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Entrevista

Rui Costa faz balanço do período à frente da Secretaria de Relações Institucionais - 24/03/2010

Por Evilásio Júnior

Fotos: Tiago Melo/BN

"Essa é uma formação bastante provável (Wagner, Otto, vice, Lídice e Borges, Senado). O governador entende que a sua chapa de senadores tem que representar o equilíbrio do seu governo."

Por Evilásio Júnior

Bahia Notícias – Quanto tempo você está à frente da Secretaria Estadual de Relações Institucionais (Serin)?

Rui Costa – Estou há três anos, dois meses e 22 dias.

BN – Qual o balanço que você faz da sua gestão?

RC – Eu acho que é um balanço positivo. Para você analisar o trabalho que tem que ser feito, tem que ver qual foi o ponto de partida. O seu patamar zero. O nosso ponto de partida foi um Estado que tinha uma herança autoritária, absolutamente centralizadora e que não tinha uma cultura do diálogo, de valorização dos partidos políticos e mandatos parlamentares, bem como do pleno exercício da relação parlamento-governo, estabelecida com diálogo e negociação, quanto às opiniões diferentes sobre projetos e ações. Nós tivemos que implantar uma cultura, o que começou inclusive pela instalação da secretaria. O patamar era tão zero que não existia sequer a secretaria como um espaço nem algo similar. Na verdade o que havia era uma estrutura de Segov (Secretaria de Governo) única, que cuidava tanto das ações do governo, quanto pretendia cuidar da política. A Serin é uma secretaria com três áreas centrais de atuação, que cuida das questões federativas, de relação com os municípios, com o parlamento e a sociedade civil. Nós hoje, na minha opinião, demos passos largos na constituição de um padrão de relacionamento, na construção de uma cultura política, com a sociedade civil, de recepção dos pleitos, de diálogos, de convivência com manifestações e pressões no sentido de atendimento às demandas sociais. Com o parlamento, uma relação de diálogo em que ele hoje exercita a sua função real. Vários projetos nossos foram emendados e tiveram adendos, tanto de governo quanto de oposição. Nós negociamos isso, o que não ocorria em anos anteriores. Parece simples falar hoje, mas não existia no nosso Estado essa cultura das emendas parlamentares e nós instituímos. Buscamos sempre agir com critérios. Essa é a minha forma de trabalhar, pois é difícil você garantir uma aliança de uma frente ampla com pensamentos diferentes, com cultura e histórico diversos. Na política, o relacionamento humano é fundamental. A convivência, o relacionamento e até a amizade, mesmo que com pessoas de partidos diferentes. O elemento capaz de garantir a unidade em uma diversidade tão grande é aplicação de critérios, que tanto vale para o Francisco, quanto para o Chico. Deixar de reclamar ninguém deixa, mas eu diria que reclamam, mas entendem que houve a adoção de um critério que foi único em todos os casos. Aí está a base da justiça e do equilíbrio com o que conduzimos as coisas.

BN – Quando você deixa a Serin? No dia 31?

RC – Não. Eu saio até o dia 30. Vou sentar com o governador para definir a data, mas todos nós sairemos até o dia 30. Não quero deixar para o último dia para que seja feita a transição antes de iniciar o planejamento da campanha.

BN – E quem entra em seu lugar?

RC – Provisoriamente, até o governador definir todas as secretarias, até a eleição, permanecem os gestores que vão ser nomeados. Depois da eleição, o governador vai fazer uma análise, de acordo com o resultado, do que fazer para a composição do governo. Então, vai ficar o meu chefe de gabinete, Paulo César Lisboa, até as eleições, respondendo pela secretaria.

BN – Mas tinha o nome de Marcos Lima que era cotado antes...

RC – É. Ele trabalhou conosco na bancada de vereadores do PT, foi assessor na Câmara Municipal de Salvador, na época em que eu também fui vereador, e ajudou muito o governador no Ministério das Relações Institucionais. O governador saiu do Ministério e ele continuou lá. Ele deve estar fixando residência aqui em Salvador, deve estar na coordenação da campanha do governador Jaques Wagner e, após a campanha, o governador deve montar seu secretariado e avaliar como aproveitá-lo e nossos outros quadros políticos.


"Nessa queda-de-braço, em nenhum momento eu me senti inseguro pela convicção do projeto de onde eu queria chegar, pela adoção rígida dos critérios de trabalho e pela relação de confiança que eu tenho com o governador desde 1982."

BN – Muitos opositores acreditam que alguns excessos do governo, como influenciar as votações na Assembleia Legislativa, foram promovidos pela sua pasta – o que inclusive causou um desgaste inicial em sua gestão. A sua candidatura pode ser afetada por esses questionamentos?

RC – Eu diria que, em um primeiro momento, as críticas tinham como base a disputa de posições dentro do governo. Por exemplo, o PT ficou com a maior parte das indicações do Estado, pois foi o partido que, isoladamente, teve a maior votação de deputados, em relação aos outros partidos que apoiaram o governador. E, mesmo tendo a maior parte, provavelmente foi o que mais reclamou. Então, a reclamação não vem de uma injustiça ou de uma não contemplação, mas da expectativa que é superior ao critério adotado. O critério, seja para a composição de cargos, seja para execução de obras, não pode mudar em cada cidade. Por que a articulação política do governo chegou bem até aqui? Porque, apesar de todo o bombardeio e de todas as reclamações, nós sempre adotamos critérios. Na medida em que você adota critérios, as pessoas podem bater ou reclamar, mas no fundo sabem que foram eles foram adotados. O reclamar, o tensionar faz parte da atividade política. Está intrínseco à política. Nenhuma articulação política de um governo estará imune às pressões e às críticas, porque é a partir da pressão e da crítica que as pessoas querem sentar em uma mesa para fazer um processo de negociação em condição vantajosa. A melhor tática para você melhorar sua posição na negociação é você desestabilizar o negociador. Aquelas táticas antigas de negociação sindical eram assim. O patronal colocava a cadeira do negociador mais baixa, deixava a cadeira em falso para o negociador se sentir inseguro. Então, isso faz parte de uma estratégia para quem quer se colocar em uma situação vantajosa na negociação. É deixar o ator, o sujeito com quem você vai negociar inseguro na posição. Então, quem queria negociar em situação vantajosa com o governo, o melhor era deixar quem fazia a negociação com uma instabilidade ou insegurança, porque quanto mais inseguro eu eventualmente me sentisse, quem queria adquirir vantagem se sentia confortável. Nessa queda-de-braço, em nenhum momento eu me senti inseguro pela convicção do projeto de onde eu queria chegar, pela adoção rígida dos critérios de trabalho e pela relação de confiança que eu tenho com o governador desde 1982. Portanto, são 28 anos de relação política e pessoal e o governador sabe a pessoa que eu sou, as pessoas que eu utilizo e muitas vezes nos comunicamos sem precisar trocar palavras. A forma de eu olhar para ele e de ele olhar para mim, eu já sei o que ele quis dizer e vice-versa. Então, é um grau de amizade, de companheirismo e de cumplicidade no projeto político que ele tinha segurança no que eu estava fazendo e tinha segurança de que as medidas centrais adotadas e os critérios sempre foram discutidos com ele. No detalhe, é evidente que eu sempre fui sabedor de que precisava adotar as medidas como se ele tivesse tomando a decisão. A adoção dos critérios estruturantes eu sempre compartilhei com ele.

BN – Então, você era praticamente um primeiro-ministro do governo...

RC – Eu não diria isso não. O governador gosta muito de trabalhar com equipe e desde o primeiro dia estimulou o trabalho em equipe. Ao logo desses três anos tiveram pessoas importantes. Todos os secretários que passaram ajudaram nas suas áreas, por exemplo, a secretária Eva (Chiavon – Casa Civil) é uma pessoa excepcional, que eu conhecia, mas não desfrutava a relação pessoal e de amizade que eu desfruto hoje. Os outros companheiros que já estavam, como o secretário Carlos Martins, na Fazenda, Manoel Vitório, na Administração, e agora, recentemente, a chegada de Pinheiro (Walter – Planejamento), de Nelson Pelegrino (Justiça), que sempre ajudam muito. O governador sempre adotou, antes mesmo de ser governador, quando era ministro, deputado e representante sindical, um método de trabalho que estimula o crescimento das pessoas e o trabalho em equipe. Eu diria que nós formamos uma grande equipe. O que ganhou maior notoriedade ou maior tensão foi a área política dado à cultura política que existia em nosso Estado. Talvez, no segundo governo, se o povo assim entender a renovação do mandato do governador, a área política diminua a centralidade, não porque perderá a importância, mas porque o que tem de cultura política é diferente. Agora, eu diria, haverá uma certa continuidade do padrão do exercício da política. Não haverá mudanças para serem tão badaladas. Então, na minha opinião, haverá uma sequência de trabalho, pois o governador será o mesmo e o padrão do seu trabalho vai continuar. As pessoas que entram colocam no trabalho a sua característica pessoal, mas a essência do trabalho permanecerá a mesma, porque o governador, se o povo quiser, continuará o mesmo por mais quatro anos.


"Eu tenho uma história de vida diferente de outros que eram filhos de governadores, senadores ou de famílias abastadas."

BN – Além disso, dizem que a máquina estadual foi utilizada para promover a sua candidatura a deputado federal, sobretudo no interior. Isso tem fundamento?

RC – Eu tenho uma história de vida diferente de outros que eram filhos de governadores, senadores ou de famílias abastadas. Sou filho de metalúrgico, nasci na Liberdade, minha mãe era dona de casa e tinha a confeitaria como atividade profissional. Fazia bolos e doces para vender, e fazia faxinas para ajudar a família a sobreviver. E eu e meus irmãos íamos com ela para ajudar, limpar sanitário, limpar cozinha, fazer faxina de uma forma geral. Sempre estudei em escola pública, portanto, tenho uma história de vida, de sobrevivência. Trabalhei em lojas de sapatos, quando precisavam de mão-de-obra no final do ano, naquela época não tinha tanto cerco contra o trabalho infantil. Entrei no Pólo Petroquímico, construí uma história própria de vida política, fui vereador de Salvador por duas vezes, nunca fui feito. Muito pelo contrário, ajudei a fundar o PT, a CUT. É evidente que assim como o exercício parlamentar possibilita relações políticas, o exercício de qualquer cargo público possibilita relações pessoais, de amizade e relação políticas. Mas eu fico muito tranquilo em relação a isso porque não tem um companheiro, seja deputado do PT, seja de outro partido da base, que possa citar um município sequer que eu tenha influenciado pelas ações de governo para que alguém estivesse comigo ou com qualquer outro. Desde o primeiro dia em que eu assumi, antes mesmo de assumir, fui visitar cada deputado em seu gabinete, ou que já tinha feito a campanha do governador, ou aqueles que nós queríamos atrair para a base do governo. Ouvi muitos relatos de deputados que diziam que era difícil trabalhar porque tinha atuado três anos com determinado prefeito e às vésperas da eleição o governador chegava e dizia que ele não votaria mais com aquele para votar com outro que precisava mais, e saía mexendo e alterando o trabalho de todos os parlamentares. Alguns só sabiam nas vésperas que determinado prefeito ou vice-prefeito não ia mais votar, a pedido do governador ou do senador. E eu disse a eles que conosco não iam ter susto: ‘trabalhem, façam o trabalho político parlamentar de vocês, que vocês terão carta branca do governador e do governo’. E hoje, graças a Deus, nós estamos finalizando o trabalho na secretaria e eu tenho a tranquilidade de dizer que nenhum deputado de governo pode, em município nenhum, que nós criamos qualquer tipo de dificuldade ou constrangimento para fazer vinculações políticas. A reclamação da oposição, isso faz parte. Obviamente, este é o jogo da política natural em qualquer lugar do mundo. Quem é oposição quer crescer e tirar pessoas que estão no governo, vereadores e deputados. Quem é governo quer crescer e tirar pessoas da oposição. Então, esse jogo de disputa política pelas lideranças de oposição e governo é natural e a oposição não espera que o articulador político do governo fique parado. O articulador político de qualquer governo fará tudo que estiver ao seu alcance para crescer o governo, sua influência e hegemonia. O inverso é verdade. Eu não posso pedir a alguém da oposição que elogie o governo, ou que deixe de trabalhar para crescer a oposição. O jogo democrático é esse e eu vou trabalhar até o último dia para aumentar o número de lideranças políticas vinculadas ao governo. Agora, a oposição também é testemunha de que nós temos obras nos 417 municípios do estado. Temos obras em municípios do DEM, como Feira de Santana, Euclides da Cunha, Jacobina, Itaquara,em dezenas de locais que são do DEM e do PSDB nós temos obras e ações, e nunca chamamos qualquer prefeito para criar qualquer tipo de constrangimento ou chantagem. Ao contrário, a orientação do governador é de cativar as pessoas. 

BN – Quais serão os grandes desafios da campanha este ano?

RC – Os nossos dois maiores desafios são a manutenção do projeto nacional, iniciado com os dois mandatos do presidente Lula, com a eleição de Dilma (Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil), e a reeleição do governador. Estes são os dois principais projetos, pois com esses dois nós conseguiremos continuar o processo de inclusão social no Brasil, de democratização e mudança na cultura do país. O terceiro objetivo é fazer uma bancada de federais e estaduais significativa. Eu entendo que nós precisamos no país de uma grande reforma política. Eu diria que não é possível e não se sustenta a situação atual. O José Eduardo Cardozo (deputado federal, PT-SP) agora, inclusive, desistiu de ser candidato e sua carta de desistência (leia aqui) reforça isso, o que para mim é uma convicção.

BN - Como superar essa cultura de trabalhar apenas na época das eleições, de dar um pé de sapato antes do pleito e completar o par após a vitória?

RC - A política é uma das artes mais nobres que a humanidade já inventou. Todos os políticos, inclusive eu, tem uma família. A minha mãe não é mais viva, mas tenho pai, tenho filhos, esposa e amigos, e a coisa melhor que eu tenho na vida é olhar para eles com a coluna vertebral ereta e perceber que os meus filhos têm orgulho do pai que tem. Eu fico imaginando esses políticos envolvidos em escândalos, como é que eles chegam em casa e olham para os filhos, como é que os filhos se relacionam com os amigos, na escola. Deve ser uma vergonha sem tamanho. Então, nós precisamos mudar isso. Não é possível continuar desse jeito. Essa forma de fazer política no Brasil tem que ser modificada. Quem vai conduzir os destinos do país, dos estados, dos municípios, quem vai votar as leis que regulam o mercado, que regulam a vida das pessoas, independe de favores na época das eleições. Nós não podemos pegar nossos quadros políticos, nossos dirigentes e submetê-los a favores na época das eleições, torná-los pedintes de empresas nas vésperas da eleição, porque independentemente que a empresa venha ou não pedir favores, já se estabelece uma relação ruim de constrangimento, de alguém que está pedindo ao outro para financiar campanha. Quem financiou se coloca desde aquele momento em uma condição privilegiada em relação ao outro. Isso é ruim para o país, é ruim para as nossas instituições. Cria um círculo vicioso, uma matriz viciada, porque se os empresários dão contribuições legalmente, aí qualquer tipo de desconfiança na relação do Município ou do Estado, sai no jornal ‘esse foi alguém que contribuiu para a campanha de fulano’, ou seja, já coloca um processo licitatório em dúvida. Se ganhou foi porque ajudou ele na campanha, então, já é ilícito por natureza, o que leva muitos e muitos empresários a dizer ‘olha, eu não quero dar contribuição legal’, porque se ele ganha alguma licitação legalmente depois poderão dizer que ele ganhou porque contribuiu, então ele prefere dar não oficialmente. E aí aparecem os escândalos de políticos sendo pegos com dinheiro na mão, seja porque é uma corrupção pura e simples, como em alguns casos que nós vemos, seja porque para viabilizar a campanha o fluxo de recursos acontece por meio de dinheiro não-oficial. Essa forma está completamente equivocada. O ideal é que nós tivéssemos um grau de maturidade em que a população contribuísse, fosse com R$ 0,50, com R$ 1, R$ 10, R$ 50, com aqueles partidos, aqueles candidatos que as pessoas entendessem que representa elas mais dignamente. Porque aí você seria devedor de centenas, milhares de pessoas. Imagine que 100 mil pessoas contribuam com R$ 1, você fica devendo a essas pessoas que contribuíram para o seu mandato, em vez de você receber R$ 100 mil de uma pessoa ou de uma empresa. Fora isso é você retirar da política toda a força popular na representação, seja no parlamento ou no Executivo.


"Eu acho que tenho muito a contribuir com o governo do Estado na Câmara Federal e saio com a expectativa de não retornar para essa ou outra secretaria."

BN – É verdade que, uma vez eleito, você retornará ao governo? Esse comentário também é estendido para outros secretários que serão candidatos, como Walter Pinheiro e Roberto Muniz. Isso é verdade ou mera especulação?

RC – Eu acho que todos aqueles, sem exceção, que saem para ser candidatos, saem com a intenção de serem eleitos e exercerem os mandatos. O cargo de secretário pertence exclusivamente ao governador que faz o convite a cada um, de acordo com as suas necessidades e com o perfil que ele precisa naquele momento. Assim como Pinheiro no primeiro momento não veio compor o governo, mas nos ajudou coordenando a bancada federal, articulando os recursos, e no segundo momento veio cumprir um determinado papel e ajudar o governo. Então, todos que se afastam se afastam para ser candidatos e exercer os seus mandatos. O que acontecerá depois depende da conjuntura política. Pode ser que alguns deputados eleitos pela Bahia saiam ministros, voltem para ser secretários ou continuem deputados. Isso vai depender da dinâmica e, absolutamente, não tem nada definido e nenhum secretário terá retorno após as eleições. Da minha parte, inclusive, o governador está completamente livre, não tem nenhum tipo de compromisso comigo sobre isso. Acho até que quem, principalmente, vai exercer o primeiro mandato, como é o meu caso se for eleito, tem que exercê-lo como exercício de relação com o voto popular. Eu acho que tenho muito a contribuir com o governo do Estado na Câmara Federal e saio com a expectativa de não retornar para essa ou outra secretaria. Até porque esta secretaria, pelas próprias demandas que se apresentaram anteriormente, ela é carregada de uma simbologia, de um desgaste natural, implícito ao cargo, que qualquer um que ocupá-lo vai sofrer, porque é quem faz a mediação dos conflitos, legítimos, mas quer são partidários entre os parlamentares. Eu entendo que eu saio sem nenhuma expectativa de retorno, obviamente, que eu tenho um compromisso com o governador e a qualquer tempo que ele achar necessário ou necessitar de ajuda em qualquer área eu poderei ajudá-lo.

BN – Como você avalia essa possibilidade de aliança com o PR do senador César Borges?

RC – O PT é um partido nacional que tem um projeto para o país, que é conduzido pelo presidente Lula, em que a Bahia e os outros estados fazem parte desse projeto nacional. No projeto nacional, é importante e necessária a aliança com o PR. Dentro dessa proposta, o PR identificou a Bahia como um dos principais estados em que deseja compor com o PT. No que nós pudermos ajudar o presidente Lula e a ministra Dilma nós iremos ajudar.

BN – É verdade que o senador pediu uma secretaria para que o acordo fosse concretizado?

RC – Não, isso não é verdade. Em nenhum momento isso foi solicitado. É pura especulação. O governo, a essa altura, não fará composição política para a composição de cargos. Agora é conduzir as alterações que serão feitas, que são meramente em função da substituição dos que serão candidatos. Não haverá alteração na composição política dos cargos. Isso ocorrerá apenas após as eleições. Com o resultado, obviamente, o governador poderá ou não promover uma reformulação na composição, a depender do resultado eleitoral.

BN – Mas entre os deputados há um tensionamento.

RC – Há um tensionamento sim, claro. Legítimo. Há um interesse de cada partido querer isoladamente crescer a sua bancada de estadual e de federal. E aí a relação deixa de ser ideológica, de conteúdo programático, para ser uma relação mais pragmática, de contabilidade. ‘Quantos candidatos você tem? Qual é o potencial dos seus candidatos?’, para saber qual é o seu peso do seu partido e ver se interessa ao meu partido juntar com o seu. A conta que cada um quer fazer é obviamente a conta que melhor lhes beneficia. O governador pediu que os partidos conversassem entre si. Todo mundo tem que fazer algum nível de concessão para poder fazer as coligações. Eu acredito que para estadual, nós precisamos de duas ou três coligações. Tendo mais, melhor. Mas para federal, eu acredito que há uma dificuldade maior em relação à quantidade de candidatos. Nós não temos muitos candidatos a deputados federais nos partidos. Há uma dificuldade em relação à coligação com o PR, que todos os partidos apontam, que é o fato de ter no PR deputados que são de oposição ao governo e continuarão de oposição.

BN – Sandro Régis e Elmar Nascimento na Assembleia...

RC – Por exemplo. O Elmar chegou a conversar conosco no início, mas depois terminou se afastando e fazendo oposição sistemática. O que todos os deputados da base do governo, de todos os partidos, colocam é que nós trabalhamos e seguramos o santo até aqui e na hora de subir no altar e ter a benção de Deus, nós vamos ajudar a eleger quem o tempo todo tentou derrubar o santo. Quando a gente fala da chapa majoritária há um interesse da coligação como um todo, do governador e do projeto político. Quando você fala de coligação pesa a relação de deputados que se quer preservar. Mas para esse arranjo, nós temos um pouco mais de tempo para fazer e até junho faremos as composições que teremos que fazer. Os partidos ainda não revelaram seus candidatos. Alguns são conhecidos, pois se expuseram mais no interior fazendo articulação, outros têm mandatos, mas nem todos são conhecidos ainda e isso também dificulta para que haja a definição da chapa. Nós não fazemos o estilo da mão-de-força, de que tem que ser assim ou tem que ser assado. A opinião do governo é a de que uma chapa só para estadual é muito pouco, o ideal é duas, três ou quatro chapas, e para federal ter duas é melhor do que uma, mas isso também depende do arranjo que poderemos fazer.


"A margem de risco sempre existe e eu diria que o que interessa mais é o conteúdo do projeto político que será implementado, seja no nível nacional ou estadual."

BN – Agora, em relação ao PT, tem vários manifestos contrários, a gente vê publicamente expressões do Paulo Rangel, do Emiliano José, do Zezéu, contrárias a essa aliança com o PR. Como o PT, você enquanto petista, tem se articulado internamente para resolver essas questões?

RC – Nós temos conversado. A palavra de ordem é conversar, conversar e conversar. Nós temos que compartilhar as responsabilidades. Depois do resultado das eleições é muito fácil fazer análise. Quando você ganha vão aparecer os que dizem que poderia ter ganhado sem aquela aliança ou apoio, com menos alianças. Se perde, vão aparecer os que dizem: ‘Viu aí? Se tivesse feito a aliança poderia ter ganhado a eleição’. Então, você nunca tem como saber o resultado antes. Se soubesse era fácil, mas nós não temos como. A margem de risco sempre existe e eu diria que o que interessa mais é o conteúdo do projeto político que será implementado, seja no nível nacional ou estadual. Isso é que é fundamental. O que nós não podemos negociar na composição são os nossos valores, nossos princípios e o nosso conteúdo programático. Isso em hipótese alguma nós podemos fazer, agora composições que garantam nossas ações programáticas, isso eu acho que é possível, até porque, eu insisto, além de estarmos articulando uma chapa estadual nós estamos contribuindo ou não para a formação de uma aliança nacional. Nós já tivemos opiniões expressas, diretas, da direção nacional do PT, da coordenação da pré-campanha da ministra Dilma de que é interesse nacional fechar o PR com a ministra e que essa aliança se reproduza nos estados. Então, se nós pudermos ajudar, por que iríamos dificultar?

BN – Durante a posse do novo diretório estadual do PT, o governador chegou a mostrar um adesivo com a frase “Luto pela esquerda no Senado”, o que fez com que muita gente do PT, sobretudo da Articulação de Esquerda (AE), acreditasse que este é o encaminhamento. Com a adesão do senador César Borges, caminha-se de fato para uma chapa com o conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, Otto Alencar, ou alguém do PP, caso ele desista pelos problemas de saúde, como vice, Lídice da Mata e César para o Senado?

RC – Essa é uma formação bastante provável. O governador entende que a sua chapa de senadores tem que representar o equilíbrio do seu governo. Foi isso que ele quis dizer no encontro, porque o seu governo reúne aquelas pessoas que historicamente fizeram chegar até aqui, do PSB, do PT, do PCdoB e do PV, inclusive, e reuniu mais recentemente essas pessoas do centro. Então, esse equilíbrio tem que estar expresso na chapa. Não faria sentido a chapa estar expressa com um viés apenas, pois não é a expressão do governo. E não será a expressão do segundo governo. Haverá um equilíbrio entre essas duas composições e é assim que ele quer montar a chapa. Os nomes é que irão ser definidos, e até os partidos, pois quando se fala em um candidato de esquerda, o PSB tem um nome forte, que é o da deputada Lídice da Mata, o PCdoB também disse que também gostaria de concorrer, o PDT, hoje, eu ouvi o presidente Alexandre Brust falar que também gostaria de estar na chapa majoritária. Então, legitimamente, esse é o momento de os partidos se colocarem e, de novo, o governador gosta de trabalhar com critérios, e eu também, e no momento em que ele diz que quer um com um perfil e outro com outro, então é com essa orientação que nós vamos construir com os partidos que preenchem esse perfil. Assim, essa composição é bastante provável.

BN – Então, qual será o seu número da sorte e as três principais plataformas que você pretende trabalhar no Congresso Nacional?

RC – O meu número da sorte é 13 e o ano que eu nasci, 63: 1363. A minha principal plataforma é a educação, principalmente a educação profissional. Eu entendo que a juventude precisa ter oportunidades. Eu venho de uma juventude pobre, de classe média baixa. Fiz Instrumentação na Escola Técnica, o que me possibilitou entrar no mercado de trabalho e a partir daí fazer o curso de graduação em Economia. Se eu não tivesse ingressado no mercado de trabalho talvez não tivesse conseguido ingressar na universidade. A segunda é o foco na juventude. Implementar ações culturais e esportivas que possam contribuir para a inserção do jovem na sociedade, de uma forma cidadã. Se nós olharmos o nível de violência que nós temos hoje, quase a totalidade é praticada por jovens, cada vez mais jovens. Nós precisamos adotar políticas públicas em nosso estado e nosso país focadas e direcionadas à juventude, porque o combate às drogas, na minha opinião, não se dará só pela via policial. Nós temos que conter as portas de entrada. A terceira é buscar, em parceria com o governador e o governo federal, trazer para o estado ações de infraestrutura para alavancar o nosso desenvolvimento. A Bahia é um estado híbrido, com características de Nordeste e de Sudeste, que precisa de ações que garantam saltos de qualidade no desenvolvimento do estado. O governador deu passos largos para isso com a ferrovia Leste-Oeste, com o novo porto de Ilhéus, o novo aeroporto, o projeto da ponte Salvador-Itaparica, a duplicação das BRs 101 e 324, de modo que nós precisamos de projetos estruturantes, que garantam a interiorização desses investimentos, com a instalação de empresas de tecnologia, empresas de ponta, que possam gerar empregos, não somente de baixa renda, mas para mão-de-obra qualificada, que levem ao interior uma ampla rede de conhecimento.