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Entrevista

Gilberto Gil: "Estou no PV por uma questão de ideário, filosofia e de amizade" - 14/02/2010

Por Evilásio Júnior

Fotos: Agência Fred Pontes/ BN

"Eu não tenho atuação partidária. Estou no Partido Verde por uma questão de ideário, filosofia e de amizade"

Por Evilásio Júnior

Bahia Notícias – Nós vivemos agora um ano eleitoral, você é filiado ao Partido Verde e na Bahia temos a pré-candidatura do deputado federal Luiz Basssuma, que deverá ser o candidato do PV nas eleições para governador. Como você avalia essa possibilidade de ele concorrer pela legenda?

Gilberto Gil – Eu tenho a impressão de que o Partido Verde vai tentar lançar o maior número possível de candidatos. É um clássico da política que as bases de sustentação das candidaturas mais acima tenham enfrentamento com as candidaturas mais abaixo. O partido vai procurar fazer o palanque para Marina. A eventual candidatura do Verde para o governo do Estado da Bahia tem primeiro uma finalidade pragmática que é a formação de palanque e depois a ideologia verde, que são as questões ambientais, de sustentabilidade, todos esses conceitos que estão cada vez mais presentes na agenda social, e eu acho natural.

BN – Agora, tem uma divisão no partido, em que o grupo do secretário estadual do Meio Ambiente Juliano Matos e do ministro da Cultura Juca Ferreira não aceita essa candidatura local...

GG – Aí eu já não entendo nada. Eu não posso opinar porque eu não tenho o menor saco para isso e não tenho conhecimento sobre essas discussões. Eu não tenho atuação partidária. Estou no Partido Verde por uma questão de ideário, filosofia e de amizade.  Muitos dos meus amigos, caros amigos, como é o caso do Juca, têm o partido como modelo.


"Marina é uma novidade em si. Ela é uma cabocla brasileira, saída da floresta, com uma trajetória extraordinária de superação"

BN – Mas você é um entusiasta da candidatura de Marina Silva?

GG – Sim. Marina é recente no partido. Marina chegou no partido agora...

BN – Você tinha inclusive me falado que não tinha obrigação de votar no candidato do presidente Lula...

GG – Ninguém deve ter essa obrigação, não é verdade?

BN – Você percebe realmente que Marina representa o novo no país?

GG – O que é o novo? O novo é aquilo que a gente pode perceber em uma configuração de novidades em si e novidades em seu entorno. Marina é uma novidade em si. Ela é uma cabocla brasileira, saída da floresta, com uma trajetória extraordinária de superação, de tanta coisa que essa parte da sociedade brasileira tem de se superar. É uma pessoa de uma índole bonita, de uma compreensão muito profunda sobre a dimensão humana, sobre a tragédia humana, sobre essas coisas todas e uma pessoa que vem adquirindo experiência política...

BN – É ela já foi vereadora, deputada estadual, agora é senadora...

GG – ...Isso. Então se forem questionar o fato de ela chegar à Presidência sem ter passado pela função do Executivo, temos aí um presidente com a mesma forma.

BN – Ela seria realmente uma espécie de “Obama brasileira”?

GG – Eu acho a comparação razoável porque ela tem uma história de individualidade firme, de imersão social parecida com a dele, ao mesmo tempo também uma história de superação nesse sentido. Um homem que aprendeu muita coisa muito rapidamente, que é o caso dela também. Ela é uma cabocla, ele é um caboclo, um mulato americano...

BN – A diferença é que ela é mestiça com índios e ele com asiáticos árabes...

GG – É, um negro mestiço como ela e, eu não diria responsabilidade, mas com esse balaio na cabeça. Esse balaio da pessoa, das minorias econômicas, das minorias políticas, das maiorias e minorias raciais, étnicas e tal. São parecidos e, como Caetano disse, ambos detentores de uma extraordinária elegância.

BN – Marina eleita. Gilberto Gil cogita a possibilidade de voltar a ocupar um ministério no governo?

GG – Eu espero que a Marina não faça o convite.

BN – Mas se fizer, você é capaz de topar?

GG – Eu terei dificuldades em dizer não a ela, mas eu estarei propenso a dizer não a ela.


"Olha, na natureza, no mundo que flui toda a matéria, de todos os planetas e galáxias, chegando até nós aqui na Terra, no mundo da carne, a mudança é a única constância do universo"

BN – Sobre o carnaval, no ano em que se comemora os 60 anos do trio elétrico, vemos uma mudança significativa em relação ao carnaval de outrora. O carnaval de Moraes, de Armandinho, de Gil, dos Novos Baianos. E hoje em dia tem esse carnaval do Troco, do Rebolation, do Psirico. Você vê essa transformação como uma mudança positiva?

GG – Olha, na natureza, no mundo que flui toda a matéria, de todos os planetas e galáxias, chegando até nós aqui na Terra, no mundo da carne, a mudança é a única constância do universo. É o grande paradoxo. E a única coisa que é pulsante, que é permanente, é a mudança. Então, não se pode referir a ela em termos de positivo e negativo. Eu penso que para o sistema prático da vida as coisas são contributivas tanto positivas quanto negativas. Mas nos grandes tempos históricos não é assim. E os chineses? E se você disser para um chinês que o carnaval da Bahia tem 60 anos e mudou tanta coisa, se é bom ou é ruim? Se perguntasse a um desses grandes líderes do mundo, da época áurea do maoísmo, ‘e a Revolução Francesa’? Ele diria que é nova, que não tem o que dizer dela.

BN – Mas você dança o Rebolation?

GG – Eu danço. Eu gosto de samba-de-roda. Eu gosto de danças populares de historiografias simplificadas. É o caso do samba do Rio, é o caso do samba-de-roda, do xaxado, do corta-jaca. Eu sou da praia e do sertão. Minhas primeiras experiências culturais foram na caatinga e as seguintes no mangue, na praia da Bahia. Eu sou muito ligado ao Recôncavo, à cultura do Recôncavo e a tudo isso. Então, isso para mim é uma benção.

BN – Então essa transformação é uma refazenda?

GG – É uma benção. É uma expectativa que eu tenho desde menino que a música popular, que a festa popular, que a dança, que a expressão corporal das massas, que tudo isso estivesse nesse plano...

BN – Mas o “Todo Enfiado” já seria um exagero...

GG – Exagero comparado a quê? Porque esse exagero é a tônica da pós-modernidade...

BN – Elvis era a pélvis...

GG – É, e por aí vai. É Madonna, é Beyoncé, é Mick Jagger, é todo mundo. Essa coisa de uma hiper-sensualidade, hiperexposta e etc, etc, com ares e traços de escândalo...

BN – É a cultura pop...

GG – É pop. Nesse sentido não é demais. Em outros aspectos a gente pode até dizer não. Tudo bem. É alta dose, a embriaguez que decorre disso é perigosa, enfim, mas como fato psicossocial, é o que está aí. É o que a máquina manda.


"Eu acho que ainda assim, positivamente, esses acontecimentos do Haiti vão acelerar o processo de ajuda mais sistemático, responsável, mais sério, mais internacional de fato"

BN – Em relação ao Haiti. Você já esteve lá, compôs uma música, como encara essa situação hoje que o país vive? Você acha que há uma exploração dos governos internacionais em auxiliar para se beneficiar futuramente ou é uma ajuda efetiva?

GG – Ainda é um clássico. É ainda essa coisa ainda de aproveitar as oportunidades, assim como os projetos de ajuda à África. Uma coisa muito na linha dos interesses da indústria, como no disco e a indústria do entretenimento, do espetáculo e tal, que neste caso que você está me questionando da indústria política também.

BN – As coisas não estão dissociadas...

GG – As coisas estão todas associadas. Você sabe que quando acontece uma coisa dessa magnitude a gente pensa que agora vamos nos dar a um trabalho de mea culpa, a um trabalho de consciência mais profundo, a uma tomada de posição com responsabilidade mais sincera, mas a sociedade humana ainda está muito distante de um exame de consciência mais profundo. Então, eu acho que ainda assim, positivamente, esses acontecimentos do Haiti vão acelerar o processo de ajuda mais sistemático, responsável, mais sério, mais internacional de fato. No plano governamental, no plano da responsabilidade social das empresas, no plano das não-governamentais, movimentos sociais. Uma coisa que vingue um pouco a memória da doutora Zilda Arns.

BN – E também da primeira república negra do mundo.

GG – É um desejo contemporâneo, sem falar no desejo do passado, das histórias africanas, da escravidão e da liberdade.

BN – Diz-se na Bahia que ano só começa após o carnaval. Qual é o plano de Gilberto Gil para 2010?

GG – Eu vou para uma excursão nos Estados Unidos para complementar o trabalho da Banda Dois, esse trabalho acústico que tenho feito com meu filho e agora nesta fase mais recente com o Jack Morelenbaum. Na volta eu vou me dedicar ao projeto do São João e vou estender um pouquinho. Ano passado eu voltei a cantar, percorri algumas cidades do Nordeste, e este ano eu irei de 15 a 20 cidades brasileiras, vou fazer canções novas, vou gravar velhos Gonzagas, velhos Jacksons e vou sair por aí com a minha origem primeira, que é a música da caatinga.