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Entrevistas

Entrevista

Marcelo Nilo diz que candidatura a terceira reeleição como presidente da AL-BA é "irreversível" - 16/11/2010

Por Evilásio Júnior / David Mendes / João Gabriel Galdea

Fotos: Tiago Melo/BN

“O PT tem todas as condições de lançar um candidato. Agora a minha candidatura é irreversível porque assumi compromisso com 42 deputados.”

Por Evilásio Júnior, David Mendes e João Gabriel Galdea

Bahia Notícias – O senhor foi o deputado estadual mais votado na Bahia. A que o senhor atribui essa vitória?

Marcelo Nilo – À generosidade do povo da Bahia. Primeiro, modéstia à parte, muita coerência e muita lealdade. Sou o único deputado estadual na história da Bahia que passou 16 anos na oposição. Remei contra a maré durante todos esses anos. E, pela primeira vez, eu fui para a eleição que, com o apoio do governo, consequentemente, um governo muito forte, nós remamos a favor da maré e o resultado foi 139.796 votos.

BN – Se o PT decidir disputar a eleição, o senhor acha que a disputa será acirrada?

MN – Primeiro eu acho que todos os 63 parlamentares têm direito e condições políticas de ser presidente da Assembleia, principalmente o PT, que elegeu 14 parlamentares. Agora, eu tenho o apoio de 42 deputados, tenho o apoio de praticamente todos os partidos políticos. Vou formar minha chapa nos próximos dias, fruto das relações que construí durante esses quatros anos na Casa. Eu disse na eleição, e digo novamente agora, que me dessem três condições para que eu fosse candidato a presidente: Primeiro o povo concordar. E o povo concordou, aprovou a minha gestão com 139 mil votos. Segundo, eu tenho que ter vontade, e eu estou com vontade de ser presidente de novo. E terceiro, os pares concordarem, e, neste momento, eu tenho o apoio de 42 deputados. Inclusive esta semana fiz um evento no meu gabinete com praticamente todos os partidos políticos, com os seus parlamentares me apoiando.

BN – O PT, principalmente Paulo Rangel, líder do partido na Assembleia, diz que a legenda tem a maior bancada hoje e que tem legitimidade para postular essa candidatura à presidência. 

MN – O PT tem todas as condições de lançar um candidato. Agora a minha candidatura é irreversível porque assumi compromisso com 42 deputados. Se o PT quiser manter a candidatura eu respeito e nós disputaremos. Espero, se eles ganharem, que mantenham a independência que eu tenho mantido.


 “Ofereci a vice-presidência ao PMDB, sentarei com os líderes partidários, mas praticamente o apoio está fechado.”

BN – O senhor pretende sentar para conversar com o PMDB?

MN – Ofereci a vice-presidência ao PMDB, sentarei com os líderes partidários, mas praticamente o apoio está fechado.

BN – O senhor é muito próximo do governador Jaques Wagner, mas tem que tomar cuidado para que , ele como chefe do Executivo e o senhor chefe do Legislativo, não seja subserviente a ele. Uma das atribuições do Legislativo é fiscalizar o Executivo. Como é que o senhor faz?

MN – Eu sou, como presidente da Assembleia, independente. Tenho um respeito muito grande pelo governador Jaques Wagner, mas ele coordena os problemas do Executivo, e eu os do Legislativo. Ele não tem nenhuma interferência naquele poder. Nunca teve vontade, nunca fez e nunca fará. Eu respeito muito ele como governador e ele sempre me respeitou como presidente da Assembleia. Tanto é que os partidos de oposição estão me apoiando e o PT mantém ainda candidatura oposta. Então, isso é uma prova de que aquele poder é um poder independente. Eu conheço muito o governador Wagner, hoje é meu amigo pessoal, mas ele sabe que, quando pela primeira vez pedi o seu apoio para ser presidente, disse que, caso chegasse à presidência, faria aquela Casa independente, e fiz. Hoje é um poder que tem apoio dos deputados que fazem oposição e isso é uma prova que o poder foi diferente durante esses quatro anos.

BN – Houve uma renovação muito grande na Assembleia nas eleições deste ano, houve perdas de alguns quadros que eram importantes na Casa, sobretudo na oposição, como Heraldo Rocha, Carlos Gaban e Junior Magalhães (todos do DEM). Como o senhor acha que será essa configuração da Assembleia em 2011? O senhor vê como positiva, lamenta alguma perda?

MN – Renovação é sempre positiva, porque é uma decisão do povo. Agora, nos últimos quatro anos, a Casa teve uma oposição muito aguerrida e uma base do governo muito consolidada. O governo aprovou todos os projetos que encaminhou para a Assembleia e a base da oposição teve todo o espaço para fazer suas críticas. Eu sempre disse uma coisa: oposição é para criticar e governo para votar. Os dois tiveram sucesso. É óbvio que, fruto da decisão do povo, aqueles que o povo achou que não deveriam continuar tiveram o mandato reprovado. Aqueles que o povo achou que deveriam continuar tiveram aprovação. Nem sempre o grande parlamentar retorna para a Assembleia. Muitos parlamentares perderam durante esses 20 anos que eu estou lá. E muitos que não fizeram um bom mandato renovaram as suas posições para continuar como parlamentar. O voto é soberano, e a decisão do povo também é soberana. Consequentemente você tem que fazer um bom mandato, mas também tem que dar assistência às bases.

BN – Qual a consequência do enfraquecimento da oposição na Assembleia Legislativa?

MN – Eu acho que a oposição no próximo ano também terá uma posição aguerrida. Existem bons parlamentares lá. O deputado João Carlos Bacelar (PTN), Elmar Nascimento (PR), Leur Lomanto Jr. (PMDB) e Paulo Azi (DEM) foram parlamentares que fizeram bons trabalhos na oposição e conseguiram renovar os seus mandatos. Agora, somente após o início da legislatura é que eu terei noção se a base da oposição será tão aguerrida quanto a anterior, e se a base do governo será tão consolidada quanto a anterior.
 


 “Eu sou muito grato ao deputado Jutahy Jr., eu devo muito da minha formação política a ele.”


BN – O senhor saiu do PSDB e foi para o PDT, mas na campanha deste ano houve dobradinha com o deputado federal Jutahy Jr. em diversos municípios. Por que isso aconteceu?

MN – Primeiro porque eu sou muito grato ao deputado Jutahy Jr., eu devo muito da minha formação política a ele, eu comecei na política junto com ele, são 36 anos de amizade e achei por bem, naquele momento em que ele estava nadando contra a maré, eu manter a dobradinha. Nós fizemos dobradinhas em 58 mil votos e fiz consciente que estava cumprindo o dever, porque cheguei a seis mandatos consecutivos devido ao apoio que tive dele nesses 36 anos.

BN – Mas ainda assim o senhor saiu do PSDB, mesmo com essa proclamação política tucana. O senhor considera que foi um acerto definitivo trocar o PSDB pelo PDT?

MN – Foi a coisa mais correta que eu fiz na vida. Primeiro foi o PSDB que mudou, não fui eu. O PSDB durante esses 20 anos foi oposição ao sistema. Depois, de um dia para a noite, decidiram apoiar. Na vida se cometem erros e acertos. Eu cometi um erro ao ter apoiado Antonio Imbassahy para presidência do partido. Eu imaginava que ele tinha vindo para a oposição com bagagem, com decisão, com idealismo. Não. Ele veio apenas passar uma chuva e, na primeira oportunidade que teve, chegou à presidência e levou o partido aos braços do carlismo. Então eu fiz certo, porque não posso ficar em um partido que esteja em aliança com o DEM na Bahia.

BN – Mas o PDT também tem um ambiente um tanto heterogêneo. Têm correntes que, por exemplo, não apoiam o Alexandre Brust (presidente estadual). Como é que anda a vivência do senhor como membro do PDT?

MN – Pelo contrário, o PDT é o partido mais homogêneo que eu conheci. Todos nós somos liderados pelo presidente do partido, que é da base de sustenção do governador Jaques Wagner. O partido hoje está unido. Ele cresceu, tinha dois deputados estaduais e agora tem cinco, tinha dois deputados federais e agora tem quatro, além disso tem um suplente de senador e um ministro. Ou seja, o partido hoje na Bahia está consolidado e em nível nacional também. Eu acho que o PDT é um partido unido. No PSDB é que havia essas divisões. Tinha o grupo de Jutahy, por exemplo, tinha o grupo do deputado federal João Almeida e tinha o de Antonio Imbassahy. Eles falavam em línguas diferentes. No PDT não, nós somos todos harmônicos, tanto é que estamos todos na base do governo.

BN – Tem um caso específico que tem dividido opiniões dentro do PDT, que é o retorno do prefeito João Henrique para o partido.

MN – Eu só responderei a essa pergunta se o prefeito João Henrique fizer uma proposta para entrar no partido. Por especulação não posso responder. Não vou colocar os carros na frente dos bois.

BN – Ele não fez nenhuma proposta?

MN – Não!


“o Tribunal quer que os cartórios sejam privatizados agora, mas os deputados defendem que a data seja retroativa.”

BN – Em quatro meses a Assembleia Legislativa só votou um projeto importante, que defendeu o fim da assinatura de telefone. As eleições atrapalharam os andamentos dos trabalhos?

MN – Todos os partidos do mundo, no ano de eleição, têm dificuldade de manter quórum. Tanto é que o Congresso está funcionando só agora. Todas as assembleias também pararam, e na Bahia não poderia ser diferente. A partir de agora é que nós estamos retomando as negociações para votar os projetos. Há dois projetos importantes: a Lei de Diretrizes Orçamentarias (LDO) e o Orçamento. Estou negociando com os líderes dos partidos da oposição para votar esses projetos. É óbvio que os que ganharam estão felizes para votar e os que perderam estão desestimulados. Faz parte do jogo político.

BN – Então a data da votação da LDO ainda não está definida?

MN – É óbvio que depende muito do quórum. Eu que já fui presidente de empresa e sou presidente hoje da Assembleia, sou presidente dos iguais. Eu não sou chefe dos parlamentares, então eu não tenho força para obrigá-los a votarem. Cada um tem suas responsabilidades. O povo é quem julga, não sou eu que devo julgar. Eu tento coordenar, tento colocá-los dentro do plenário para votar, mas eu não sou chefe deles para obrigá-los. É óbvio que o povo que tem que acompanhar e a imprensa denunciar.

BN – Quais os projetos mais importantes que dependem de votação?

MN – Há o projeto da privatização dos cartórios, que o Tribunal de Justiça enviou para a Assembleia, mas terá que ter uma negociação política, já que o Tribunal quer que os cartórios sejam privatizados agora, mas os deputados defendem que a data seja retroativa. Ou seja, que os antigos chefes de cartórios também tenham direito de optar pela privatização. Porque quando eram todos estatais, pertencentes ao Tribunal, eles ganhavam pouco. Agora que eles têm a possibilidade de ganhar razoavelmente bem, não é justo que os novos passem a ter esse direito e os antigos não. A Casa defende a tese de que todos sejam iguais, mas o projeto na sua originalidade diz que tem que ser a partir de agora.


“Eu fui convidado pelo governador para entrar no PT.  (...) O governador me convidou e convidou o PDT para conversar comigo para eu ser candidato a senador.”

BN – Um questionamento que há entre os deputados é o regimento. Muitos dizem que ele foi rasgado, que não tem sido cumprido. O senhor pensa, em uma nova gestão como presidente da Assembleia, promover modificações no regimento?

MN – O regimento sempre foi cumprido. Eu acho que o papel da oposição é criticar. O deputado Heraldo Rocha, que é líder da oposição, me disse uma vez: “Nós somos oposição ao governo do Estado, nós não somos oposição ao presidente da Assembleia”. Todas as decisões da Casa foram fruto do regimento e da Constituição. Agora é óbvio, por exemplo, quando o juiz de futebol marca o pênalti, o outro reclama. Você já viu um pênalti marcado sem ter uma reclamação? Eu respeito a oposição, mas também tem que respeitar a maioria. Eu dei todas as condições políticas aos deputados que faziam a oposição como eu nunca tive quando era oposição. Agora, a maioria no parlamento tem que ser respeitada e considerada. Isso é em qualquer parlamento do mundo e na Assembleia não poderia ser diferente.

BN – Porque o senhor não entrou no PT quando saiu do PSDB?

MN – Eu fui convidado pelo governador para entrar no PT. Não fui porque o PT é muito consolidado no interior e meus amigos, eleitores, meus prefeitos e ex-prefeitos, iriam para onde? Wagner me convidou para ser candidato a senador. A chapa majoritária inicial que disputaria as eleições deste ano era Jaques Wagner candidato a governador, Marcelo Nilo como vice-governador, Otto Alencar e Lídice da Mata como senadores. Com a chegada de César Borges, o governador me pediu para conversar com Otto para ele ir para a vice. Aí ficou Wagner, Otto, Lídice e César Borges. Como não deu certo Borges, Otto já estava como vice, o governador me convidou e convidou o PDT para conversar comigo para eu ser candidato a senador. Se fosse para a vice eu aceitaria, mas para senador não aceitei. Primeiro porque eu não gosto de Brasília, segundo que fica muito distante da política estadual, e eu gosto de fazer política estadual. Eu não gosto de fazer política nacional. Tanto é que, eu passei 18 anos fazendo oposição ao PT nacional e era aliado na Bahia. Se eu realmente tivesse sido convidado para ser vice, como estava tudo praticamente acertado, eu seria. Mas, Deus escreve certo por linhas tortas. Fruto dessas anuências, arrumações e discussões, eu acho que me credenciei mais uma vez para ser presidente da Assembleia. Eu tenho o apoio de 42 deputados sem o PT, com ele, vou a 56 parlamentares me apoiando. O restante para me reeleger conseguirei nos próximos dois meses.