Reub Celestino: "Fico empolgado pelas coisas que exigem rigor e muito trabalho" - 18/06/2007
Foto: assessoria Ebal

Fico empolgado pelas coisas que exigem rigor e muito trabalho
Por Isabela Nery
O senhor foi secretário municipal da Fazenda, onde enfrentou crise financeira. Em seguida, assumiu a Empresa Baiana de Alimentos, praticamente falida. O que explica a mudança: o gosto pelo desafio?
Reub Celestino - Para os dois casos, fui convidado, mas gosto de desafios. Não tenho qualquer prazer pela rotina e fico empolgado pelas coisas que exigem rigor e muito trabalho. Gosto de trabalho em grupo e solicito muito das equipes que comigo enfrentam os obstáculos.
A CPI da Ebal encerrou a primeira etapa, focada nos contratos com a OAF. Como o senhor avalia esta investigação?
RC - A CPI é um instrumento legítimo da democracia. Vejo essa da EBAL como algo muito importante para investigações e confrontos sobre a verdade do que ocorreu na empresa, que foi muito grave. Acho que ela está indo muito bem e que tem um caminho muito longo e duro ainda a caminhar. Em relação à OAF, cancelamos, de imediato, o contrato com aquela organização.
De acordo com o deputado Arthur Maia (PMDB), presidente da CPI, os próximos passos são investigar licitações, fretes, compras de produtos e a publicidade. Quais destes tópicos, para o senhor, tiveram maior importância para a crise em que a Ebal se encontra?
RC - Os processos licitatórios são uma necessidade, mas os gestores públicos e o próprio “mercado” criaram artifícios de fraude e de enganação. Em todos os órgãos públicos sempre ocorrem formas ou fórmulas de facilitação dos ganhadores em muitos casos. Dizer-se o inverso é bancar a hipocrisia. Pelo que vejo da (des) organização e dos processos internos que existiam, e ainda existem, na EBAL, não ficaria surpreso sobre fortes desvios nas áreas de fretes e compras de produtos. Em relação a publicidade, parece que a única justificativa é de que era mais fácil se fazer via EBAL do que diretamente pelo governo. A não ser que haja outra justificativa para tanto dinheiro gasto. Ainda assim, se valores fossem transferidos para a EBAL, deveriam ocorrer pelo aporte no capital e não por carimbo direto. Os deputados da CPI, sob a liderança do competente Arthur Maia, estão, me parece, fazendo um excelente trabalho.
Dizer quais dos itens citados tiveram mais importância para a crise da EBAL fácil. Todos os mencionados na pergunta atingem gravemente princípios e compromissos de gestão e de ética pública. São igualmente ruins para a sociedade que paga seus tributos.
E quanto à aprovação das contas da Ebal, relativas ao exercício de 2003. Como o senhor avalia esta questão?
RC - O Tribunal de Contas é o órgão competente para fazê-lo.
Quais são as modificações implementadas pela gestão do senhor?
RC - Encontramos a empresa tecnicamente falida, sem estoque, dilapidada física e moralmente e devendo muito. Estava espalhada em 357 municípios, compondo uma triste cadeia fantasma de 425 lojas desacreditadas.
Iniciamos afirmando e exigindo das equipes compromissos com a ética e com a moralidade. Depois, fizemos um planejamento para ações emergenciais e para todo o ano de 2007, através de um cronograma com mais de 200 atividades e um criterioso fluxo de caixa. A seguir, tratamos do fechamento de todas as lojas e definimos as etapas de reabertura, o conserto dos imóveis, dos equipamentos e instalações. Negociamos contratos para baixar custos, devolvemos imóveis e iniciamos o processo de redução substantiva de custos operacionais. Cortamos contratos de locação de veículos e equipamentos, iniciamos a adequação do quadro de pessoal, inicialmente com 600 demissões, cortamos 500 linhas telefônicas e as cotas de combustível. Exigimos a redução de gastos com água e energia e eliminamos o “festival” de gastos com horas-extras e diárias.
Ao mesmo tempo, tivemos demoradas conversas francas com os fornecedores, para tê-los de volta e sob confiança, mesmo que devendo R$ 84 milhões e passamos à luta para comprar mais barato e sem dinheiro.
Quais foram os obstáculos encontrados para implementá-las? Por quê?
RC - Foram inúmeros e muitos ainda estão presentes. A EBAL perdeu a credibilidade no mercado e na sociedade. Perdeu a fidelidade da sua clientela. Perdeu a estima dos seus colaboradores. Perdeu os seus caminhos de futuro e enxovalhou seu passado. A EBAL foi aniquilada, em finanças, em estrutura, em objetivos, princípios e compromissos.
A empresa, por um lado, tem que comprar bem (mais barato que os outros) para cumprir seus objetivos. É uma empresa que lida no mercado capitalista, com empresários competitivos e grandes redes nacionais e internacionais, tanto de fornecedores (de produtos) como de compradores (as redes privadas de supermercados). Por outro lado, de forma socializante, tem que criar uma margem (que no privado seria o objeto do próprio negócio, o lucro) para distribuir a preços menores para a população mais carente e, ainda, manter sua capacidade de compra para girar o “negócio”. Há, nisto, uma incongruência, que é o grande desafio. A EBAL não tem como objetivo, nem como meio de sobrevivência, a concorrência. A ela não interessa prejudicar o supermercado de grande rede, nem ao pequeno, de bairro ou periferia. O objeto final dela é a melhoria do bem-estar da população, vendendo a preços mais baixos, para que as famílias possam comprar outras coisas, ou comprar mais das coisas que já adquire, beneficiando, assim, o próprio setor privado.
Outra incongruência aparente é que a EBAL, através da Cesta do Povo, deveria vender, apenas, produtos básicos. Mas, estes são, normalmente, as chamadas “commodities”, cuja margem de ganho é baixa, aniquilando a possibilidade de sobrevivência da empresa e do programa. Aí, a Cesta do Povo tem que adquirir mais produtos e marcas famosas para criar atratividade e margens para fazer o giro do “negócio”. Se só houvesse produto básico, haveria pouco consumidor, porque os preços são assemelhados no mercado e o consumidor precisa de uma gama adicional de produtos que ele compraria em supermercados privados. Por isso, a Cesta do Povo tem que aumentar a variedade de produtos e marcas nas suas prateleiras.
Há quem critique a existência de marcas famosas ou de alguns quase-supérfluos na Cesta do Povo, mas o pobre conhece o valor do dinheiro e sabe que a qualidade é fundamental, por isso quer comprar coisa boa. Além disso, também tem seus sonhos de consumo, invadidos que são pelos meios de comunicação modernos...
Outro grande desafio será alterar o modelo atual da EBAL para algo mais abrangente e mais sustentável. Incorporaremos funções de serviço, com intermediação bancária, venda de vales, assistência ao cidadão, introdução de centros de cidadania digital e, por fim, uma extensa rede de credenciamentos para o programa Cesta do Povo.
Tudo que faremos será alicerçado no fortalecimento de uma cultura organizacional saudável, com respeito, auto-estima, profissionalismo e ética. Trataremos, por outro lado, a comunicação como ente aglutinador dessa antropologia interna e das relações com a comunidade. A gestão operacional obedecerá a metas desafiadoras e com programas motivacionais.