Jorge Solla detalha ações para impedir que H1N1 se espalhe na Bahia e fala sobre 1ª morte por gripa A - 10/08/2009
Fotos: Tiago Melo/Bahia Notícias
"A tendência é de que o vírus da gripe A venha progressivamente a se disseminar e passar a ter uma circulação mais ampla em todo território nacional"
Bahia Notícias - Secretário, queria que o Sr. comentasse quais foram as circunstâncias da primeira morte por Influeza A na Bahia e quais foram as providências adotadas para que o vírus H1N1 não contaminasse as pessoas que tiveram contato com o paciente e, por conseguinte, não se espalhasse por nosso estado?
Jorge Solla – Como vocês mesmo já noticiaram todo esse processo. Até o momento nós não conseguimos fazer nenhuma conexão com nem um outro caso e nem a partir de disso surgiu indício da doença nos familiares e entre as pessoas que tiveram com o paciente.
BN - E esse raio de contatos engloba quantas pessoas?
Solla - Todos os familiares que tiveram contato direto e a equipe médica que o acolheu no São Rafael.
BN – Então, esse contágio ainda permanece um mistério.
Solla - Realmente não se identificou como ele contraiu o vírus e nem foi registrado outro caso a partir desse. Já temos uma margem de segurança para afirmar isso.
BN – De onde ele vinha?
Solla - Não, não. Ele não saiu daqui!
BN – Realmente muito estranho. Mas, ele tinha problemas respiratórios?
Solla - Paciente tinha hipertensão e tinha histórico de outras complicações. Provavelmente ele teve contato com alguém que não foi identificado. Alguém que esteve aqui apenas de passagem. Todos os casos registrados no Brasil são de pessoas que vieram de fora, principalmente da Argentina.
BN - É possível relacionar o caso com o dos estudantes que vinham do Paraná e estavam de passagem por Feira de Santana? A Bahia não corre risco de pandemia?
Solla - Por hora, a última posição que tive (pode estar desatualizada) foram de 54 casos registrados de gripe A. Nós estamos tendo uma procura de 20 a 30 pacientes lá no Octávio Mangabeira e, neste momento, a recomendação é para que a orientação pelo serviço de saúde não se restrinja a unidade de referência. As pessoas podem ser atendidas em outras unidades ao apresentarem sintomas da gripe. A tendência é de que o vírus da gripe A venha progressivamente a se disseminar e passar a ter uma circulação mais ampla em todo território nacional.
BN – Esses casos podem ser comparados a gripe sazonal?
Solla - Mesmo em estados como no Rio Grande do Sul e em São Paulo, que tem ocorrências mais elevadas da gripe A, até pelas características climáticas e proximidade das zonas de fronteira, se você for observar a série histórica de doenças respiratórias relacionadas a influenza sazonal a conclusão é de que o termo quantitativo não foge muito.
BN – O Sr. disse que a gripe suína já é a epidemia do século. Até que ponto a falta de conhecimento do vírus e o uso de vacinas e medicamentos pode contribuir para que ele se fortaleça e acabe gerando mutações mais resistentes?
Solla - Olha, houve uma interpretação equivocada do que eu disse a Daniela Prata na Tudo FM. Antes de falar sobre gripe A ela me questionou sobre o crack.
BN – Então, é bom para o Sr. aproveitar e esclarecer isso.
Solla - Foi o que eu disse, antes de falar na gripe A ela falava no crack como questão de saúde pública.
BN – Mas agora há certeza de que o Sr. falou que a falta de conhecimento sobre o vírus gera a escassez de mecanismo para combatê-lo.
Solla - Ainda existem questões em aberto, tipo a faixa etária. Por que os casos mais graves, inclusive com óbito tem sido na faixa etária mais nova do que com que ocorre com a influenza sazonal? Aí tem alguns especialistas que tem evocado a hipótese de que a vacinação para o vírus da gripe sazonal, de certa forma, apesar de não ser o mesmo vírus, tem gerado uma espécie efeito protetor.
BN – Há alguma comprovação científica.
Solla - Não. Nenhuma segurança. É uma hipótese.
BN – E quanto ao auto-medicamento e ao uso do Tamiflu?
Solla - Isso pode contribuir para a resistência ao medicamento. Qualquer medicamento usado de forma inadequada pode causar problemas. Quando se tratar de medicamento contra agentes infecciosos, sejam antibióticos ou antivirais como o Tamiflu, o uso inadequado pode desenvolver resistência. Qualquer medicamento tem efeitos colaterais. Dependendo da dosagem e da aplicação ele pode ser extremamente benéfico ou pode trazer sérios problemas ao paciente.
BN – Secretário, uma das recomendações do ministério da Saúde é de melhorar a higienização e utilizar o álcool para lavar as mãos. O procedimento já foi adotado em unidades de ensino em São Paulo e Rio Grande do Sul. Por que não foi preciso na Bahia?
Solla - A indicação de higienização tem sido difundida. Só não há nenhuma indicação para o uso de uma determinada fórmula. As recomendações tem sido feitas sobre a lavagem das mãos, ventilação e para evitar confinamento.
BN – É justamente a recomendação para evitar aglomerações que preocupa produtores de eventos do estado. Já se fala até em possibilidade de não realização do carnaval e do Festival de Verão.
Solla - Nem festival de inverno corre esse risco. Não há nenhuma recomendação neste sentido. É bom lembrar que a gravidade desta doença e a letalidade dela é igual ou menor a da gripe sazonal. Por enquanto, não há razão neste momento e tão pouco recomendação do ministério nem da Organização Mundial de Saúde que nos levem a agir de tal forma.
BN – E quanto à grande circulação de turista no período do carnaval?
Solla - Não acredito que haja o que temer. Carnaval é um período que tem disseminação de várias viroses. Se fosse por aí já teríamos de suspender o carnaval é outras ocasiões. A gripe A não coloca nada novo que mude as regras de vigilância. A tendência, se não houver nenhuma surpresa, vem a ser que haja um tratamento como tem a gripe normal. Acredito que dentro de pouco tempo já tenhamos a vacina, que será aplicada de imediato nos grupos mais vulneráveis. Entretanto, há coisas interessantes. Isso tudo contribuiu para que as pessoas vejam com mais atenção a necessidade de tratar a gripe comum. Muitos subestimam a gripe sazonal. Na verdade, a um número muito grande de complicações de saúde e internações hospitalares relacionadas ao vírus que já circula em todo o Brasil.
BN – Então, não há motivo para alarde e nem para o uso gratuito do Tamiflu?
Solla - Em hipótese alguma. Não há motivo para alarde e não há motivo para o uso de medicamento não receitado ou de qualquer medicamento. O estoque de Tamiflu vem sendo resposto regularmente. Os pacientes que tem necessidade estão tendo acesso.