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Entrevistas

Entrevista

Paulo Souto reclama da “enorme desproporção” financeira da campanha que disputa - 12/09/2010

Por Evilásio Júnior / Gusmão Neto / Rafael Rodrigues


"O que tem sido declarado oficialmente é incompatível com o que se vê nas ruas"

Por Evilásio Júnior, Gusmão Neto e Rafael Rodrigues

BN: Como o senhor avalia a campanha até o momento?

PS: A campanha se desenvolve mais ou menos dentro do que se esperava. Claro, é evidente que há uma enorme desproporção, por exemplo, no ponto de vista da utilização de recursos financeiros com relação à campanha do candidato do governo. Mas isso eu esperava, era normal e é claro que há um certo fator que pode influenciar no equilíbrio da campanha. Acho inclusive que o que tem sido declarado oficialmente é incompatível com o que se vê nas ruas.

BN: De acordo com o balanço financeiro das candidaturas apresentados ao TSE, a candidatura do senhor foi a que mais gastou até o momento, com R$ 4,5 milhões. Ocorreu algum tipo de distorção na declaração dos outros candidatos, é isso?

PS:
Eu não sei. Tenho que falar por mim. Seguramente a comparação do que está nas ruas, em termo de tudo, com o que está declarado, tem alguma coisa aí que não está coincidindo.

BN: O senhor, até pela quantidade diminuta de partidos na aliança, apenas dois, é o que tem menos candidatos a deputado para defender a sua candidatura. E são os deputados os responsáveis por ir às bases, mobilizar vereadores e prefeitos. Isso prejudica a campanha do senhor?

PS: É claro que isso é um fator que tem de ser pesado, mas na eleição majoritária, é um voto cada vez mais livre da população. Então, a influência da estrutura é claro que existe, mas é menor nos casos de voto para governador e para presidente da República. Então isso existe realmente, um número maior de candidatos a deputado de outros partidos, mas não é um impeditivo para que nós cheguemos onde queremos chegar.

BN: A campanha de Jaques Wagner (PT) está muito mais atrelada à campanha de Dilma Rousseff (PT) do que a do senhor à de José Serra (PSDB). Isso é uma questão estratégica ou é conceitual?

PS: A população na Bahia quer eleger o governador. Uma coisa é o presidente, mas na Bahia ela vai se decidir por uma candidatura ao Governo. O que tem de se analisar são os candidatos ao Governo. Acho que não é o caso de você ficar se escondendo atrás de uma candidatura à Presidência para ganhar votos da população. A população tem que escolher qual dentre os candidatos é o que reúne melhores condições, e não vai ser levada a votar em alguém apenas porque está aliado a um candidato a Presidência.

BN: O DEM e o PSDB, historicamente, na Bahia, nunca foram aliados. E ao que parece há problemas na junção dos partidos no estado. O principal líder do partido na Bahia, por exemplo, o Jutahy Jr., faz dobradinha com Marcelo Nilo (PDT), que é o braço direito de Wagner na Assembleia Legislativa, em ao menos seis municípios. O PSDB realmente está empenhado na campanha do senhor?

PS: Olha, eu acho que existem dificuldades políticas do lado do PSDB e de outros partidos também. A gente não pode simplesmente atribuir essas dificuldades a uma posição das lideranças do partido aqui na Bahia. Temos dificuldade mesmo e às vezes há mais empenho ou menos empenho para contornar essas dificuldades, ou possibilidade, ou não, de contorná-las.


"Eu não quero criticar pesquisas. Nunca fiz isso. Entretanto, (...) há um sentimento meu de que não haja essa diferença que está sendo apontada" 

BN: Se a eleição acabar como está, como indicam as pesquisas, o candidato petista se reelege no 1º turno. Põe fé que podem haver distorções nos levantamentos, tal qual aconteceu em 2006?

PS: Eu não quero criticar pesquisas. Nunca fiz isso. Entretanto, eu devo notar, eu que viajo e visito muito as cidades, e realmente há um sentimento meu de que não haja essa diferença que está sendo apontada nas pesquisas. Eu espero que o resultado seja diferente. Não estou com isso atribuindo erro intencional, mas eu não percebo isso na minha campanha.

BN: O José Carlos Aleluia, candidato ao Senado na chapa do senhor, fez uma denúncia grave de uma suposta ligação entre o disseminador da pesquisa Ibope e o governador. Essa pesquisa, entretanto, foi contratada pela TV Bahia. Acredita que pode acontecer algum tipo de favorecimento pelos institutos?

PS: O que ele apontou, não disse que isso tenha ocorrido propositadamente, mas é uma situação que realmente precisa ser revista, que é uma terceirização de um instituto nacional, com uma empresa que tem ligações muito evidentes e fortes com o Governo. Se isso determinou ou não uma certa alteração do que foi pesquisado, não sei. Mas o instituto tinha que tomar mais cuidado na hora em que terceiriza, para evitar suspeições deste tipo. 


"O Governo em três anos assinou R$160 milhões em convênios com municípios. Em 6 meses de 2010 assinou R$ 180 milhões, com um propósito único claro de influenciar lideranças políticas"

BN: O senhor reclamou da diferença no tamanho das máquinas de campanha em favor do governo, mas o senhor, quando situação, sempre foi um dos que mais arrecadaram. Qual o problema que enfrenta para conseguir doações?

PS: A arrecadação é um aspecto, que é mais ou menos natural que eles tenham mais facilidade para isso. Só que eu acho que a desproporção do que se vê na rua é muito maior do que a diferença entre o que as campanhas arrecadam. Há muitos indicativos de uma influência do governo que eu necessariamente não considero legítima. Pode até ter legalidade, mas não é legítima. O Governo em três anos assinou R$ 160 milhões em convênios com municípios. Em 6 meses de 2010 assinou R$ 180 milhões, com um propósito único claro de influenciar lideranças políticas. O Jornal A Tarde publicou a declaração de dois ou três prefeitos que teriam sido cooptados pelo Governo, mostrando claramente que fizeram isso porque foi a forma que tiveram de receber algum tipo de apoio do governo. Apenas esses números mostram claramente uma utilização abusiva do poder econômico do Governo nas vésperas das eleições.

BN: O senhor já foi governador duas vezes e foi derrotado na última eleição. Como convencer o eleitor que o senhor tem algo novo a realizar no estado?

PS: O que sempre digo é o seguinte. Eu tenho a avaliação das gestões que fiz, os resultados que obtivemos e sobretudo o meu compromisso com a verdade. Eu espero e desejo vencer as eleições, mas se ao final disso eu tiver conseguido mostrar à população da Bahia de que realmente ela não está sendo informada com correção sobre o que acontece com o estado, não agora mais durante todos os quatro anos, eu acho isso que já é um ganho muito grande para a democracia e para a campanha. O governo usou e abusou, nos últimos três anos e continua fazendo isso na campanha eleitoral, a estratégia de utilizar a informação de uma maneira, para ser delicado, tendenciosa. O exemplo mais claro agora é que uma das grandes bandeiras do governo, que é o Topa (Programa Todos pela Alfabetização), que dizia que até 2009 tinha alfabetizado 500 mil pessoas e previa até 1 milhão no final de 2010. Dizíamos que era um programa falho, sem consistência, que esses números não iam se sustentar. E agora o IBGE publica o Pnad, dizendo que em três anos o número de adultos alfabetizados, de 15 anos para cima, foi 85 mil, que é um número muito diferente dos 500 mil ou do 1 milhão que eles acham que vão alcançar. Eu não sei quantas oportunidades vamos ter de numericamente mostrar de maneira tão clara que o governo não usa a verdade. Tenta influenciar a opinião pública com informações que não são verdadeiras. Com o Água Para Todos, no momento que puder ser auditado, vai ficar claro que os números não são corretos. A população não está conhecendo a verdade, porque isso foi escamoteado durante três anos de propaganda. Dizem que não construímos hospitais. Fizemos o de Barreiras, Ribeira do Pombal, Alagoinhas. Ampliamos a maternidade José Maria Magalhães, no Pau Miúdo, fizemos o Instituto do Coração, ampliamos o número de UTI’s, e dizem “em 30 anos não fizeram um hospital na Bahia”. Os que inauguraram, o de Irecê, Juazeiro, Santo Antonio de Jesus, todos eles foram iniciados em meu governo. Há também outra coisa, de anunciar as obras como se já estivessem concluídas. Outro dia cheguei no interior e um senhor me perguntou se a ponte estava muito adiantada. Perguntei qual ponte, e ele esclareceu ser a Salvador-Itaparica. A imagem que o governo projeta é essa aí. Coloca o trenzinho em cima da ferrovia Oeste-Leste.

BN: E a novidade Paulo Souto? Como convencer o eleitor de que o senhor pode representar algo novo para a Bahia?

PS: Nos meus dois governos, eu mostrei que sempre fui capaz de me renovar, de inovar, de colocar o Estado na posição de equilibrado, moderno, eficiente. Todo tempo fui capaz de fazer isso. Hoje, a minha história e a campanha que estou apresentando, dá essa perspectiva eleitoral, de uma pessoa experimentada, que durante todo o governo, governou com muita seriedade. E capaz de ser um agente de transformação. Só que eu acho que nesse período agora, a Bahia tem situações tão graves em setores tão básicos que essa é realmente a minha grande prioridade. Restaurar os serviços públicos essenciais da população que estão degradados. Segurança pública, saúde, educação e também desenvolvimento econômico. Quem quer que seja o governador vai ter que cuidar desses setores. Aqui na Bahia apareceu uma nova área dos hospitais, que são os corredores. São as destinações dos pacientes. Os corredores só andam superlotados. O programa Saúde da Família é um exemplo de outra forma tendenciosa de dizer as coisas. O Governo diz que o PSF atingiu 410 municípios. Fica parecendo que eles que implantaram. Qual é a verdade? Deixamos implantado em 396. Eles fizeram 14. O mais grave que isso é que o importante é a cobertura, o quanto da população é coberta pelo programa. Encontramos em 21%, deixamos em 51%, e agora chegou até a cair e nesses últimos meses ficou em 56%. Estão fazendo esforço grande para que o Ministério da Saúde contabilize mais pessoas para não ficar com esse número.


"Quem está na política há tanto tempo, não pode estranhar nada disso que acontece. Claro que um fato ou outro pode bater mais no coração da agente", sobre a debandada dos ex-carlistas

BN: O senhor vem da escola política do carlismo, que por muitos anos foi o maior grupo político da Bahia. Tinha sob o comando do carlismo boa parte dos municípios, o Governo do Estado e a Prefeitura da capital. De alguns anos para cá, entretanto, este grupo, à medida em que perdeu eleições, se esvaziou e atualmente, o DEM, ex-PFL, só conseguiu aliança com o PSDB, que nem era aliado. Na possibilidade de uma nova derrota este ano, qual deverá ser o futuro da oposição na Bahia?

PS: Eu não vou falar sobre o que pode acontecer depois da eleição antes de conhecer o resultado. Eu acho que, em qualquer hipótese, o partido tem representação, vai eleger bancadas, é um partido que tem identidade. O grupo que está aí é coeso, forte, unido e, embutido na sua pergunta, quer dizer então que a panelinha que eles falavam foi para o outro lado?

BN: Sentiu-se traído pelo fato de não contar mais com os aliados históricos?

PS: Quem está na política há tanto tempo não pode estranhar nada disso que acontece. Claro que um fato ou outro pode bater mais no coração da gente. Cada um é o juiz de sua vontade, de seu desejo e aí quem tem que julgar é a população. Eu quero estar tranquilo de que eu estou cumprindo meu papel, mantendo minha identidade política, minhas ideias, meus programas e propósitos. Sobretudo, eu faço questão de dizer a verdade à população. Uma coisa, mais uma vez, que me preocupa, é que a avaliação de governo possa ser influenciada pela insistência de como a informação não-verdadeira é veiculada. Se a gente conseguir, nesse período, chamar a atenção da Bahia para isso, é uma grande vitória.

BN: Justamente pelo fato de ter sido governador por duas vezes, acaba se tornando um dos principais alvos de ataque da campanha. Isso te incomoda?

PS: É evidente que quem já esteve no poder tem que responder por isso. Eu nunca me furtei a debater qualquer tipo de crítica que seja feita. Mesmo porque é muito diferente quando eu aponto: “o número de homicídios na Bahia cresceu 50% e 110% em Salvador, de 2006 para cá”. Ninguém vai pegar uma declaração minha, uma atitude minha dizendo que a segurança pública no meu tempo era uma maravilha. Agora eu não posso deixar de dizer que piorou. Eu acho que tem certas coisas que a tendência normal é melhorar, que cada governo venha a fazer melhor que o outro. Essa é a tendência, com uma exceção aqui e outra ali, principalmente nesses setores que são essenciais para a população e que demandam um grande esforço. Quando, ao invés de melhorar, piora, e muito, não tem jeito, está relacionado à gestão. Tenho certeza que nossos indicadores na área de segurança pública são muito melhores, que da área de saúde são melhores, quando o normal, a tendência, é que um governo siga o outro e façam coisas melhores nesses setores, porque eles devem merecer uma atenção especial do governo.


"Olha, eu não diria que ele (Serra) é impopular. Eu diria que a força do presidente é muito grande, como foi na campanha passada, e acho que foi o que decidiu a eleição"

BN: Com relação à Segurança Pública, há uma tese defendida por grande parte dos acadêmicos de que as causas estão ligadas aos indicadores sociais, como renda, emprego, educação. O argumento do atual governo é de que lá atrás esses indicadores foram mal geridos, e que isso se reflete no aumento da criminalidade. O senhor concorda com esse argumento?

PS: Os indicadores sociais não eram os desejáveis, mas todos melhoraram e melhoraram muito. Veja que grande contradição. Se o problema é social, o Brasil vive, de um modo geral, um certo momento melhor. Aumentou a renda com alguns programas sociais do governo Federal, as desigualdades diminuíram, mas só aumentou brutalmente a violência na Bahia? Por que diminuiu no Rio, em São Paulo, em Pernambuco e no Ceará? Isso é uma coisa clara. A tendência é que melhorasse aqui também, mas não, as falhas na gestão foram tão graves que a Bahia são soube nem tirar partido de uma certa melhoria de alguns indicadores sociais provocada por políticas federais. Outra coisa é o seguinte: imagine o que é um secretário de Segurança Pública, em um setor que é um dos mais problemáticos, chegar ao último ano do governo e falar “vamos desencaixotar agora os equipamentos de comunicação e informação que estão aqui desde o final de 2006”. Tem cabimento isso? Isso é problema de gestão. Não tem porque esses indicadores terem piorado tanto.

BN: O presidente Lula é o político que mais fatura com a melhora desses indicadores sociais em nível nacional e goza de uma popularidade quase que unânime no país. A Bahia é o estado em que Dilma tem mais votos. A proporção é de que a cada 4 votos, 3 são de Dilma, segundo as pesquisas, e o candidato do governo ao Estado abraça seus colegas de partido e surfa nessa onda de popularidade. É difícil disputar uma eleição contra um candidato que tem ao seu lado Lula e Dilma, além de ter de abraçar a candidatura de José Serra, que aqui na Bahia é impopular?

PS: Olha, eu não diria que ele (Serra) é impopular. Eu diria que a força do presidente é muito grande, como foi na campanha passada, e acho que foi o que decidiu a eleição. O que nós temos que mostrar, e a população eu acho que vai perceber isso, é que quem é o responsável pela melhoria da segurança pública na Bahia é o governador, não é o presidente. Quem tem que fazer esforços para melhorar a saúde na Bahia é o governador e não o presidente. Então o fato de você ter um aliado não é uma garantia de que os setores que são de responsabilidade do Estado vão melhorar.

BN: É, mais essa comunicação à população, até o momento, não funcionou, porque o candidato do governo continua com uma boa vantagem e se terminasse hoje, ele ganharia no primeiro turno.

PS: Acho que temos que verificar primeiramente a enorme diferença entre o que ele tem e o que tem a candidata deles à Presidência. Isso já é uma indicação muito forte. Agora eu confesso que há uma saturação de propaganda do governo mostrando obras que não existem, dados que não são verdadeiros, da forma como foi feito, acaba influenciando a população. Temos esse período curto da propaganda para tentar dizer a verdade. “Olha, cuidado, não se deixem impressionar por isso”. Uma coisa, quero insistir, quem é o responsável por esses setores, ainda que tenha apoios, é o governador do Estado. Se eu quisesse fazer utilização pouco criteriosa dos dados, eu iria dizer que no tempo que estava no governo, o Bolsa Família inscreveu aqui 1 milhão de famílias e no atual governo só aumentou 400 mil. Seria uma forma incorreta. Que influência tem o Estado nisso se é um programa com recursos federais, embora o Estado ainda ajude? Eu vou procurar sempre dizer a verdade à população. Tentar mostrar à população, que em muitos aspectos, está sendo enganada.


"Ele (Wagner) sabe que, ainda que eu convidasse (a ser secretário), eu tenho certeza que ele não aceitaria".

BN: Qual o principal problema do governo atual e sua proposta para modificar esse problema.

PS: Se encarar do ponto de vista conceitual, diria que o principal problema é não dizer a verdade. Se for falar em termo de atuação, é o desastre na área de segurança pública e saúde, além de questões do desenvolvimento da Bahia. Eu, chegando ao governo, vou ter que fazer um esforço monumental para restaurar a dignidade e a eficiência desses serviços públicos.

BN: Caso eleito, convidaria Wagner para ocupar uma secretaria?

PS: Ele sabe que, ainda que eu o convidasse, tenho certeza que ele não aceitaria.