Nelson Pelegrino: "Prefeito de Salvador não deve ser apenas um gestor, mas também um líder político" - 04/06/2007
Foto: assessoria do deputado
O prefeito de Salvador não deve ser apenas um gestor, mas também um líder político.
Por Daniel Pinto
O PT já pensa na sucessão municipal em Salvador?
Nelson Pellegrino – A verdade é que, devido a alguns fatos políticos, a sucessão municipal foi antecipada. O Partido dos Trabalhadores já faz algumas movimentações, mas ainda é muito cedo para tomar decisões definitivas. Nós vamos prosseguir fazendo balanços da atual gestão. O PT vive um dilema: ter uma participação nuclear no governo JH ou se afastar em função de uma candidatura própria.
Caso o PT tenha candidato próprio, a disputa interna será entre o Sr. e o deputado Walter Pinheiro?
NP – Não acredito nessa possibilidade de disputa interna. O partido tem um bom quadro. O PT já tem maturidade suficiente para chegar a um consenso em torno de um candidato.
Comenta-se nos meios políticos que, aqui em Salvador, o PT vai abrir mão da candidatura própria e vai ceder o vice de João Henrique. Há possibilidade de o PT formar chapa com o PMDB?
NP – O que eu posso lhe dizer é o seguinte: o PT tem legitimidade, força política, vontade e um bom projeto para Salvador.
Então, o PT tem uma proposta executiva para tirar a cidade da atual crise financeira?
NP – Olha, por onde eu ande em Salvador, as pessoas sempre me dizem: “chegou a hora do PT governar a nossa cidade”. O PT sempre quis governar a capital. Agora estamos amadurecidos. O programa de governo montado pelo PT é simples: adequar os gastos à realidade financeira da cidade. Mas, para isso é necessário definir prioridades. As prioridades da Prefeitura de Salvador deviam ser Emprego, Segurança e Saúde. Tudo bem, para geração de emprego e renda é necessário investimentos do Governo Federal e a Segurança Pública cabe ao Governo do Estado, mas o município tem que estabelecer um plano estratégico para captar os recursos necessários e também atrair investimentos da iniciativa privada. O prefeito não deve ser apenas um gestor, mas também um líder político. A exemplo do governo Lula, a Prefeitura tem que fazer planejamentos em longo prazo. Tem que pensar Salvador nos próximos 20 anos. Qual é a vocação da nossa cidade? Temos que explorar o que Salvador tem de melhor para distribuir melhor a renda. Não há como negar que Salvador arrecada pouco e gasta mal. Belo Horizonte, por exemplo, tem quase a mesma população de Salvador e possui uma arrecadação muito melhor. A nossa cidade precisa de uma administração centralizada, onde os gastos sejam controlados. É preciso racionalizar. O prefeito de Salvador também precisa ser um líder da região metropolitana. Salvador virou as costas para o recôncavo.
É verdade que, nessa primeira etapa, a Bahia vai receber menos de 1% do total de recursos do PAC? Não existe uma sinergia entre a União e o Governo do Estado?
NP – Meu caro, o que ninguém diz é que, nessa primeira etapa, o PAC priorizou investimentos para Estados que já tinham projetos, principalmente nos ministérios das Cidades e Transportes. Para liberação de recursos, os Estados tinham que mostrar projetos. Infelizmente, não foi o que aconteceu aqui na Bahia. Agora, o governo Wagner, com bastante serenidade e equilíbrio, já está mobilizado para tomar as decisões necessárias. Existem bons projetos, principalmente na área de infra-estrutura. Acredito que o governo da Bahia possa reverter essa situação.
E quanto à greve dos professores do Estado, um reajuste de 4,2% não é muito pouco para uma categoria que tem o salário base de R$ 324?
NP – Existem duas coisas que me preocupam: os incentivos fiscais fornecidos pelos governos anteriores e a política salarial dos servidores públicos. Falei isso ao governador Wagner. Depois de 16 anos de PFL, há uma demanda represada muito grande no que diz respeito aos salários dos servidores. Existe uma expectativa muito grande, mas o governo não pode agir de forma irresponsável, até porque o orçamento de 2007 foi definido no ano passado. O governo Lula também passou por isso. Hoje, os servidores reconhecem que houve melhoras. A manifestação dos professores é legítima, por isso o governo precisa de um plano estratégico. Mas, os servidores não podem esquecer que, antes de tudo, o governo da Bahia é um parceiro.
Houve excesso por parte da Polícia Federal na prisão do prefeito de Camaçari?
NP – Houve excessos na ação como um todo. No caso de Camaçari, não havia nenhuma licitação ganha nem contrato assinado com a Gautama. A prisão de Caetano não foi necessária. Tenho convicção de que Caetano contribuiria com as investigações, como o fez mesmo com habeas corpus.
O Partido dos Trabalhadores ainda acredita na inocência de Luiz Caetano?
NP – Claro que sim! Falo isso não apenas como amigo do prefeito, mas porque conheço sua administração e sei o zelo que ele tem com a coisa pública.
A PF encontrou 150 mil reais e três mil dólares em espécie na casa de Caetano. Parece que a quantia não foi declarada à Receita Federal. O Sr. sabe qual a origem? Por que ele guardava tanto dinheiro em casa?
NP – Olha, o que ele me disse foi que o dinheiro era fruto de economias pessoais dele e de sua mulher. Quanto à declaração, ele não sabe se houve recolhimento na fonte ou se o dinheiro foi declarado. Isso eu não sei.
Em recente entrevista ao “Terra Magazine”, ao comentar as acusações de que seu sobrinho, o deputado Paulo Magalhães (DEM-BA), havia recebido R$ 20 mil em propina, o senador ACM (DEM-BA) disse que 20 era muito pouco para se queimar. Isso demonstra que no Brasil a corrupção já é uma instituição? Até quando resiste a política do “rouba, mas faz”, o jeitinho brasileiro?
NP – Foi uma declaração muito reveladora. Mas, a corrupção sempre existiu em nosso país e no mundo. Verdade que em alguns lugares existe um controle maior, também existem penas mais severas. O que acontece agora no Brasil é que a Polícia Federal tem independência para investigar quem quer que seja, doa a quem doer. O combate à corrupção é válido, é necessária a manutenção da democracia, desde que a lei seja respeitada. A pirotecnia causa efeito, mas judicialmente não contribui em nada.
De uma forma geral, os políticos brasileiros merecem crédito da população?
NP – Tenho participado de muitas discussões a esse respeito, principalmente na Câmara dos Deputados. Existe uma preocupação do Congresso Nacional nesse sentido. Acredito que a reforma política vai contribuir e muito nesse aspecto porque – além de transparência nas eleições, no mandato, na administração pública – ela implicará em mudanças estruturais no sistema político brasileiro.
Então, porque a reforma política não é votada?
NP – O problema é que existem muitos pontos conflitantes. Minha proposta é que, num primeiro momento, seja votada uma reforma simplificada que aborde, pelo menos, a questão da fidelidade partidária, o financiamento público de campanhas e a composição de listas de candidatos nas eleições. Essa seria uma reforma emergencial. Em outro momento, discutiríamos os pontos mais polêmicos como o fim da reeleição, duração de mandatos, etc.
E, para finalizar, o Sr., que é próximo ao governador Wagner, conversou com ele a respeito da decisão do STJ em afastar o secretário de Segurança Pública, Paulo Bezerra? O que o governador pensa a respeito disso?
NP – Ainda não conversei com ele. Mas, acredito que não existe amparo legal nessa ação.