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Entrevistas

Entrevista

Miguel Kertzman fala que Salvador deve se espelhar em Barcelona 1992 sobre legado da Copa - 20/08/2009

Por Redação

Foto: Max Haack/Bahia Notícias

"Há um compromisso dos governos de blindar a Copa da política eleitoral"

Bahia Notícias - Qual a participação da prefeitura de Salvador na organização da Copa do Mundo de 2014?
Miguel Kertzman –
É uma participação de grade responsabilidade, pois a Copa se dá na cidade, que será uma das sedes. A prefeitura tem a responsabilidade maior da recepção das pessoas que vem para a Copa, da questão da mobilidade urbana, dos serviços urbanos, do receptivo turístico, da infraestrutura de comunicação e da acessibilidade. No caso de Salvador, o estádio da Fonte Nova, que será o palco da Copa, é de responsabilidade do governo do estado. Mesmo assim a prefeitura é parceira e pode ajudar na captação de recursos, como o estado fará em São Paulo, por exemplo, onde o estádio do Morumbi pertence à prefeitura.

BN – E qual o cronograma municipal para a organização da Copa?
MK -
Estávamos ontem na Câmara Municipal discutindo com os vereadores a questão da Copa e do legado que ela pode deixar para Salvador, que é o mais importante. Então, mostrei que o calendário prevê a aprovação de uma lei municipal de isenção de impostos e taxas para a Fifa e para as empresas prestadoras de serviço credenciadas pela Fifa. Isso é uma exigência que ocorre sempre e vale para todas as cidades que serão sede. Portanto, esperamos aprovar isso até o final deste ano. Como também queremos mandar até o final deste ano um plano de ordenação do comércio informal na área do entorno do estádio. A Fifa exige que isso seja feito até 2014. Mas queremos implantar desde agora para a cidade ir se organizando. A prefeitura também está discutindo com a Fifa a questão do estádio, que é de responsabilidade do governo estadual e cuja licitação tem de estar pronta para que as obras comecem até o dia 28 de fevereiro do ano que vem. Mas o mais importante é que, independentemente de calendário, estamos estudando uma série de projetos que possam ser colocados como resultado da Copa ou que a Copa vai poder trazer para Salvador. E ai a gente vê que, além da mobilidade urbana, que basicamente vai se dar no corredor que vai do aeroporto até a Lapa, garantindo o atendimento do setor hoteleiro, podemos atacar de frente e com os meios corretos o grande problema do trânsito de Salvador. Principalmente o engarrafamento na região do Iguatemi. A cidade cresceu num único sentido, para o Litoral Norte, e criou-se uma situação em que quase metade da frota de veículos da cidade passa por essa região no horário de pico. Por isso, vamos dar prioridade ao transporte coletivo de alta capacidade, o chamado VLP (Veículo Leve sob Pneus).

BN – No canteiro central da Paralela? 
MK –
Vamos tirar apenas sete metros de uma faixa e sete da outra, de um lado e do outro, de modo que não vamos agredir a paisagem. Isso com o ônibus articulados, permitindo ultrapassagens, o que vai aumentar a velocidade média para até 27 quilômetros por hora. Hoje, na região do Iguatemi, no horário de pico, a velocidade não passa de três quilômetros por hora para os ônibus.

BN – Quando começam essas intervenções na cidade?
MK -
A prefeitura está ultimando os preparativos para poder fazer a licitação, o que espero que aconteça este ano ainda. Ao menos estamos trabalhando nisso.

BN – O metrô faz parte desse projeto de mobilidade?
MK -
Não é algo que seja prioridade, que a Fifa exija, mas nós exigimos. Já existem recursos para que o metrô, no projeto até a Estação Pirajá, fique pronto até a Copa. Mas temos de ousar mais e fazer um grande pacto na cidade para buscar recursos para que o metrô até Cajazeiras.

BN – Qual a previsão de investimento que a Copa vai gerar em Salvador?
MK –
O grande viés da Copa vão ser as Parcerias Público-Privadas (PPPs), que vai se dar na construção do estádio, por exemplo, como em outras iniciativas e projetos comuns em outras áreas, justamente para reverter esse vetor único de crescimento no sentido do Litoral Norte. Calculamos que, no Plano Plurianual (PPA), os investimentos chegam a R$2,7 bilhões. Agora, some-se a isso os investimentos do estado, seja no estádio ou na Via Baía de Todos os Santos, como se chama agora a Via Portuária, e os recursos privados em hotéis e outros tantos. Acho que teremos um investimento da ordem de R$ 5 bilhões nos próximos quatro anos em Salvador. É um número que Salvador nunca experimentou em sua história em volume de investimentos. Por exemplo, a maior obra em Salvador hoje é a do metrô, que já consumiu até agora, em dez anos, cerca de R$ 600 milhões. Se nós tivermos competência e fizermos parcerias com a sociedade, com o governo do estado, blindando a Copa de qualquer influência política e eleitoral, podemos fazer muito com esse volume de recursos. Por isso, há um compromisso dos governos de blindar a Copa da política eleitoral.

BN – Mas de certa forma já houve uma certa disputa aí pela paternidade do anúncio de Salvador como sede da Copa...
MK –
Não, vocês jornalistas é que adoram apimentar a realidade. O anúncio contou com as presenças do governador e do prefeito e foi uma comemoração, com todos juntos. Esta semana mesmo estou viajando com Fernando Schmidt (chefe de gabinete do governador Jaques Wagner e coordenador da Copa no âmbito estadual) para tratar, junto à Fifa, das questões relacionadas à Fonte Nova. Uma coisa é certa: a Copa só trará os melhores benefícios para Salvador se houver uma grande parceria entre o governo do estado e a prefeito para blindar o evento da política. A gestão tem que estar acima da questão eleitoral.

BN – Mas há também questões legais que podem atrasar o cronograma. Um exemplo são os órgãos ambientais, que tem sido rigorosos com as obras em locais como a Avenida Paralela. O senhor não teme isso?
MK –
Reconheço isso mas acho que há uma certa histeria que se dividiu os lados da cidade: uma que quer crescer e uma outra que não quer crescer. Com a responsabilidade que temos, não podemos colocar as coisas num patamar superficial. Para isso, o prefeito já me autorizou a fazer contatos iniciais com a sociedade para constituirmos um fórum da Copa do Mundo, para que os debates aconteçam com lideranças empresariais, com a sociedade civil organizada, com universidades e também com entidades ambientais representativas. Isso que, de alguma forma, Barcelona fez para a Olimpíada de 1992 e que surtiu efeito por lá. Barcelona é um exemplo onde um pacto da sociedade civil com entidades governamentais em prol de um grande evento serviu para blindar a Olimpíada de várias interferências, inclusive políticas. E olha que a disputa política na Espanha era bem mais quente que a nossa, já que tinha o ETA, as questões culturais, línguas diferentes. O objetivo desse pacto por lá foi transformar Barcelona numa cidade européia, para você imaginar. Depois das Olimpíadas é que Barcelona se tornou o que é hoje, uma grande referência mundial no turismo. Por isso vou procurar também o Ministério Público para participar desse pacto, procurando também, evidentemente, amarrar bem, do ponto de vista legal, nossos editais de licitação.


BN – Quando esse fórum vai começar a funcionar?
MK – Queremos instalar o fórum logo no início de setembro agora. Vamos fazer um grande escritório para gerir os projetos relacionados à Copa, que não é a solução de todos os problemas. Mas através dela podemos ter grandes avanços, como garantir um plano diretor de drenagem que Salvador não tem até hoje, que já começou, como no Imbuí, mas ainda é pouco. Os bairros populares, por exemplo, serão atendidos com a Copa, inclusive com as ações de mobilidade que faremos na Paralela, por onde passa quase toda a cidade. Vai facilitar a vida de todos.

BN – E como, de uma forma mais direta, estender esses benefícios da Copa a outras localidades de Salvador que não fazem parte aí desse trajeto entre o aeroporto e o estádio, englobando também os bairros onde estão os hotéis mais importantes?
MK –
Tenho uma proposta que vai abranger, além da mobilidade urbana que vai do aeroporto até a Lapa, outras localidades. Ainda vamos apresentar essa proposta ao prefeito João Henrique, que é a da poligonal da Copa. Vamos agregar o Centro Histórico, e o prefeito já entrou firme nisso, se colocando também como responsável por aquilo lá, e expandir essa área até o comércio, com a recuperação de nosso porto. A partir do Comércio, a terceira perna para fechar a poligonal é a Penísula Itapagipana.

BN - Kertzman, vamos agora deixar a Copa de lado e falar um pouco de político, afinal você é membro da executiva estadual do PPS. Como o partido se prepara para 2010?
MK -
Eu diria que estamos mais preocupados com 2014 (risos). Bom, brincadeiras a parte, nacionalmente já está definido que vamos marchar com a candidatura do PSDB, ou melhor, do governador de São Paulo, José Serra, que é quem melhor representa a oposição sem precisar dizer uma palavra.

BN - E na Bahia?
MK -
Na Bahia a situação está complicada fruto da morte do senador ACM, o que deixou a política mais rica, pois não há mais a bipolarização. O que eu digo é que o PPS ainda está discutindo isso. Vai ter até uma nova reunião no dia 19 de setembro para tratar disso. Eu diria que temos duas possibilidades: podemos seguir o caminho natural, que é repetir a aliança nacional com o PSDB e o DEM, ou partir para uma terceira via, com a candidatura do ministro Geddel Vieira Lima (PMDB).