Hilton Coelho fala sobre campanha para AL-BA e não descarta entendimento com Bassuma - 07/12/2009
Fotos: Tiago Melo/ Bahia Notícias
"Ela (Heloísa Helena) se precipitou ao fazer uma leitura do significado da saída de Marina (Silva) do PT e, nesse momento, a tendência dela é retroceder nesse discurso por entender que esta é uma candidatura conservadora e oportunista"
Por Evilásio Júnior
Bahia Notícias – Como foi iniciada a sua formação política?
Hilton Coelho – Eu comecei a entrar no mundo que eu chamo da boa política, com compromissos sérios e coletivos, aos 16 anos em dois movimentos sociais: estudantil, na Escola Técnica Federal, e de bairro em Periperi. Eu não era morador de Periperi, na verdade eu passei a morar no subúrbio agora que eu me casei, mas desde os 16 anos a minha presença lá é muito constante.
BN – Mas partidariamente a sua militância começou no PT. Como foi isso?
HC – A pessoa que levou para o PT foi Pedro Cardoso, que hoje é a principal liderança do Movimento dos Sem Teto da Bahia, ele era também liderança de bairro e da Escola Técnica. Então, eu entrei no PT e era um partido, nessa época, que tinha um funcionamento coletivo muito forte. Estava organizado em núcleos, nos bairros, nas classes trabalhadoras, nas escolas, nas universidades. Talvez este tenha sido um dos caminhos que me levaram ao partido. Esse PT ele tanto tinha esse funcionamento de núcleos, do dia-a-dia, quanto esses espaços coletivos, que serviam como palco dos grandes debates para que o partido pudesse tomar decisões, nos congressos, nos encontros e nos debates nacionais. Aqui em Salvador, como em todas as capitais e muitas cidades do interior, envolvia uma centena de núcleos. Não foi uma entrada em um partido fundamentalmente institucional, mas sim que atuava nos mais diversos espaços sociais.
BN – E a sua família diante dessa situação?
HC – Teve um episódio muito engraçado porque meu pai era coronel da reserva. Na época ele estava muito assustado com a ditadura, então para mim era muito difícil falar sobre isso. Mas o PT fazia cursos, inclusive em outros estados. E eu com 16 anos fui para um curso nacional do PT, eram 14 dias, e disse em minha casa que ia a um congresso estudantil. Daí eu viajei, não dei mais notícia e depois recebi um telefonema dos meus pais, que já tinham entrado em contato com secretário de Segurança Pública de São Paulo para tentar me rastrear. Então foi uma situação que quebrou o gelo dentro de casa.
"O povo está completamente impotente porque a democracia é meramente representativa."
BN – Então você virava de fato um militante. O que mudou em sua vida?
HC – Eu costumo dizer que essa minha opção de ingressar em uma organização de esquerda mudou completamente a minha visão de mundo. Por exemplo, a minha relação com o conhecimento. Nós fazíamos discussões dos textos e o meu objetivo central era entender como aquele texto ia impactar na realidade. Não era estudar para um concurso, para uma prova, nada pragmático. Era dizer como os elementos que estão neste texto podem ser utilizados como elementos transformadores. Era uma mudança de paradigma muito forte.
BN – Agora tem uma coisa interessante aí. Essa sua experiência mudou a sua forma de ver o mundo, de como você poderia aliar teoria e prática e de repente chega o momento em que você se decepciona com o partido e decide rumar para outra legenda. Quando isso aconteceu e por quê?
HC – Essa transição foi longa. Até o início da década de 1990, início do governo Collor, o PT tinha um movimento. Era uma diversidade muito grande, mas ao mesmo tempo havia componentes muito fortes que juntavam todo mundo e promoviam o coletivo. A partir do movimento Fora Collor começam a se evidenciar diferenças muito fortes no PT.
BN - De que forma isso começou a acontecer?
HC – Primeiro, a maioria do PT achava que não deveria ter Fora Collor e outra parte, que eu me incluía, dizia que tinha que haver a mobilização, pois o governo não tinha legitimidade, por causa da corrupção e tudo isso. Era um estelionato eleitoral, do ponto de vista programático. E eu me lembro que houve um momento emblemático no momento da manifestação. Nós estávamos no Campo Grande e aí um companheiro nosso estava em cima do carro de som, com o microfone na mão, e foi empurrado de cima do carro porque defendeu eleições gerais. Não defendia a posse de Itamar Franco. Mas a divergência surgiu mesmo no pós-Collor no Congresso do PT. A maioria, que era composta por Lula, José Genoíno, José Dirceu, foi contra o Fora Collor. Imagine que o meu grupo, em 1992, saiu na Lavagem do Bonfim com a camisa “Basta de Collor”. Era um grupo muito pequeno, mas mostrou força, ganhou a população, aí o governo caiu e veio a segunda polêmica que era justamente se o Itamar devia assumir ou não. Politicamente, Itamar era da mesma chapa de Collor, defendia aos mesmos interesses, tinha o mesmo mérito, as mesmas referências, então era legítimo que houvesse eleições gerais. Mas o PT, inclusive Marina Silva, foi contra. Ela achava que Itamar deveria tomar posse e tal. Então desde aquele momento já existia uma ideia, que acho que hoje é o que diferencia o PT em relação ao PSOL. É a ideia de que a democracia representativa apenas não é capaz de fazer com que o povo mude os rumos do país. Se você for ver essas denúncias de corrupção que a gente vê aí. O povo está completamente impotente porque a democracia é meramente representativa. Nós precisamos do componente da representação, mas precisamos do componente da participação popular direta.
BN – Mas a Constituição blinda, de certa forma, esse sistema político. Para isso acontecer você acha que a Constituição deveria ser rasgada?
HC – Não. Não acho que a Constituição blinda. Vou te dar um exemplo interessante do que o PT abandonou e poderia fazer agora, que é a questão do orçamento participativo e deliberativo. Houve várias prefeituras que foram vitoriosas em que a população enxergava as diferenças. Aqui na Bahia teve a de Jaguaquara, que era uma prefeitura pequena que se constituiu em um contexto carlista, a de Vitória da Conquista e a de Itabuna, também vitoriosas durante a dominação de ACM. O principal componente dessas prefeituras era como se definia o que ia ser feito – era o orçamento participativo. Formalmente quem apresenta o orçamento à Câmara Municipal é o prefeito. Ele faz a proposta do que vai ser feito durante o ano e onde serão os gastos. Mas aí esses prefeitos resolveram consultar a população. Faziam assembleias deliberativas por regiões das cidades. Não significa que a prefeitura conseguiria fazer tudo o que as pessoas queriam, mas as prioridades eram definidas a partir da determinação dos moradores. Então se só tivesse dinheiro para asfaltar as ruas das cidades, para fazer escadarias e consertar os postos médicos, iria se fazer aquilo, se isso fosse deliberado como prioridade pelas comunidades, o que é perfeitamente viável. Nenhuma delas teve o orçamento rejeitado, apesar de, por exemplo, a Prefeitura de Itabuna só ter um vereador favorável, pois o resto da Câmara era contra o PT.
BN – Mas como isso era possível?
HC – Você tinha um envolvimento tal dessa população que era inviável para esses vereadores serem contrários. A comunidade tinha um mapa e era muito simples dizer que determinado vereador votou contra uma posição. Era a voz da cidade e isso era irresistível. Então para nós essa é a verdadeira democracia e está prevista na Constituição. A democracia não pode ser reduzida a eleger um deputado ou vereador que vai ficar quatro anos lá e a gente não tem mais nenhuma ligação com ele, não tem acompanhamento. Depois ele vem com fogos de artifício e será reeleito.

"Pelegrino, por exemplo, já foi do meu grupo político e quando estava lá eu fiz uma campanha aberta pela expulsão dele da minha corrente política."
BN – Mas você, enquanto historiador, não é muito difícil mudar a estrutura diante da cultura do povo brasileiro? Querer que, de repente, a comunidade participe, se envolva politicamente e cobre mais os seus direitos. Porque historicamente o povo brasileiro é um povo passivo. Como mudar isso?
HC – Esse daí é um ponto X. Essa leitura sobre a passividade do povo brasileiro é uma diferença que eu tenho, acho que com 95% da esquerda. Eu, enquanto historiador, mostro que essa tese não tem nenhuma fundamentação histórica. Agora não significa que ela não tenha uma lógica, porque foi historicamente construída. Não é à toa que se chamou o movimento de 1798 de a Revolução dos Alfaiates. O que os grupos dominantes daquele período queriam sinalizar? Ser alfaiate não era apenas costurar roupas, mas era tudo que se fazia manualmente: consertar sapatos, fazer pequenos serviços. Então o que se quis dizer era que a revolução era da “ralé”, das pessoas que não representavam nada socialmente. Assim você vai ter a Balaiada, que era dos homens que carregavam os balaios, a Farroupilha, que está relacionada à ideia dos farrapos, os Quilombolas, Canudos. Então todas essas movimentações sociais estão cobertas de uma ideologia muito forte que visa subestimar e desprezar, mas que foram muito importantes.
BN – Mas isso não acabou lá atrás?
HC – Vou dar como exemplo um período mais recente que eu vivi, de maneira visceral, que foi a década de 1980. Foi um período de efervescência na participação política no Brasil fenomenal. Começou pelo movimento da anistia, depois contra a eucaristia, Diretas Já e todo um enfrentamento à nova República, que desaguou na constituinte de 1988, que é uma grande vitória do povo brasileiro. Por isso que tanto Collor, quanto Fernando Henrique e Lula promoveram reformas constitucionais. Lula, antes de tudo, trai a sua história, porque a Constituição de 1988 representou vitórias históricas do povo brasileiro, como o SUS (Sistema Único de Saúde), o sistema de ensino nacional, a previdência, que é um patrimônio que não existe em nenhum outro país do mundo. Então é toda uma legislação pública votada e aprovada no fogo da participação popular e que as reformas constitucionais vêm no sentido de desfazer o que foi feito. A década de 1980 fez com que o PT fosse considerado um partido de transformação.
BN – E isso se esvaiu?
HC – Recentemente um grande amigo meu foi na Rússia e um sindicalista russo perguntou a ele “como é que vocês conseguiram fazer um partido como o Partido dos Trabalhadores?”. Quer dizer, lá fora ninguém sabe no que se transformou. Meu amigo ficou até constrangido. Mas enfim, essa é a imagem que ficou da década de 1980, o PT como o maior partido de esquerda do mundo e a CUT como a maior central de trabalhadores. Para você ter ideia, hoje na América Latina qual seria o país com maior mobilização social? Argentina. A gente viu recentemente os panelaços, a população foi às ruas e derrubou em um espaço de um ano, me parece que seis presidentes. Foi um atrás do outro porque eles não se aliavam ao olhar que a população tinha. Na década de 1980 a Argentina era considerada um marasmo político em relação à mobilização brasileira. O neoliberalismo começou a ser implantado na Argentina no início da década de 1980, quase uma década antes do Brasil, porque aqui se resistiu muito em função dos movimentos sociais. A ideia que se tinha era que não havia mais movimento social na Argentina.
BN - Assim como ninguém imaginava o movimento indígena que estourou na Bolívia e no Equador...
HC – Então, essas movimentações sociais todas que acontecem hoje nesses países não eram imaginadas. Eu me lembro que eu conversava com uma liderança da esquerda boliviana, antes de a chamada Guerra da Água acontecer, e ele me dizia que a Bolívia estava um pântano, que tudo estava parado. E ele dizia que estava em uma situação de pegar uma bolsa na Suíça para estudar, porque se dizia que essas bolsas eram oferecidas pelos países imperialistas para moldar o pensamento. Aí ele falava que tinha duas opções: ou fazia um doutorado nos Estados Unidos ou na Suíça. Quem diria que essa mobilização social fosse acontecer? Então, houve a Guerra da Água, porque queriam privatizar a água do país, como fizeram no Brasil também, Guerra da Coca, que tem a ver com a produção da folha da coca como elemento da cultura e não com a cocaína, e a Guerra do Gás, que todos nós acompanhamos. Lá eles tratam as revoluções como guerras, porque tem uma relação com a etimologia indígena, no sentido de enfrentamento com a dominação branca e colonialista. E nessa época o Brasil vivia um período de movimentação social muito intensa. Mas o que é que a gente ouve falar e lê nos livros e artigos, sobre essa situação da década de 1980 no Brasil? Pouco se fala. Essa intenção de retomar essa história de mobilização em um país continental , porque essa agitação dos anos 80 não feita em um país pequeno como a Bolívia ou como o Equador, não interessa a ninguém. Muito menos hoje para um conjunto enorme de ativistas que viveram e construíram aquilo ali, mas que hoje infelizmente sustenta esse governo que está aí e que passa a calar a recepção crítica.
BN – Então foi aí que você se decepcionou com o PT. Depois você logo ingressou no PSOL?
HC – Eu faço parte de um grupo político, que se chama Ação Popular Socialista. O meu desejo era o de sair do PT já em meados da década de 1990. Em 1997 não havia mensalão nem nada e eu fiz um texto interessante que dizia “o PT está se integrando à ordem dominante do nosso país, com todas as características que a ordem do Brasil tem”. Ou seja, eu não falava que era um partido que queria aderir apenas à casta de votos, nada disso. É porque a ordem no Brasil era corrupta. E não tinha saído nenhum escândalo ainda. Eu me orgulho de ter escrito isso que foi publicado em uma revista interna, na época. Então, como parte do grupo que iniciei a minha militância política aos 16 anos, eu aceitei a proposta de sairmos coletivamente. Por isso que só fomos sair quase 10 anos depois, apesar de termos uma posição muito crítica em relação a Lula, muito antes da eleição dele. Para você ter uma ideia, em 2002, a gente lançou um candidato, o Edmilson Rodrigues, que era prefeito de Belém, contra Lula na prévia interna. Sabíamos que não íamos ganhar pela liderança que Lula tinha, mas para externar que nós não concordávamos com o olhar político de Lula, que foi eleito presidente depois. Então como eu acredito na política como agente de transformação social, não poderia tomar uma atitude individual em detrimento ao desejo coletivo. Então uma das vitórias que eu acredito ter conquistado foi ter saído conjuntamente com o meu grupo, não todo mundo. Pelegrino (Nelson – deputado federal licenciado e atual secretário estadual da justiça, Cidadania e Direitos Humanos), por exemplo, já foi do meu grupo político e quando estava lá eu fiz uma campanha aberta pela expulsão dele da minha corrente política. Ele era o nosso deputado federal, tinha toda uma história realmente de luta, mas eu percebi que ele já tinha mudado o olhar político. Heloísa Helena era a nossa candidata para disputar a prévia interna contra Lula, mas ela não topou. Para ela ainda não estava evidente quais eram as características desse campo que era majoritário dentro do PT. Aí no segundo momento, Heloísa vai ser a primeira a sair do PT. Foi uma situação realmente emblemática que é quando o governo Lula vai vender a previdência, que era uma conquista histórica, para o setor privado e financeiro do país. Aí nesse momento uma parte racha imediatamente, já em 2003, e decide formar o PSOL e depois o meu grupo rompe e decide formar com o PSOL.
"Ela (Marina Silva) se diz uma continuidade do governo Lula e pior, ela diz que quer ser tanto uma continuidade de Lula quanto de Fernando Henrique. Eu não sei como ela ainda não colocou Collor nessa conta."
BN – E essa mudança de olhar se confirmou com o governo Lula?
HC – Aí é que ficou evidente. Para nós não foi uma grande surpresa o significado do governo Lula. Teve algum nível de decepção, porque eu não achava que ele ia pegar esse receituário todo neoliberal, porque para mim o governo Lula é um governo neoliberal, e adotar. Para mim o governo deveria ter uma postura mais firme em relação à questão da saúde, educação e reforma agrária, mas não fez. Temos uma crise sem precedentes na área de educação, na saúde, concentração fundiária do país, o reforço do caráter regressivo do imposto no Brasil, ou seja, os que ganham menos pagam mais e, por outro lado, os que pagam menos ganham mais. É notório como o governo repassa grande parte dos recursos do país para os banqueiros.
BN – Você falou que a sua vida política se define por uma questão democrática, que os ideais individuais não devem prevalecer sobre os coletivos. Agora, diante dessa decepção com o governo Lula por boa parte dos militantes de esquerda, aparece a Marina Silva com o apoio da Heloísa Helena como uma solução a essa chamada “traição” e novamente há uma divergência no PSOL. Qual é a sua posição?
HC – Não acho que a tendência seja, e aí a história vai confirmar isso, de o PSOL apoiar a Marina Silva. Mesmo com as declarações que a Heloísa Helena fez em favor disso. Eu acho que um militante pode emitir posições, o que é importante inclusive para que a população tenha acesso ao debate, que muitas vezes é muito fechado. Para nós não era muito fácil antecipar isso, nem para a própria Heloísa Helena, porque eu acho que ela se precipitou um pouco ao se posicionar favorável. A candidatura de Marina ocupa um espaço grande na mídia como uma dissidência. Então existe todo um simbolismo e espera-se com isso que essa dissidência seja real e não apenas um factóide político. E foi isso que ela demonstrou a um conjunto de militantes, inclusive a Heloísa Helena. Mas infelizmente o que tem se verificado é que ela não tem uma contradição programática.
BN – Então a candidatura de Marina Silva não representa uma renovação?
HC – Pelo contrário, ela se diz uma continuidade do governo Lula e pior, ela diz que quer ser tanto uma continuidade de Lula quanto de Fernando Henrique. Eu não sei como ela ainda não colocou Collor nessa conta. Talvez porque midiaticamente pese de forma negativa. Mas como eu acho que Fernando Henrique e Lula são a continuidade de um caminho neoliberal que Collor abriu, Marina Silva seria continuidade de Collor também. Não vou colocar palavras na boca de Marina, mas ela quer ser continuidade de um programa político que é extremamente conservador. Então, Marina já disse que não vai fazer crítica nem se contrapor a esse sangradouro de recursos do país para o capital especulativo. Só queria deixar esse dado aqui, o Brasil investiu, com tudo o que há de mais necessário para a população – saúde, educação, moradia, segurança, saneamento básico – R$ 71 bilhões. Enquanto isso o lucro dos banqueiros, que é determinado por uma política econômica que não é feita em lugar nenhum do mundo, foi de R$ 282 bilhões. Então, não criticar algo deste tipo...sem falar na questão do setor produtivo, em que só são estimuladas atividades que são frágeis. Ela defendeu o programa Amazônia Sustentável, ambientalmente extremamente conservador e que vai degradar ainda mais, e defendeu a transposição do São Francisco. Recentemente defendeu a instalação de usina nuclear no Brasil.
BN – Sim, há uma corrente do PV que é favorável à usina nuclear, como aqui na Bahia o secretário estadual do Meio Ambiente Juliano Matos, mas o deputado Luiz Bassuma recentemente esteve aqui e disse que o estatuto do PV é contrário e que o partido não permite esse procedimento...
HC – Mas foi uma declaração da Marina. Ela falou. Então, veja, nem do ponto de vista geral se você não mudar essa rota econômica, você não vai mudar a prioridade para saúde, educação nem nada disso. Nem do ponto de vista ambiental, mais especificamente, Marina hoje tem uma posição que sinalize que haverá uma mudança no país. Ela tem reafirmado essa ideologia, digamos assim, de que o Brasil está no caminho certo, o que não é verdade. Este é um caráter extremamente manipulador da realidade. Se criou uma sensação de alguma melhoria da qualidade de vida, de aumento do consumo, criação de novos postos de trabalho, que são precarizados ou subemprego, mas que é um elemento paliativo. Os centros urbanos do Brasil estão em guerra. Salvador está em guerra. Hoje não há a menor condição de se andar tranquilo nas ruas da cidade por causa da exclusão. A violência é o resultado mais exclusivo da situação social. E isso acontece porque grande parte das lideranças dos movimentos sociais tem se calado. Aí vem a Marina e fala que uma das suas principais divergências com o PT foi a de que o PT não se uniu ao PSDB. Não vai fazer nenhuma crítica ao pré-sal, que o governo Lula já loteou 30%. Então, quer dizer, no momento em que Marina Silva rachou ela criou um fato político e uma expectativa de foi um racha programático. Mas todas as declarações dela, a partir de determinado momento, entraram em contradição com isso.

"Bassuma é um deputado conservador, foi expulso do PT por defender questões conservadoras, em relação à criminalização do aborto."
BN – Vou voltar a citar o Bassuma, pois ele disse que a questão do projeto político do PV é que é um projeto de poder. Para ganhar mesmo as eleições. Então não seria estrategicamente equivocado, pelo apelo popular que tem, negar os avanços que aconteceram no governo Lula e até os que aconteceram no governo FHC? E até por se tratar de um partido pequeno, foi o que ele disse aqui, não se poderia negar que os outros partidos têm quadros interessantes porque o PV não teria pessoas suficientes para conseguir governar. E aí teria que buscar pessoas competentes no DEM, no PSDB, no PP, no PCdoB, ou seja, em todos os partidos políticos de acordo com critérios técnicos. Você não acredita nisso?
HC – Veja só. O partido não é pequeno ou grande pelo número de filiados ou pelo quadro de deputados que tem. Ele é pequeno ou grande pelas ideias que defende. O nosso partido, se a gente fosse pensar mecanicamente, nós gastamos na última eleição para prefeito menos de R$ 15 mil. Enquanto, no outro campo, o que gastou menos, declarado, foi Imbassahy com R$ 5 milhões. No entanto, a última pesquisa que saiu para governador, na Bahia ficamos com 1,5%. Em uma pesquisa anterior nós chegamos a quase 10% em Salvador e Região Metropolitana. Essa vitória política se deu porque apesar de o PSOL ser um partido aparentemente pequeno, ele foi e continua sendo grande nas ideias. Para nós, o partido é grande quando fala a verdade para a população. Quando tem personalidade política para dizer o que é necessário, apesar de entender que em um determinado momento ele pode não ser compreendido, mas lá na frente ele vai ser compreendido. Alguém vai retomar o fio da meada. Então, o partido político precisa ter coerência com o seu programa. Esta fala do Bassuma é uma lógica de um partido de aluguel que faz um discurso só para ganhar votinho. Nós não queremos ganhar votinho. Queremos ganhar voto com consistência política.
BN – Mas a maior liderança que você tem no partido é a Heloísa Helena. E se ela definir que vai apoiar a Marina Silva?
HC – Ela não vai fazer isso.
BN – Você acha que está descartada essa hipótese?
HC – Que está descartada eu não acho, mas a grande tendência é não apoiar. A Heloísa Helena, como uma grande militante socialista, não vai continuar nesse discurso contra a tendência coletiva. O que ela poderia ter feito até agora é o que vários companheiros fizeram, que é colocar abertamente, de maneira muito tranquila, a visão que ela tinha sobre a situação. Até você ter uma visão coletiva para se fazer o debate. Mas falando muito sério, acho que esse apoio não vai acontecer.
BN – E se acontecer? Você vai subir no palanque de Marina? De Bassuma, para governador do Estado?
HC – Aqui no estado, para mim é impossível. Se já teve cogitação de apoiar Marina Silva nacionalmente, que eu acho que não é a tendência, reafirmo, no estado é impossível.
BN – Bassuma não é um bom nome?
HC – Muito pelo contrário. Bassuma é um deputado conservador, foi expulso do PT por defender questões conservadoras, em relação à criminalização do aborto. Fez uma campanha terrível sobre um problema social que é extremamente grave e complexo, em que ele adota uma lógica moralista e quer criminalizar as mulheres. Esta possibilidade está totalmente descartada.
"O PMDB não está no governo do PT porque é ingênuo, ou tem técnicos. Faz parte é de um programa político mesmo. E não foi o PMDB que assumiu o programa do PT não. Foi o inverso."
BN – Mesmo que haja uma aliança nacional PSOL-PV, o PSOL da Bahia não vai fazer essa campanha? Mesmo que a Heloísa Helena venha para cá para subir no palanque da Marina e do Bassuma?
HC – Mas ela não viria e não virá. Eu falo que essa é a grande tendência se o PSOL não se definir, mas se o PSOL se definir é certo que ela não virá.
BN – Então ela não vai ter guarida no PSOL daqui?
HC – Não é que não vai ter guarida, mas Heloísa Helena é uma militante socialista. É o que eu disse que, a priori, não há nenhum problema em ela emitir opinião, mas ela se precipitou ao fazer uma leitura do significado da saída de Marina do PT e, nesse momento, a tendência dela é retroceder nesse discurso por entender que esta é uma candidatura conservadora e oportunista mesmo. Deixe eu te dizer, Evilásio, não existe essa história de questão técnica em política não. Esse discurso de Bassuma é um discurso oportunista. Em política existem opções de políticas para as áreas. O que é implementado na área de saúde não são receitas técnicas não. São opções, projetos – uma política de saúde. Assim como uma política de educação, uma política econômica, porque para todas essas questões existem opções de políticas diferenciadas. Então, você pode ter um quadro extremamente preparado tecnicamente e ele não acredite em determinada política. Pode ser uma pessoa que esteja comprometida com opções conservadoras ou contrárias e que não se envolva no desenvolvimento das ações por uma crença política. Se você quer melhorar a situação da saúde em Salvador, você tem que ter um posicionamento político em relação, por exemplo, ao que aconteceu com Neylton. Por que todo mundo ficou calado?
BN – E até hoje não tem resultado...
HC – Pois é. Por que não se foi a fundo? É porque existem interesses por trás daquilo ali. Ele foi jogado do 9º andar a mando de grupos econômicos que tinham interesse de sangrar os recursos da Saúde do Município. No momento não foi um problema técnico de fazer as contas e dizer para onde ia o dinheiro da Saúde. Foi um problema de enfrentamento com esses grupos de interesse. Então, o PT fez isso, construiu esse lastro de alianças porque tem referências programáticas que poderiam se unificar com o PSDB. E só não fez porque não teve vaga para todo mundo. O PMDB não está no governo do PT porque é ingênuo, ou tem técnicos. Faz parte é de um programa político mesmo. E não foi o PMDB que assumiu o programa do PT não. Foi o inverso. O PT foi que assumiu o programa do PMDB. E o PP, o PR não se identificaram com Lula por acaso. Tudo isso está relacionado a um programa político.
BN – Fala-se muito que o PSOL, pelo menos aqui na Bahia, já que a Heloísa Helena é um fenômeno, foi a vereadora mais votada do Brasil, possivelmente também será uma das senadoras mais votadas, mas tem-se a visão, talvez preconceituosa, de que as candidaturas do partido são apenas de protesto, pois não são vencedoras. Como você define o atual momento do PSOL? Para 2010 serão apenas candidaturas de protesto ou tem projeto de vitória efetivamente?
HC – É importante evidenciar uma coisa, porque quando se fala em candidatura de protesto parece que vai ser apenas negação. Outra coisa é dizer que a candidatura tem uma viabilidade eleitoral. Nesse momento o PSOL não é uma coisa nem outra. Ele não vai apresentar uma candidatura que tenha uma tendência a ganhar, apesar de não estar afastada a possibilidade, mas também não apresenta uma alternativa política de protesto. Qual foi a eleição que mais marcou as eleições de Salvador programaticamente?
BN – Hilton Coelho...
HC – Tive a honra de representar um projeto coletivo. Uma vez eu vi em um debate na universidade e uma pessoa que organizava o evento trouxe a filhinha dela e disse para mim “ela adora você por causa da sua música”. A menina tinha nove anos de idade e me disse que gostava de mim por causa da música e porque fui o único a falar do PDDU (Projeto Diretor de Desenvolvimento Urbano). Isso é ou não uma marca política? O PDDU ainda hoje é uma questão central para a cidade. Nós tornamos isso o nosso eixo político. Eu podia falar da questão da saúde, do caso Neylton, do “Predador Card”, algumas marcas políticas que nós deixamos, mas o fundamental é que nós tivemos o nosso eixo político afinado. Mesmo quem não votava na gente dizia, “ah, eu não vou votar em Hilton porque ele só fala do PDDU”. Então nós tivemos uma candidatura programática e é esta a vitória política que queremos. Um companheiro disse uma coisa muito interessante em uma plenária nossa sobre a nossa candidatura. “Nós precisamos de um programa político e precisamos de um bom candidato”. Ou seja, primeiro é o programa depois o candidato. Significa que a centralidade para nós é discutir as nossas ideias que estão muito além do mero protesto. Nós gostaríamos de apresentar alternativas de fato para a população, em parceria, com participação direta da população. Então não vamos ter candidaturas de protesto, vamos ter candidaturas como nós fomos em Salvador e, inclusive, vamos ter nacionalmente para presidente um nome que seja uma alternativa.
"Eu acho que realmente é uma candidatura forte e que tem objetivo. O PSOL quer fazer uma pequena bancada de deputados, eleger dois ou três estaduais e federais."
BN – E quem seria esse candidato, já que a Heloísa Helena já disse que não vai se candidatar?
HC – Plínio de Arruda Sampaio. Acho que é um nome que está bem cogitado. Já foi candidato a governador de São Paulo, já foi senador por São Paulo,é um intelectual, muito inteligente politicamente...
BN – O senador José Nery (PA) não seria um nome mais forte não, pela visibilidade que tem?
HC – Seria um bom candidato também...
BN – Mas o nome hoje é o de Plínio de Arruda?
HC – É o mais cotado.
BN – E para governador na Bahia?
HC – Para a Bahia já há dois pré-candidatos. Nós estamos fazendo um debate muito fraterno no PSOL e os dois estão sendo colocados. Hamilton Moreira, que é educador, um candidato negro, que para nós é uma questão muito forte, e Marcos Mendes, que é o presidente estadual do PSOL , que tem toda uma trajetória no partido na Bahia. Estamos muito bem servidos. Temos bons quadros para fazer esse debate.
BN – Vai tentar Senado, Câmara Federal, os nomes já estão sendo postos nesse sentido?
HC – O PSOL vai ter chapa completa. Nós vamos propor nome para governador e propor também nome para senador para a Frente de Esquerda, composta também pelo PSTU e pelo PCB, que são os nossos partidos irmãos.
BN – E você sai para...
HC – Deputado estadual. É claro que tudo isso vai depender da concepção coletiva.
BN – Então aí quando se coloca o nome de uma esquerda, digamos assim mais “pura”, que obteve a maior votação da história nas eleições para prefeito em Salvador como candidato a deputado estadual então aí demonstra uma iniciativa de tentar eleger, pois você entra forte na disputa para a Assembleia Legislativa.
HC – É. Eu acho que realmente é uma candidatura forte e que tem objetivo. O PSOL quer fazer uma pequena bancada de deputados, eleger dois ou três estaduais e federais. E a gente quer quebrar esse dogma de investir em apenas uma liderança. Heloísa Helena sair ao Senado e aparecer para a Presidência outra liderança que desponte está relacionado a isso também, de descentralizar essas referências do PSOL.
BN – Agora tem aí o problema do tempo de TV e talvez por isso a aliança com o PV fosse interessante, porque apenas contar com o tempo do PCB e do PSTU não será suficiente...
HC – O tempo é pequeno, mas além do espaço midiático que é bem mais expressivo que o programa eleitoral, que também é importante, eu te diria que boa parte da nossa afirmação veio dos debates de TV.

"Outro dia eu conversei com uma colega professora e ela disse que colocou um adesivo lá em Barreiras e os meninos da sala dela começaram a cantar 'Eu quero Hilton 50'."
BN – É, mas sua música, por exemplo, foi o grande hit das eleições de salvador por conta desse espaço midiático...
HC – O jingle para gente foi mais do que um fenômeno cultural, foi um fenômeno político. Quem analisa a letra da música vai perceber: “chega de vender nossa cidade”, que fala do PDDU, ou seja, a venda da cidade para a especulação imobiliária, aos empresários do transporte, da área de saúde. Você começa a música afirmando um eixo, um olhar. “O desemprego e a violência tem causado muita dor”, já trata de questões nacionais, que a gente falou aqui sobre a exclusão. E Salvador como a “capital da resistência” fala da trajetória tão sofrida do povo brasileiro que foi habilmente escondida pelos grupos dominantes. A letra é um manifesto político. “Eu quero Hilton 50, na capital da resistência”. Eu tenho muito orgulho de ter contado com um jingle desse.
BN – Agora enfrentar uma eleição estadual será um grande desafio, porque para conquistar o eleitorado em 417 municípios, diante da popularidade Lula na maioria das cidades, ainda o ranço do carlismo em outras, vai ter que ter uma estratégia política muito bem montada para conquistar esse povo no interior. Em Salvador ainda se tem mais acesso a informação, tem os movimentos sociais e estudantis mais pujantes, mas não acontece isso em todo o interior.
HC – É, mas a grande novidade do PSOL é que a gente não tem candidatos e programas e sim candidatos para programas. A gente tem que entender que a Bahia não é uma coisa única e grande parte do seu potencial tem sido jogado na lata do lixo porque só existe a opção de olhar para a Bahia como um todo. Nós estamos construindo um programa no PSOL que não seja uma abstração e que vai entender a Bahia como um todo articulado. Por exemplo, o extremo-sul tem que estar contemplado de uma forma que a população se sinta parte do estado, mas se reconheça no programa do PSOL. Wagner é incapaz de fazer isso. O programa deles é um programa superficial de realização de obras. A gente quer discutir qual é o potencial econômico, quais são as características sociais e culturais das regiões. A partir disso, nós pretendemos ter um encontro com a população. Nós vamos chamar pessoas que tenham interesse em fazer esse debate e que em cada região eles consigam materializar a mensagem do PSOL, que será integrada estadual e nacionalmente, mas terá a cara da região. Queremos que a mensagem chegue com força, ainda que a população não vote, mas simpatize e entenda o objetivo. Eu acho que em alguma medida isso se materializará em voto. O pessoal não quer deputado estadual, por exemplo, que seja aquela “mosca de padaria”, que tem dez votinhos em cada cidade e depois junta tudo para conseguir resultado. Os nossos deputados estaduais têm que conhecer as regiões. Temos que ter lideranças em cada região, que conheçam e representem cada localidade.
BN – No seu caso, a sua base será Salvador e Região Metropolitana?
HC – Eu acho que nós podemos ter votos em várias regiões. Outro dia eu conversei com uma colega professora e ela disse que colocou um adesivo lá em Barreiras e os meninos da sala dela começaram a cantar “Eu quero Hilton 50”. Imagine, em Barreiras. No último fim de semana fui convidado para fazer uma discussão em Feira de Santana. Então, a campanha em Salvador repercutiu em todo o estado e acho que vamos ter votos espalhados pela Bahia. Mas vamos ter sim Salvador e Região Metropolitana como prioridade.