no poder. Nós não soubemos denunciar à Nação que o presidente Lula estava cometendo estelionato eleitoral, ao utilizar os recursos do Tesouro da União e os meios eletrônicos de cadastramento e de comunicação para comprar a consciência dos brasileiros através do Bolsa Família. Não percebemos que Lula abandonou projetos como o Bolsa Escola, para abraçar um projeto que é meramente uma compra de votos – o coronelismo eletrônico. Deixamos de discutir corretamente a questão da corrupção. Fomos incapazes de mostrar que o governo do presidente Lula é um dos governos mais corruptos da história. Agora, estamos reorganizados. Confiamos plenamente na nova geração de democratas, que não trabalhará sozinha. Os jovens terão o apoio das pessoas mais experientes e me incluo na geração intermediária. Temos militando no partido pessoas experientes como os senadores Marco Maciel e José Agripino e o ex-senador e presidente do PFL, Jorge Bornhausen, que poderão ajudar bastante nesta transição.
Deputado, o Democratas tem perfil e vigor para ser oposição, fato inédito até agora?
JCA – Já demonstramos que a experiência adquirida como administradores em vários Estados brasileiros, inclusive na Bahia, no Rio, em São Paulo, em Pernambuco, nos foi muito útil na oposição. Mostramos caminhos que infelizmente não foram percorridos pelo governo Lula. Fui, durante dois anos, líder do então PFL e, posteriormente, por dois anos, liderei a Oposição. Acho que o trabalho foi positivo, tanto que o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP nos últimos anos me incluiu entre os 10 mais destacados parlamentares do Congresso Nacional e como o principal líder da Oposição na Câmara dos Deputados. Nós não somos uma oposição destrutiva, mas sim uma oposição crítica, propositiva. Contribuímos bastante para construir inclusive soluções que não foram aproveitadas pelo atual governo. Vou citar um exemplo: aprovamos na previdência do servidor público o Fundo de Previdência do Servidor Público, que está na Constituição, mas que até hoje Lula foi incapaz de regulamentar. Nós temos denunciado como oposição que o Brasil está se atrasando em relação ao mundo, que cresce numa velocidade muito maior em relação ao Brasil. A cada ano, ficamos muita para trás em relação ao mundo desenvolvido e para trás na corrida com os emergentes. Não temos gerado empregos suficientes para atender aos jovens. Não há esperança para o Brasil, sob Lula. A única coisa que tem florescido no País é a violência e a corrupção, alimentadas pela impunidade. O Democratas, não tenha dúvida, será capaz de administrar o País com mais resultados, criando um clima favorável para os investimentos, para o emprego, para o desenvolvimento e para as pessoas. Não tenho a menor dúvida que somos uma alternativa de centro-democrático, que depois dessa febre populista será procurada pelo cidadão brasileiro.
E quanto à situação do partido aqui na Bahia, o Democratas está realmente dividido entre “carlistas” e “soutistas”? Procede a informação de que importantes Democratas de Salvador estariam “enamorados” do PDT?
JCA – Uma coisa é certa, estaremos juntos nas eleições. Essa divisão inexiste. O que há é um esforço para o fortalecimento do Democratas. Vamos mostrar nas eleições que a legenda está unida. E não creio que democratas sejam atraídos por outros partidos. Ninguém sairá da legenda, porque reconhecem o valor da nossa história.
Esse clima aqui no Estado não prejudica os ânimos para a sucessão municipal do ano que vem?
JCA – Espero que não prejudique. Nós teremos candidatos nas principais cidades do interior do Estado: Feira de Santana, Alagoinhas, Itabuna, Ilhéus, Conquista, Brumado, Jacobina, Irecê, Barreiras, Eunápolis, Teixeira de Freitas, Paulo Afonso, Senhor do Bonfim, Campo Formoso, Juazeiro... Nós estaremos presentes nas cidades importantes e procuraremos fazer alianças. Mas, nós vamos trabalhar para que o partido, na Bahia, se mantenha como o principal partido de oposição. E o clima de disputa é natural e democrático. O importante é o partido estar unido na hora de enfrentar os adversários. Salvador e outros municípios baianos vão mostrar ao Brasil que o nosso partido continuará a ser uma força e elegeremos um grande número de prefeitos e vereadores.
Por falar nisso, quais são as prioridades do Democratas para as próximas eleições?
JCA – Nós advogaremos a qualidade do gasto público. O governo arrecada em impostos quase 40% do que se produz no país e as administrações municipais são responsáveis por uma parcela importante desses gastos. Nós vamos advogar primeiro a ética, a seriedade e a eficiência. Administração pública com competência, buscando resultados, recrutando quadros preparados, valorizando o servidor público municipal em todos os níveis e apresentando uma prefeitura empreendedora. Os Democratas estarão embasados na experiência de tantos anos de administração pública e, agora, com esse período na oposição, as nossas energias serão destinadas à prioridade de temas como Segurança Pública, Saúde, Educação, Emprego e Meio Ambiente. Vamos investir nesses pontos. Passam por eles as grandes preocupações da população. Nossa assessoria está trabalhando fortemente em programas que contemplem essas prioridades.
O Democratas já tem um nome para entrar na disputa pela Prefeitura de Salvador?
JCA – Tem vários nomes. O Democratas é um quadro rico em talentos administrativos. Nomes não faltam: Paulo Souto, ACM Neto, César Borges, Luiz Carreira, Gerson Gabrielli.
O Sr. aceitaria ser candidato a prefeito?
JCA – O meu nome está à disposição do partido. Sou homem de partido. O Democratas terá um candidato competitivo. Temos vários nomes em condições de disputar e ganhar as eleições municipais de 2008. Não se ganha eleição só com nome. Mas, é importante ter quadros políticos competentes, que possam ajudar a governar e isso o Democratas da Bahia tem e já provou aos eleitores a maneira moderna de se administrar. Estou à disposição dos companheiros. Não me furtarei a uma convocação dos Democratas.
Por que o Sr., com o destaque político que tem, é “estrela” em Brasília e aqui sempre foi preterido pelo seu partido?
JCA – Não entendo assim. Nos últimos quatro anos fui líder do PFL e da Oposição, portanto minhas energias estavam voltadas, por determinação do meu partido, para as questões nacionais. Embora jamais tenha perdido de vista as coisas da minha Bahia, onde sou votado, eleito e reeleito deputado federal para cinco mandatos consecutivos. O fato de ter alcançado uma projeção nacional indiscutível é conseqüência do trabalho desenvolvido no Congresso Nacional. Claro, com o apoio de outras lideranças do meu partido.
Já que estamos na Bahia, por favor, faça uma radiografia do Governo Wagner até aqui.
JCA – Diz-se normalmente que os governos têm uma lua de mel de cem dias. Alguns governantes assumem com um grau de esperança tão elevado que com o sistema de comunicação conseguem alongar essa lua de mel para 180 dias. Estamos, portanto, no fim da lua de mel “expandida” do governador Wagner. O governador escolheu sua equipe, que ainda não mostrou conjunto. Percebe-se claramente que o governo não iniciou, não apresentou seus projetos, caminhos, e que ritmo ele pretende dar à Bahia. Os baianos estão à espera de que Jaques Wagner comece efetivamente a trabalhar. O cidadão nas ruas começa a desconfiar, seis meses depois da posse, que o governador ainda não percebeu a diferença entre o palanque e o dia a dia de governar. Um governante é eleito para resolver problemas. Os professores, por exemplo, estão há dois meses em greve. Um sinal claro do despreparo do governo do PT para resolver a questão. Os alunos estão pagando caro pela incompetência do petismo.
Existe perspectiva para uma grande aliança política envolvendo o Democratas e o ministro Geddel Vieira Lima ou o Governo Wagner?
JCA – Estamos abertos a todas as alianças. Com o PMDB de Geddel, com o PSDB de Jutahy Júnior. Não repetiremos os erros da eleição passada, quando nos isolamos e fomos derrotados. Vamos praticar a democracia. Ouviremos a sociedade. Quando houver possibilidade de alianças, vamos fazê-las. A única aliança impossível é com o PT, que é o atual governo.
O Sr. é um dos opositores mais ferrenhos do Governo Lula. Critica a política econômica, o vazamento de informações privilegiadas pela Polícia Federal, a relação do Governo com o MST, os programas sociais, a condução do PAC, também acusa o Governo de tentar engavetar todas as CPI’s. Afinal de contas – na sua avaliação pessoal – existe algo positivo no Governo Lula, ou parafraseando o presidente, “nunca na história deste país” houve Governo tão mesquinho?
JCA – Sem dúvida que há pontos positivos. Com a vitória de Lula, o Brasil consolidou de vez a democracia e ninguém pode negar. Isso melhora muito a imagem do país. O Brasil continua sendo governado por uma política capitalista, com o funcionamento do Parlamento, do Judiciário e do Executivo. Ou seja, a independência entre os poderes de forma balanceada. O fato de Lula não ter cumprido as promessas de campanha e ter mantido a política econômica do governo FHC, ainda que de forma conservadora, também é positivo. Se Lula e o PT tivessem adotado o que pregaram durante 20 anos, desmoralizariam ainda mais as instituições brasileiras. Agora, não se pode esquecer que o não crescimento da economia, enquanto o mundo inteiro cresce extraordinariamente. Não crescemos, enquanto outros emergentes, como China, Índia, Chile, Rússia crescem a taxas acima de 6% anuais. Paralelamente ao pífio movimento do PIB, o Brasil testemunha o maior programa de corrupção jamais visto num governo brasileiro. Esse título ninguém tira de Lula. De resto, nesta semana faz dois anos que a Procuradoria-Geral da República denunciou a existência de uma quadrilha operando no governo Lula. Coincidentemente, foram denunciados 40 corruptos. Até hoje, nenhum foi punido, graças à impunidade que tomou conta do Brasil da forma mais escandalosa desde que Lula chegou ao Poder.