Euvaldo Jorge fala sobre o desafio de colocar o metrô de Salvador nos trilhos - 07/06/2010
Fotos: Tiago Melo/BN
"Eles (empresários) têm que pensar Salvador como uma cidade grande. Não dá mais para suportar isso."
Por Evilásio Júnior
Bahia Notícias – Houve uma reunião nesta segunda-feira (7) em relação à Lei de Carga e Descarga, que é um assunto que tem gerado uma certa polêmica, principalmente entre o empresariado. Quais são as novidades em relação a esta norma?
Euvaldo Jorge – A cidade toda clama por isso. Os jornais, os blogs, os sites, as rádios, todos os dias têm registrado reclamações sobre cargas e descargas em horários impróprios, em que as pessoas terminam por ficar com dificuldade de se locomover por conta dos engarrafamentos. As ruas apertadas e estreitas que Salvador tem e a quantidade de veículos que circulam na cidade já não suportam que a gente permita que esse tipo de comércio ocorra sem uma regulamentação. Então, o prefeito decretou para que entrasse em 30 dias, depois prorrogou por mais 30 dias, para que houvesse uma discussão. Agora, no dia 13 de junho, o decreto começa a vigorar já com punição, com multas, reboques e tal.
BN – Como é que o decreto funcionará na prática?
EJ – Você vai ter horários em que o decreto permite que haja cargas e descargas. O período será das 21h às 6h, de segunda a sexta, de 0h às 6h e das 14h a 0h, aos sábados, e liberado aos domingos e feriados, exceto na Orla, que será de 0h às 8h e das 16h a 0h. Poderá haver alguns ajustes durante a permanência do decreto, alguma coisa que tenha que melhorar aqui ou ali, e tenha que ser modificado, mas vai haver uma fiscalização da Transalvador, que já está sendo equipada. Nós já recebemos motos novas, fizemos um contrato de 50 motos e recebemos, me parece, 21, para que tenhamos uma fiscalização efetiva. Acho que vamos ter uma melhora no trânsito. É claro que não vai ser resolvido o problema do trânsito só com isso, mas esse é um dos pontos iniciais para que a gente possa ter a melhoria.
BN – Se alguma empresa infringir essa norma, por exemplo, se um caminhão estiver a atrapalhar o trânsito, como o morador poderá denunciar e quais são as sanções previstas?
EJ – A pessoa liga para o 118, que é o telefone da Transalvador, o fiscal vai lá, o carro será multado ou até rebocado.
BN – Algumas empresas, sobretudo as cervejarias, já se manifestaram contra o decreto por afirmar que ele causará prejuízos, seja por custos com adicionais noturnos, horário de funcionamento ou outras questões referentes à demanda dos portos. Já houve algum estudo para analisar se há brechas na legislação ou ela já foi redigida de modo a evitar que seja burlada?
EJ – Olha, as empresas que têm um pátio para descarga não vão sofrer nada. Se você chega em uma empresa que já tem seu pátio, com os caminhões dentro, elas podem trabalhar a qualquer hora do dia. Essa Lei de Carga e Descarga será fiscalizada principalmente nos carros que ficam no meio da rua empatando o trânsito. Vou dar um exemplo aqui: Pau da Lima e São Marcos. Lá tem ruas estreitas. Se você para um caminhão grande no meio do tráfego, isso causa uma retenção muito grave e a fiscalização será feita. Claro que vai haver, a gente não pode se enganar, escapulidas no início, mas a gente vai começar a fiscalizar de forma apertada porque a cidade toda quer isso. Às vezes a pessoa está levando um parente ao médico, ou vai fazer uma prova, um concurso, e enfrenta atrapalhações. A gente vai acabar com isso. Vamos fazer todo o sacrifício possível, todo o planejamento na Transalvador e na Setin, porque o prefeito não tira isso da cabeça e quer que Salvador tenha essa melhoria. Eles (empresários) têm que pensar Salvador como uma cidade grande. Não dá mais para suportar isso. A gente não pode acreditar que em tudo só o poder público tem que ser responsável pela nossa parte. Primeiramente, você tem que dizer a verdade para as pessoas, mostrar as dificuldades que está tendo, mas mostrar que está cumprindo com o seu papel de cidadão.
"Salvador ainda tem muito buraco, eu sei que tem, mas já tem bem menos do que estava."
BN – Em relação às empresas que atuam em horário comercial, como as distribuidoras de alimentos e casas de material de construção, em que sempre vemos caminhões com blocos, areia e tal, a lei também fará com que essa carga e descarga seja feita nos horários determinados?
EJ – A lei é para todo mundo e terá que ser cumprida. Agora, se você tem uma Kombi e vai a uma bomboniere distribuir coisas pequenas, ela cabe na vaga de um carro, então pode fazer a carga e descarga. Se você está em uma caminhonete ou utilitário e vai parar em um local de apenas um veículo, pode fazer a carga e descarga. Você não pode fazer em um caminhão de 10 metros, em uma carreta, no horário fora do permitido. As pessoas têm que começar a se adequar. O que a gente tem que fazer é atender a maioria da população que quer isso.
BN – Nós sempre recebemos muitas reclamações em relação ao trânsito de Salvador. Essa é a medida que o senhor considera mais eficiente para resolver os problemas?
EJ – Não. Essa é uma das primeiras medidas que nós estamos tomando. Nós vamos fazer agora várias. Bonocô: o ônibus para no ponto e toma uma pista. Nós vamos começar já na semana que vem a cortar a pista, cortar a calçada e jogar o ponto de ônibus para trás, para que o ônibus entre na baia e a pista fique livre. Nós vamos fazer ainda outras intervenções, como a passarela da Madeireira Brotas. Na Tancredo Neves, na saída da Magalhães Neto, já estamos com o contrato definido para começar a fazer outra passarela. Vamos fazer uma passarela em Pituaçu também. Quando há jogo de futebol ali, se interdita a Pinto de Aguiar e outros trechos e você vê torcedores atravessando até com sinal aberto. Nós vamos ter uma passarela grande de seis metros ali, inclusive em parceria com o governo do Estado. Então, são várias intervenções na cidade. Vamos colocar mais uma faixa no Bonocô, finalizamos o Túnel Américo Simas, que recapeamos todo. Enfim, são diversas ações aqui e ali que vão melhorar a cidade.
BN – Sobre aquela ação para tapar os buracos, antes das eleições de 2008, a maioria deles já voltou a aparecer. Já tem algum planejamento para fazer mais uma operação tapa-buraco na cidade?
EJ – Nós temos 30 equipes de tapa-buracos hoje na cidade. Temos feito um trabalho intenso. Agora, as chuvas que caíram em maio e abril em Salvador foram muito fortes. Nós recebemos naquela quarta-feira fatídica 80mm de água em 3h, e aí não tem asfalto que resista. O nosso asfalto tem muito tempo em algumas avenidas. Tem as concessionárias (água, luz e telefone) também que estão prejudicando. A prefeitura devia até ter um rigor maior nessa apuração, para que elas façam seus buracos nas pistas, passeios e calçadas e recuperem. Salvador ainda tem muito buraco, eu sei que tem, mas já tem bem menos do que como estava.
"As concessionárias estão vendendo bastante (risos) e Salvador recebe todo o ônus dos carros que chegam, né?"
BN – A Transalvador é um dos órgãos mais criticados e houve, recentemente, a mudança na gestão. Como o senhor avalia o andamento dos trabalhos?
EJ – Nós estamos primeiramente arrumando e equipando a Transalvador. Você vê que a Transalvador hoje multa o cidadão com talão. Se um carro passar rápido e vier outro e cometer o mesmo erro você não multa mais. Ah, a multa é solução? Não. A multa é para aquele que não cumpre o dever de cidadão. Então, nós vamos dar agora palm-tops para os agentes, vamos colocar motos e carros novos, colocar equipamentos novos na cidade, para a gente poder fazer um melhor ordenamento do trânsito. Inclusive, com a fiscalização direta nos pontos de ônibus, porque uma das queixas grandes na cidade é o atraso dos ônibus, ônibus que param fora da fila, fazem fila dupla. Isso atrapalha o tráfego. Então, o Miguel Kertzman tem feito esse trabalho de sair para fazer essa fiscalização in loco, para que ele possa levantar tudo e fazer medidas mais duras para que o trânsito possa fluir melhor.
BN – O senhor acredita que as concessionárias são responsáveis por causar congestionamentos por ter vendido muitos automóveis à população?
EJ – As concessionárias estão vendendo bastante (risos) e Salvador recebe todo o ônus dos carros que chegam, né? Todo mundo vende, todo mundo ganha, mas quem arca com todo o ônus é a Transalvador. Você tem hoje quase 700 mil carros na cidade. Há alguns anos eram apenas 170 mil, 180 mil carros. Então, a quantidade de carros na cidade realmente tem interferido bastante no trânsito.
BN – E o projeto Transalvador, que prevê a criação de novas avenidas, vias exclusivas de ônibus, com vistas à Copa do Mundo. Já há previsão para o início das obras?
EJ – A gente tem discutido as ações. Nós temos a comissão da Copa, que é comandada pelo Leonel (Leal Neto). Inclusive, nós temos um projeto grande para a Lapa, que é a requalificação da estação e a criação de um túnel que vai ligá-la à Fonte Nova. É um projeto ousado que já está no Ministério das Cidades e custa R$ 56 milhões. Você sai da Lapa hoje para a Fonte Nova e anda 1,5km, com engarrafamento ali pelo Dique do Tororó. Com isso, serão 300 metros, com ciclovia, pista de cooper. Tem também a Via Expressa que vai melhorar bastante o tráfego. Então, tem vários projetos sendo discutidos para a Copa do Mundo que serão colocados em prática logo, pois nós só temos quatro anos para a Copa.
"Vamos começar a preparar isso, inclusive, para que não haja mais nenhum tipo de interrupção e no início do ano que vem, com fé em Deus, a gente entregue à cidade funcionando."
BN – É, são quatro anos para a Copa do Mundo e o metrô já tem 11 anos em construção e até agora não terminou. Teve aquela notícia do aditivo que foi aprovado e isso daria uma celeridade à execução da obra. Como estão os trabalhos? O metrô será inaugurado até o fim do ano?
EJ – Olha, eu tenho dois meses na secretaria e fizemos várias viagens a Brasília com o prefeito e conseguimos aprovar o aditivo. Por que o aditivo? Nós tínhamos dois serviços novos para completar o metrô que não estavam previstos no contrato original, que era aquele que previa a construção de 12km. Quando o governo federal cortou o metrô para 6km, tinha que ter um pátio de manobras. Lá em Pirajá tinha um complexo de manobras que era para o metrô todo. Se você corta o metrô no meio, você tem que trazer para cá um pátio para os 6km, que é o PAM. E aí nós fizemos essa solicitação do aditivo que é o quê? O TCU mandou bloquear pagamentos do Metrosal. Então, todo dinheiro repassado às construtoras é retido. Só que quando nós pedimos para fazer o PAM, o consórcio disse que não ia fazer porque não estava no contrato original. Nós então passamos para a CTS. Ela fez um expediente e passou para a CTU para explicar o que estava ocorrendo, que não podia colocar um serviço novo e reter esse dinheiro. Eles liberaram o pagamento, já estamos nesse aguardo para que em setembro a gente conclua a obra civil e coloque os trilhos, para que sejam feitos os ajustes dos trens, equipamentos eletrônicos e tal. Terminando isso, a gente entrega o metrô pronto para que nesse período se comece a discutir quem vai operar, se é a prefeitura, se é privado, porque nós temos que começar o treinamento de pessoal. Vamos começar a preparar isso, inclusive, para que não haja mais nenhum tipo de interrupção e no início do ano que vem, com fé em Deus, a gente entregue à cidade funcionando.
BN – E em relação à CBTU? Eu tive uma informação de que havia um imbróglio nesse trâmite entre o TCU, a CBTU e a CTS, que virava um círculo vicioso e impedia a continuidade das obras. Isso já foi resolvido ou não tem mais esse impedimento?
EJ – Não. Não tem mais não. Graças a Deus, o prefeito João Henrique esteve em Brasília, nós conversamos com o presidente da CBTU e o ministro Márcio Fortes (das Cidades). Tivemos outra reunião aqui em Salvador, mais ou menos há 15 dias, com o ministro, o presidente da CBTU e o secretário-executivo do Ministério das Cidades, o prefeito João Henrique estava presente e o presidente da CTS, e não há mais problema nenhum. Nós fizemos um cronograma e se tudo ocorrer como está previsto tecnicamente, vamos entregar o metrô nos trilhos.
BN – E as investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito e também no Ministério Público Federal. O senhor acredita que isso pode causar ainda mais algum problema?
EJ – Eu não queria comentar sobre isso, porque eu tenho dois meses na secretaria e não sei informar nada do que aconteceu. Nessa parte de investigação, eu apenas tenho repassado os documentos que a CPI tem pedido. Eu acho que quanto às obras civis e ao término delas, isso não vai impedir em nada.
"Acredito (que vai inaugurar o metrô)."
BN – Quais são os principais problemas que o senhor enfrenta para gerir a sua pasta?
EJ – Não tenho. A cidade é muito complexa, mas eu sou uma pessoa muito simples. Eu sou uma pessoa que moro no mesmo lugar há 30 anos. Tive essa oportunidade de ser secretário, não sei se Deus vai me dar a oportunidade de ficar muito tempo ou pouco tempo. Eu sou uma pessoa hipertensa, tenho problemas de pressão desde os 19 anos, e tomo remédio todos os dias. Peço só saúde para enfrentar os desafios. Dificuldades todos nós temos no dia-a-dia, mas eu espero que Deus me dê forças para eu poder trabalhar e continuar dentro da equipe do prefeito João Henrique, que me deu essa oportunidade, e espero que possa cumprir bem e não decepcioná-lo.
BN – Qual é o seu principal objetivo na Setin?
EJ – Colocar o metrô nos trilhos.
BN – O senhor acredita que vai conseguir?
EJ – Acredito.