Beth Wagner avalia racha no PV e defende que correligionários não discursem contra Wagner - 14/06/2010
Fotos: Rafael Rodrigues/BN

Por Rafael Albuquerque
Bahia Notícias: O que você pode destacar do período em que esteve à frente do Instituto do Meio Ambiente (IMA)?
Beth Wagner: Eu fiquei três anos e três meses no Instituto do Meio Ambiente. O IMA foi reestruturado em nossa gestão. Destaco o licenciamento ambiental e a descartorialização do licenciamento ambiental, que é um problema muito sentido nacionalmente. Na reunião da Associação Brasileira de Entidades de Meio Ambiente, coloquei que deveríamos ser mais gestores ambientais do que cartório de licenciamento e isso foi muito bem aceito e assimilados pelas entidades nacionais. Isso significa uma agilização dos processos de licença com qualidade ambiental. Uma parte das licenças que era atribuída ao órgão estadual, e que não exigem a avaliação mais aprofundada, a exemplo de postos de gasolina, colocamos para ser regularizadas pelo Termo de Compromisso e Responsabilidade Ambiental (Tcra). Isso é desburocratização. Também avançamos no licenciamento por Pólo Agrícola. Introduzimos também uma modalidade de oficinas preparatórias para os licenciamentos para que haja um processo de negociação entre a empresa e as comunidades. Avançamos bastante, não o suficiente, no licenciamento pra pólos industriais em outras áreas, como Feira de Santana, Vitória da Conquista e Santo Antônio de Jesus. O monitoramento das praias também foi retomado.
BN: Então deu para realizar muitos projetos à frente do IMA?
BW: Sim. A grande novidade foi a reestruturação na fiscalização no sentido de planejar e não ficar só respondendo as ações quando chegam as demandas. Criamos uma equipe para responder as demandas do Ministério Público, que têm sido respondidas com muita agilidade. Fizemos o planejamento participativo, o orçamento como instrumento de gestão. O orçamento na área ambiental no país inteiro é muito pouco executado, mas nós executamos no limite. Em 2007 executamos mais de 100%, tanto que de R$ 23 milhões passamos pra R$ 27 milhões. Iniciamos 2008 com R$ 32 milhões e executamos R$ 37 milhões. Em 2009, ano de contingenciamento, começamos com R$ 42 milhões e executamos 99%. Quando eu saí do IMA havia a previsão orçamentária de R$ 46 milhões. Ou seja, eu saí deixando o dobro do orçamento se comparado ao montante de quando eu entrei. Isso significa o reconhecimento do governo na execução do Instituto do Meio Ambiente.
BN: Atualmente há uma polêmica muito grande com relação às licenças ambientais. Há também uma crítica por parte de alguns setores da sociedade por conta das concessões. Com você percebe essa questão?
BW: Tenho a honra de dizer que em minha gestão no Instituto do Meio Ambiente nós recuperamos muito a credibilidade do órgão ambiental. Inclusive, todas as instâncias do Ministério Público reconhecem a credibilidade do IMA por conta de uma gestão bastante séria. Acredito que esse questionamento das licenças do órgão ambiental, pelo menos no período da nossa gestão, pouco foi observado. Pelo contrário, havia uma conquista de credibilidade das licenças emitidas pelo órgão ambiental. O que precisamos é a integração do Estado com os municípios. Por isso o Programa de Gestão Ambiental Compartilhada, que foi feito por essa gestão da Secretaria, é um programa que eu considero estratégico no sentido das articulações para minorar esse tipo de questionamento muito pertinente sobre o caráter das licenças ambientais.
BN: Falando agora sobre política, recentemente, com relação à PL 18.501/09, que modificava a distribuição de competências do IMA, o deputado João Carlos Bacelar afirmou que era uma forma de beneficiar dissidentes PV para darem apoio a Wagner (leia aqui). O que você acha disso?
BW: Isso aí não tinha cargo nenhum. Ele deve ter lido o projeto de uma maneira inadequada, pois não criava cargo nenhum. Pelo contrário, o IMA não teve nenhum cargo a mais em todo o período. Foi feita uma grande reestruturação no sistema de meio ambiente do Estado, uma reestruturação que eu considero estratégica e que deu ao IMA as atribuições executivas da área florestal. Isso não corresponde à realidade. Simplesmente houve uma adequação quando veio a execução da política florestal para a área do meio ambiente.
BN: Muita gente já acredita que o candidato ao senado pelo PV será o deputado Edson Duarte. Mas na sua visão, a única vaga está mesmo preenchida ou há a possibilidade de o partido lançar dois candidatos?
BW: Eu estou firme nessa disputa. Estou defendendo, assim como o João Jorge, a ideia de que nós devemos sair com duas candidaturas ao senado. São duas vagas ao senado e não tem porque o PV, se colocando numa eleição com chapa própria, não ocupar as duas vagas na disputa. Por isso, estou trabalhando para que na convenção a gente abra a possibilidade para as duas vagas na disputa ao senado.
BN: Mas há algum tipo de disputa interna?
BW: De nós três, os dois que forem candidatos serão escolhidos na convenção. Pelo menos eu estou advogando isso.
BN: Mas para quando está marcada a convenção?
BW: A convenção do PV está marcada para 19 de junho.
BN: Houve uma divisão no partido com relação ao apoio para o candidato a governador. Uns queriam Wagner outros Bassuma, que é o provável candidato do PV. Como anda o entendimento do partido nesse sentido?
BW: Essa convenção vai ratificar o trabalho que vem sendo feito no sentido de uma candidatura própria. Considero que tendo candidatura própria, nós também teremos que avaliar nosso posicionamento e colocar nossas propostas. A eleição de dois turnos é uma eleição que favorece apresentarmos o diferencial do PV. Não acredito que seja positivo pra o PV chegar com o discurso de ser contra A, B ou C. Especialmente contra o governador Wagner, pois nós colaboramos, e muito, na área do meio ambiente para dar um lugar à área ambiental como ela nunca teve na Bahia. Acredito que o PV deve muito aproveitar o caráter de dois turnos da eleição para colocar de forma interessante para a sociedade os conteúdos inovadores para a eleição onde o que está sendo debatido são conteúdos programáticos, propostas. Devemos trabalhar em uma linha muito afirmativa e muito positiva.
BN: Mas não houve debates internos no PV de que o partido deveria apoiar o governo Wagner
BW: Essa questão está vencida. Estou colocando a forma como o PV deve se apresentar nessa eleição. O partido deve aproveitar essa oportunidade de estar com sua legenda, de se mostrar do ponto de vista programático para colocar realmente suas propostas, para mostrar o diferencial tanto para o cenário estadual quanto para o federal. Eu mesma tenho muito a colaborar não só pela experiência no IMA, mas também pela época da Lei Orgânica do Município de Salvador, quando a contribuição para área de meio ambiente passou pelo meu gabinete.
BN: O fato de os outros candidatos ao senado como o senador César Borges e os deputados Walter Pinheiros e Lídice da Mata já terem grande experiência em cargos eletivos não seria uma barreira à sua candidatura?
BW: Não acho que seja uma barreira. Eu já fui vereadora de Salvador, já fui vice-prefeita, já fui secretária de Educação e dirigente do órgão ambiental do Estado. Então, eu tenho não só experiência legislativa como no executivo, que complementa muito e é muito importante para trajetória política. Experiência não se inventa; ou você tem ou não tem. Eu tenho larga experiência que pode ajudar e contribuir muito para o conteúdo que o PV vem apresentar nessas eleições.
BN: Quais os diferenciais da candidata Beth Wagner?
BW: São alguns diferenciais. Um é o da trajetória longa e com experiência acumulada. Outra questão importante a ser colocada é que temos poucas candidaturas de mulheres nesse espaço político. O mundo da política ainda é muito masculino, e a presença das mulheres qualifica muito e dá equidade para que as mulheres tenham sua representação. O viés ambiental e da questão urbanística, de ter sido vice-prefeita da cidade são questões que eu posso agregar. Tenho a experiência na discussão do planejamento de uma cidade para a sustentabilidade, envolvendo inclusive a questão do lixo urbano, que está na contramão do que deveria ser. Temos um modelo de tratamento dos resíduos sólidos que trabalha ganhando pela produção de lixo, não trata nem da origem nem da destinação. Quando mais lixo produzido maior o pagamento. São problemas que temos que discutir para o conjunto da Bahia.
BN: Como você pretende convencer a executiva nacional a lançar dois candidatos ao senado pelo PV?
BW: A pretensão é das candidaturas que estão se colocando e a executiva nacional aceitando que tais candidaturas sejam colocadas. Nossa prevenção é ocupar a vaga que o PV tem direito para ter o conteúdo ampliado. Minha candidatura com experiência política, assim como a de João Jorge, que tem uma trajetória em ambiente cultural e da luta contra a discriminação racial, são candidaturas que agregam conteúdo político à chapa por si só. Ou seja, nesse sentido, a chapa, em vez de ficar apequenada e circunscrita, tem condições de ampliação com temáticas e experiências políticas que são agregadoras de conteúdos.
BN: Mas a confluência dos esforços do partido para eleger apenas um candidato não seria mais viável?
BW: Eu acho esse raciocínio um equivoco. Penso que as duas candidaturas potencializam a eleição do PV. Essa leitura faria sentido quando ainda se tinha uma candidatura no espectro do governo Wagner com César Borges e Otto Alencar. Mas com as candidaturas de pessoas como Lídice da Mata, com uma trajetória evidente nos ambientes de esquerda, e até do próprio Pinheiro, esse argumento perdeu substância. O argumento hoje é justamente o contrário, ou seja, para o PV ganhar mais competitividade nessa eleição, é necessário que tenha as duas candidaturas para criar uma sinergia em torno da chapa do PV. Para mim, teremos muito mais chances se tivermos duas candidaturas ao senado pelo PV.
BN: Caso o PV lance somente um candidato ao senado, neste caso o deputado Edson Pimenta, você sairá candidata a deputada estadual ou federal?
BW: Por enquanto, para ser sincera, eu não estou refletindo nesse sentido. Eu estou refletindo no sentido da candidatura a senadora.
BN: Como você avalia a candidatura da senadora Marina Silva à presidência?
BW: Eu gosto muito da Marina, ela qualifica muito o cenário do debate político eleitoral. Acho que a eleição em dois turnos permite a saída da bipolaridade. A candidatura dela se notabilizou, não é um improviso. Marina encarna as questões ambientais e traz uma discussão muito importante do que é o equilíbrio entre o desenvolvimento e o meio ambiente. E não é qualquer pessoa que encarnaria esse tipo de programa, com esses tipos de idéias.
BN: Alguma consideração final?
BW: Estamos partindo para convenção, e espero que tenhamos capacidade de analisar todas as variáveis de maneira tranqüila, serena, sempre focando que a política para existir requer a condição de pluralidade, pois a política de uma nota só, de um lado só é antipolítica ou pré-política. Espero que a gente seja capaz de honrar o programa do partido. O PV tem características muito libertárias. O programa do Partido Verde é muito libertário, tem temáticas que são muito claras ao e que estão encarnadas nas candidaturas que eu e o próprio João Jorge estamos trazendo. Então, seria aderir muito mais a visão programática histórica e libertária do PV com uma candidatura mais ampliada.