Reinaldo Braga assume liderança na minoria a Wagner e diz que não fará "oposição sistemática" - 13/02/2011
Fotos: Glauber Guerra/BN

"Farei uma oposição qualificada, mais aberta para discutir e entender as coisas. [...] Se for bom não tem necessidade de serrar a fileira contra, para quê?"
Por David Mendes, Rafael Rodrigues e Glauber Guerra
Bahia Notícias: Na legislatura anterior, ainda no PSL, o senhor passou boa parte do mandato como membro da base do governador Jaques Wagner. Depois passou para o PR e continuou nessa base de sustentação. Veio a eleição e o senhor apoiou Geddel, e agora vira líder da oposição. A que se deve essa mudança de posição?
Reinaldo Braga: Eu já fui, no passado, vice-líder do governo Paulo Souto (DEM) e eu tinha essa experiência de negociação com a oposição naquele época, que contava com Paulo Jackson, Moema Gramacho e Alice Portugal. Eu, como primeiro vice-líder, ficava com toda essa negociação com as bancadas. Já essa questão de ser da base do governo e voltar para a oposição se deu por conta do processo eleitoral. Quando o PR buscava coligação proporcional e o PT a base governista, não deu essa esperança, essa certeza de que iria coligar na eleição proporcional. Nós éramos seis deputados, com uma perspectiva média de 40 mil, 50 mil votos cada um e, para disputarmos isolados, porque o PT, o PP, o PDT e o PSB não queriam, seria difícil. Inclusive, eles tinham um pouco de razão, porque eram seis deputados do PR tidos com eleitos ou reeleitos, então todos os partidos achavam que tiraríamos as vagas e não aceitaram. Por conta disso, o PMDB nos ofereceu essa certeza da coligação proporcional. Esse foi o principal motivo do PR, porque tinha uma parte que apoiava o governo e outros que eram oposição.
BN: Então podemos afirmar que o fato de estar na oposição hoje é mais por uma circunstância política do que uma posição programática.
RB - É mais ou menos isso. Nós conversamos bastante sobre isso com todos os coordenadores da campanha do governador Wagner. Nós conversamos à exaustão com Luiz Caetano, Otto Alencar, Rui Costa, Jonas Paulo, com todos, inclusive com o próprio governador, mas esta questão da coligação era um impedimento. A gente só poderia ir assim para ter condições de disputar as eleições. Não havia chances, porque se ficássemos só com os seis, só elegeríamos dois deputados. Seria um suicídio político.
BN: Então como fica a relação do senhor com o governador Jaques Wagner, já que era da base e não continuou devido às circunstâncias eleitorais?
RB - Nós fomos para a oposição na eleição. A partir daí forma-se outra circunstância, outra conjuntura e, com isso, os outros deputados do bloco da oposição me convidaram, me convocaram, apelaram para que eu, que tinha experiência, me tornasse líder da oposição. Pensei bastante e aceitei. Não farei uma oposição cega, sistemática, farei uma oposição qualificada, mais aberta para discutir e entender as coisas. Saber se um projeto é bom ou ruim. Se for bom não tem necessidade de serrar a fileira contra. Para quê? Se ele for bom para a Bahia, se contribui para o desenvolvimento do estado, por que votar contra? Então, os deputados já conhecem o meu perfil de gostar da negociação, da articulação política, de discutir, de se convencer e de convencer os outros. Se eles já sabiam do meu estilo e mesmo assim me quiseram, isso subentende-se que discutiremos à exaustão, mas não será uma oposição sistemática.

"A oposição encolheu porque o governo teve uma vitória com quase 64% dos votos dos eleitores, e isso puxa os votos para os deputados aliados".
BN: Qual a avaliação que o senhor faz hoje do governo Jaques Wagner, já que o senhor agora é o líder da oposição. Quais os problemas que o senhor apontaria?
RB - É evidente que se você fizer essa pergunta a todos os 63 deputados, os do governo dirão uma coisa e os da oposição outra. Mas isso não significa que os da base não encontram falhas ou problemas no governo. Eles não podem explicitar às vezes, mas eles encontram e nas conversas informais sempre citam alguma coisa. Você pode dizer que a Segurança Pública vai bem? Ninguém pode dizer, mas se perguntar a um aliado ele encontrará uma forma de dizer isso. A Saúde vai bem? Não vai, tem as filas, há demora para marcar consultas, então não vai bem.
BN: Fazendo um balanço, o governo que passou foi mais positivo ou negativo? A Bahia progrediu ou regrediu?
RB - Eu acho que teve um avanço, por exemplo, no abastecimento de água das pequenas comunidades, com a construção e instalações de poços. Na questão da energia, em parceria do governo federal, também houve avanços. O governo se comunicou bem com a sociedade, através da Agecom. Esses pontos são cristalinos, não podemos esconder, mas temas como Segurança Pública, Saúde e Educação deixaram a desejar, e tem pontos que precisam ser melhorados.
BN: A oposição encolheu na Casa nesta eleição. Partidos considerados grandes, como o Democratas, por exemplo, teve a bancada reduzida. Para o senhor, o que a oposição fez de errado para ter uma resposta tão ruim nas urnas e o que o senhor pretende fazer diferente do que foi feito na legislatura passada?
RB - Eu diria que a oposição encolheu porque o governo teve uma vitória com quase 64% dos votos dos eleitores e isso puxa os votos para os deputados aliados, para os partidos da base aliada e, evidentemente, que influencia no número de deputados eleitos tanto na base do governo quanto na oposição.

"Aqui na Bahia hoje temos quatro candidatos com a mesma dimensão eleitoral. Um do PT, que é Walter Pinheiro, João Henrique, Geddel e ACM Neto".
BN: As críticas que a oposição fazia não correspondiam à realidade então? Eles não souberam se comunicar? Quais foram os erros, já que ela pintava a Bahia de um jeito e o governo de outro. Ela errou na comunicação, na estratégia?
RB - Eu acho que houve erros. A oposição, no primeiro momento, aparecia nas pesquisas com um percentual e, nos últimos dois anos, começou a encolher. E o governo soube fazer uma comunicação melhor com a sociedade. Eu tenho a impressão que a eleição de João Henrique, que tinha quase 60% de rejeição na época, e conseguiu reverter através da comunicação, da publicidade e da propaganda, influenciou e animou o governo a buscar esse caminho, que acabou dando certo.
BN: Qual avaliação que o senhor faz de parlamentares como Heraldo Rocha, Carlos Gaban e outros oposicionistas, tidos como fortes combatentes, mas que não conseguiram se reeleger?
RB - São deputados experientes e valorosos, tiveram uma atuação bastante efetiva e de significado. Mas eleição é assim mesmo, às vezes a caixa de ressonância da Assembleia não chega aos ouvidos do povo.
BN: Então, como a oposição será ouvida pela sociedade?
RB - Eu acho que agora o quadro é outro, os atores são outros. Wagner não será mais candidato, Lula não é mais o presidente. Aqui na Bahia hoje temos quatro candidatos com a mesma dimensão eleitoral. Um do PT, que é Walter Pinheiro, João Henrique, Geddel e ACM Neto. Se fizermos uma pesquisa hoje, cada um terá 15% de intenção de voto. Então já muda, já não existe mais a hegemonia de um nome como o de Wagner, que era um nome já feito, preparado, foi ministro inclusive. Então, a coisa já equilibra, e isso te dá uma real posição, com vantagens nesse cenário traçado.

"A tendência da oposição é sempre se unir para não se enfraquecer mais ainda e até desaparecer".
BN: Uma das promessas do presidente Marcelo Nilo para o seu terceiro mandato será o de implantar a TV Assembleia em canal aberto para todo o estado. O senhor acha que isso vai favorecer o trabalho da oposição?
RB - Acho que sim. Chegará mais longe, reverbera mais porque o que for falado aqui será ouvido e visto nas casas mais distantes do interior. E isso será importante para a oposição.
BN: O PMDB e o DEM já teriam candidatos em 2014, como o senhor mesmo citou. O senhor teme problemas dentro da oposição, como a falta de unidade, por abraçarem dois projetos que disputam entre si o protagonismo da oposição na Bahia?
RB - Essa eleição que eu tracei aqui daria segundo turno e no segundo turno todo mundo se senta. A tendência da oposição é sempre se unir para não se enfraquecer mais ainda e até desaparecer.
BN: No final da lesgilatura passada, por conta das eleições, a bancada governista enfrentou dificuldades, inclusive teve que sentar com a oposição para discutir e aprovar projetos. Agora o governo está com ampla maioria. Como será a estratégia de oposição caso não haja concordância com determinados projetos para a Bahia?
RB - Discutiremos bastante. Se precisar obstruir, vamos obstruir para chamar a atenção da sociedade. Faremos o que a oposição faz mesmo, que é fiscalizar, legislar e representar o povo.
BN: O líder governista Zé Neto, ao contrário do senhor, tem uma postura mais combativa e participa de discussões polêmicas. Com esse perfil, o senhor acha que terá dificuldades de diálogos no dia-a-dia com o petista?
RB - Quando um deputado assume uma liderança, ele tem que ouvir o colegiado. Às vezes ele tem uma posição e o colegiado tem outra, mas o que a maioria decidir terá que ser cumprido.

"Eu entendo que o papel da Assembleia não é travar as coisas, pelo contrário, é colocar para andar projetos, discutir bastante, porque muitas vezes fica apenas na teoria".
BN: O senhor pensa em contar com o apoio do PSC e o PTN?
RB - Hoje eles estão sendo colocados como grupo independente, pelo menos é o que se diz. Eu acho que, a depender do projeto, eles podem somar e agregar a oposição. Até o momento não há nada oficial que eles estejam ligados ao governo, podem até ter a pretensão, mas ainda não foi consumado.
BN: O senhor conta com todos do PR para fazer oposição, teria algum dissidente?
RB - Conto com o apoio de todos, todos assinaram pela minha indicação. Agora não vislumbramos ninguém com esse perfil de fazer o jogo da situação.
BN: Essa unificação de hoje, já que no passado estavam divididos entre oposição e situação, teve o empenho do ex-senador César Borges, uma figura atuante dentro do partido, mas que saiu de cena após as eleições. Ele ainda participa das articulações partidárias ou preferiu se ausentar mesmo?
RB - Não, ele está ativo. Há pouco tivemos com ele, tanto os deputados estaduais e federais, e ele inclusive disse que o partido terá um candidato a prefeito de Salvador em 2012.
BN: Qual seria o nome possível dentro do PR para disputar a cadeira de comandante do Palácio Thomé de Souza?
RB - Olha, tem dois nomes, os dos deputados federais Maurício Trindade e João Carlos Bacelar.
BN: Antes de ser escolhido como líder da oposição, o nome do seu colega de partido Elmar Nascimento também foi colocado como possível líder. Ele tem um perfil combatível, de subir na tribuna e cobrar. Já o senhor tem um perfil mais conciliador. Então a oposição será menos combatente?
RB - Eu entendo que o papel da Assembleia não é travar as coisas, pelo contrário, é colocar para andar projetos, discutir bastante, porque muitas vezes fica apenas na teoria. Então, chega um momento em que precisamos evoluir mais essa questão. A oposição não vai aparecer para a sociedade porque trava os trabalhos da Casa. Ela vai aparecer pela produção, porque coloca para andar as coisas. Evidentemente que a gente não vai sonhar muito em derrubar um projeto do governo. Aí é sonhar demais. Mas, de qualquer sorte, você tenta fazer uma coisa mais aberta, a sociedade poderá enxerguar melhor a oposição, por apontar caminhos, buscar erros, mas que não quer prejudicar. Porque não cabe à oposição querer impor suas prioridades, porque quem ganhou foi o governo, o projeto dele foi quem ganhou a eleição. Você tem que cobrar as promessas, mas isso não significa que terá que emperrar os trabalhos da Assembleia por essa ou aquela razão. O que tem que ser feito é avançar, destravar, discutir e puxar os projetos para a ordem do dia.