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Entrevistas

Entrevista

Ney Campello explica ação da Secopa e fala sobre preparativos para Copa do Mundo 2014 - 05/10/2009

Por Alexandre Costa / Daniel Pinto / Lucas Esteves

Fotos: Tiago Melo/Bahia Notícias

"O metrô é fundamental para a cidade de Salvador e precisa ser equacionado. Mas ele não é ponto crítico para questão de mobilidade para a Copa"

Por Alexandre Costa, Daniel Pinto e Lucas Esteves

Bahia Notícias – Inicialmente houve muita resistência do seu partido contra a proposta de criação da Secopa. Membros do PCdoB se manifestaram contra a idéia porque a nova pasta enfraqueceria a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, que já é comandada pelo PCdoB. Depois que o seu nome começou a ser cogitado e foi anunciado pelo governador Jaques Wagner, essa resistência acabou de uma hora para a outra. O que motivou essa mudança? Foi o aspecto político ou o PCdoB avaliou que a Secopa era de fato importante?
Ney Campello -
Estive conversando com o deputado federal Daniel Almeida (PCdoB), a quem se atribuiu essa informação da divergência com a criação da secretaria. Acho que existia ali uma discussão ainda tímida sobre papel de uma secretaria como a Secopa. É uma secretaria muito mais de articulação do que a de esporte. Na medida em que o governo consolidou essa identidade da Secopa, o problema foi superado, pois o conflito deixou de existir.

BN – Então não ficou mais nenhuma aresta política em relação ao PCdoB e partidos da base do governo?
NC -
Acho que não. Na medida em que o governador foi convincente na concepção da secretaria, da importância dela, houve a aceitação política. Agora não podemos negar a existência de uma grande afinidade e experiência do PCdoB com essa área. Veja que o partido já comanda o Ministério dos Esportes, que tem a responsabilidade de fazer a Copa. E, aqui na Bahia, já comandamos a secretaria da área. Ou seja, essa sintonia aí facilitou a escolha do meu nome pelo governador.

BN – Como a Secopa vai se estruturar administrativamente? Já há uma resistência na Assembleia Legislativa à criação da pasta, pois a oposição fala que o momento é de crise, de perda de arrecadação, e não se justificaria gastar recursos com a criação de uma nova secretaria.
NC – Começo dizendo que a Copa tem de ser considerado um investimento, e não despesa
. Quem enxerga a Copa como despesa, está equivocado, não consegue enxergar que em qualquer pais do mundo em que um mega evento como esse aconteceu mudou para sempre a fisionomia de uma cidade. A Copa é uma janela de oportunidades econômicas e sociais. Para isso, devemos pensar no antes, no durante e no depois da Copa, e isso não se viabiliza sem que se tenha um organismo de estado que se debruce sobre esse tema. E por que uma secretaria? Porque a interlocução tem de ser privilegiada. Tem de ter o mesmo status de secretaria para dialogar com outras secretarias. E tem de ser uma estrutura enxuta. E o que estamos pensado, mas ainda não foi encaminhado a mensagem à Assembleia, é a criação de um pequeno núcleo profissionalizado de projetos. Por exemplo, haveria um gerente de mobilidade, um gerente das arenas, já que teremos a nova Fonte Nova e os outros estádios para treinamentos. De modo que estimo um número de até 30 servidores no total, sendo de 10 a 15 de fora e os outros cedidos por outras secretarias.

BN – A prefeitura de Salvador criou uma estrutura parecida, não foi? São estruturas que se tocam ou se separam?
NC -
A prefeitura ainda não criou uma estrutura, apenas nomeou um assessor, que é o Mighel Kertezman, com quem já conversamos e tivemos reuniões. São estruturas que se tocam. Já viajamos junto com o comitê interministerial nomeado pelo presidente com a finalidade de acompanha as preparações para a Copa. O que vamos fazer em relação à prefeitura é em cada tema encontrar o melhor mecanismo de gerenciar conjuntamente, quando existir interface. Por exemplo, fiz uma proposta à prefeitura de criação de um grupo mobilidade que foi aceita. No caso do turismo, já solicitamos uma reunião entre os secretários estadual e municipal, para começar a promover a sinergia. Em relação ao estádio, é ação do estado. Onde a prefeitura entra? Entra se articulando em questões muito mais de suporte. Em todos os estados e municípios, ao invés de Ceará e Fortaleza, houve a preocupação com a criação de uma estrutura própria para o acompanhamento dos preparativos para a Copa. Em alguns estados, se nomeou uma comissão com único coordenador. Pode ser que avancemos para essa idéia, mas ainda não chegamos a esse ponto de entendimento.

 


"As exigências da Fifa são crescentes. Algumas passam dos limites da razoabilidade"

BN – Em relação às metas de infraestrutura, o provável atraso nas obras do metrô de Salvador pode ser um obstáculo para a realização da Copa em Salvador?
NC -
O metrô é fundamental para a cidade de Salvador e precisa ser equacionado. Mas ele não é ponto crítico para questão de mobilidade para a Copa. A Copa pode ser realizada apenas com o primeiro e pequeno trecho do metrô, que não é suficiente para a cidade. Porque a concepção da FIFA é que a questão da infraestrutura e da mobilidade precisa facilitar o fluxo de acessibilidade aos hotéis e ao estádio. Portanto, o que se pensa em intervenção em transporte viário e de massa é liberar o que é considerado o ponto crítico: aquela área da Paralela e do Iguatemi. A idéia é a criação de um corredor saindo do Aeroporto, que precisará ser ampliado com a equação das questões ambientais (para a construção da segunda pista, que invadiria área de dunas), usando o canteiro central da Paralela – portanto, sem problema de desapropriação e dificuldade de execução de obra. Isso associado a uma pequena perna do Iguatemi ao Acesso Norte, onde se pegaria esse trecho metrô da Bonocô, e outra perna seguindo pela Juracy Magalhães, Vasco da Gama e indo ate a Lapa. Assim, e utilizando um veículo leve sobre pneus, retiraremos 20% dos ônibus da rua e liberaremos as pistas de rolamento para passagem, porque a maior parte dos turistas não descem no aeroporto para ir para o estádio. E na sua maioria eles usam ônibus de turismos e taxi. O que precisamos fazer é facilitar essa circulação com mais rapidez. E precisamos também melhorar o acesso a Lauro de Freitas, já que os turistas mais abastados podem querer ficar hospedados no Litoral Norte. E também não podemos esquecer o acesso aos estádios de Pituaçu e Barradão, que deverão funcionar como campos de treinamento durante a Copa.

BN – Então o governo não trabalha com possibilidade do metrô estar pronto até 2014?
NC –
Bom, a primeira etapa já está sendo anunciada pela prefeitura. Em junho de 2010, ela deve entrar numa espécie de pré-operação. O metrô tem e deve funcionar. O que reitero é que a existência da segunda etapa, que está sub judice com questões relacionadas ao Tribunal de Contas da União, não inviabilizaria a Copa. Não é impeditiva, mas, se ocorrer, é facilitadora.

BN – Pelo que estamos vendo, a questão da concepção da mobilidade não é problema. Mas e em relação a recursos e à execução?
NC -
Os projetos que acabei de falar já estão em fase de projeto básico. Então, já passou da fase conceitual. Na fase de licitação e execução é que vira obra. Há prazo e prazos estão estipulados até 2013, ou seja, até um ano antes da Copa. O problema crítico é recursos. O Ministério das Cidades assumiu o compromisso de liberar um financiamento de R$ 5 bilhões para as 12 cidades que irão sediar a Copa. Isso daria R$ 400 milhões para cada uma. Mas essa coisa não é linear. A conta não é bem essa, já que São Paulo e Rio de Janeiro geralmente abocanham a maior parcela. Esse corredor estruturante que queremos fazer para a Copa está orçado em cerca de R$ 1,5 bilhão. Veja que não tem dinheiro suficiente pelo governo federal. O que significa dizer que teremos que negociar ao máximo os recursos do governo federal e ver de que maneira estado e prefeitura se juntam nessa ação. Entendendo que governador deixou claro que intervenção na mobilidade de Salvador é da alçada prefeitura. O estado pode colaborar, mas não vai protagonizar. O estádio é a principal preocupação do governador. E veja que nem a engenharia da distribuição dos recursos do governo federal entre estado e prefeitura está definido.

BN – E a iniciativa privada, não entra?
NC -
Pode entrar. E um mecanismo para viabilizar isso são as Parcerias Público e Privadas (PPPs).

BN – Como o estado está enfrentando as duras exigências da Fifa?
NC -
As exigências da Fifa são crescentes. Algumas passam dos limites da razoabilidade. Por exemplo: no entorno do estádio não pode ter nenhuma outra propaganda, outdoor, display, nada que não seja exclusivamente da Fifa. E a Fifa recomenda que as casas comerciais do entorno do estádio escondam suas marcas. As exigências chegam a esse nível. Estamos buscando atender as recomendações.

BN – Recentemente foi aprovado na Câmara Municipal de Salvador um pacote de isenção de impostos em função da Copa. Houve a digital do estado nessa emenda de isentar empresas que farão a demolição e construção da nova arena?
NC –
A modelagem da PPP leva em consideração um alto nível investimento. O estado sozinho não se sente em condições de bancar. O investimento estimado para a arena, sem levar em conta o entorno, é de R$ 640 milhões. Isso para demolição, reconstrução e operação e manutenção. Sem isenções tributárias. Esse volume de recursos cai para R$ 550 milhões se nós conseguirmos que União, estado e município aprovem isenções de impostos. O município já fez a sua parte, aprovando isenções de ISS, IPTU. O estado já aprovou no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) a possibilidade de isenção. Não aprovou ainda no plano estadual porque aguarda um posicionamento da União, que precisa sinalizar que tributos vai isentar.

BN – Como será feita a demolição da Fonte Nova?
NC
- A técnica da demolição não esta definida. Por se tratar de um local onde no seu entorno tem bens tombados, é preciso que se veja isso com cuidado.

BN – E nada do que existe hoje então será reaproveitado na construção da nova Fonte Nova?
NC –
A reconstrução será total. E queremos que a nova Fonte Nova já seja testada na Copa das Confederações, em 2013. Apenas 3 ou 4 sedes são escolhidas, e queremos que Salvador seja uma delas. De modo que temos de estar com o estádio pronto para isso em 2013. Para isso, precisamos de uma operação que assegure ao estádio uma sustentabilidade. Isso vai requerer primeiro que os jogos de futebol, sobretudo dos dois maiores clubes baianos, aconteçam na arena. Porque a projeção é que sejam 56 jogos ao longo ano, considerando os dois clubes. Esse é um tema polêmico. Mas não é algo impositivo. O edital diz da importância de que isso ocorra. Mas a licitante vencedora terá que negociar isso com os clubes. O que entendemos é que se o estádio for atrativo para os clubes, não deverá haver problemas.

BN – E qual o projeto para Pituaçu?
NC -
Queremos que Pituaçu se torne um complexo olímpico. Vamos levar piscinas e a pista de atletismo, que, por uma exigência da Fifa, não será construída na nova Fonte Nova.

 

BN – A Copa do Mundo em Salvador é um projeto voltado essencialmente para os turistas, já que a maioria da população da nossa cidade não tem condições de pagar ingressos caríssimos para assistir aos jogos?
NC –
A Copa não deve ser apenas para turista ver. Agora o valor do ingresso quem define é a Fifa. Mas é preciso que se garanta condições para que a população participe, inclusive após a Copa, já que o estádio vai ficar. O ingresso tem de corresponder ao nível de renda da população da cidade e do estado. Mas a gente acha que nesse aspecto vamos conseguir evoluir.

 

BN – E o projeto para o entorno da Fonte Nova?
NC
– Esse valor é só para a demolição, reconstrução, operação e manutenção do estádio. A questão do entorno é a que chamamos de unidade de negócio 2, e ela vai ajudar a manter a operação da arena. Vamos ter um verdadeiro centro moderno de entretenimento, com espaço para eventos e shows, centro de convenções, lotação de salas comerciais. Será um complexo de apoio ao estádio. O edital prevê, inclusive, que a licitante que vencer o certame para o estádio pode apresentar uma proposta para exploração do entorno, que vai ser analisada. E se for boa, ele poderá realizá-la também.

 

BN – Em que fase está agora esse processo para a construção do novo estádio?
NC –
Passamos da consulta pública. Até o dia 15 de outubro o edital vai estar na rua. Até final de dezembro esperamos ter o vencedor do processo licitatório. Em fevereiro, teremos o cronograma para o inicio das obras. Em março deve acontecer a demolição e início das obras. Em dezembro de 2012, o estádio estará pronto e será entregue à comunidade.


"Eu já fui procurado por cidades como Alagoinhas e São Francisco do Conde, que manifestaram o interesse em sediar um treino ou coisa parecida"

 

BN – A violência em Salvador não será um problema, já que a Fifa preza pela segurança?
NC –
Acho essa questão importante e devemos criar um grupo de trabalho para acompanhar isso, bem como a saúde também é importante. Agora veja que no jogo ente Brasil e Chile, mesmo tendo acontecido naquela época em que Salvador viveu aqueles ataques de criminosos, não aconteceu nenhum incidente. Ou seja, aquele jogo foi uma resposta de que a cidade está preparada para receber esse tipo de evento.

BN – Em relação às cidades próximas a Salvador que querem tirar proveito da Copa, existe algum tipo de projeto?
NC –
Eu já fui procurado por cidades como Alagoinhas e São Francisco do Conde, que manifestaram o interesse em sediar um treino ou coisa parecida. O prefeito Paulo Cezar (Alagoinhas) está investindo R$ 1,2 milhão na reforma do Carneirão porque ele quer atrair alguma coisa dessa natureza. Vamos levar a sério todas essas manifestações. Agora, uma decisão sobre isso depende da interlocução com a Fifa.