Baiana diretora da Vogue é apontada como autora de episódios de abuso moral
Foto: Reprodução / Arquivo pessoal / Vogue Brasil

A jornalista baiana Daniela Falcão foi apontada como a responsável por episódios recorrentes de assedio moral na redação da Vogue Brasil. Nome à frente da Edições Globo Condé Nast, empresa que administra a revista de moda, a profissional seria, segundo funcionários ouvidos pelo site BuzzFeed News, uma versão abrasileirada da personagem Miranda, do filme "O Diabo Veste Prada".

 

Além da Vogue, desde 2017, Falcão é a responsável pelas revistas GQ, Glamour e Casa Vogue. Ela foi considerada, no mesmo ano uma das 500 pessoas mais importantes da moda mundial pelo site Business of Fashion. De acordo com a reportagem, pessoas ligadas à redação da Vogue afirmam que há uma anedota de que os banheiros da empresa são utilizados, por vezes, para chorar. 

 

Entre julho e agosto deste ano, 27 pessos foram ouvidas pelo site. Elas relataram situações de abuso dentro do ambiente de trabalho como gritos e xingamentos, além de terem trabalhado em jornadas de 24 horas ininterruptas antes do fechamento de cada edição. Outra queixa recorrente, segundo o BuzzFeed, é que colaboradores tinham de assumir funções profissionais que fugiam aos seus contratos sem receber nada por isso.

 

A rotina de assédios incluía ainda a avaliação das roupas das subordinadas de Daniela, contaram algumas das entrevistadas. “Que roupa é essa?!”, perguntou certa vez a diretora a uma das funcionárias. Uma ex-repórter chegou a escutar que não deveria usar gola alta por conta do tamanho de seus seios. 

 

Muitas vezes gritadas, as críticas e xingamentos seguiam pelo resto do dia, relatou uma ex-funcionária da empresa que trabalhava no departamento comercial. “Isso era institucionalizado: ou você aceita uma posição de sempre ela está certa, ou vai ser humilhado. Existem as humilhações simples, como quando ela vira e deixa você falando sozinho, e as mais diretas, como gritos em reuniões com clientes ou com o resto da equipe”. “Você entrava numa reunião sabia que alguém ia ouvir grito. Se era outra pessoa, era um alívio e dava graças a Deus que não foi com você”, afirmou uma ex-executiva.

 

Os relatos de assédio datam dos últimos 15 anos e são de pessoas em diversos cargos dentro da empresa, desde a estagiária, passando por prestadores de serviço e chegando até nomes importantes, como o da jornalista Mônica Salgado, que entrou na Vogue em 2007, foi uma das criadoras da Glamour brasileira e dirigiu a revista até 2017. De acordo com ela, mesmo havendo denúncias, era um esforço em vão, já que não havia nenhuma devolutiva para os casos comunicados aos recursos humanos.

 

QUEM É DANIELA FALCÃO
Soteropolitana, Daniela formou-se em jornalismo e mudou para São Paulo, onde trabalhou no jornalismo diário. Tem experiência como repórter de de rua, de economia e foi correspondente internacional da Folha de S.Paulo em Nova York.

 

Após sair da Folha, Falcão foi para Revista de Domingo do Jornal do Brasil. No veículo, atuou nas reportagens e editoriais de moda. Teve uma passagem pela revista da empresa de telefonia Oi e, no começo dos anos 2000, foi contratada para tocar a TPM, título feminino da editora Trip. Em 2005, Daniela foi convidada para substituir o escritor Ignácio de Loyola Brandão no comando da redação da Vogue.

 

Com uma postura centralizadora, funcionárias do grupo editorial responsável pela Vogue afirmam que não há uma página da revista que seja publicada sem que haja sua autorização. 

 

O QUE DIZEM OS CITADOS
O grupo Edições Globo Condé Nast foi procurado pela reportagem do BuzzFeed News e enviou nota em que afirma que “não toleramos comportamentos abusivos ou qualquer forma de assédio em nossas equipes” e completou dizendo que conta com um canal de Ouvidoria para o recebimento de denúncias, além de uma área de Compliance independente. A empresa não negou nem confirmou as alegações de abuso.

 

A empresa também não respondeu a nenhuma das alegações específicas de abuso, apesar de terem sido enviados detalhes dos casos mencionados.

 

A jornalista baiana Daniela Falcão também foi procurada pela reportagem desde a semana passada, mas preferiu não se manifestar publicamente.

 

O BuzzFeed News também procurou a Condé Nast nos Estados Unidos na quinta-feira (25). O grupo global, que detém 30% das Edições Globo Condé Nast no Brasil - o restante é de propriedade do Grupo Globo - respondeu as alegações dos ex-funcionários com a seguinte nota: 

 

“A Condé Nast é acionista minoritária em uma operação conjunta com o Grupo Globo no Brasil. Como acontece com todos os nossos parceiros de negócios e licenciados, trabalhamos com eles para ajudar a garantir que nossa força de trabalho global e padrões editoriais sejam mantidos, incluindo a adesão a um ambiente de trabalho sustentável que priorize a diversidade e a inclusão, o respeito e o bem-estar. Enquanto examinamos mais profundamente as operações de negócios no Brasil, continuaremos a instar o nosso parceiro à responsabilidade pela criação de um ambiente de excelência para nossos funcionários, o nosso público e os nossos clientes”.

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