Lídice da Mata reclama de campanha "caluniosa" contra Dilma Rousseff e da dificuldade da mulher na política - 10/10/2010
Fotos: Maiana Marques/BN
"O que eu acredito que aconteceu é que César Borges ficou no meio do caminho."
Por Rafael Rodrigues, Gusmão Neto e Evilásio Júnior
Bahia Notícias: O PSB baiano sai com o saldo, na eleição deste ano, de sua vitória na disputa por uma das vagas ao Senado, mas não elegeu nenhum deputado federal. Como avalia o desempenho do PSB na eleição?
Lídice da Mata: O PSB é vitorioso na Bahia e no Brasil. Nós reelegemos bem nossos dois governadores, ganhamos em Espírito Santo, que não tínhamos, ganhamos três eleições ao Senado, e temos mais três candidatos a governadores no 2º turno, no Piauí, Paraíba e Amapá. Então, o PSB sairá com uma vitória nacional importante. Aqui na Bahia, a estratégia do partido foi priorizar a eleição de senador. Nós sabíamos que seria uma eleição difícil, dos deputados federais, nesta coligação. Na eleição passada fizemos uma coligação com o PMDB, mais leve do que a com o PT. Sabíamos que era uma coligação muito grande, o partido pretendia sair sozinho para disputar a eleição de deputado estadual e federal, mesmo correndo o risco de não fazer ninguém. Abrimos mão nisso, em função de compreender que entrando na chapa majoritária tínhamos que sacrificar, pelo objetivo maior de ter um senador da República. Imaginar que o PSB saiu derrotado das eleições não é verdade. Tivemos quatro candidatos a deputado federal, uma eleição como a de Domingos Leonelli que saiu de última hora para me substituir, nunca foi candidato, concorrendo com candidaturas que estavam estabelecidas dentro do governo e fora dele por muito tempo. Era a chapa mais competitiva que existia. Tivemos dois candidatos competitivos: Leonelli teve 50 mil votos e Bebeto teve 44 mil. Tivemos votos para eleger um deputado federal. Não conseguimos unificar uma estratégia que concentrasse em uma candidatura só. Nós temos um partido forte em Vitória da Conquista. Tivemos uma candidatura lá com 17 mil votos e outra com 15 mil para estadual, mas em muitos momentos é difícil convencer o partido a ter um projeto regional e não um projeto municipal. Elegemos o sargento Isidório para deputado estadual.
BN: O PSB pretende fazer parte da equipe do próximo governo Wagner?
LM: É natural que pretenda. O que pretendemos é fortalecer nosso partido agora. Daqui a dois anos tem eleições municipais. Nosso partido vai estar voltado para discutir nossas candidaturas para vereador e prefeito. É isso que é o interesse de qualquer partido. Temos a pretensão de continuar participando do governo Wagner.
BN: Arthur Virgílio, Tasso Jereissati, Heráclito Fortes, entre outros nomes considerados caciques do Senado, foram derrotados nas urnas. Como avalia esse momento da política brasileira?
LM: É um momento de renovação. O Senado tem uma peculiaridade: por ser uma representação dos estados, o voto sempre foi muito casado com o de governo. Em todos os estados, principalmente no Nordeste, o poder é mais concentrado no Estado propriamente dito, onde a economia do Estado tem uma força muito grande. Isso é um pouco mais diferente no sul e sudeste. A força do governo e do governador é muito grande na eleição de senador. Na Bahia isso sempre foi realidade. Aqui, a diferença foi o fato de haver uma mudança em 2006. Nos últimos 16 anos o mesmo grupo se revezou no poder e, quando ele saiu, abriram-se as comportas democráticas da Bahia. As forças políticas se reorganizaram. O PMDB, que estava dentro do projeto de Wagner, se afasta e tenta se lançar como uma nova liderança política acreditando nessa renovação, nessa democratização das forças políticas no estado. O grupo de políticos que se agregavam no projeto anterior se reaglutinaram para vir na disputa desse projeto, mas houve uma redistribuição de forças. César Borges não estava nesse grupo. Ele se agregou, saiu do grupo que estava, foi para o governo de Lula, se reciclou, mas manteve uma força residual própria. Fez um mandato, vinculando-se a alguns projetos, e utilizou a estratégia de, por um lado, manter-se agregado às forças do passado, ao apoiar ACM Neto na Prefeitura de Salvador, assim apostando ter o voto do ex-carlista; e se aproximou de Lula buscando ter o voto dessas forças, buscando se modernizar. O que eu acredito que aconteceu é que César Borges ficou no meio do caminho. Na política, felizmente, isso tem muita importância em uma eleição majoritária, onde um lado escolhido é muito importante.
"Se vai para o Governo para ter o poder de máquina também, é óbvio. Política é força, é disputa de forças. Não é poesia".
BN: Devido ao seu enfrentamento com o grupo carlista, pelo qual foi perseguida quando era prefeita de Salvador, foi difícil aceitar Otto Alencar na chapa?
LM: Nenhuma dificuldade. Otto é pessoa de muito bom trato. Ajudou a chapa e a mim enormemente. É uma pessoa muito boa, trabalhadora, tem muitos amigos no interior e é uma liderança real. Tem voto e prestígio e capacidade para ser um líder político.
BN: Em entrevista ao BN, o ex-governador Paulo Souto (DEM) revelou ter certa mágoa com os ex-membros de seu grupo político que, em 2006, ao perder a eleição, migraram para a base do governador Jaques Wagner. A atitude destes seria uma espécie de traição ao projeto. Apenas uma minoria se manteve fiel ao grupo carlista. Vocês confiam nesses ex-carlistas como companheiros de caminhada para o futuro na política baiana, mesmo nos momentos adversos?
LM: Vocês querem que Antonio Carlos viva depois de morto. Isso não existe, ele morreu. Não existe o carlismo mais na Bahia. Parece que há uma viuvez. Ele foi líder de um grupo político durante um tempo na Bahia, morreu como o Império Romano caiu, como o império norteamericano está ruindo, como Hitler caiu. Todo poder concentrado cai um dia. E Antonio Carlos nunca foi presidente da República, como Sarney foi. Nós na Bahia ultravalorizamos o chefe que existia como líder político, e que muitas vezes nós combatemos. O cientista político Paulo Fábio fez um estudo sobre Antonio Carlos e demonstrou sua importância na política baiana, e certamente alguns métodos dele permanecem em algumas lideranças, mas isso não quer dizer que é de todo um negativo. Mas Antônio Carlos morreu, e o que há na Bahia hoje é que não há nenhum outro político que se colocou com condição de liderar esse grupamento, e por isso esse dissolveu. Paulo Souto, nada contra ele, mas, paciência, mostrou ter pouca liderança política. César Borges quis ser esse líder, mas se aproximando do nosso campo, não se firmando no campo deles. Porque Borges não foi candidato ao governo para reaglutinar? Ele não era carlista? O carlismo não era um pensamento político, era uma liderança política, e tudo isso foi dissolvido. Alguns setores muito próximos a Antonio Carlos não se aglutinaram em torno de Souto porque não reconheciam nele uma liderança capaz de representar aquilo que eles desejavam. Todo mundo fala que Antonio Carlos e Paulo Souto brigavam, e tinha até o "soutismo". Félix Mendonça nunca votou em Souto. Aleluia divergia de Antonio Carlos e terminou colocando seu filho como seu suplente para atrair o voto de Antonio Carlos.
BN: A força da máquina em favor de seu grupo político não foi o fator determinante para que o antigo grupo carlista se dissolvesse e se reencontrasse, em sua maioria, agora na base governista?
LM: Ora meu Deus, nós passamos 30 anos na oposição e vocês nunca nos perguntaram isso. Claro que é difícil (manter um grupo político sem a máquina). Cada um que busque seus mecanismos. É por isso que se vai para o poder. Se vai para o governo para ter o poder de máquina também, é óbvio. Política é força, é disputa de forças. Não é poesia. Poesia e arte são outra coisa. Política é a arte do poder. É obvio que pelo fato de estarmos no poder passamos a ser uma força centrifuga, de atração. A física explica isso. É a vida.
BN: Acha que o DEM caminha para extinção, como pregou o presidente Lula?
LM: Eu acho que o DEM tem dificuldades enquanto partido. Creio que vamos ganhar com Dilma, e após o processo eleitoral alguns partidos vão ter dificuldades, como tivemos no passado. Passamos 30 anos de ditadura militar em que as forças de esquerda foram reduzidas a quase nada. Tiveram partido que foram destruídos fisicamente. O PCB foi destruído fisicamente. Em um período democrático houve uma reorganização dessas forças e os partidos de esquerda se reaglutinaram com imensas dificuldades. Começaram a ganhar mandatos de vereadores e deputados, aqui e ali, e isso foi dando uma forcinha, uma maquinazinha pequena que foi sendo trabalhada. Os sindicatos são máquinas também, colocadas a serviço dos trabalhadores, de seus pensamentos e de seus interesses. Esse sindicatos, enquanto máquina, se organizaram e elegeram seus deputados. A luta na sociedade é de interesses econômicos, coorporativos, sociais, que se expressam na eleição.
"Eu sou completa oposição a Sarney e não pretendo votar nele para presidente do Senado outra vez"
BN: Como vai ser Lídice no Senado, membro da mesma bancada de José Sarney e Renan Calheiros (ambos PMDB)?
LM: Renan eu conheço, do tempo de estudante. Nos ajudou a construir a UNE naquele período. Já Sarney é de outra geração, de outro pensamento. Eu sou completa oposição a Sarney e não pretendo votar nele para presidente do Senado outra vez. Sarney é um página virada na história da política brasileira. Apoiei Flávio Dino (PCdoB, candidato ao governo de Maranhão contra Roseana Sarney) com gravações e torço para que ganhe, apesar de Sarney estar na base de Lula. Mas isso não quer dizer que eu não tenha uma visão histórica de seu significado. Apoiei Sarney quando ele foi presidente da República. Estava no PCdoB e a esquerda inteira apoiou a sua posse. A história não é algo paralisado, mas um processo muito dinâmico. Teotônio Villela disse que a política é como as nuvens, você olha agora, ela está desse lado, depois ela muda. O próprio Teotônio apoiou o golpe militar e depois foi uma figura fundamental na luta democrática do Brasil. As ideias e as pessoas mudam no campo da política, e é bom que mude. Pretendo ser no Senado representante dessas forças de mudança. A política brasileira tem seus avanços, mas tem seu lado conservador. A sociedade tem esse lado. Basta ver a campanha de Dilma, sendo caracterizada como "cerrada", por segmentos extremamente conservadores, que fazem uma campanha contra ela de forma inaceitável, preconceituosa. Atuam no campo da religião, para tentar descaracterizar os seus elementos e desqualificá-la enquanto mulher. Lula também viveu isso. O Brasil de hoje não é isso, eu acredito em um Brasil progressista, que avança. Eu não penso que a juventude brasileira vai se deixar levar por um discurso deste tipo. Ela votou em Marina acreditando em uma força de renovação, da sustentabilidade na terra, nos desafios do mundo do futuro, que é a terra sobreviver, e não um discurso reacionário conservador.
BN: A gente viu o 1º turno da campanha passar, e os grandes temas do país não foram discutidos pelos candidatos. Falo da reforma política, da reforma tributária, de uma reforma no sistema educacional. A campanha, nos últimos dias, ficou reduzida, de forma bem rasteira, à questão do aborto...
LM: Eu não vi em nenhum momento ela dizer que era a favor do aborto.
BN: Mas até essa questão merecia ser discutida de forma mais honesta, não de forma simplista de “favor ou contra”. É um dos temas que também interessam à população.
LM: Para mim essa não é uma grande questão do país, nem a grande questão da eleição, que venha a ser um marco definidor de uma eleição no Brasil. O marco definidor para se definir o presidente da República é o projeto político, econômico, social que esse presidente tem para o país. Não é a escolha religiosa, se é evangélico, se é católico, se é candomblezeiro ou não tem religião. Isso não é uma eleição para padre nem pastor. Acho que houve pouca discussão desse projeto político e, se houve, o segundo turno está aí para que se discuta o projeto político, e não a campanha covarde, feita nos bastidores, contra a imagem de ninguém. Dizer que Dilma foi presa? E Serra foi exilado político. Se tivesse ficado aqui, tinha sido preso, talvez torturado.
"Por que Tiririca só aparece na eleição para ser um fato de contestação política da política?"
BN: Mas discutir o aborto, quanto parte de uma agenda sobre saúde pública, é um dos temas contemplados no programa da maioria dos partidos políticos, inclusive o PSB, e que poderia entrar na pauta da eleição.
LM: Claro, dentro da própria igreja existem pensamentos diferentes. Dentro da própria igreja, tanto na Católica quanto na Evangélica.
BN: Caso Dilma se eleja, terá um quadro de maioria tanto na Câmara quanto no Senado, casa em que Lula encontrou maiores dificuldades. Em oito anos, o presidente não conseguiu fazer as reformas que o país tanto necessita, e as lideranças petistas justificavam a dificuldade de conseguir a adesão dos parlamentares. Agora, com essa maioria, vai se tornar mais fácil votar as reformas?
LM: Eu espero que sim. Não é fácil discutir reforma política. Talvez seja a mais difícil a ser discutida em qualquer parlamento do mundo. Eu defendo que exista uma constituinte exclusiva para se falar nisso, porque a Câmara e o Senado são contaminados pela própria existência, pelo seu espírito de corpo. Não vejo sentido de o Senado ter iniciativa de lei, que a Câmara já tem. O Senado deveria ser algo diferente da Câmara. O que virou o Senado? Uma Câmara privilegiada. Uma Câmara de 81 membros que tem iniciativa de lei como os deputados. Muito mais fácil aprovar um projeto de iniciativa de um senador no Senado do que aprovar um de um deputado na Câmara, que tem 513 membros. Lá são 20 comissões a passar. A negociação entre os partidos é muito mais fácil de acontecer no Senado. Até as pessoas gostam mais de assistir à TV Senado. São oitenta caras falando, cada um fala 5 a 10 minutos. O senador faz um discurso completo. Na Câmara são 513 para falar todo dia. Fica chato ouvir. O Senado deveria ter atribuições que não fossem concorrentes com as da Câmara. Eu vi o senador César Borges dizer coisas em debates que eu achei um absurdo. Esse modelo de debate está fracassado. Ele dizia “ora, a reforma tributária passou pelo Senado, por que não passou pela Câmara?” O universo da Câmara é completamente diferente do Senado. Agora vamos fazer disputa entre Senado e Câmara? São casas complementares, não para disputar uma com a outra o poder de fogo. Fica esse discurso vazio aparecendo como se fosse algo muito importante. Há distorções das funções do Senado que deveriam ser corrigidas.
BN: Como corrigir essas distorções?
LM: Uma reforma política profunda. Tentamos fazer na legislatura passada, discutimos durante um ano, mas nada aconteceu. Se deixar de passar do primeiro ano (de governo) não sai, porque há um elemento: o deputado que se elege, começa a fazer conta e achar que não vai se reeleger se mudarem as regras do jogo, e aí não vai adiante. Tem de ser feita em um momento muito especial, em que as pessoas estejam voltadas para isso e não tenham a obrigação de se reeleger. Fizemos isso na constituinte. Estabelecemos o sistema eleitoral no Brasil e os deputados "nota dez" perderam a eleição no Brasil inteiro. A política e o voto não são feitos só da eficiência no parlamento. É sempre uma junção de algumas coisas, e a política brasileira precisa se refletir mais. A culpa não é do político porque o debate não foi profundo, mas do sistema eleitoral. O debate no Brasil só existe nos três meses de eleição. A lei está errada. Por que um ano antes não se pode fazer campanha no Brasil? Os eleitores são obrigados a conhecer seus candidatos três meses antes da eleição, quando há a convenção partidária e eles são definidos como candidatos. Por que isso? Por que Tiririca só aparece na eleição para ser um fato de contestação política da política? Por que não passamos um ano discutindo que a política é importante para o Brasil, para o mundo e para o cidadão comum. É através da política que o cidadão comum muda sua vida. Há a conivência dos meios de comunicação. Há um jogo de dizer que a política é uma coisa suja, que só tem ladrão. As notícias que aparecem nos jornais só são essas. Quando aparece um escândalo na Câmara, não citam os que não estão, não aparece a discussão, aparecem só os que erraram. A Câmara passa quatro anos trabalhando e não tem destaque. Só tem destaque o que é negativo. A imprensa tem muita responsabilidade. Aí quando elege Tiririca a imprensa cai de vestal da moralidade a dizer que é um absurdo. E a imprensa não tem nenhuma responsabilidade por isso?
"Precisamos que as mulheres entrem na política não porque são esposas de políticos, ou filhas."
BN: A senhora disse que tem como objetivo ser a senadora da educação...
LM: Quero ser. Respeito muito o senador Cristóvão Buarque (PDT), que tem uma prioridade dada a educação, que é um desafio do Brasil. Não seremos um país de competitividade econômica se não conseguirmos vencer o hiato tecnológico existente no Brasil. Não podemos ser um país apenas que oferta energia e produtos primários. Precisamos entrar na área de tecnologia de ponta.
BN: O Senado é uma casa fundamental para tratar a questão do municipalismo. Como fazer para dar mais autonomia aos prefeitos?
LM: Eu sou uma municipalista porque fui vereadora. Na constituinte lutei para devolver as atribuições dos municípios brasileiros, que haviam sido retiradas no período da ditadura militar. Reconquistamos o direito de votar para prefeito de capital de área de segurança nacional e sou defensora de uma reforma tributária que coloque mais dinheiro nas mãos dos prefeitos. Acho muito engraçado quando dizem que nas prefeituras há muita distorção e muita gente fala em corrupção. O que precisamos é intensificar os mecanismos de fiscalização do poder Executivo. Isso em todos os níveis, porque tem corrupção em qualquer nível de poder. O poder da prefeitura é o mais fiscalizado, porque é o mais próximo do cidadão. As disputas em uma cidade são muito acirradas. Lula tem uma frase sábia: ‘uma disputa que é nacional leva um a dois meses para ser superada, no âmbito estadual chega a seis meses, mas em uma cidade parece que leva a vida inteira, porque nos municípios os conflitos são muito grandes’. O lado contrário fiscaliza muito a vida do prefeito. Precisamos é aprimorar as instituições que fiscalizam as contas das prefeituras, as Câmaras precisam ganhar uma condição melhor de fiscalização, e precisa haver mais participação popular, através dos conselhos, que precisam ser mais fortes. Descentralização de recursos e da fiscalização, através dos conselhos.
BN: Está preparada para ser governadora em 2014?
LM: Não, agora não. Não estou preparada para isso. Acabei de me eleger senadora. A mulher tem uma condição muito diferente da do homem para exercer a política. Não é à toa que temos poucas mulheres na política. Conquistamos o direito de votar depois. Eu cheguei a senadora após 25 anos de política – os homens chegam muito mais rápido. Não é que eu esteja despreparada, quero dizer é que não estou entrando no Senado pensando qual é o caminho mais rápido para ser candidata ao governo da Bahia. Quero fazer um trabalho de educação de lideranças populares femininas. Não quero ser a única senadora mulher, nem a única a ser prefeita de Salvador. Outras têm de vir. Precisamos que as mulheres entrem na política não porque são esposas de políticos, ou filhas. Precisamos de mulheres que cresçam porque são militantes. É duro, porque quando a mulher entra na política ela se expõe, e põe em risco o seu casamento, e a mulher dá muita importância à sua vida familiar, coisa que não ocorre com os homens. Os homens casam, descasam e casam depois com moças mais novas para fazer a renovação casamento. Pegam uma de 50 e vão trocando por duas de 25 (anos). As mulheres são mais comedidas nessa ação. Pensam muito no passo que vão dar. Cada dia com sua agonia. Se tiver que ser será. Acredito muito na naturalidade nas coisas da política. Pessoas muito obcecadas em ser prefeito ou governador não conseguem ser. É preciso observar muito os movimentos, os momentos políticos, se colocar no lugar certo na hora certa. Sem senso de oportunismo, mas com senso de oportunidade.