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Entrevista

Mário Kertész: "Hoje eu faço uma política muito melhor, mais útil e mais saudável" - 03/08/2009

Por Lucas Esteves

Fotos: Max Haack/ Bahia Notícias

"Resolvi fazer um outro tipo de atividade e eu acho que hoje eu faço uma política muito melhor, mais útil e mais saudável, que é a política de ajudar as pessoas"

Por Lucas Esteves

Bahia Notícias: Como foi que surgiu a ideia de montar o Grupo Metrópole e como se viabilizou o projeto que leva hoje à rádio, ao jornal é à TV?

 

Mário Kertész – Quando a minha família comprou a então Rádio Cidade, num determinado momento, em 1994, eu tinha vindo de São Paulo, estava presidindo uma empresa, e voltei pra Salvador. Aí eu comecei a trabalhar na Rádio Cidade. Primeiro no ponto de vista administrativo, e aí eu analisei esse negócio de rádio e pensava que não era possível que as rádios FMs fossem todas “vitrolões”. Elas reproduziam apenas música e a maioria delas funcionando à base do jabá. Então eram as gravadoras, que na época estavam fortíssimas, cada uma delas tinha um divulgador na Bahia. E eu vi que não era o caminho. E aí, um dia, eu conversando com uma figura que me ajudou muito nessa área, que foi Davi Raw. Ele virou pra mim e disse “Mário, olha, a saída é você fazer da FM uma AM”, no sentido de ser uma rádio falada. Eu achei uma ideia ótima, então eu comecei, inicialmente, fazendo apenas um programa de rádio, era eu mesmo que fazia, sem dizer que era eu que estava falando, e tinha uma pessoa que lia as notícias e eu comentava. Então daí surgiu a ideia aqui na Bahia de ter um âncora. E aí depois eu comecei a me identificar, dizer quem eu era, e aí de um programa passou para dois, três, e nós avançamos. Foi quando os meus filhos Mariana e Chico vieram trabalhar aqui comigo, e começaram então a transformar a maior parte do tempo da rádio numa rádio falada, criando outros programas e tudo. E aí deu muito certo. Demorou muito tempo, claro, são 15 anos que eu estou no ar. Demorou para as pessoas se identificarem, no início teve muita restrição porque diziam “ah, você está dando opinião”. Sim, eu estou dando a minha opinião, meu nome, e dando a minha cara a tapa, dando espaço inclusive para as pessoas entrarem no ar, que era uma coisa que até hoje existe. Então criou-se o hábito, depois de muito tempo, e com a vinda definitiva de Chico praqui em que ele assumiu uma parcela mais importante da administração foi possível a gente fazer a revista, expandir para o jornal, depois para a rádio AM, para a TV Metrópole ainda, dentro da internet, e a ideia da gente inclusive é que a gente venha para um canal aberto na televisão. Então eu acho que é uma forma inclusive que a gente pode contribuir para a política. Quer dizer, fazer política sem ser política partidária e ajudar o surgimento de outros canais de comunicação. É uma forma de ventilar a política, porque durante muito tempo em função do regime fechado, primeiro da ditadura e depois do predomínio do Carlismo durante muito tempo e de uma forma muito autoritária, as pessoas se desabituaram de discutir política livremente. É capaz de você ter uma opinião e eu ter outra. E daí?

 

BN – Ainda mais agora com censura da Justiça a jornais, como a A Tarde.

 

MKPois é, rapaz. O A Tarde não pode dizer o nome de um desembargador. Que história é essa? Antigamente, na Bahia, há até pouco tempo, quando se tinha uma opinião contrária, ao invés de discutir com você, dizia-se “eu sou contra você por isto, isto e isto”. E aí me respondiam: “ah, rapaz, mas quem é você? Lave a sua boca antes de falar comigo. Você é corno, você é viado, ladrão”. Ô, que discussão é essa? Então eu acho que o sucesso desse grupo foi em função disso aí.


BN – Você acha que ainda há alguma resistência do público mesmo diante dos índices altos de audiência que a Metrópole tem?

 

MK – Aceita, sim. Claro que tem uma ou outra pessoa que ainda é raivosa. Eu tenho uns ouvintes ainda, e alguns que participam do meu blog, que são raivosos. Eles dizem que eu sou vendido a isso e aquilo, seu patrão é esse e aquele. Já me chamaram de carlista, petista, waldirista, wagnerista. Eu digo então que sou tudo isso e muito mais. Eu não sou é nada (risos).

 

BN – A Revista da Metrópole gozava de boa reputação entre o público, mas desapareceu de repente, ficando o Jornal da Metrópole no lugar dela. Por que isso aconteceu? Era um produto à frente do seu tempo ou um passo maior que as pernas?

 

MK – Não, foi do ponto de vista comercial, mesmo. Ela era inviável comercialmente. Então, nós seguramos com o resultado da rádio, por exemplo, durante um tempo, mas depois a gente viu que, se (a revista) ficasse, ia (embora) ela e ia a rádio. É um problema comercial. Ela era um produto caro e o mercado baiano é um mercado muito pobre. Eu tive conhecimento essa semana de que Salvador é uma das cidades mais pobres do nordeste. Mais pobre que Salvador somente Teresina (PI). E eu estava conversando com um empresário e ele estava me dizendo que ele é dono de um restaurante expresso, destes que tem em shopping, e um grandão. Ele me disse que o expresso fatura igual ao grandão. E eu perguntei a ele por que. E ele me disse que é porque, no expresso, se come com R$ 20 e no grandão, não. Então esta é uma cidade muito pobre e está muito empobrecida ainda. O turismo está caindo estupidamente aqui – as pessoas não vão dizer isso nunca, mas tudo bem. Esta história de dizer que está vindo mais turista americano pra cá, isso é conversa mole. Estão vindo mais americanos porque agora a America Airlines tem um voo diário praqui. Então é claro que tem que vir mais do que vinha antes, mas o que vem é uma porcaria. Você tem o Pelourinho acabado, a Orla de Salvador acabada. Então você vem fazer turismo aqui pra fazer o que? Os hotéis não têm renovação nenhuma. Esta cidade e o estado da Bahia estão vivendo um período de grande decadência. Mas tem gente que acha que não. Quem sou eu pra dizer, não é?

 


"Viu? E cadê a foto? Alguém registrou? Se não tem registro, então é invencionice. Eu quero ver é foto, essa história é imaginação"

 

BN – E Salvador hoje é mais difícil de governar do que era na época em que você foi prefeito?

 

MK – Muito mais. Salvador está muito mais empobrecida. Faz oito meses que eu me operei e fiquei muito tempo sem sair, andando pouco, mas eu tenho saído muito agora e eu estou impressionado com a pobreza que está dominando Salvador. Isto é visível nas ruas, nas lojas, nas pessoas, nas roupas, tudo. A cidade está parecendo uma cidade indiana. Está muito pobre. Então isto dificulta bastante o governo. Depois eu acho que não há uma visão da cidade da importância que Salvador realmente tem. Você vê que o governo da Bahia não tem nenhum projeto importante para Salvador. Tem a Via Expressa, que é um projeto do Governo Federal, que está andando a passo de cágado. Tem o projeto de se fazer alguma coisa para a Copa, mas a gente não sabe o que nem para quando. Há um projeto de fazer um sistema de transporte de massa, mas também não se sabe como vai ser feito. Então não há uma visão da grandeza que é Salvador sob todos os aspectos, inclusive o histórico, do patrimônio, e tudo o que isto representa. Então as equipes, tanto do governo quanto da prefeitura, são de um modo geral medíocres. Não têm a visão da importância de Salvador e, portanto, a cidade está aí do jeito que está, se acabando, eu acho.

 

BN – Você acha que no caso da prefeitura há uma preocupação maior em fazer política do que verdadeiramente resolver os problemas da cidade?

 

MK – Eu não sei se é política, não. Acho que nem política eles estão sabendo fazer direito. Acho que é a falta de uma visão maior. Até que o prefeito, agora, está até começando a mostrar algumas idéias. Eu espero que vá para frente, que ele possa trazer uns projetos interessantes para a cidade, mas acho que a "mediocrização" que tomou conta. Não há um estímulo, nem da prefeitura e nem do governo do estado. Eles vêem a cidade de uma forma muito minúscula. Então, fica muito difícil!

 

BN – E o que era muito difícil de fazer naquela época que não necessariamente é tanto assim hoje? O que poderia ter sido feito na administração Mário Kertész, mas que não foi possível?

 

MK – Ah, o transporte de massa. Se eu tivesse conseguido, ou se o meu sucessor... O problema é que as pessoas se esquecem que eu fui prefeito de Salvador por apenas três anos, que o meu mandato não foi completo, normal, de quatro anos com direito a reeleição. Não havia nem eleição. Então, se eu tivesse conseguido avançar no transporte de massa, o que na hora H acabou impedindo foi a moratória decretada pelo presidente José Sarney. Com ela, os empréstimos que nós tínhamos conseguido do governo inglês para a implantação do sistema de transporte foram suspensos. E se o prefeito que me seguiu, Fernando José, depois Lídice da Mata, depois Imbassahy, tivessem dado seguimento a essa política, a cidade seria completamente diferente hoje. Eu não tenho a menor dúvida. Seria uma cidade muito melhor e muito mais importante no ponto de vista do transporte de massa, inclusive chegando ao centro da cidade. Agora acontece que Fernando José foi um prefeito medíocre, Lídice idem. Imbassahy foi um bom prefeito, mas no sentido de conservar bem a cidade, mas não teve nenhum projeto grande. Ele também não tinha uma visão grande da cidade. E João Henrique idem.

 

BN – Essa frustração, ou mágoa, seria de não ter feito especificamente o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT)?

 

MK – Mágoa, não. Eu não tenho mágoa nenhuma, não. Mas seria a grande vontade de fazer e não ter conseguido. Porque eu tenho certeza absoluta de que se nós tivéssemos conseguido implantar (o VLT), Salvador seria completamente diferente.

 

BN – Em uma entrevista ao antigo jornal Bahia Notícias, você disse que o maior erro político de sua carreira tinha sido apoiar a candidatura de Fernando José para a sua sucessão. Confirma ainda hoje esta opinião?

 

MK - Sem dúvida. Claro, porque ele foi um prefeito medíocre, cercado de pessoas da pior qualidade. O mentor dele, durante algum tempo, foi Pedro Irujo, que tem uma visão extrativista da política, ele só queria extrair. E depois um empresário que passou a ser o mentor dele foi um desastre. O apoio naquela época foi porque eu não tinha alternativa. Eu fui encostado na parede pelo governador Waldir Pires. Eu tentei de todas as maneiras ter um candidato em comum acordo com o governador, mas Waldir Pires fez tudo o que pode pára me destruir politicamente. Ele tentou me destruir mais até do que o próprio Antônio Carlos Magalhães. E ele fugia e não chegou a acordo nenhum. Ele queria que eu aceitasse um nome que ele trouxesse de cima para baixo, mas que não tinha nada a ver com a cidade e comigo. Ele propôs Rômulo Almeida, que RA uma grande figura, muito meu amigo, mas que era inviável eleitoralmente, e Sérgio Gaudenzi, que era ligado a ele, mas que não tinha nenhuma ligação comigo. Acontece que a sucessão era minha e o comando do PMDB municipal era meu. Então ele não deixou alternativa. Ele vetou a candidatura de Gilberto Gil. Tanto que ele fez até uma música, “Pode, Waldir?”, que saiu na Globo e Waldir ficou doido na época. Então eu fiquei sem alternativa e tive que ir com Fernando José, o que eu lamento profundamente até hoje, claro.

 


"Não, Dilma, não. Eu posso até mudar de idéia, mas acho ela uma pessoa antipática, autoritária"

 

BN – Falando de Waldir, o lema do governo dele era a mudança, exatamente como é hoje, de certa forma, o de Jaques Wagner. Você vê semelhanças entre as duas gestões?

 

MK – Vejo. Vejo na pouca velocidade. Em empurrar o problema com a barriga para ver se resolve. Wagner mesmo já está com dois anos e oito meses de governo e não mudou quase ninguém da equipe. Você não pode conceber que uma equipe de governo que você monta no início, que foi testada, você não vá fazer mudança, que o governador não mude nada. Eu não sei se ele será reeleito. Ele pode, tem muitas chances, mas não é uma coisa garantida.

 

BN – E a reeleição de Wagner, na sua opinião, dependeria do que? Mais marketing ou uma coleção de ações políticas realmente contundentes? Porque, na recente eleição para prefeito, vimos um grande esquema midiático do PMDB para reeleger um João Henrique quase derrotado e com alto índice de rejeição.

 

MK – Mas João Henrique foi reeleito sim, com um grande esquema de marketing, mas também com muitas obras. E contou com opositores, com candidatos muito fracos, então facilitou. No caso de Wagner, eu acho que ele precisaria dar uma acelerada no governo dele, que é possível que ele dê, eu não duvido não.

 

BN – ACM foi realmente quem iniciou a sua carreira política ou já havia algum desejo de sua parte de entrar para este mundo?

 

MK – Nunca tive esta vontade em mente. Eu comecei a trabalhar e conheci Antônio Carlos Magalhães em 1967, quando ele foi ser prefeito de Salvador, através de um professor meu da Escola de Administração, o Luiz Sande, que foi convidado para ser secretário da Fazenda da Prefeitura. E eu já trabalhava com Sande antes de me formar, ele me chamou para trabalhar com ele na Secretaria de Indústria e Comércio no governo de Lomanto Júnior. E aí, quando Sande foi convidado por Antônio Carlos para ser secretário da Fazenda, Antônio Carlos foi no Banco do Brasil e perguntou quem era a li um sujeito bom em finanças, sério, honesto e tal, e aí indicaram Sande. Sande foi e tal e me chamou para ser chefe de gabinete. Eu fui. E aí eu conheci Antônio Carlos, e quando Sande viajava, eu ficava como secretário e aí comecei a ter uma relação com ele. Em 1971, 1970, Antônio Carlos foi escolhido pelo governo militar para ser governador da Bahia, sucedendo a Luiz Viana. Ele conseguiu então me nomear para a presidente da Fundação de Planejamento, eu tinha 25 anos de idade. Isso para armar o planejamento do governo dele porque, durante a prefeitura, ele começou a gostar da minha forma de trabalhar. E aí eu fui para a Fundação de Planejamento e aí no início do governo dele, em 1971, fui logo para ser secretário de Planejamento. Isso aos 26 anos de idade.

 


"Eu disse a ele (ACM) “apóie Clériston e eu fico na prefeitura até o fim”. Mas, ele disse “não, seja deputado federal”. Respondi que não queria ser"

 

BN – E você acha que estava “verde” naquela época para fazer esse trabalho? Foi uma aposta acima do que você estava preparado?

 

MK – Foi, foi sim, porque eu era muito jovem, mas é uma coisa da audácia de Antônio Carlos e que eu correspondi, modéstia à parte. Ele gostou. Tanto que quando acabou o governo eu fui para a França fazer uma pós-graduação e ele saiu do governo em março e, em novembro, ele foi ser presidente da Eletrobrás e moveu céus e terra para eu interromper meus estudos na França e voltar para o Rio de Janeiro, na Eletrobrás, e eu voltei. E ficamos quatro anos na Eletrobrás e ele veio para Salvador escolhido governador da Bahia pela segunda vez. E perguntou se eu queria vir para a Bahia. Eu disse que não. Estava muito bem na Eletrobrás, gostava de lá. E a minha família estava bem lá no Rio. Então fiquei clã. Então me lembro de uma noite em que eu estava em casa e liga para mim Mozart Santos, jornalista. E aí ele me diz “você vai ser prefeito de Salvador”. Eu disse “eu?! Você é maluco?”. “Não, Antônio Carlos acabou de indicar isso”. Eu não estava sabendo, não. Daqui a pouco liga o próprio dando risada e dizendo que eu ia ser o prefeito de Salvador. “Mas, por que?”. Então ele disse “olhe, o maior sonho de Jorge Calmon é ser prefeito de Salvador e eu não vou nomear ele nunca. E para evitar logo que fiquem as pressões em cima de mim, eu soltei logo o seu nome, porque é quem eu quero que seja prefeito". E aí eu vim ser prefeito de Salvador. Até então eu nunca havia exercido nenhum cargo mais político e aí vim ter contato com a Câmara de Vereadores, um pouco mais com a população, e me dei bem. Foi ótimo. E Antônio Carlos começou a colocar na minha cabeça a ideia de ser o candidato dele ao governo da Bahia. Aí eu disse que ele estava maluco e ele retrucou dizendo “vai ser você, vai ser você”. E aí foi rolando até que ele mudou de ideia e resolveu que o candidato dele seria Clériston Andrade. Então várias vezes eu falei para ele “governador, eu sei que o senhor já mudou de ideia, que quer Clériston. Que besteira, não tem problema fazer isso por minha causa”. Mas ele sempre foi incapaz de me dizer isso diretamente. Nós tínhamos uma amizade muito sólida,mas Antônio Carlos era um sujeito que tinha uma insegurança que não tinha o menor sentido, porque ele estava muito acima de todo mundo na política. Mas aí acabamos rompendo, ele me demitiu, e aí um ano depois Eliana (Kertész, então mulher de Mário) foi eleita vereadora com 18% dos votos da capital, uma coisa que até hoje ninguém chegou perto. E em 85, as eleições para prefeito das capitais voltaram e eu fui eleito com quase 70% dos votos. E foi assim que começou a minha carreira política, que acabou por se encerrar logo depois.

 

BN – Como se deu exatamente este rompimento entre você e ACM?

 

MK – Foi por causa da dificuldade dele me dizer que ele queria Clériston e não a mim. Eu disse a ele “apóie Clériston e eu fico na prefeitura até o fim”. Mas, ele disse “não, seja deputado federal”. Respondi que não queria ser.

 

BN – Era uma dificuldade de permitir que as pessoas argumentassem com ele?

 

MK – Não. Comigo ele gostava. Eu acho que o caso era pessoal comigo. Ele cansou de me dizer que sabia que eu era mais competente que Clériston, que seria um governador muito melhor do que ele, mas na insegurança dele ele achava que eu sendo governador seria tão grande que iria obscurecer ele, o que não era verdade.

 

BN – Especialmente porque, teoricamente, você não tinha talento para a política.

 

MK – Mas ele achava que eu tinha. Aí é que está. Ele achava que eu tinha talento demais. Mas eu nunca pensei que pudesse fazer sombra a ele. Eu nem me preocupava, eu jamais pensaria em entrar em uma disputa com ele porque eu iria disputar pra que? Ele tinha o campo dele, eu tinha o meu. Agora, ele achava que eu era talentoso demais para a política, o problema dele era esse mesmo. E tinha a questão da comunicação. Eu falava fácil, ia para a televisão, conquistava as pessoas, e ele achava que isso era um perigo.

 

BN – E a reaproximação ocorreu por uma questão de coração-mole por parte dele?

 

MK – Veja bem, nós rompemos em 1981 e voltei a falar com ele em 1988. E foi uma briga danada, mas depois ele começou a amolecer, e foi através de um querido amigo meu, também já falecido, Jonival Lucas, deputado federal, que nós nos reaproximamos. E foi inclusive na casa dele em Brasília que nós nos reaproximamos. Foi um encontro emocionante, ele chorou, eu também. Eu gostava muito dele, sabe? A briga era braba e tudo, mas eu gostava muito de Antônio Carlos. Eu sinto muita saudade dele até hoje. Na época do hospital, perto da morte dele, eu saí daqui da Bahia só para ir me despedir dele. Foi muito emocionante, nós choramos. Ele sabia que era a última vez que a gente se via. E morreu poucos dias depois. Foi muito emocionante, foi duro mesmo. Eu gosto dele, acho que ele tem muita coisa boa, muita coisa que não prestava. Acho que ele foi importantíssimo para a Bahia. Acho uma besteira as pessoas só verem o lado negativo. Não é verdade. E ele, se estivesse vivo e forte, o nosso querido governador estaria sofrendo muito, porque ele era um opositor ferrenho. A oposição aqui na Bahia é muito fraca, muito fraca. Tanto o prefeito como o governador têm uma oposição fraca. Como Lula, também. A oposição virou governo e quem era governo não está sabendo ser oposição.

 


"Eu gosto dele (Imbassahy). Mas teve esses episódios em que a gente teve esse arranca-rabo. Foi uma coisa política. No plano pessoal, eu continuo gostando dele"


BN – Você voltaria à carreira política?

 

MK – De jeito nenhum. Política eu faço todo dia. Mas partidária, não. Eu fico brincando aí no rádio dizendo que só se fosse para ser Senador nomeado, como Jutahy Magalhães foi por oito anos. Senador biônico.

 

BN – Você também foi prefeito biônico. Acha que isto é uma coisa ruim na biografia política de qualquer pessoa?

 

MK – Péssima. Ah, não existe isso! Todo mundo tem que ser eleito. Não existe isso de ser nomeado para mais nada, graças a Deus. Eu digo que eu fui um prefeito nomeado, e ainda digo mais, digo que fui biônico. O pessoal não gosta de dizer “filhote da ditadura”? Ora, ora, ora...

 

BN – E você largou sua carreira política exatamente porque não queria mais ser associado a este tipo de coisa?

 

MK – Não, eu não queria mais nada disso pra mim. Resolvi fazer um outro tipo de atividade e eu acho que hoje eu faço uma política muito melhor, mais útil e mais saudável, que é a política de ajudar as pessoas. É um clima mais democrático. Eu acho que é legal, eu estou muito feliz com isso.

 

BN – Inclusive uma coisa que você fez politicamente foi dar apoio aberto a Lula na época da eleição. Se arrepende disto de alguma forma?

 

MK – De jeito nenhum. Nem um pouco. Eu inclusive saí aqui da Bahia e fui ser voluntário trabalhando na coordenação do programa de rádio dele. Inclusive apresentei os últimos programas de televisão dele. Quiseram me pagar e eu não recebi um centavo. Não me arrependo nem um pouco, acho que Lula, com todos alguns defeitos que ele tem, vai ser um presidente que marcou o Brasil, não tenho nenhum arrependimento. Se me chamassem eu ia de novo.

 

BN – Iria fazer a campanha de Dilma Rousseff?

 

MK – Não, Dilma, não. Eu posso até mudar de idéia, mas acho ela uma pessoa antipática, autoritária. E acho também que ela faz parte de um projeto de Lula para voltar à presidência da República. Ela não consegue meu voto, quanto mais o meu trabalho. Agora, pode ser que ela mude não é? Conhecendo ela melhor. Mas acho difícil. Eu não votaria nela, não.

 

BN – Sobre 2010, quais são suas preleções? Acha que Geddel Vieira Lima irá mesmo sair candidato ao governo e que as coisas vão se complicar para Wagner?

 

MK – Geddel sai, sim. Claro, porque Geddel saindo candidato ele tira um pedaço da turma que apoiou Wagner. Em tempo de televisão precioso que o PMDB tem, são quase seis minutos. Mais do que o PT e todo mundo que sempre apóia o PT junto. Tira uma parte do apoio que estava lá e então você vai ter provavelmente três candidatos: Wagner, Paulo Souto e Geddel. Eu acho que o governador de qualquer jeito vai para o segundo turno, então a briga vai ser quem vai com ele. E aquele que não for vai passar a ter um papel importantíssimo na decisão do segundo turno. Por exemplo: vai ter Wagner, e vamos dizer, Paulo Souto. Aí Geddel vai ter um papel fundamental. Vai ter Wagner e Geddel, e aí Paulo Souto vai ter um papel fundamental. Eu acho que não tem a menor chance dele ganhar no primeiro turno.

 

BN – Mas no segundo turno, quem teria a perder com estes candidatos que estariam de fora seria, teoricamente, apenas Wagner, concorda? Geddel não poderia aderir a Wagner porque assim estaria desdizendo o que disse para sair candidato ao governo. E Paulo Souto, democrata, jamais se aliaria aos petistas.

 

MK – Por isso que eu acho que o governador está agindo com muita cautela nesse rompimento com o PMDB, não é? O PMDB já disse mil vezes “não estou com você, temos candidato próprio” e o governador não demite ninguém, pelo menos até agora no horário desta conversa.

 


"Geddel sai, sim. Claro, porque Geddel saindo candidato ele tira um pedaço da turma que apoiou Wagner"

 

BN – O que foi, de verdade, aquela história entre você e Antônio Imbassahy (PSDB) na eleição para prefeito do ano passado, quando você mostrou o dedo médio para ele em sinal de ofensa em um debate na TV Aratu?

 

MK – Essa história de dedo foi ele que inventou, rapaz.

 

BN – Quem estava lá viu, inclusive o Bahia Notícias.

 

MK – Viu? E cadê a foto? Alguém registrou? Se não tem registro, então é invencionice. Eu quero ver é foto, essa história é imaginação. Eu gosto de Imbassahy, sempre me dei muito bem com ele. Agora achei que ele não deveria sair candidato, foi uma perda de tempo pó parte dele. O partido é fraquíssimo aqui em Salvador, não tinha a menor chance. Imbassahy foi um bom prefeito, eu acho, mas no sentido de trabalhar com um grande apoio do governo do estado, tanto de Paulo Souto quanto de César Borges, com ACM por trás, e mais também naquele sentido de conservação da cidade, mas sem nenhum projeto de grande imaginação. Então eu achava que ele não era um bom candidato naquele momento. Inclusive eu disse a Wagner no ar e também pessoalmente com o governador: “não apóie Imbassahy porque o PSDB não vai lhe apoiar em 2010 e nem vai apoiar o candidato de Lula na presidência da República”. Aí Wagner, teimosíssimo, Achou que não, que tinha três candidatos, todo mundo da base de apoio, e aí depois, quando o PDSB rompeu, Wagner reclamou dizendo que ninguém avisou nada a ele, que se sentia traído.

 

BN – Traído pelo PSDB?

MK - Eu tenho gravação aqui, eu dizendo isso a ele várias vezes. Aí achei, inclusive, depois, estava aqui conversando e pensei que nunca falei nada contra a mulher de Imbassahy. Pelo amor de Deus. Primeiro eu tenho respeito por todas as famílias, e ainda mais por Márcia. Eu tive poucos encontros com ela na vida, mas ela sempre foi muito gentil comigo e eu com ela. Mas Imbassahy achou que eu tivesse feito alguma coisa contra a mulher dele e foi na Justiça proibir a gente aqui de falar o nome dele. Eu achei que foi uma besteirada que ele fez, uma coisa assim sem sentido, uma censura à imprensa completamente fora de sentido e fiquei profundamente irritado com isso. E no dia do debate, por coincidência e azar dele, saiu eu para fazer uma pergunta para ele. E ele estava o tempo todo, tanto na televisão quanto no rádio e no dia do debate, dizendo que ele tinha sido eleito três vezes o melhor prefeito do Brasil. E aí eu disse a ele “você está mentindo, porque se o Brasil tem 4512 prefeitos, você faz uma pesquisa entre 10 prefeitos, você não pode dizer que o melhor entre os 10 é o melhor entre os 4512, é uma questão aritmética”. Então disse a ele que ele estava mentindo. Aí ele se irritou e começou a falar da família e a puxar um lado que não faz o menor sentido. Pra mim, acho que foi algum espírito santo de orelha que disse isso a ele e aí caiu na besteira de dizer que tinha uma família bem formada e não sei o que, como se eu não tivesse. Pô, bicho, eu tenho cinco filhos e tenho uma relação com eles fantástica, quatro netos maravilhosos, cinco ex-mulheres com quem eu me dou muito bem. Quer família melhor que a minha? Que coisa besta! E vem com esse argumento bobão. Então eu acho que ele pisou na bola naquele momento. Eu gosto de Imbassahy, sinceramente. Esse negócio de pedir a censura da rádio. Que tipo de argumento é esse? Um homem inteligente como ele. Mas ele pensou – acho que isso é coisa do marqueteiro dele, que esse tipo de coisa ia sensibilizar e ele ia sair como vítima. Não saiu, não é? O resultado eleitoral dele foi terrível. Primeiro candidato a senador: tomou um chumbo. Depois candidato a prefeito, território dele: tomou um chumbo. Ele não era dono desse cacife eleitoral todo para sai candidato assim e achar que conseguiria alguma coisa. coisa.

 

BN – De lá para cá, vocês voltaram a se falar?

 

MK – Nunca mais. Ele teve a gentileza ano passado, fato que me sensibilizou muito, de quando eu fui operado ele ligar dos Estados Unidos para o meu amigo Edmon Lucas para saber como é que eu estava, desejar melhoras. Se encontrar ele, tratarei ele muito bem, e tenho certeza que ele fará a mesma coisa, mas não tive a oportunidade, não. Eu gosto dele. Mas teve esses episódios em que a gente teve esse arranca-rabo. Foi uma coisa política. No plano pessoal, eu continuo gostando dele.