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Entrevistas

Entrevista

Alexandre Raposo fala sobre as metas da Record e comenta a relação com afiliadas - 26/07/2009

Por Daniel Pinto

Fotos: Max Haack/Bahia Notícias
“A igreja é um anunciante, como Bradesco, Bom Preço, Cesta do Povo, Casas Bahia e tantos outros também são”

Por Daniel Pinto

Bahia Notícias - A Record estabeleceu uma meta para se tornar a maior e mais influente rede de TV do Brasil. O que está sendo feito para alcançar esse objetivo e em quanto tempo esse “sonho” pode se tornar realidade?

Alexandre Raposo - Temos uma história de 19 anos com essa nova gestão. A Record era uma emissora local de São Paulo. A partir do momento que Edir Macedo adquiriu, ela foi transformada e tomou todo o território nacional. Hoje, fomos além e saímos dos limites do Brasil e já atingimos 150 países. Quando a Record se espalhou pelo país nós podemos construir uma grade competitiva. Para isso, foi necessário treinamento, investimento em infra-estrutura e a contratação de grandes profissionais. Nasceu uma grade focada no pensamento popular. A Record inovou, por exemplo, com o Hoje em Dia e com um jornalismo mais descontraído, onde os apresentadores não são engessados e podem conversar um com o outro. Somos a TV com o maior número de reality shows no Brasil. Entretanto, o mais importante é estar próximo das pessoas, da família. A Record tem uma grande preocupação com o ser humano.

BN - Raposo, você não falou nada sobre o prazo para atingir a liderança.

AR - Imagino que entre cinco e 10 anos. É difícil definir um prazo quando você depende de um terceiro elemento, que é o espectador. Houve uma época no Brasil em que havia uma unanimidade. Existia apenas um veículo. Hoje, essa empresa detém apenas 45% da audiência. O que significa dizer que 55% dos brasileiros, a maioria da população, fez outra escolha. Isso demonstra que há uma curva de mudança.

BN - Como a crise mundial afetou a vida financeira e administrativa da Record?

AR - Temos um projeto de reinvestimento contínuo. Quando assumi a emissora, o dono me disse: “eu acredito muito no Brasil, acredito no meu povo. E não quero lucro na Record. Quero investir todo o lucro na própria empresa”.

BN - Uma decisão ousada, mostra desprendimento.

AR - Ele (Edir Macedo) não vive disso. Ele é autor, escritor, pregador. Ele não vive da televisão. Foi uma decisão ousada e fundamental para o desenvolvimento da emissora. Essa foi a razão pela qual conseguimos elevar a Record a outro patamar. Com a segurança do investimento total foi possível desenvolver um projeto de longo prazo.


“Existia apenas um veículo. Hoje, essa empresa detém apenas 45% da audiência. O que significa dizer que 55% dos brasileiros, a maioria da população, fez outra escolha”


BN - E o plano de enfretamento à crise?

AR - E então, o que nós fizemos? Este ano nós reduzimos em 90% a taxa de lucro para garantir a manutenção dos empregos. Se nós trabalhássemos com a margem de lucro do ano passado, ainda que ele seja revestido, talvez no primeiro trimestre tivéssemos demissões. Era tudo que não queríamos. Realmente o primeiro trimestre não foi nada primoroso. Crescemos, mas com taxas inferiores as do ano passado. Agora, que a crise começa a se enfraquecer, conseguimos manter um crescimento muito interessante. No planejamento, nós focamos na valorização do pessoal. Qualquer demissão gera uma reação em cadeia que interfere diretamente na economia do país. A Record se preocupou em manter os empregos com o objetivo de ajudar o país e manter o ciclo econômico ativo.

BN - Falando em investimento, verdade que o recém contratado apresentador Gugu Liberato vai ganhar R$ 3 milhões por mês? De onde vai sair essa receita?

AR - É, então, antes de te responder essa pergunta tenho que lhe dizer algo importante já que você usou a palavra chave “contratação”. Certa vez encontrei um ator do Rio de Janeiro e ele disse que estava desempregado. Ele me disse que trabalhou muitos anos numa emissora importante e que não tinha mais espaço porque estava um pouco velho. Então, falei para ele sobre o projeto da Record e logo em seguida ele veio trabalhar conosco. Depois disso, nós acabamos contratando 70 ou 80 atores que não tinham contrato de longo prazo com essa mesma emissora. Isso gerou uma concorrência no mercado e as oportunidades começaram a surgir. Além disso, também demos oportunidade para que todos pudessem crescer junto conosco. Só pra citar um exemplo, Brito Júnior que era um jornalista virou um apresentador. Ah! Celso Freitas que estava num canal fechado, passou a ancorar o principal jornal da Record.

BN - E o que você me diz sobre Gugu?

AR - Um grande apresentador!

BN - E quanto aos R$ 3 milhões?

AR - Esse quesito é interessante. A remuneração poderá realmente chegar até esse patamar.

BN - De onde vem essa receita?

AR - Vem do mercado! A expectativa é de que o programa fature até R$ 12 milhões. Uma parte dessa remuneração vem direto do cliente. Todo mundo sabe que Gugu foi o apresentador que mais fez ações de merchandising na televisão brasileira. Só o cachê garante uma remuneração bastante interessante. Além disso, ele tem um vencimento fixo e outro variável por audiência. Ele pode chegar até os R$ 3 milhões, que é um número inferior ao pago para alguns apresentadores pela nossa principal concorrente.



“A Record se preocupou em manter os empregos com o objetivo de ajudar o país e manter o ciclo econômico ativo”

BN - Tem mais alguma contratação desse peso em vista?

AR - Não. Neste momento, não estamos focados em outros apresentadores. Já temos uma grade bem estabelecida.

BN - Raposo, as TVs são concessões públicas, mas ainda não há uma consciência por parte dos empresários e principalmente por parte dos telespectadores de que as emissoras também possuem um compromisso social. Como a rede a qual o Sr. preside lida com questões relacionadas ao interesse social?

AR - Daniel, acho que não podemos misturar as coisas. O fato de ser concessão não impõe obrigatoriedade do social, salvo o que está na lei, que é garantir programas educacionais, espaço a cultura, pluralidade partidária e etc. Um veículo de comunicação tem que fazer muito mais do que isso. Nem sempre é preciso investir economicamente, mas, sim, fomentar através de ações televisivas. Podemos citar a seca que atingiu o nordeste, em especial a Bahia e a região de Irecê. Foi lá que com a ajuda do Marcelo Crivela e da Igreja Universal nós construímos a fazenda Canaã. Recentemente houve aquela tragédia em Santa Catarina. Além de fazer a campanha para doação de roupa e comida, nós conseguimos arrecadar acho que mais de R$ 10 milhões que estão sendo usados na construção de casas populares. Te pergunto: essa é uma obrigação social do veículo? Não! Mas, esse sentimento de solidariedade, essa preocupação com o Brasil, é uma característica da Record.

BN - Agora, uma questão relacionada à gestão da empresa: como é a relação da Record nacional com as emissoras afiliadas de todo o Brasil. Há um controle na programação? Há algum tipo de interação econômica? 

AR - Bom, existe um escopo básico da relação comercial em que cada um fica com uma parte do lucro independente de para aonde ele vá. Uma parte desse dinheiro deve ser garantida em melhoria de sinal, investimento em pessoal e expansão de cobertura. Por isso, nós demos um grande salto para se tornar uma rede. Do ponto de vista da grade de programação, não existe um controle, mas, sim, uma orientação técnica de qualidade. Isso é supervisionado. Primeiro, padrão de independência do jornalismo. Depois, qualidade de áudio e vídeo.

BN - Quando a TV Itapoan vai operar em High Definition (HDTV) aqui na Bahia?

AR - A obra já está sendo executada e acredito que no prazo de 60 dias.

BN - Quais critérios foram avaliados na escolha da TV Itapoan como sede da Record News no Nordeste?

AR - Foi a qualidade! O baiano além de ter muita disposição, tem muita criatividade e qualidade. Isso nos proporcionou uma escolha fácil.



“A expectativa é de que o programa fature até R$ 12 milhões”


BN - Então, podemos falar em fragilidade das demais afiliadas na região?

AR - De forma alguma! Os nossos vizinhos não tem a mesma infra-estrutura. Por exemplo, Sergipe é uma bela emissora, mas não tem a mesma estrutura. Alagoas também não. Pernambuco e Ceará da mesma forma. Agora, que Fortaleza começou a evoluir neste aspecto. Por isso, ficou fácil escolher a Bahia, até pela sinergia com o jornalismo de São Paulo.

BN - Por falar nisso, como tem sido a aceitação da Record News por parte do público e do mercado publicitário?

AR - Olha, a aceitação de público foi muito interessante. Mas, no primeiro ano, o mercado foi muito difícil porque tudo o que é novo gera certa resistência. Já no segundo ano começamos a alcançar nossas metas de crescimento e faturamento, o que nos proporcionou uma expansão no sinal e na qualidade dos profissionais. É bom frisar que a Record News está em sintonia com a Record. Assim, nós aproveitamos uma série de matérias que não vão ao ar. A proposta da News é justamente essa, dar espaço para tudo o que foi produzido e democratizar a informação para todos. Um canal com qualidade de TV a cabo, mas aberto e de graça.

BN - Raposo, pelo visto, a Record tem a preocupação de que a emissora não seja usada como plataforma política. Aqui em Salvador, por exemplo, a Record foi forçada a dar uma licença ao apresentador Raimundo Varela, que entrou nas campanhas de alguns candidatos. Queria que o Sr. falasse um pouco sobre essa decisão, principalmente se a postura política do âncora do Balanço Geral interferiu na relação dele com a empresa.

AR - Não interferiu na relação com a empresa porque a decisão partiu dele. Aliás, destaco que foi uma postura muito coerente. Qualquer funcionário da Record tem liberdade de escolha, isso é garantido de forma contratual. Num momento como aquele durante um período eleitoral, se ele decidiu entrar na campanha nada mais justo do que se afastar do Balanço Geral, já que, sem dúvida alguma, ele exerce grande influência entre as pessoas que acompanham o trabalho dele e o vêem como uma referência. No Brasil existe um equivoco. O médico pode ser político, o advogado também, o metalúrgico pode até ser presidente, mas o jornalista e apresentador não. Por que o comunicador não pode fazer política? Um grande exemplo de democracia é os EUA, onde as pessoas podem ir até a televisão, pedir votos, debater de forma livre sem uma lei eleitoral retrograda. Só lembrando que a lei eleitoral é criada pelos próprios políticos.

BN - Mas, nos EUA as emissoras podem inclusive tomar partido de um candidato e fazer até campanha. O Sr. acha que o Brasil está preparado para adotar esse modelo?

AR - No Brasil nem tanto. Acho que não seria o momento. O Brasil não pode dar esse passo democrático sem o esclarecimento de uma boa parte da população. Nessas condições, ficaria fácil manipular alguns eleitores. Entretanto, acredito que o debate precisa ser mais amplo, mais livre. Imagine só que se um cara que tem uma contribuição social, que tem uma história no país, vire candidato a deputado federal. Não posso entrevistá-lo se não terei que entrevistar todos os milhares de outros que também estão na disputa. Poxa, a internet também precisa de mais liberdade. Daniel, a decisão do Varela foi muito coerente e louvável.

BN - Presidente, como é a relação da Record com o governo federal e da TV Itapoan com o governo Wagner?

AR - Em geral, a nossa relação com os governos é bastante natural. Aqui o governo tem espaço para falar e para ser criticado. A prioridade é o controle e o bem-estar da obra e da gestão pública. Nossa relação é muito transparente. Não diria que ele é de proximidade porque um veículo não pode ser próximo de nenhum governo. O veículo precisa ser independente. Agora, tenho que afirmar o seguinte: esse governo da Bahia é mais plural. Em outros momentos nós sofremos muita pressão.



“Se ele decidiu entrar na campanha nada mais justo do que se afastar do Balanço Geral”

BN - De que natureza?

AR - Pressão para evitar determinados tipos de notícia, para exercer algum controle.

BN - Houve boicote de anúncio?

AR - Não, nunca sofremos nada desta natureza. Mas, temos aí o caso do A Tarde, que foi boicotado por assumir uma postura independente e depois se tornou oposição de vez, o que acho equivocado. Um veículo tem que ser plenamente independente.

BN - Como o Sr. está acompanhando o processo de sucessão ao presidente Lula? Quem vai ser melhor para o Brasil: Dilma, Serra ou uma terceira força política?

AR - Neste momento, só vejo duas opções. Não acredito em outro nome forte além de Dilma e Serra. Eles tem perfis bem parecidos, apesar da origem política. Porém, acho que Dilma tem a grande vantagem de estar num governo que se preocupou bastante com o povo, com questões sociais. Pela primeira vez tivemos um governo voltado para o povo. Se bem que, por uma ótica, ele é criticado de ser assistencialista. Mas, a gente sabe que em alguns lugares as pessoas não conseguem produzir nada e o Bolsa Família é o único recurso. Acho que os projetos assistencialistas precisam buscar a sustentabilidade. O governo precisa corrigir isso, mas não podem acabar porque o Bolsa Família salvou milhares de pessoas que viviam abaixo da linha da miséria. Já o Serra participou de um governo que não esteve tão próximo do povo, mas desenvolveu esse modelo econômico que nós temos hoje, que foi seguido inclusive pelo próprio presidente Lula. O que eu penso é o seguinte: o governo Lula conseguiu fazer muito mais do que o PSDB e Fernando Henrique. Mas, não podemos atribuir isso ao Serra, embora ele tenha sido ministro de FHC. Mesmo assim, Serra foi o melhor ministro da Saúde, além de administrar São Paulo muito bem. Se querem continuidade, ministra Dilma; se alguém quer algo novo sem se arriscar muito, Serra.

BN - Não posso deixar de falar na relação da Igreja Universal do Reino de Deus com a emissora. Até que ponto os interesses da igreja interferem na programação da emissora? Também é verdade que os horários vendidos à IURD (principalmente na madrugada) estão bem acima do valor de mercado e que essa é a principal fonte de receita da Record?

AR - Qual o veículo que você trabalha?

Daniel Pinto - Bahia Notícias.

AR - Quanto o Bahia Notícias interfere em sua vida?

Daniel Pinto - Interfere bastante, até quando não estou trabalhando. Costumo dizer que sou jornalista em tempo integral.


AR - Mas, a empresa toma decisões por você?

Daniel Pinto - É quase impossível me desvincular do site, mas assim já é demais! (risos)

AR - Exatamente! É isso que acontece na Record! A igreja é um anunciante, como o Bradesco, BomPreço, Cesta do Povo, Casas Bahia e tantos outros também são. Eles interferem na grade? De maneira alguma! Eles só interferem na qualidade da programação. Se eu não entregar qualidade para o cliente ele vai embora. Portanto, buscamos a qualidade acima de tudo. O nosso principal concorrente vem ao longo dos anos tentando fomentar uma história mais ou menos assim: “olha, alguém usa uma igreja para financiar um veículo, isso é errado”. Esse discurso só interessa ao nosso principal concorrente. É óbvio que se a Record cresce, alguém deixa de crescer ou então diminui o seu espaço no mercado. Entre Record e IURD não existe uma relação diferente que não a de anunciante.

BN - E o bispo Edir Macedo?

AR - Existe um nexo causal de porque o fundador da igreja é o dono da Record. É aí que surgem todos esse boatos e teorias da conspiração. Você sabe que depois de nós nasceu um novo mercado anunciante no Brasil. A Igreja Universal anuncia na Record, como compra horário na Rede TV, o bispo R.R Soares tem programa na Band, o SBT também tem programas deste segmento. Então, nasceu o mercado evangélico. A Record teve a iniciativa de se atualizar. Na madrugada você tem um número de telespectadores bem reduzido. Surgiu a idéia das igrejas neo-petencostais em buscar esses aflitos. Nós nos antecipamos e vendemos o horário. Mas, você que é um cara inteligente, sabe que a Globo transmite a missa do padre Marcelo. Não sei se é vendido. Mas, a celebração é exibida para todo o Brasil. Então, nasceu o mercado.



“Esse governo da Bahia é mais plural. Em outros momentos nós sofremos muita pressão”

BN - E quanto aos valores, Raposo, são realmente superfaturados?

AR - São valores de mercado, não tenha dúvida disso! Agora, nós temos algo que nenhum outro canal pode oferecer, que é a exclusividade e uma boa audiência. Só pra você ter idéia, o Fala que eu te escuto chega a ter 15 pontos de audiência.

BN - Mais do que o Vídeo Show.

AR - Quase isso (risos). Mas, a igreja nos paga um valor pela exclusividade. O que não significa dizer que os valores estão superfaturados ou acima do preço de mercado. O bacana dessa história toda é que você pega um horário que comercialmente não seria o melhor, acha um mercado e as igrejas que não são tributadas trazem esse recurso para a iniciativa privada e geram tributos para o governo e emprego para as pessoas.

BN - Esse segmento evangélico é a maior fonte de receita da Record?

AR - Não, não é! Apesar de ser um cliente muito importante, a nossa principal fonte de receita é o varejo. Os varejistas são os grandes anunciantes do Brasil.