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Entrevista

Hamilton Assis promete atacar de metralhadora na campanha ao governo - 08/03/2010

Por Gusmão Neto

 

Fotos: Tiago Melo/ BN

"Creio que estaremos no segundo turno, na linha de frente"

 

Por Gusmão Neto


Bahia Notícias: Conta aos nossos leitores quem é Hamilton Assis, que quer ser governador da Bahia.

Hamilton Assis: Eu sou um trabalhador da rede municipal de ensino de Salvador. Trabalho em uma das Coordenadorias Regionais da Secretaria de Educação, onde faço parte da equipe pedagógica. A minha história é a mesma da maioria dos jovens negros da nossa cidade, filhos de pais do interior que tentaram buscar uma vida melhor na capital. Passei a me envolver na política porque sempre me incomodei com essa brutal concentração de renda e poder que há nesse país e quis buscar as soluções para os problemas de uma forma coletiva. Então, com 17 anos, entrei de fato na política. Fui líder comunitário de Pau da Lima, onde moro até hoje, depois fui presidente de associação de moradores do bairro até a década de 80, em seguida fiz parte a Executiva da Federação de Bairros de Salvador.

BN: Você fez parte do PT, partido que hoje é combatido ferrenhamente por todo o seu grupo. Como se deu essa participação até a sua saída?

HA: Realmente toda a minha trajetória foi dentro do PT, partido em que fiz parte desde a sua fundação. Fiz parte da Executiva Estadual e fui inclusive assessor do deputado federal Nelson Pelegrino, durante quase 12 anos. Depois surgiram algumas divergências e começamos a fazer algumas críticas, as quais vieram se acentuando e tudo se tornou mais evidente quando o Lula se tornou presidente. Então, algumas ligações nos leva a crer que o PT tomou outro rumo e agora ele se esgota enquanto partido, já que a sua ideologia deixou de ser a mesma, aquela que sempre lutamos pela redemocratização. Hoje o Partido dos Trabalhadores nada mais é do que um grupo político da ordem, submisso e metido em várias situações constrangedoras, como esses diversos escândalos que apareceram aí.

BN: Como surgiu a ideia de Hamilton disputar o governo?

HA: Olha, nós temos uma população, em sua grande maioria, afrodescendente, que na política sempre teve uma participação subalterna. Então passamos a indagar que um povo que é da tradição, que teve participação fundamental para a construção da nação, faz parte de uma sub-representação. Nós queremos ser protagonistas. Aí que surge o PSOL. Buscamos referências e optamos pela linha de que a nossa trajetória se baseia na história de luta de nosso povo.


"Todos que estão aí pensam da mesma forma. Eles querem a manutenção da ordem vigente. A situação quer defender a sua posição no poder e a oposição quer tomá-la para si"

BN: O que o PSOL espera de resultados concretos nestas eleições?

HA: Apesar de sermos de um partido recém criado, nós chegamos à conclusão de que o PSOL faz parte da luta histórica pelos direitos da classe trabalhadora. Nós queremos firmar o PSOL como um partido socialista, que se coloca como alternativa para a construção de um projeto diferente deste que está aí nas mãos das elites dominantes. Queremos enraizar o PSOL nessa luta, bater de frente nos debates públicos e apresentar os nossos propósitos. Depois que temos que desconstruir essa ideia de polarização, que existe entre uma oposição liberal e os outros partidos conservadores. Então todos que estão aí pensam da mesma forma. Eles querem a manutenção da ordem vigente. A situação quer defender a sua posição no poder e a oposição quer tomá-la para si. Na verdade tudo é a mesma coisa. Oposição ou não, a essência é a mesma.

BN: Mas sabemos que nem só de ideologia vive um partido. É preciso correr o estado em busca de apoio. Em busca do voto propriamente dito. Como vocês têm trabalhado no sentido de conquistar bases políticas pela Bahia?

HA: Nós estamos vivendo um momento de conferência eleitoral e esse processo tem aflorado pelo interior do estado, onde temos participado sistematicamente. Além disso, nós acreditamos que não vamos governar sozinhos. Nós estamos batalhando para formar um frente de esquerda com o PSTU e o PCB. Juntos, somos estratégicos para a apresentação de programas e projetos junto às comunidades.


"Nós queremos firmar o PSOL como um partido socialista, que se coloca como alternativa para a construção de um projeto diferente deste que está aí nas mãos das elites dominantes"

BN: O seu companheiro Hilton Coelho, nas eleições para prefeito de Salvador, obteve uma votação recorde para o movimento esquerdista radical. Será que essa façanha pode se repetir e o PSOL fazer um ou até dois deputados estaduais?

HA: Eu acredito que elegeremos dois deputados. Nas caminhadas que faço com o Hilton pela Região Metropolitana é notável o carinho que a população tem com a gente. Nós vamos lançar o maior número possível de candidatos a deputados estaduais e federais, até porque o PSOL passa por um processo de análise, que é a cláusula de barreira. Nós temos que aumentar a nossa votação, para continuarmos em quanto partido nesse cenário.

BN: Qual será a principal estratégia do partido nessa corrida eleitoral?

HA: Nossa estratégia é sempre discutir as desigualdades. Vamos discutir essa ausência de projetos que lance a Bahia dentro do contexto da economia nacional, que deixe de fazer parte do cenário de uma forma secundária. Vamos abordar a concentração de renda desigual que há por aqui. É inadmissível que um estado como o nosso concentre mais de 50% da renda em 14 municípios, enquanto centenas se contentam com a sobra. Então vamos fazer uma crítica do modelo de gestão do governador Jaques Wagner (PT), que na verdade é um segmento do seu antecessor (Paulo Souto, DEM).

BN: Então Wagner e Paulo Souto serão os principais alvos das críticas do PSOL?

HA: Sem sombra de dúvidas. Eles são continuidades. Infelizmente, o que Wagner faz é um modelo de administração que tentamos, junto com ele, combater em toda a nossa trajetória, que foi o carlismo.


"Eu diria que o PV não esteve digno do aporte político que o PSOL quis lhe emprestar"

BN: Recentemente o seu partido e o PV romperam a possibilidade de aliança. Será que isso não pode enfraquecer ainda mais a sua sigla?

HA: Eu não diria que nós rompemos com o PV. Eu diria que o PV não esteve digno do aporte político que o PSOL quis lhe emprestar. Eu sempre fui admirador da senadora Marina Silva, por sua trajetória militante, que sempre lutou pela causa social e o direito da maioria, mas recentemente diria que ela jogou tudo por água abaixo, quando se aliou a Lula, mesmo que tenha rompido depois. Ela deu um tiro no próprio pé.

BN: Em um possível segundo turno, o PSOL já avalia uma possibilidade de aliança?

: Se eu admitir uma possibilidade de aliança agora, estaria dizendo que não entramos para uma disputa. Nós temos propostas que de fato podem sensibilizar as pessoas e creio que estaremos no segundo turno, na linha de frente. Se não chegarmos lá, vamos analisar com cuidado, mas o que há nessa disputa são partidos que não nos atrai para um compromisso político, pelo menos por agora.


"Wagner, Souto e Geddel comprovam essa polarização"

BN: Entre os outros quatro pré-candidatos a governador, qual deles é o pior (Jaques Wagner, Geddel Vieira Lima, Paulo Souto, Luiz Bassuma)?

HA: Risos. Olha é difícil trabalhar com essa lógica de pior candidato. Vamos dizer que todos estes são continuidade. Eles são aquilo que disse que serão alvos do que bateremos, que é o continuísmo. Wagner, Souto e Geddel comprovam essa polarização e até o Bassuma também. Afinal os verdes também fizeram e fazem parte do governo petista, que não é nenhum exemplo de boa política.