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Entrevistas

Entrevista

Zé Neto não "engoliu" segunda reeleição de Nilo na AL-BA e se coloca como opção - 22/11/2010

Por Evilásio Júnior / João Gabriel Galdea

Fotos: Tiago Melo/BN
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“Acho que o PT tem que ser protagonista do processo de discussão [sobre a presidência da Assembleia Legislativa]”

Por Evilásio Júnior e João Gabriel Galdea

Bahia Notícias – O que representa você ter sido o candidato a deputado mais votado do PT na Bahia e, também, ter sido o candidato do governador Jaques Wagner?

Zé Neto –
Eu não fui o único candidato de Wagner. Ele teve muitos candidatos. É uma coisa muito importante para mim valorizar o fato de que eu fui um candidato, sou um deputado que tem muita ligação com a base do interior. Para você ver, eu tive 32 mil votos em Feira de Santana e a grande maioria dos meus votos para alcançar os 81.823 vieram do interior. E isso para mim vem com responsabilidade triplicada com o fortalecimento partidário dentro do interior e da base de apoio que sustentou o governo em todos esses anos. Então, nesse ponto, eu acho que não chega a ser uma coisa que me envaidece, mas uma coisa que me dá muita responsabilidade e ao mesmo tempo muita alegria de ter visto que no interior a companheirada mostrou que se faz política ainda com interlocução com movimentos sociais, categorias e setores produtivos. E, principalmente, agora nesse segundo turno, quando nós vimos como fator predominante na campanha de Dilma foi a militância ter voltado às ruas e ter feito a diferença na disputa tête-à-tête de projeto com o PSDB e com Serra. Então, o que me traz com uma votação expressiva dentro do partido é ampliar ainda mais a minha responsabilidade com o projeto da companheira Dilma, do companheiro Lula e do companheiro Wagner, que tem sido um grande líder aqui pro nosso PT e para aqueles que acreditaram que a poderia dar um salto, e deu esse salto, para a democracia. E quando olhamos para traz agora, quatro anos se passaram, e hoje parece um sonho, pois estamos num estado muito melhor, mais democrático, mais aberto e com muito mais possibilidades de avançar.

BN – Candidato à Presidência da Assembleia Legislativa?

ZN –
Não. Agora acho que o PT tem que ser protagonista do processo de discussão na Assembleia e não só do fato de ter ou não ter presidente, mas o que é que a gente vai querer da próxima Assembleia Legislativa. O que é que deu certo, o que é que deu errado, o que é que nós podemos fazer para melhorar (?) e aí vamos começar o jogo que, pra mim, está apenas na preliminar. Nós vamos avançar mesmo é em janeiro.

BN - Não tendo a presidência da Assembleia, sobra então a vaga de líder do Governo?

ZN -
É uma outra discussão que depende muito do governador [Jaques Wagner]. Eu acho que cumpro um papel importante, como Nonô [Waldenor Pereira] por exemplo, que foi o líder e eu fui ali o “subcomandante” da história da liderança, e ele no comando. Nós combinamos as coisas. Mas é uma escolha do governador. Eu to muito à vontade. Quero ser deputado. Estou com muito vigor. Aprendi muito no primeiro governo. Posso ajudar na execução desse segundo governo.

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"É uma escolha do governador [sobre a liderança do governo]. Eu estou muito à vontade. Quero ser deputado. Estou com muito vigor".

BN - Mas com Waldenor saindo para a Câmara Federal, não seria natural você ser o indicado?

ZN –
Sim e não, porque ali nós tínhamos uma combinação. Eu e Waldenor, sempre, nos sintonizamos muito no processo de defesa dos interesses do governo e nas interlocuções com os movimentos organizados e até as questões que apareciam e que traziam algumas situações nas quais os movimentos estavam desorganizados, nós tínhamos como dividir as interlocuções. Então, isso funcionou muito nesse nível. Pode ser que eu tenha algum outro companheiro que possa fazer isso comigo. Mas é uma decisão do governador, da confiança do governador e também da perspectiva do que ele quer para cada um.

BN – O presidente da Assembleia e candidato à reeleição Marcelo Nilo (PDT) divulgou esta semana que conseguiu o apoio do PCdoB. Já seriam 11 partidos que estariam com ele, faltando apenas o PP, com quem já tem conversas encaminhadas, e o PT. Neste cenário, ele estaria reeleito. Que é que o PT vai fazer para mudar o quadro ou o PT vai ceder, negociar, e acabar por apoiar Marcelo Nilo?

ZN –
Olha, o PT não pode ficar a reboque, como coadjuvantes. Nós temos que ser protagonistas no processo pois somos o maior partido. O partido que deu mais sustentação a Marcelo [Nilo] e o governador é do PT. O governador se exime de uma discussão mais presente nesse processo, agora, porque, como governador, e eu também penso assim, nós precisamos focar como prioridade o funcionamento da Casa. A Casa tem que funcionar, tem que produzir, tem que aprovar a LDO, o orçamento, a renovação dos convênios do Funceb, a lei dos cartórios, e tudo isso tem que ser a prioridade da Casa. Ora, se Marcelo tá dizendo que tem muitos partidos apoiando ele – e precisa estar dizendo isso toda hora, em público, o que acho inócuo, esse esforço para mostrar que tá na liderança –, posso dizer para você que tem várias articulações nos bastidores que mostram uma outra situação. No meu ponto de vista, e foi o que eu disse a ele, é que “caldo de galinha e cautela” não fazem mal a ninguém. Isso para dizer a ele para fazer a Casa funcionar nesse momento, e discutir também com o PDT, com a bancada de governo, no contexto da bancada de governo, podendo atrair a oposição, evidentemente, para sua candidatura, ou para qualquer outra candidatura no nosso campo de governo... Mas a candidatura, precisamos lembrar, que é do campo do governo e que tem que discutir situações como, por exemplo, o voto secreto [no plenário de votação da AL-BA]. Isso tem que acabar. Vamos discutir isso, ou não? E temos que acabar também com a reeleição, que é uma coisa anacrônica. Daí as pessoas perguntam: e por que não pensaram nisso antes? Não pensaram porque ninguém imaginava que Marcelo seria candidato pela terceira vez. Bom, isso aconteceu, o que não é ilegal, mas evidentemente nós temos que acertar o jogo para que o apoio do PT não seja nem gratuito e nem fora de um foco de organização que nos dê condição de melhorar a Casa. Precisamos aperfeiçoar a Casa, que já deu passos decisivos. Eu inclusive posso agradecer a Marcelo porque ele me ajudou a dar sequência ao trabalho que foi realizado na CPI da Ebal e na lei da organização judiciária, que eu como presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), tive todo apoio para em oito meses fazer com que a gente tivesse a lei de organização judiciária, também aprovada na Casa, dentre outros tantos projetos. São 38 categorias que terão agora plano de carreira, regimento interno, lei orgânica, enfim. Criamos diversas outras situações que foram importantes para a melhoria da qualidade de vida do povo baiano e também, no nível de interlocução, a Casa funcionou, mas eu acho que ainda falta muita coisa a ser melhorada e isso tem que ser discutido, inclusive anteriormente à escolha do candidato ou da pessoa que vai ser presidente. Então, para mim, devemos politizar mais essa escolha, e que não deve agora. Deve ser depois do processo de votação que, esse sim, para nós do governo, e para o povo baiano, é o que nós temos que entregar até o final de dezembro.

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"Se Marcelo tá dizendo que tem muitos partidos apoiando ele, posso dizer para você que tem várias articulações nos bastidores que mostram uma outra situação"


BN - O PT já tem a maior bancada (14 dos 63 deputados) e já comanda o executivo. Caso o partido também leve o legislativo, não seria muito poder na mão do PT?

ZN -
Não, eu também acho que tem que discutir isso. Eu não to aqui em nenhum momento dizendo que o PT tenha candidato. Pode ser que tenha, mas o que eu to defendendo é que o PT não pode perder o protagonismo num processo onde ele tem 14 deputados. O candidato governista podia ser do PDT, do PP, mas nós temos 14 deputados. Não dá para ser levado a reboque. E temos o compromisso e a responsabilidade de, como hegemônicos, dentro da bancada de governo, chamar o restante da bancada e discutir política. O que é que a gente quer para a Assembleia? É ter, ad infinitum, alguém buscando a reeleição? Acho que isso tá errado. Ninguém tem dúvida que Marcelo sai na pole position. Tá com a caneta na mão, mas ninguém se engane, porque ainda tem pit stop, ainda tem outros obstáculos; pode faltar combustível, quebrar uma suspensão; pegar um desses carros atrasados e se embaralhar, então, é ter paciência. No meu ponto de vista tá se discutindo muito pouco política. O PDT é um partido e não é Marcelo apenas que temos de discutir. Temos que discutir com Marcelo e com o PDT como é que, no tabuleiro da política baiana, que hoje está posta... Qual é a função do PDT, qual é o espaço do PDT, porque tem outros partidos como o PP, tem os partidos menores, enfim, é uma conjunção que deve passar por um debate dentro da bancada de governo e passar por um processo político mesmo de dizer qual é o caminho e o projeto que nós vamos abraçar. Abraçar Marcelo porque é o presidente que agrada aos deputados só, isso é muito pouco, e por aí eu não vou.

BN - A informação que obtivemos é que o PT teria você ou Yulo Oiticica como candidato a presidente caso o partido definisse realmente que teria uma candidatura. Você fez aí uma analogia com a Fórmula 1, então, seguindo esse raciocínio, quem seria o Sebastian Vettel que ia correr por fora para tentar o título dentro do PT?

ZN –
Tem gente dentro do PT e tem gente dentro da bancada de governo que pode ser um Sebastian Vettel. Agora, como disse, nós não temos objeção de discutir com Marcelo, que, como está, será candidato. Agora, cá para nós, ser candidato, sem definir as regras do jogo, sem definir o que é que queremos da casa, sem definir o que vamos melhorar na Casa e as situações que para o PT e para o conjunto da Casa são fundamentais para aprimorar o poder legislativo, e achar que a discussão é só de forma maniqueísta, peraê. Isso não tá certo e não é assim que a gente faz política. Não tá sendo bom, nem didático, para quem tá de fora e para quem tá de dentro.

BN – Você nunca escondeu o desejo de ser prefeito de Feira de Santana – tendo já, inclusive, disputado as eleições municipais. Em 2012, Zé Neto é candidato certo do governador Jaques Wagner?

ZN –
Olha, se eu to lutando para não antecipar o processo de  discussão mais contundente com relação à eleição na Assembleia, que ocorre em fevereiro de 2011 – para que isso não se torne prioridade, pois atrapalha o trabalho na casa legislativa –, imagine de uma cidade de 600 mil habitantes; trazer uma eleição de 2012 pro foco agora, para fazer disso o pano de fundo da política. Eu posso dizer com tranquilidade: não é esse o caminho. Se perguntarem a mim “quer ser o prefeito de Feira?”, [responderia] quero. Tenho disposição e vontade, já é muito isso. “Vai ser o candidato?”. Não sei. Meu partido vai decidir. Outras coisas vão acontecer. O que eu peço agora a Deus é que me dê saúde para continuar trabalhando, construindo com meu governador, com minha presidente e com meus companheiros esse processo de construção dos dois governos, e um trabalho que nos dê, evidentemente, a possibilidade de, lá na frente, se tiver a oportunidade de ser candidato, ter esse cabedal. Caso contrário, vou continuar tocando em frente, mas se quer um “perde perde” é trazer para agora a eleição de 2012.

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"O que é que a gente quer para a Assembleia? É ter, ad infinitum, alguém buscando a reeleição? Acho que isso tá errado".


BN – A Assembleia esse ano foi prejudicada com a campanha eleitoral. Poucos projetos foram votados. O mais importante foi o projeto da assinatura telefônica, que hoje é contestado no Supremo Tribunal Federal (STF). Você é o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Você acha que houve erro na análise do projeto pela CCJ?

ZN –
Não. Não houve erro na análise. O que há é interpretações e nossas interpretações tinham também cunho legal, era abastecido de legalidade. Agora o jurídico traz esse elemento expulsivo, e eu posso dizer que, na CCJ, a avaliação foi feita de forma muito minuciosa e nós tivemos muita consciência para aprovarmos o projeto e de que ele era legal.

BN – Você é considerado o “perdigueiro” do governo dentro da Assembleia, porque tá ali fiscalizando o tempo todo, e tinha muito trabalho com figuras da oposição como Gaban e Heraldo Rocha, que não se reelegeram. E sempre se utilizava aquele argumento da “herança maldita”. Como é que vai ser agora legislar sem uma oposição tão ferrenha e sem o argumento da herança maldita? Vai ser mais tranquilo?

ZN –
Eu acho que nós aprendemos nesse processo que, primeiro, ter uma bancada mais assentada... Nós chegamos a ter uma bancada de 52, que era uma bancada, mas não era assentada. Era uma bancada em disputa o tempo todo. Ninguém sabia quem era quem, e lá vai. Eu acho que hoje a gente dever ter uma bancada de  44 ou 45 deputados com o pé no chão, sabendo qual é o resultado da bancada com relação ao projeto de Wagner. Se você não tem oposição fora, pode ter certeza que dentro a oposição vai crescer. O fogo amigo pode até ser maior do que a oposição que vem de fora. Então, precisamos saber nesse momento como montar a bancada de governo para que nós tenhamos a responsabilidade de tocar o projeto. Eu tenho esperança e muita convicção de que esses próximos quatro anos serão decisivos para a Bahia, no seu processo de arrancada para o desenvolvimento. E temos de ter clareza de que o papel da Assembleia Legislativa é muito importante nesse processo, porque é dali, com os deputados, que a capilaridade e as movimentações do poder executivo passam a ter maior ou menor intensidade para gerar esse desenvolvimento que a gente tanto espera.

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"O jogo está na preliminar. Ninguém, só Deus, engessa na Assembleia qualquer tema que daqui até fevereiro não possa mudar".

BN – Para terminar: o deputado Zé Neto é, terminantemente, contra a reeleição de Marcelo Nilo?

ZN –
Não, eu não contra a reeleição de Marcelo Nilo. Eu sou contra a reeleição, da forma que tá, ad infinitum. E acho que é, de nossa parte, muito importante dizer isso. Do PT, principalmente, que sempre defendeu um processo democrático, a oxigenação do poder, a transição... Teve um momento que todo mundo queria que o Lula fosse para um terceiro mandato – e se Lula dissesse que queria ir pro terceiro mandato, você acha que o Congresso iria refugar? Não. Aconteceu isso no passado quando Fernando Henrique conseguiu a possibilidade de ter mais tempo no mandato. Já aconteceu. Agora é bom lembrar que com Lula, ele próprio disse que não queria o terceiro mandato. Então, fica ruim para a gente também não sentar na mesa com Marcelo, se é que vai ser ele o candidato, se é que vai continuar na pole position... Olha, aqui morre a história de reeleição ad infinitum, porque daqui a pouco Marcelo vai gostar da cadeira, e se reeleger de novo, e ficar mais um, e aí é vergonhoso para nós, que sempre defendemos a democracia, a transição, enfim, não dá. Eu acho que nós devemos sentar e definir quais são as regras.

BN – Então você acha que ainda não é hora de dar as cartas?

ZN –
O jogo está na preliminar. Ninguém, só Deus, engessa na Assembleia qualquer tema que daqui até fevereiro não possa mudar. Então, qualquer discussão agora. Qualquer pirotecnia é inválida. Tenha certeza e convicção de que, em janeiro, vai tudo ser repensado, revisto e reavaliado. Portanto, é melhor dormir tranquilo, porque o jogo só começa para valer, à vera, em janeiro, para que em fevereiro a gente tenha a decisão de quem vai ser o presidente da Casa.