Maurício Carvalho reconhece que Geddel é ‘impulsivo’ e diz que as críticas à administração estadual serão ‘incisivas’ - 12/07/2010
Fotos: Tiago Melo/BN
"Exatamente. Eu tenho dito assim: ‘Vale mais homem do que o nome’"
Por Rafael Rodrigues
Bahia Notícias: Essa eleição ao Governo do Estado da Bahia é a primeira após o falecimento do senador Antonio Carlos Magalhães, e promete ser uma das mais imprevisíveis e acirradas de todos os tempos, por ter três candidatos de partidos grandes, que montaram uma grande estrutura para ganhar a eleição. E o senhor é comandante de uma das candidaturas. Qual o tamanho deste desafio para sua carreira?
Maurício Carvalho: Para minha carreira, acho que não é o caso. Acho que o desafio aí, você posicionou bem, que é o primeiro depois de uma longa história da Bahia sob a direção de um mesmo grupo. Foram 16 anos seguidos, mas teve mais alguns alternados. O desafio hoje é estabelecer esse novo ambiente na campanha eleitoral. Quando as pessoas falam assim, vai ser muito acirrado, vai ter briga e tal, eu não vejo por aí. Acho que o momento é diferente. É de ter sensibilidade de que as pessoas não são números de pesquisa, mas estão querendo ouvir realmente ideias, soluções para seus problemas. O maior desafio é fazer com que essa mensagem chegue até o leitor de uma maneira bacana.
BN: O acirramento que falo é na disputa por votos mesmo, não no embate pessoal, mas são três candidaturas que têm o potencial de levar a disputa.
MC: É, realmente, a disputa vai ser voto a voto. É verdade, será acirrada nesse sentido. Será uma guerra aritmética. Na verdade, eu me sinto até confortável nesse aspecto porque o deputado Geddel é um candidato de potencial eleitoral bastante grande e de convencimento. Tenho feito vários testes com ele, com grupos de discussão, e ele tem um poder de convencer as pessoas muito grande, tem uma retórica excelente, um cara que passa sinceridade. Tanto é que qualquer coisa que ele diz é tomada como "poxa, um político não devia estar falando isso", mas não, ele é só um cara humano, transparente. Acho que esse lado dele vai ajudar bastante.
BN: Há alguma receita para vencer uma eleição? As estratégias de campanha já partem de algum lugar comum? Por exemplo, o modelo de campanha proposto por Duda Mendonça, com Paulo Maluf e Celso Pitta, que Lula também utilizou. Essa estratégia serve de parâmetro ainda hoje para os marqueteiros?
MC: Essa etapa já é ultrapassada na medida em que o próprio eleitor evoluiu. Os próprios meios de comunicação evoluíram. As pessoas têm acesso mais instantaneamente às informações. Se existe uma premissa básica hoje, é o respeito ao eleitor, à inteligência do eleitor. Isso eu procuro passar para toda a minha equipe: vamos fazer a vida como ela é. A vida como ela é que está em voga hoje, que realmente importa para o eleitor.
BN: Na campanha para a Prefeitura de Salvador de 2008, o senhor foi o marqueteiro da campanha de João Henrique (PMDB), que partiu de uma rejeição alta, mas que foi revertida e acabou vitoriosa. Nesta campanha, houve um marco da utilização de estratégias de marketing viral nas duas candidaturas que foram ao segundo turno, a de João e de Walter Pinheiro (PT). Foi a disputa pelos adesivos da estrela com o 13 e do coração com o 15, e dos jingles também animaram os eleitores. Acha que essa é uma tendência que pode se confirmar nessa eleição?
MC: O marketing viral é viral porque ninguém sabe quem é o autor, então, eu acho que o que é bacana, é porque as pessoas pensam que um produto que virou viral, uma peça que virou viral, nasceu de um marketing. Muitas vezes uma peça que virou comentada na internet, por exemplo, é porque é bacana, bem humorada, às vezes sai de um usuário da internet, e às vezes se atribui muito ao marqueteiro. É obvio que todo mundo usa essa estratégia do marketing viral, mas não foi uma premissa da campanha de João Henrique. A premissa foi mostrar a vida como ela é. Há uma diferença, por exemplo, quando se diz assim: "quem tem a maquina na mão está com vantagem". Tá, está com vantagem, não é isso? Você faz ações, você realiza obras e tudo mais. Mas se você faz isso somente na propaganda, não tem ressonância no eleitor. Por que com João Henrique a gente foi baixando a rejeição? Porque o que mostrávamos na propaganda estava acontecendo nas ruas. As pessoas viam, que quando falávamos que tinha asfalto, tinha asfalto, todo mundo via, e reclamava porque as máquinas estavam engarrafando e tal. Acontecia realmente as coisas. Houve, com a presença do PMDB e do ministro Geddel na campanha, um "tome obra na cidade". A gente estava propagando a vida como ela é, e é isso que importa em uma campanha política.
BN: Naquela época, João Henrique tinha uma rejeição de 70%, e conseguiu reverter. O problema de Geddel, no início de campanha, é que, ao contrário do que acontece com Dilma Rousseff (PT), que cresceu antes do início oficial da campanha, Geddel estacionou nos 8 ou 9%. Qual o planejamento para o início de campanha, para que o candidato torne-se competitivo?
MC: Só para fazer uma correção, ele não está com 8%, mas com quase o dobro que isso.
BN: Mas as que estão registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dão isso.
MC: Mas quem registrou foi o opositor. Ele está com muito mais que isso. Mas isso não se aplica nesse sentido, porque todo mundo estacionou.
BN: É, mas se acabar como está agora, para o candidato que está liderando, que é o governador Jaques Wagner (PT), está ótimo, porque ele leva.
MC: Se todo mundo estacionar está bem para ele "vírgula", porque se você considerar os investimentos em propaganda feitos nos últimos seis meses, e ele está estacionado, significa que neste período que não tem propaganda (oficial), a tendência é espumar a campanha, no sentido de que as bolhas vão estourando. Você tem que raciocinar para lá e para cá, não pode ser só de lá para cá. Supondo que esteja com esse percentual, está todo mundo estacionado, e estar estacionado depois de um investimento em propaganda tão grande, não é coisa boa. Eu acho que o potencial de crescimento de Geddel é o maior de todos, porque ele é o menos conhecido, é o que nunca disputou uma eleição na majoritária. Estamos, nesse sentido, muito bem.
BN: Cientistas políticos, como foi o caso do doutor Wilson Gomes, em entrevista ao Bahia Notícias, tratam o PMDB como um partido que teve sua importância histórica na redemocratização do país, mas que atualmente não tem coloração ideológica, não tem bandeiras nem projeto político que sejam facilmente identificados pela população. Desde a redemocratização, o PMDB nacional nunca foi oposição, é o maior partido do país, mas nunca conseguiu eleger um presidente, segundo analistas, juntamente devido a essa falta de identidade política. Qual sua opinião sobre essa análise? Isso atrapalha? Como contornar?
MC: Não entendo o PMDB como um partido sem bandeira ideológica. Eu acho que hoje, no Brasil, se confundiu e se fundiram todas as bandeiras ideológicas. A prova disso é que você vê um tema de importância óbvia como o verde, a questão do meio-ambiente, que virou uma bandeira ideológica como se isso fosse uma coisa super sensacional, quando na verdade deveria fazer parte de todas as bandeiras de todas as ideologias. Isso é devido à falta e fusão de todas as esquerdas, com as estrema-esquerdas. Hoje Lula é o quê? É esquerda? É direita? É mais esquerda, mas tem uma política também que contempla bandeiras e ideologias de outros setores. O Brasil está crescendo politicamente, amadurecendo, envolvendo e abraçando múltiplas ideias. A questão de poder, quando se critica o PMDB, porque é um partido que está sempre no poder, isso é ótimo porque é estando no poder que se realizam as coisas que as pessoas precisam, que são as obras, as soluções dos problemas. Ninguém realiza nada ficando eternamente em palanque fazendo discurso. Tem que estar sim no poder o tempo todo, eu acho.
BN: Para organizar a campanha de um candidato, não é um problema ele fazer parte de um partido que não tem essa identidade política?
MC: De jeito nenhum. Não atrapalhou. João Henrique é do PMDB.
BN: É, mas ele não pode ser considerado um dos quadros do PMDB histórico. Fez sua carreira política e tem sua identidade vinculada a outras questões.
MC: A gente tem que levar em consideração o que pensa o eleitor. O eleitor quer ver seu problema resolvido.
BN: Então vale mais, em uma eleição majoritária, a figura do político do que o partido que ele pertence?
MC: Exatamente. Eu tenho dito assim: "Vale mais homem do que o nome".
"(Geddel) é uma pessoa extremamente genuína(...), é como ele é, um cara impulsivo, um cara trabalhador, que responde as pessoas"
BN: É creditada a Geddel a imagem de um político impulsivo. Isso pode atrapalhar a campanha de alguma forma, há como capitalizar isso positivamente, ou a proposta é retirar de sua imagem esse adjetivo?
MC: É outra coisa que é premissa básica. A gente não vende um candidato rotulando ele com uma embalagem nova, porque isso também vira espuma e as pessoas percebem quando um cara tem um sorriso que é falso, quando o cara faz um gesto que é falso, quando usa uma camisa que você nunca viu usando antes. A gente não faz isso. Meu estilo de trabalho é esse. Ele também é uma pessoa extremamente genuína, porque é a vida como ela é, é como ele é, um cara impulsivo, um cara trabalhador, que responde as pessoas. Eu tenho acompanhado ele no Twitter, e vejo que é uma pessoa muito educada, até quando ficam instigando e tal, eu vejo que ele é muito educado com as pessoas. Vi ele recebendo elogios de gente de outros partidos. Uma pessoa assim é ótimo para você trabalhar, porque as pessoas conhecem ele de verdade, eu não tenho que ficar formatando um personagem.
BN: No Twitter, Geddel, de fato, responde a maioria das provocações, ainda que parta de eleitores declarados de candidatos adversários. São votos que dificilmente ele vai conseguir obter. Essa exposição dele, então, é positiva em que sentido, já que às vezes ele dialoga com opositores de forma não tão amistosa?
MC: Quando o eleitor está lá, no biombo, com a urna, ele vai votar por confiança. Você pode fazer um paralelo uma porta com olho mágico, e outra sem. O político está batendo na porta do eleitor, e quando responde quem é, você ouve uma voz. Com Geddel, você ouve a voz e tem o olho mágico. Você está vendo quem é a pessoa. Os outros não estão se expondo como ele está. Então você vai conhecer realmente o candidato Geddel Vieira Lima do jeito que ele é. No entanto, você não tem o perfil, por exemplo, do governador no Twitter. Como você vai saber que aquele governador que está ali na propaganda, na frente da câmera, com toda a maquiagem, direção e marketing e tudo mais, é realmente o governador que você deseja?
BN: Então não há um controle da assessoria sobe o que Geddel posta no Twitter? É ele realmente quem posta?
MC: Total. Inclusive é da postura dele. Ele quer assim, se mostrar para as pessoas.
BN: Será esta a grande novidade da internet, na eleição deste ano? No Twitter e nas redes sociais não há mais um que fala e os outros que ouvem, como na campanha pela TV. O eleitor pode dialogar diretamente com o suposto candidato. Se o candidato responder, pode ouvir uma tréplica que não queria. Não há o controle total do que pode acontecer.
MC: O meio internet está proporcionando essa novidade. Infelizmente, por exemplo, a gente não tem uma cobertura de internet como deveria, uma universalização como deveria, e então a propaganda nos meios de comunicação tradicionais, como TV e rádio continuam com o mesmo peso e importância. Mas, devido à forma instantânea com que aparecem as coisas na internet, termina que isso é multiplicado na própria TV, no rádio, nos jornais, nos sites. Eu acho fantástico isso que está acontecendo, porque é uma maneira de você quebrar também uma certa hipocrisia das campanhas eleitorais. Por exemplo, outro dia estava participando de um grupo de discussão sobre lei eleitoral. "Você só pode fazer propaganda a partir do dia tal e tal...", no entanto, há muito tempo se discutem os personagens que vão entrar na disputa, e as pessoas não têm a chance de conhecer esses personagens? Nos Estados Unidos se trabalha há dois anos antes, com palestras, com debates e tudo mais, e aqui fica nessa hipocrisia, e a gente sai tentando empurrar na cabeça do eleitor uma candidatura em 45 dias. Uma plataforma de governo, coisas que poderiam ter sido discutidas há mais tempo, e aí a internet permite um pouco isso, de você conhecer pelo ao menos mais o lado pessoal de seu candidato. Se eu digo "Geddel vai chegar e resolver", as pessoas estão vendo que ele "vai chegar e resolver" ali no perfil, que é o cara que dá a resposta, que não deixa problemas seguirem adiante, que quer resolver logo as questões prioritárias. Então, está tudo ali, é ele, não estou inventando nada. O slogan dele não é uma promessa de voto, é uma promessa de conteúdo.
BN: Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama venceu às eleições, em grande parte, devido às suas ações na internet, ao chamado "Efeito Obama". No Brasil, como o senhor mesmo ponderou, a internet não tem tanta penetração, mas em uma eleição disputada, como se pode projetar na Bahia, com pouca diferença de votos entre os candidatos, pode ser o diferencial?
MC: Pode, gigante. Dois votos a mais, dois a menos, claro que pode. É uma disputa aritimética. É uma disputa acirradíssima. Sempre lembrando aqui que eu acredito muito nessa questão, dessa disputa com nosso candidato, porque você vê quem é o candidato, e ele realmente é uma potencia.
BN: Planeja algum tipo de arrecadação pela internet?
MC: A gente está investindo em uma plataforma de internet que poderá possibilitar a arrecadação via web, mas também é muito incipiente essa coisa. Estamos estudando leis e essa coisa toda, para ver como é que vai funcionar. Se não for muito complicado...
BN: Há vídeos pela internet que são verdadeiros dossiês contra candidatos, e há também paródias em tom de deboche bem ofensivas, mas que, como as peças de marketing viral, alcançam alto índice de popularidade. Como o comando da campanha consegue gerir esse tipo de situação?
MC: A internet permite que se faça peças totalmente apócrifas, então você fica sem identificar de onde vem, o que, de certa forma, descredibiliza o que está sendo dito. As pessoas também não são idiotas. Se o sujeito não tem coragem de assinar, talvez aquilo não seja verdade. As pessoas pensam muito isso. O que tem funcionado bastante é o bom humor. Quando a peça é bem humorada e tem ressonância, é importante isso.
"Essa estratégia (de vincular Geddel ao carlismo) não vai funcionar. Como é que eu, que combato alguém, posso ser associado a essa pessoa?"
BN: Tem uma inclusive que é creditada ao senhor...
MC: É, então é importante que as coisas tenham uma ressonância, se não, não seguem adiante. Essas ofensas pessoais, essas acusações que quando você vai procurar a ficha do candidato, você vê que ele não responde à Justiça, nunca foi processado, nada disso, então isso termina por cair no descrédito.
BN: Nesse período de pré-campanha, membros das chapas majoritárias trocaram indiretas e acusações envolvendo crises como a da Agerba, da Ebal, do mensalão, entre outras. São crises podem ser motes para ataques durante a campanha. Acredita que esse tipo de troca de ofensas vai acontecer?
MC: O marketing tem que estar preparado para tudo, para responder tudo. Não se pode deixar nenhuma questão sem resposta, a não ser que a própria questão já venha com a resposta. Então, na verdade, é como uma guerra. Você vai preparado com todas as informações, mapeamentos, estudos estratégicos, quais são os passos que o oponente pode dar, e tudo mais, mas a premissa é respeito ao eleitor. O que o eleitor quer? Ouvir propostas, ideias.
BN: Então, as críticas de Geddel vão ficar restritas à administração do governador Jaques Wagner?
MC: Exatamente. Restrita e baseada em informações que todos os baianos podem ter acesso, como Ibope, IBGE e outras fontes. Você não vai ver o candidato fazendo crítica que não seja qualificada.
BN: Uma das estratégias que a campanha petista deve utilizar é a de vincular os métodos de fazer política de Geddel com os de Antonio Carlos Magalhães, com o carlismo. O próprio governador, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, tocou nesse ponto por vezes, mesmo sem citar o nome de Geddel. Como tentar evitar esse tipo de vinculação?
MC: É simples. Na verdade, o raciocínio é inverso. Essa estratégia não vai funcionar. Como é que eu, que combato alguém, posso ser associado a essa pessoa? Se eu combato as ideias de alguém que são contrárias às minhas, então eu sou contrário a esse alguém.
BN: Mas ele fala de práticas, não de ideias. Diz que as práticas parecem com a do senador.
MC: É uma tentativa de fazer colar no candidato Geddel uma imagem que não existe, que não condiz com a realidade. Eu tenho explicado isso para várias pessoas. O Davi combateu o gigante Golias. Quem é o gigante? Você termina pegando para o combatente a imagem de gigante, valores que eram do outro, que era o forte, o potente, o "retado". Se eu derroto o forte, combato "tête-a-tête", não tenho medo, então eu também não tenho medo, eu sou corajoso, então essas atribuições e atributos tendem a fluir de um para o outro, e isso acontece no mundo da propaganda. Se você faz uma propaganda, por exemplo, da Pepsi combatendo a Coca-Cola, termina que a Pepsi fica parecida com a Coca-Cola na cabeça das pessoas. Isso é normal, normalíssimo. Mas quando você vai ver, por exemplo, no candidato Geddel Vieira Lima, ele combatia as práticas e as ideias do outro. Como ele pode ser igual ao outro?
BN: Essa disputa pela imagem de Dilma e Lula na campanha desse ano, entre dois candidatos, pode confundir o eleitor?
MC: Isso não é fácil de ser esclarecido, mas a comunicação resolve.
BN: Como resolve?
MC: Segredo. Você pergunta por que Geddel é contra Wagner, mas a favor de Dilma, não é isso?
BN: Lula, indiscutivelmente, é mais popular do que Wagner ou Geddel. O eleitor quer saber quem é o candidato de Lula e Dilma na Bahia para que haja uma vinculação.
MC: Exatamente, mas ela (Dilma) já foi clara. A comunicação já começou. Ela já respondeu: "na Bahia eu tenho dois candidatos". Falou isso em rede nacional.
BN: E essa questão da decisão do TSE quanto à proibição da utilização da imagem de candidatos à Presidência em chapas que possuem partidos adversários em nível nacional. Isso pode atrapalhar?
MC: Não, isso aconteceu na campanha de João Henrique. Naquela época, a Justiça era clara e não permitia, no caso de João, e fomos obrigados a tirar do ar, mas mesmo assim a gente conseguiu contornar e usar o que importava, que é o resultado. A gente tinha uma peça muito interessante que dizia assim: "o PT entrou na Justiça para proibir a imagem de Lula com João, mas a gente vai continuar mostrando", e aí mostrava a obra: "olha aí, é Lula com João". Então, na verdade, as pessoas não são idiotas, o eleitor não é burro, é muito inteligente.
BN: As pesquisas apontam a disputa entre Jaques Wagner e Paulo Souto, até o momento, mas se espera que o PMDB tente polarizar esta disputa com Wagner. Como são as duas campanhas que mais vão investir financeiramente, devem fazer também um bom embate eleitoral, já que a proposta de Geddel é fazer críticas para ser um contraponto da gestão atual. E desde o rompimento entre os dois partidos é grande o clima de animosidade. Nesse contexto, é bom para Paulo Souto ficar fora da "linha de fogo" entre os dois, mantendo sua imagem imune a ataques, ou ficar de fora dessa disputa lhe tira competitividade?
MC: Paulo Souto não está fora porque o próprio Wagner quer que ele fique dentro. É como se fosse possível escolher qual seu adversário no futuro, e isso é impossível. Então, está sempre se dizendo que será uma eleição plebiscitária entre o que era antes e o que é agora, e Paulo Souto também faz críticas bastante fortes com relação ao governador. Não está muito desenhado quem está dentro ou fora do embate. O que está desenhado é, aí é matemática: há um bolo que representa 100%. Se Wagner está com 40%, na estimulada, 60% não está com Wagner. Com quem estão esse 60%? Quando você vai comprar uma palha de aço, a primeira que vem à cabeça é a Assolan, que está com propaganda recente. Mas se começa a usar e vê que enferruja, que o trabalho fica mais lento, e não quer mais ela, qual que você lembra? A antecessora, que é a Bombril. Até que se apresente um produto novo e capaz de superar as expectativas do consumidor, vai ter o primeiro e segundo lugar, não tem dúvida quanto a isso. A verdade é que 60% não estão com o governador, na estimulada, que apresenta os candidatos, e com todo o aparato de propaganda do governo. Mas se você for para a espontânea é ainda pior a situação, porque você tem mais de 60% de eleitores em dúvida, e somente 17% citam o nome do governador. Na verdade, o ambiente é esse. Não é o que você possa definir o que será nem do dia 17 de agosto, quando começam os programas.
"Eu acho que um programa na linha do CQC tem que ser atendido".
BN: Diante desse quadro que o senhor pinta, de indefinição, a campanha de Geddel prepara críticas ao antecessor do atual governo, a Paulo Souto?
MC: A campanha é propositiva, para estabelecer soluções para problemas crônicos que não foram resolvidos. Essa é a campanha. Em momentos, claro, se você vai citar uma solução, vai ser obrigado a apontar o problema. As críticas serão incisivas e baseadas em fatos, a vida como ela é.
BN: O clima pouco amistoso de Wagner e Geddel pode inviabilizar uma união dos dois em um segundo turno? Porque, devido a aliança nacional, se eles não se enfrentarem, é natural que haja pressões dos partidos para haver a união. Há esse cálculo de tornar viável uma aliança no segundo turno?
MC: Quando formos ao segundo turno, a gente não vai escolher apoio. Ninguém escolhe apoio, você escolhe quem você apoia, não quem apoia você. Quando Geddel estiver no segundo turno, ele vai aceitar apoio, claro. Eu imagino né?
BN: O nível de gastos da campanha neste ano subiu em relação a 2006. A campanha vitoriosa de Wagner em 2006 custou R$ 12 milhões. Este ano, o PMDB prevê gastos de R$ 30 milhões, o PT R$ 26 milhões, e o DEM R$ 20 milhões. Isso vai ter consequência na qualidade do que for produzido?
MC: Hoje em dia está meio pasteurizado tudo. Na verdade, as máquinas são parecidas, as câmeras são parecidas. O que há é uma previsão do que vai se gastar. O limite que a Justiça exige que se diga qual o limite da campanha. Mas eu não acredito que influencie não, porque você pode, por exemplo, em uma campanha muito rica, fazer um péssimo programa, ou o candidato pode não ser bom. Então há muitas variáveis para definir.
BN: Então, não basta um bom marqueteiro para o candidato sair vitorioso...
MC: Não, o marqueteiro ajuda ou atrapalha, mas ele não define a eleição. Ele pode contribuir ou atrapalhar a vida de um candidato.
BN: Há que se deve, então, o aumento no custo das campanhas?
MC: Não sei. Não consigo imaginar o que é. Ainda não se gastou, é só uma previsão do que se vai gastar. Até hoje você tem várias coisas, são peças para municiar a militância, tem carro de som. É muita coisa.
BN: Para quem gere a imagem de um político, há de se considerar que a estratégia de campanha eleitoral deve ser seguida mesmo para quem já está no poder?
MC: Se continua, por exemplo, no discurso de palanque?
BN: Se existe a preocupação de manter a imagem do político em evidência, mesmo depois das eleições.
MC: Respondo fazendo um paralelo. Outro dia me perguntaram: "Sidônio é um cara low profile, e eu aparecia e tal". Eu disse: "eu não apareço, o que aparece é o que eu faço". Se o que eu faço está sendo bem feito, aparece. Eu não fico ligando para a imprensa para fazer entrevista. A mesma coisa acho que político tem que fazer. Político trabalha, aparece. Por que Eduardo Campos (PSB, governador do Pernambuco), está com dois terços de intenções de votos? Porque lá as coisas estão acontecendo. É só trabalhar que aparece. Não tem fórmula. Não adianta fazer propaganda se a imagem do candidato, e o candidato, enquanto governador, administrador da cidade, não faz um trabalho bem feito.
BN: A relação entre os políticos e o humor nem sempre é descontraída. Não são poucas as vezes em que alguns políticos perdem o controle na frente das câmeras diante de piadas e provocações de programas do gênero. Qual a melhor estratégia para evitar esse tipo de desastre? Evitar as câmeras, ou o senhor aconselharia seu candidato a participar desse tipo de programa e levar as provocações com bom humor?
MC: Eu acho que um programa na linha do CQC tem que ser atendido. A linguagem, para mim que já tenho 45 anos, se eu não fosse publicitário e não visse que essa linguagem é atual, moderna, que as pessoas que têm a idade do pessoal do CQC, recebem isso naturalmente. É bacana e tal. Aí você vê se o cara é simpático, se não é, se está escondendo o jogo, se não tá. Acho que tem que atender. Orientaria atender? É claro. O deboche pelo deboche não é bacana porque deixa de atender a função de informar, mas você vestir uma roupagem bacana, agradável, charmosa, como é o CQC, um programa informativo, é genial.
BN: Sobre a campanha nacional. A candidata Dilma Rousseff (PT) tem alguma vantagem por ter o apoio do presidente Lula? Na última pesquisa Serra voltou a empatar...
MC: O que está acontecendo, de maneira geral, o que as pesquisas estão dizendo é o seguinte: o povo não está pensando direito ainda no assunto. Tá esperando ver debate e tal. Tem muita gente que responde isso nas qualitativas: "quero ver quando estiver um na frente do outro. Quero ver ideia". Então isso responde muito através do que está na memória, no residual. Então, por isso que as pesquisa terminam confundindo todo mundo.
BN: Mas acha que Dilma sai com vantagem devido ao apoio de Lula?
MC: Eu acho que Dilma ganha a eleição. Eu acho que, nessa campanha, a história de Dilma é pouco conhecida. Não é como Lula, que disputou tantas eleições e depois fez um governo que tirou 30 milhões de brasileiros da linha da pobreza. Eu tenho a impressão de que essa campanha vai ser "faça por ela como se fosse por mim", e aí acho que não tem para ninguém. O cara está com 90% de aprovação.
BN: Se a transferência de voto for regra, sim...
MC: É que a transferência de voto não se dá como todo mundo pensa, que o cara vem aqui e põe o dedo na cabeça e está pronto. Não é bem assim. Mas uma coisa é você passar sua função para alguém que está do seu lado, outra é Lula sair lá do lugar dele para vir à Bahia ou a Pernambuco para tentar passar. É diferente. As pessoas não são idiotas, as pessoas dizem, "mas espere aí, aqui o problema é outro".