Sidônio Palmeira criticou colegas que tentam maquiar os candidatos para vendê-los à população como produtos - 02/08/2010
Foto: James Martins / BN
"A gente vai falar da unidade do projeto, que Wagner não está com o presidente Lula por conta de uma aliança de ocasião."
Por Rafael Rodrigues
Bahia Notícias: Esta é a primeira eleição ao Governo do Estado sem a presença do senador Antônio Carlos Magalhães. O que esperar desse novo momento da política na Bahia?
Sidônio Palmeira: A primeira sem o senador em mais de 20 anos. Ele que tinha um poder muito grande aqui no estado, de forma que terminava polarizando entre o carlismo e os anti-carlistas. Eu acho que o grande mérito da eleição de Jaques Wagner é que rompeu com esse negócio de carlismo, de quem é contra ou quem é a favor. Em um estado democrático, é importante que apareçam as idéias dos vários candidatos, sem necessariamente estar definida entre o bem e o mal, em uma visão maniqueísta da história. Eu acho que a Bahia está vivendo novos ares. Essa eleição tem também uma característica interessante, que depois de oito anos a gente vai eleger dois senadores. É muito importante informar a população disso. Existe um número de eleitores ainda que não votou em dois senadores. Acho também que os senadores têm que prestar contas do que faz. Geralmente eles ficam lá sumidos, não aparecem. O senador tem que ter o papel atuante, presente no estado.
BN: Alguns dirigentes do PT, entre eles o seu próprio presidente, vendem a tese de que a campanha eleitoral deste ano na Bahia será a transposição da polarização nacional, em que Wagner representaria o projeto de Dilma e Paulo Souto o de José Serra. Por outro lado, Wagner, para mostrar suas realizações no governo, deve utilizar como base para comparação o que foram os governos anteriores. Há o interesse de manter essa polarização, então, entre o projeto carlista e o petista?
SP: O projeto do governador Jaques Wagner é o mesmo do presidente Lula. A eleição não deixa de ser nacionalizada. Tem o outro projeto que nacionalmente é representado por Serra. A gente não pode separar a Bahia do restante do país. A disputa é nacionalizada, agora não é a questão do carlismo e do no não-carlismo. Acho que o carlismo da panelinha acabou. Rompeu com isso na eleição de Wagner. O que está colocado aqui é projeto político, do presidente Lula e do governador Wagner. Antes se fazia crescer o bolo para poder repartir, agora é dividir o bolo para fazer crescer. A Bahia tinha focos de desenvolvimento, no sul, celulose, no leste, turismo, no norte, frutas, no oeste, grãos e no recôncavo a indústria, e ficava todo o semi-árido abandonado, favelizado. O crescimento tem que ir para todos. Por isso que quando fizemos a campanha era a Bahia de todos Nós. Não basta a Bahia crescer, onde 5% dos municípios têm 90% da arrecadação.
BN: Então a campanha de Wagner vai tentar fazer um contraponto aos oito anos de Paulo Souto?
SP: Não, a campanha vai ser a continuidade da mudança, da transformação que aconteceu, e esse conceito de crescer para fazer para os que mais precisam. É essa a concepção.
BN: Em 2006, a campanha do governador foi vitoriosa e contou com uma estratégia de rotular o grupo político rival de panelinha. No poder, o governador, entretanto, se aliou e contou, em seu governo, com ex-carlistas tanto em sua equipe, como em sua bancada. Na chapa, também há um ex-carlista. Acredita que a estratégia da Zeti pode acabar voltando contra o próprio governador, no sentido de que ele está com quem criticava?
SP: A panelinha não é a pessoa em si. A panelinha é um grupo de pessoas que fecha para outros, pequeno. É o que acontecia. Sempre os mesmo empresários, sempre aquele grupo menor. Essa panelinha não existe mais. A concepção desse governo é fazer para todos. É aberta. Há, se o Otto veio, e de outros que tenham participado, mas se a gente for ver os adversários, todos eles já tiveram um relacionamento com o próprio Antônio Carlos, menos o Jaques Wagner. Mas ele não baliza isso, de carlismo e não-carlismo. Hoje o empresário que chega à Bahia não precisa pedir benção a alguém para montar seu negócio e se desenvolver. Depende da competência.
BN: Na campanha de 2008, a campanha vitoriosa de 2008 do PMDB bateu na tecla que o PT “só sabe criticar”, em referência ao fato do PT ter participado da gestão de João Henrique, mas abandonar o governo para sair candidato. Geddel, nesse sentido, também é traidor? Isso será explorado?
SP: Essa campanha de Wagner não é só do PT, mas de sete partidos. Quando a gente fez a campanha de Wagner em 2006, não só criticamos, mas propomos. Fizemos várias propostas que esse governo está cumprindo.
BN: Não, falo da campanha de 2008, para a Prefeitura de Salvador.
SP: No caso de Pinheiro, especificamente, ele não só fez criticar. Ele teve várias propostas para Salvador. Na campanha, cada um tenta valorizar uma coisa, como a gente questionou a gestão anterior. Mas, a nossa estratégia é que não temos como referência o adversário, mas o futuro e a continuidade desse processo de transformação que está acontecendo na Bahia e que aconteceu no Brasil. A gente tem que pensar em nós.
BN: Ficou clara a tentativa, na campanha de Pinheiro, de fazer o link com o presidente Lula. Mas, entretanto, a transferência de voto não aconteceu suficientemente para que o candidato ganhasse. O que não funcionou na campanha?
SP: A campanha de Pinheiro eu considero que foi vitoriosa. Pinheiro saiu com três pontos na pesquisa e foi pro segundo turno quando ninguém esperava. Fez uma excelente campanha. Era um candidato conhecido por menos de 40% da população de Salvador, e era o último da pesquisas. Agora o outro candidato disputava a reeleição, então eu não acho que foi essa disputa pela imagem do presidente Lula, a gente não pode resumir a isso. E essa campanha agora não vai se resumir a isso. A gente vai falar da unidade do projeto, que Wagner não está com o presidente Lula por conta de uma aliança de ocasião. É um projeto de trinta e tantos anos e inclusive o governador participou do Governo Federal. Mas o que vai estar em discussão é o projeto político que deve ser implantado aqui na Bahia, se é o que está sendo implantando no plano nacional ou se é outra alternativa. Se é amigo ou não do presidente Lula, isso para a agente é uma coisa completamente secundária.
BN: Em entrevista, o doutor em política, Wilson Gomes, afirmou: “O Wagner tem a maior vantagem: tem o maior recall e depois ele continua sendo Lula. As pessoas votaram em Lula e querem votar em Lula novamente”. Essa estratégia de vinculação dos projetos, trabalhar essa ligação entre os dois, não acaba também perdendo a oportunidade de trabalhar a personalidade, a imagem de Wagner?
SP: Eu acho que toda campanha tem que ser verdadeira, sincera. O que a gente ta fazendo? Quando você falar que o projeto de Wagner é o mesmo do presidente Lula, você está falando a verdade do que está acontecendo. O marketing político não deve criar factóides, deve ser um instrumento de mostrar realmente a verdade dos fatos. Então, se existe essa unidade, tem que mostrar isso, porque é importante para a Bahia. Essa é uma verdade. Acho que, no marketing, a gente não pode ficar escondendo as verdades. Por exemplo: se você falar que um determinado candidato ele é novo na política, e todo mundo sabe que não é novo, isso é ruim. Você está usando o marketing político para esconder. A população, mais cedo ou mais tarde, vai perceber isso.
BN: Com dois candidatos da base do governo, vai acontecer de, na televisão, por exemplo, Wagner mostrar o presidente Lula e Dilma Rousseff, e, no minuto seguinte, Geddel também aparecer ao lado dos dois. Como sanar a confusão na cabeça do eleitor?
SP: Se os adversários estão pensando que a disputa é para ver quem está com Lula, está cometendo um erro grave. O que queremos apresentar na campanha são duas coisas fundamentalmente: o que foi feito nesse governo, as mudanças e como vamos aprofundar essas mudanças, e o projeto político. O mesmo que foi feito do plano nacional é o que está sendo feito aqui na Bahia. Conseqüentemente tem essa unidade com o presidente Lula e com a ministra Dilma. Não é linkar, o eleitor vai ter claro isso. Quais são os projetos, quais são as idéias de cada candidato. O eleitor não é bobo, ele tem uma compreensão tão grande. Se você pega uma pesquisa qualitativa, você vai ver pessoas de classe C e D, entendendo e compreendendo bem a política. Isso é fruto do processo democrático, que vem desde o processo de redemocratização, que a gente tem eleições de dois em dois anos. Longe de achar que porque vou dizer “a, eu sou ligado a Lula” e vou ganhar a eleição. O eleitor entende o que é uma aliança de ocasião, momentânea, e sabe o que é um mesmo projeto. A gente não tem que subestimar a inteligência do eleitor.
BN: Então a simples linkagem entre a imagem do presidente e à dos candidatos então não é suficiente para que haja transferência de votos...
SP: Meramente a linkagem não. Tem que ter a unidade de projeto. Quem tem uma aliança de mera ocasião acreditar que vai conseguir com que ganhe votos, para mim está cometendo um erro bobo. O candidato deve apresentar o que tem para oferecer. Qual o seu projeto de transformação e mudança da Bahia.
"Um dos grandes erros dos adversários é de ficar só pensando em a gente e achando que tem que polarizar. Todo mundo que está na eleição quer polarizar para poder crescer"
BN: Há uma tendência de quem estar no poder ter o favoritismo para conquistar o segundo mandato, em grande parte, porque está em evidência o tempo todo, seja pelas ações do governo, seja pela publicidade oficial. A oposição ao governo utiliza como argumento para justificar a competitividade da campanha o fato de haver uma quantidade considerável de peças oficial no primeiro semestre divulgando obras do Estado, sem que isso tivesse conseqüência nas pesquisas eleitorais. Qual o motivo das campanhas oficias não terem impactado o eleitorado?
SP: A publicidade oficial não é feita para o eleitorado, mas para a população esclarecer as ações que o governo está fazendo. Ela é informativa do trabalho do governo. Isso faz parte de uma das tarefas do governo. O pessoal fala tanto da propaganda do governo, que se gastou tanto, mas gastou menos que no passado. Aparece, porque é eficiente, porque é boa. Esse é o grande problema. Por que ela é boa? Porque fala a verdade. Não trabalhamos com figurantes, mas com pessoas do povo. Não criamos obras, mas mostramos as obras que foram feitas. Não se cria nada além do que o governo fez. A propaganda não pode ser um instrumento de enganação. É um instrumento da verdade. Quando fazia propaganda de Governo, não pensávamos em eleição. O que se faz como obrigação, dever do estado, de divulgar as ações. Como a oposição não quer aceitar que esse governo fez muito, ela fala da propaganda.
BN: A última pesquisa Datafolha apontou o governador Jaques Wagner com o pior percentual de intenções de votos, entre os que são da base do governo. O melhor é Eduardo Campos, de Pernambuco. Apesar das pesquisas darem a eleição definida no 1º turno, Wagner é o que encontra mais dificuldade...
SP: Wagner foi eleito como o segundo melhor governador do país entre os principais estados. Esse é um dado importantíssimo e que nos deixa muito feliz. É o reconhecimento do povo baiano pelo trabalho que está sendo feito aqui na Bahia. Cada um sabe seu calo onde dói. As características que tem um estado e que tem aqui são diferentes. A gente tem que ver qual a realidade que Eduardo Campos está passado e a que Wagner está passando aqui. Wagner tem feito um grande trabalho aqui. Estamos em uma situação muito boa. O que vamos fazer é divulgar mais isso. Foi o governador que mais visitou, durante o mandato, os municípios do estado. Mais de 350 municípios, em que ia não só para conhecer, mas para mostrar ações. Fez 4 mil quilômetros de estradas, água para todos, cinco hospitais. Todos os programas federais aqui bate Record, como o Minha Casa, Minha Vida, o Luz para Todos, o Bolsa Família, tem a ferrovia Oeste-Leste. Essa parceria está dando muito certo.
BN: O PT, devido à sua militância histórica, possui a adesão de ao menos 30% do eleitorado, que serve de base para qualquer candidato do partido. Mas possui também uma rejeição que chega a percentuais similares, das pessoas conservadoras de direitas. Há a necessidade de também explorar essa faixa do eleitorado para ganhar a eleição? Como fazer isso?
SP: Essa eleição não é de esquerda contra a direita.
BN: Não falo que será uma eleição que polariza a esquerda e a direita, mas em qualquer eleição há as faixas de eleitorados.
SP: É, tem. A chapa é de uma frente de vários partidos. Não é o PT contra os outros. Representa a mesma concepção do que está fazendo o presidente Lula. No plano nacional, existe essa resistência? O presidente tem aceitação da maioria da população independente de seu partido político, que é o
PT. Porque a gestão dele é acima do partido. Como a gestão de Wagner segue a cartilha de Lula, é natural estar dentro da mesma concepção. Ele tem um partido político, que tem sua concepção de mundo, de acabar com a desigualdade social. A gente não vai polarizar a eleição entre a esquerda e a direita. Longe disso.
BN: Em entrevista ao BN, o publicitário Maurício Carvalho afirmou que Paulo Souto está na segunda posição porque o governador assim o quer. Isso aconteceria, devido à possibilidade de ter de contar com a aliança de Geddel no segundo turno, já que os dois partidos são aliados nacionalmente.
SP: Tem dois projetos. Paulo Souto está aí porque o povo assim quer. O sentimento de Geddel é de querer crescer, mas isso ele vai fazer mostrando as idéias dele lá. Não é o PT que vai definir que o candidato que vai disputar vai ser do PMDB ou do DEM. Muito pelo contrário, pois nós fazemos campanha olhando para frente, olhando para o nosso projeto, não pensando nos adversários. Um dos grandes erros dos adversários é de ficar só pensando em a gente e achando que tem que polarizar. Todo mundo que está na eleição quer polarizar para poder crescer. A melhor forma que ele tem para polarizar a eleição é tentar crescer e não o contrário. O macaco tem que olhar para o seu próprio rabo. Cresça que aparece. Não pensamos em qual é o melhor adversário.
BN: No período pré-eleitoral, alguns membros das chapas majoritárias trocaram acusações de envolvimento em esquemas de corrupção como o da Agerba, o Mensalão e o da Ebal. Esperam que esse tipo de artifício venha ser utilizado pra desqualificar o candidato?
SP: A gente não tem como centro nosso descaracterizar o adversário. Vamos fazer uma campanha propositiva. É lógico que se você recebe algum ataque, vai responder ou esclarecer se for necessário. Quando fizemos a campanha em2006, a gente tinha uma opção de governo. Colocávamos um problema que tinha, de 16 anos, a Bahia cansou, e agora quer uma mudança. Mas você não viu a gente procurar descaracterizar a pessoa do adversário. Agora, em uma eleição, se tiver uma crítica, a gente vai esclarecer.
BN: Acredita que o nível da campanha pode inviabilizar uma aliança entre Geddel e Wagner na hipótese de um segundo turno?
SP: Se depender da nossa parte, fundamentalmente, é a crítica política que vai acontecer. O candidato vai mostra o que ele fez. Não temos como centro o nosso adversário. O que vai acontecer adiante, vai depender dos fatores tanto nacional quanto regional. Uma coisa: Dilma sendo eleita no primeiro turno é uma opção, no segundo turno é outra opção. Serra sendo eleito, já são várias outras. Uma coisa a gente tem que ter clara: o projeto de Wagner é sempre com Dilma. Isso é o diferencial em relação aos outros candidatos, aquele negócio que eu falo do projeto.
BN: Espera uma boa eleição no nível da qualidade das campanhas?
SP: A qualidade das campanhas aqui na Bahia não deve nada ao restante do país. Muito pelo contrário. Nós temos aqui grandes profissionais que toda hora estão aparecendo, é um celeiro, daqui saíram vários. Entender de marketing político é aqui na Bahia.
"As pessoas tentam passar os candidatos como pessoas perfeitas e não são. Nosso candidato tem seus defeitos e vamos mostrar também"
BN: Em 2008, houve aquela disputa entre a estrela do PT com o 13, e o coração do PMDB com o 15. Ao que parece, essa tendência tende-se a se repetir nesta eleição. Ao menos o PMDB já comprou a idéia. Acredita que esta disputa de estratégias similares será uma das tônicas da eleição?
SP: A eleição não é polarizada com o PMDB. Tem um outro candidato e forte, que é o candidato Paulo Souto, que deve ter estratégias dele. Então essa é uma referência muito mais ao segundo turno, que aconteceu.
BN: Chama atenção, porque foram estratégias que deram certo, que pegaram na última eleição, e o PMDB agora deu até uma mudada. Pôs o coração vermelho. Será que parte de uma estratégia de se aproximar do presidente Lula?
SP: Eu acho que, quem tem que responder se saiu do amarelo e foi para o vermelho, tava com hepatite, mas é o Maurício quem deve falar sobre isso. A polarização não necessariamente vai ser essa. Paulo Souto é candidato também. Vai polarizar as eleições? Não sei. Ai tem que analisar o segundo turno. Eu acho que esse negócio de ficar escolhendo adversário é complicado. Eu não sei se eles estão pensando em escolher a gente, mas não estamos escolhendo nenhum adversário. Vamos fazer a campanha. O decorrer da campanha que vai dizer o que vai acontecer.
BN: As peças publicitárias do Governo do Estado tem essa tônica, de dispensar atores e efeitos cenográficos para mostrar a realidade, com personagens da vida real, em suas realidades. É o que você mesmo tratou aqui como toda campanha tem que ser verdadeira. O Maurício Carvalho também bateu na mesma tecla, na entrevista ao BN. É “a vida como ela é”. Acredita ser essa uma nova tendência de campanha política, que vem como um contraponto ao que foi proposto por Duda Mendonça?
SP: A campanha de Wagner, a gente mostrou sempre a realidade, a verdade, a sinceridade. A campanha que eu fiz de Lídice, anteriormente, também foi a mesma coisa. É o novo você falar a verdade? Eu acho que o marketing político sempre deveria fazer isso. A gente está descobrindo a roda ao falar a verdade? Esse é um aspecto importante. Você não pode inventar um candidato, criar um factóide, você não deve fazer isso, porque isso é bobagem. Isso eu aconselho aos outros candidatos também. Você não pode dizer que um candidato é novo, quando ele não é. Não pode dizer que não quer voltar ao passado, mas... o que estou querendo dizer objetivamente é que a gente vai passar a verdade, agora a verdade encanta também. A gente conseguiu encantar com a verdade em 2006, e tem plenas condições de encantar mostrando a verdade. Você mostrar uma pessoa beneficiada pelo topa encanta e encantou, quando o Governo do Estado fez isso. Tem algum ator ali? Esse que é o genial da coisa.
BN: Mas não deixa de ser um contraponto. Havia uma tradição de campanhas no Brasil que utilizavam muito de atores, de estratégias de filmagens com planos abertos, com a utilização de crianças. Esse tipo de estratégia está ultrapassada, então?
SP: Pois é, então as pessoas estão percebendo que a melhor coisa é não enganar o eleitor. É falar a verdade e mostrar o que é que é. Esses comerciais que fizemos, que encantou a Bahia, no Governo, encantou o Brasil, porque vários outros estados ficaram impressionados. O que é aquilo ali? Pegar o depoimento de uma pessoa e saber como pegar isso. O segredo é ter o mínimo de interferência publicitária. Muitas vezes o exagero dos publicitários é querer ter uma interferência muito grande nas coisas. Apesar de alguns acharem que o marketing comercial são como se fosse a mesma coisa, é ledo engano. Você não mostra o candidato, mostra como ele é, como você faz com uma pasta de dente ou um sabonete. A pasta de dente pode até dar frescor na boca, mas não dá emoção, nem sentimento. Tem que entender isso, que o marketing político ele tem a sua beleza em você falar exatamente como é que é, e mostrar os erros também. Eu não vou tentar mostrar Jaques Wagner como o candidato perfeito, que resolve tudo, que é a solução para todos os problemas, que é o único que ama a Bahia. Não é isso. O povo não vota no candidato perfeito, porque ele não existe. Você tem que passar o candidato com as coisas positivas dele e com os problemas. Todo mundo na vida tem problema. Todo mundo erra e o eleitor sabe disso. Ele não está elegendo uma pessoa perfeita, e aí é um grande erro das campanhas. As pessoas tentam passar os candidatos como pessoas perfeitas e não são. Nosso candidato tem seus defeitos e vamos mostrar também. Ele vai colocar “deu para fazer isso, mas isso não deu, foi difícil”, e não temos nenhum problema de enfrentar qualquer questão, inclusive de segurança. Vamos enfrentar claramente, o que teve de problema e o que teve de ação do governo.
BN: É uma das questões que iria levantar. Sem dúvidas, a violência será um dos grandes temas desta eleição, e um dos fatos que mais chamaram a atenção da população neste ano foi a morte do delegado Cleyton. Acredita que aquela gravação pode ser utilizada com munição contra o governador? O apelo pela emoção vai funcionar nesta eleição?
SP: Eu acho uma grande bobagem as pessoas tentarem usar, nesse negócio da segurança, coisas que envolvem o sofrimento dos outros para tentar ganhar votos. Mas, a gente está ali e o governador sabe de sua responsabilidade. Ele vai assumir tudo que for responsabilidade dele. E vai assumir tudo que ele agiu, quais ações que tem feito. Aquilo ali foi um incidente que nós sabemos exatamente quais são os detalhes. Aquele pessoal já foi preso e foi solto e vocês sabem muito bem por quem foi solto, qual o advogado. Não deveremos brincar com o sentimento alheio. Campanha política não deve ser um vale-tudo. Se tão achando que é um vale-tudo, nós estamos fora dessa. A gente tem todas as condições de mostrar nosso projeto sem entrar no vale-tudo. Não concordo com isso, agora vamos enfrentar tudo. Não tenho absolutamente nenhum problema com isso, mesmo porque é um governo bem avaliado, que tem problemas, e vamos mostrar quais são os problemas.
BN: O que esperar do nível dessa campanha?
SP: Minha expectativa nessa eleição é que é muito importante para a população, desde a democratização do país, esse processo eleitoral, de informar a população quais são as idéias de cada candidato, porque a população deve conhecer seus candidatos para votar cada vez mais consciente. Quando eu falo de a gente passar a verdade, a sinceridade, eu acho que é uma contribuição que a gente dá ao povo de saber exatamente o que é cada um dos candidatos. Podemos ter algumas surpresas de a gente mostrar que o nosso candidato não é perfeito, porque ninguém é. E eu vejo algumas eleições que chega ser engraçado. Um candidato não é um sabonete nem uma pasta de dente, em que você fala que “aquele sabonete faz tudo”. Quem tiver achando isso, saia disso de achar seu candidato é perfeito. Na minha opinião, não elege ninguém. Uma coisa que eu quero dizer é que não faço com campanha com quem eu não acredito, nas idéias e no projeto do candidato. Para mim isso é fundamental. Não faço campanha meramente por dinheiro. Muitas vezes as pessoas enxergam a eleição como uma corrida ao ouro. Tem que fugir disso. E quem tem que aparecer não é o marqueteiro, é o trabalho do candidato. Eleição é para passar idéias, para mostrar ao povo o que está sendo feito. Existem marqueteiros que trabalham com a lógica de franchising em campanhas. Muitas vezes se faz uma campanha independente do candidato, aquela campanha pode se encaixar para qualquer candidato. Isso é um erro grave de alguns, porque a campanha tem de ser em função do candidato. Nós, publicitários, temos responsabilidade, não é o vale-tudo. Eu já tive várias propostas para ganhar mais, e terminei fazendo campanha com que eu ganhava menos, mas porque acreditava. Publicidade tem que ser feita também com a alma. Isso, muitos não sabem, mas ajuda e muito. Toda a minha equipe eu converso e sei que precisa saber, compreender o projeto.
"Na democracia você tem que sair aí fazendo tudo que se propõe?"
BN: Essa situação de se negar a participar do debate na UPB, não é negativo para a imagem do candidato, que se vende como um democrata?
SP: Na democracia você tem que sair aí fazendo tudo que se propõe? Democracia é o seguinte, você tem que informar à população e debater isso. O governador Jaques Wagner já deixou muito claro: vai participar o debate de todas as televisões, vai participar dos debates das redes de rádio, vai a entrevistas em vários locais. Agora o governador tem duas coisas: a gestão dele para ser feita e tem campanha, diferentemente dos outros. Ele não pode largar o governo e precisa ter um tempo para isso. Longe de fugir, muito pelo contrário, ele vai participar de todos os debates na TV. Tem alguns candidatos em outros estados que vão participar somente de um debate em TV.
BN: O governador Jaques Wagner ingressou há pouco tempo no Twitter, enquanto os outros candidatos já estavam há tempo. Por que a demora? A internet é superestimada ou de fato pode fazer a diferença em uma eleição?
SP: Treze por cento das pessoas aqui no estado tem acesso à internet. É um número bastante razoável. Nas eleições passadas, a internet não teve força, mas depois de Obama lá, que ganhou as eleições e a internet jogou papel fundamental, e isso veio também aqui pro Brasil. No plano local, ela vai jogar um papel importante, eu não tenho dúvida alguma. Agora é uma mídia nova para as eleições. Wagner agora que está engatinhando na internet. Não tinha um hábito de twittar, mas fez um esforço. Ele pede ajuda as pessoas, e em pouco tempo aumentou sensivelmente o número de servidores. Fizemos um encontro de twitteiros que deu mais de 300 pessoas. É um fenômeno recente, mas já está indo em um ritmo muito bom.
BN: Mas Wagner ainda interage pouco na ferramenta. Até hoje só respondeu a duas pessoas.
SP: É, mas com o decorrer da campanha ele vai pegar bem o ritmo. Ele está gostando muito, e é uma forma de ter contato com a juventude. Cria uma interatividade, e até pelo estilo democrático de Wagner, a internet é um dos meios mais democráticos possíveis devido à interatividade. Eu acho que ele vai se dar muito bem. E tem uma outra função importante. Essa campanha que tem muitos militantes em vários locais do estado, facilita o relacionamento entre eles.
BN: E o potencial de influenciar o resultado nas urnas, é relevante, já que apenas 13% possuem acesso à internet?
SP: Eu acho que sim. A internet vai jogar um papel importante. A gente não pode entender as eleições como a internet somente. É um conjunto de coisas: internet, TV, rádio, a comunicação nas ruas também. A conjunção desses fatores faz com que as pessoas possam ter um contato maior com o candidato.
BN: Planeja arrecadar pela internet?
SP: Não, porque ainda é difícil fazer. Nos Estados Unidos havia uma estrutura melhor. Eu não sei se tem algum candidato, foram Marina Silva, que vai tentar. Ainda é difícil fazer, mas acho que já nas próximas eleições as coisas vão ficar mais fácil. É bom ressaltar também. Uma coisa é 13% das pessoas terem acesso á internet, agora tem que ver o que essas pessoas estão vendo na internet. Com o tempo vai aumentar o número de pessoas que vão se interar sobre política na internet.