Delegado-chefe da Polícia Civil, Joselito Bispo comenta transferência de traficantes - 20/09/2009
Fotos: Tiago Melo/Bahia Notícias
“A atividade policial é a mais delicada porque qualquer descuido pode gerar uma fatalidade. Vivemos no fio da navalha”
Por Daniel Pinto, Evilásio Jr. e Marcos Russo
Bahia Notícias - Delegado, qual foi o impacto do Movimento Polícia Legal na rotina da Polícia Civil?
Joselito Bispo - A Polícia Civil não aderiu ao movimento. Anteriormente houve uma série de reivindicações. Aliás, houve até paralisações. Mas, encontramos um entendimento com o Governo do Estado e tudo voltou ao normal. Mas, é claro que o movimento mudou a nossa rotina, uma vez que tivemos que reduzir as escalas de folga para dispor de todo o efetivo.
BN - Mais há reclames de agentes de que o aumento dado pelo Estado à categoria foi inferior ao dos delegados.
JB - Não tenho conhecimento dessa insatisfação. Houve um acordo e cada categoria através do seu sindicato fez uma negociação especifica. Não acho legítimo esse argumento de que o delegado teve um aumento excepcional. Só para você ter uma idéia, o delegado-chefe recebe um salário bruto de R$ 9 mil. Um rendimento que está aquém da responsabilidade e importância do cargo. Entretanto, houve uma melhoria substancial. Sem dúvida, a melhor dos últimos 16 anos. Depois do governo João Durval, esse foi o que deu uma atenção especial às polícias. Houve uma descentralização das negociações. O Estado, ao invés de dar 4% a todas as categorias, teve a coragem de sentar e negociar com todos em pé de igualdade. Além do mais, a polícia merece realmente um tratamento diferenciado porque somos os únicos servidores que trabalham 24 horas por dia de segunda a segunda (o telefone do delegado tocou). Tá vendo aí, esse celular aqui não para de tocar (risos).
BN - Sobre essa questão de política de igualdade, houve recentemente um episódio que mais uma vez explicitou a “dificuldade” de relacionamento entre as Polícias Civil e Militar que foi a Operação Nêmesis. A situação voltou a ficar tensa com a morte do agente no Santo Antônio. Como tudo isso é tratado?
JB - São casos pontuais e que não comprometem a relação entre as polícias. Portanto, não podemos levar o pontual para o geral. Qual foi o fundamento da Operação Nêmesis? Foi a aplicação da legalidade. Houve a apuração de um evento pela Polícia Civil e poderia ser através de outra instituição, como a Polícia Federal. Fizemos o nosso trabalho que foi a busca da verdade. Para nós não importa se o resultado da ação vai servir para condenar ou absolver. Nosso trabalho de investigação e inteligência foi consubstanciado no inquérito apresentado à Justiça. Não entramos no mérito da culpabilidade. Trabalhamos com fatos.

"Para nós não importa se o resultado da ação vai servir para condenar ou absolver"
BN - Mas, o questionamento foi sobre o procedimento das prisões.
JB - Esse é um assunto superado e creio que não mereça ser relembrado. A prisão por si já é um constrangimento. Foi tudo bem planejado e feito com respaldo legal. Em relação ao outro caso, a Corregedoria está investigando e se houver comprovação da culpa os envolvidos serão punidos. Temos que ter cuidado para que fatos individuais não firam as instituições. Em suma, a Polícia Civil tem um bom relacionamento com o Comando Geral da PM e compartilhamos da mesma responsabilidade.
BN - Como o setor de inteligência da corporação agiu durante a semana do Sete de Setembro, quando a capital foi atingida por uma onda de ataques promovidos pelo crime organizado?
JB - A inteligência é uma arma muito poderosa para o serviço policial. A tecnologia da informação é de grande valor. Desde a transferência de Perna, época em que tínhamos um grande número de homicídios em Salvador e Região Metropolitana, constatamos através de procedimentos autorizados pela Justiça que ordens para execuções partiam das cadeias.
BN - Portanto, o Sr. não acha que houve um erro estratégico em transferir Cláudio Campanha durante a estadia da seleção aqui em Salvador, já que a presença da imprensa nacional e internacional podia motivar uma reação mais violenta por parte dos bandidos, como de fato houve?
JB - Analisar o fato agora depois de tudo o que aconteceu é mais fácil. Mas, seria justo perguntar também quantas vidas nós salvamos com a remoção. Quantas mortes seriam determinadas por Campanha? Seria justo deixar que mais pessoas morressem? A transferência aconteceu quando tinha que acontecer. Existem coisas que não podem ser evitadas. Essa foi uma decisão estratégica. A reação do crime foi minorada graças aos nossos esforços. Mesmo assim, o trabalho continua.

"A Polícia Civil tem um bom relacionamento com o Comando Geral da PM e compartilhamos da mesma responsabilidade"
BN - Como se dá o controle de investidas contra casas e patrimônios privados. Recentemente foi registrado um caso em Pernambués em que a casa de uma mulher foi invadida e destruída pela Polícia. Quem assume essa responsabilidade e como essa mulher será ressarcida?
JB - Olha, nós sempre nos certificamos de tudo antes de tomar uma medida mais drástica. Pode ter havido algum descuido. Mas, felizmente os casos não são rotineiros. O erro acontece em todas as profissões, seja na medicina, engenharia, jornalismo ou em qualquer outra área. Entretanto, a atividade policial é a mais delicada porque qualquer descuido pode gerar uma fatalidade. Vivemos no fio da navalha. Esse caso está sendo apurado e vamos aguardar a conclusão.
BN - Como anda a situação da população carcerária das delegacias da capital? Com tantos presos nessas unidades o secretário Nelson Pelegrino (Justiça e Cidadania) deveria até destinar uma verba especial para a SSP.
JB - Essa é uma pergunta perniciosa (risos). Ampliar carceragem de delegacia? Nunca! Pelo contrário, temos que reformar as delegacias e diminuir o xadrez ou até mesmo extinguí-lo. As delegacias, no meu entendimento, deveriam ter no máximo duas celas com capacidade para quatro homens e mulheres.
BN - Estamos bem longe do ideal...
JB - Pois é. Mas, o governo já deu início a construção de alguns presídios que vão dar uma alento a essa situação crítica. Enquanto isso não ocorre, temos que assumir essa responsabilidade para o bem de toda a sociedade. É um ônus pesado, mas temos que seguir em frente. A situação vem se acumulando há muitos anos. Hoje, temos aproximadamente seis mil pessoas “presas” em delegacias da capital e interior.

"Quantas mortes seriam determinadas por Campanha? Seria justo deixar que mais pessoas morressem?"
BN - Qual seria o ideal?
JB - Nenhum!
BN - O Bahia Notícias tem recebido muitas denúncias sobre o sucateamento da frota de veículos da Polícia Civil. O número de carros disponíveis hoje atende todo o Estado? Além disso, qual a vida útil dessas viaturas e como são feitas as manutenções?
JB - Olha, há realmente uma carência. Não podemos dizer que vivemos uma situação maravilhosa. Mas, há uma distribuição de veículos a contento. Existem carros sucateados? Sim! Mas, o governo já adquiriu novas viaturas e outras licitações estão em andamento. O processo é um pouco burocrático, mas acredito que já teremos respostas positivas ainda este ano. Teremos um aporte melhor do que temos agora.
BN - Essa licitação tem relação com a Nêmesis?
JB - Não! Mas, as viaturas da Nêmesis estão na rua servindo à população.
BN - Como se dará a distribuição entre os municípios dos 41 novos delegados nomeados? Além disso, tem muita gente concursada que aguarda convocação. Já que há carência no efetivo, porque esses profissionais não foram destacados para reforçar os quadros da corporação? Foi orientação da secretaria da Fazenda, da Administração, ou falta vontade política?
JB - São 41 delegados e serão 41 agentes e escrivães. Ou seja, serão 41 novas equipes. A distribuição dos profissionais de dará em observância à necessidade de cada região. Os municípios contemplados serão aqueles que registram maior taxa de criminalidade e que possuem maior carência. As equipes poderão cobrir mais de uma cidade. Depende do número de ocorrências, a distância entre elas e a capacidade de deslocamento.
BN - E quanto aos demais concursados?
JB - Isso depende da política administrativa e econômica do Estado. Não cabe a mim falar sobre isso.

"Ampliar carceragem de delegacia? Nunca! Pelo contrário, temos que reformar as delegacias e diminuir o xadrez ou até mesmo extinguí-lo"
BN - A situação da Delegacia de Furtos de Veículos, que usa a via pública como depósito de carros, já foi resolvida?
JB - Ainda não! Nós dependemos de um novo espaço. Aliás, vou até adiantar isso aqui. Já estamos providenciando tudo. O novo pátio vai ser lá no CIA. Estamos com um novo plano que vai resolver essa situação. Estamos recebendo todas as críticas. Temos um projeto muito bom que vai mudar toda a sistemática de apreensão de veículos. Será um posicionamento bem diferente do que é feito em todo o Brasil.
BN - O Sr. acha que houve motivação política na notificação da Sucom?
JB - Não quero entrar neste mérito. Prefiro fazer polícia. Entretanto, toda essa situação serve para mostrar o quanto nós estamos trabalhando na recuperação de veículos roubados.
BN - Existe uma série de programas de TV que possuem a colaboração quase que fixa de determinados agentes da lei. Fala-se até que delegados e agentes que recebem cachês de determinados programas.
JB - Não há proibição para que o policial dê entrevista. Há uma portaria regulamentando a exposição do preso. Não tenho notícia de contrato entre policiais e a mídia. Se houver, será apurado e haverá uma punição exemplar.