Ildázio Jr. remonta Ópera Lídia de Oxum e faz homenagem ao pai, criador do espetáculo
Por Ian Meneses
Há 25 anos, Ildásio Tavares e Lindembergue Cardoso montaram a primeira e única ópera negra no mundo cantada em português e iorubá. Figuras como Lazzo Matumbi e Margareth Menezes fizeram parte desta primeira temporada do projeto, chamado Ópera Lídia de Oxum. Em 2019, o espetáculo volta ao palco do Teatro Castro Alves graças aos desejos dos filhos de Tavares, Ildázio Jr. e Gil Vicente Tavares.
Segundo Ildázio Jr., radialista e o coordenador geral do espetáculo, fazer esse projeto tomar corpo novamente tem um motivo muito especial: “Tanto meu pai, quanto Lindembergue fariam 80 anos esse ano e ela vai ser uma homenagem para esses dois grandes artistas”.
O tributo que está prestes a ser concretizado no mês de novembro vem acompanhado de um reconhecimento que Ildázio tem de como seu pai esteve posicionado no cenário cultural baiano. “A gente quer homenagear ele e Lindembergue, que basicamente viraram artistas 'lado B' na Bahia. As pessoas têm uma mania muito grande em insistir com os mesmos artistas. Nada contra Jorge Amado, nada contra Carybé, nada contra Vergé, nada contra Caetano, Gil, mas existem muito mais artistas aqui”, avalia.
Para Jr., ainda há uma grande dificuldade em captar recursos e até mesmo montar uma ópera na Bahia. Com 54% dos custos previstos já adquiridos, o desafio que ainda se mantém é o de administrar um espetáculo do tamanho que se pretende mostrar ao público baiano. “São 75 músicos na orquestra sinfônica, são 60 no coro, oito solistas, 20 a 30 bailarinos, quatro percussionistas e um ou três violeiros cordelistas, isso ao mesmo tempo em um palco. É uma coisa grandiosa, mas muito prazerosa”, acredita. Para os papéis desta nova remontagem foi feita, recentemente, a seleção para a composição de solistas (relembre aqui), e em breve serão anunciados os bailarinos que irão compor o projeto.
Apesar dos obstáculos que estão sendo enfrentados durante a composição da remontagem, os planos futuros com a Ópera Lídia de Oxum se encontram praticamente definidos. “A ideia esse ano é que a Ópera vai ter dois ensaios gerais, 19 e 20 de novembro, e será realizada nos dias 21, 22 e 23, na semana da Consciência Negra. Ela será o espetáculo da Consciência Negra”, adianta Ildázio.
O objetivo de levar aos baianos a segunda dose de um espetáculo diferenciado ultrapassará as coxias do TCA com apresentações ao ar livre para quem passar e quiser admirar a cena. “Uma vez com tudo pronto, a gente vai para a rua fazer seis espetáculos. Em três finais de semana em janeiro a gente deve fazer acontecer a Ópera aberta ao público, que sempre foi o grande interesse nosso. Passar essa mensagem sobre Lídia, que acima de tudo é uma ópera que defende a mulher, a mulher negra, baiana em geral, a mulher batalhadora”, planeja. Sem um local ainda definido para a realização das apresentações externas, Ildázio acredita que os mais prováveis espaços para receber a Ópera seriam o Comércio e o Dique do Tororó.
LÍDIA DE OXUM
De acordo com Ildázio, a Ópera se trata da volta do personagem Lourenço, que vai a Portugal estudar Direito, como todo filho de barão do açúcar. No seu retorno, ele volta com ideias libertárias em um cenário de pré-abolição. Ele é levado pelo personagem Romão, mensageiro de Exu, para conhecer o Engenho Esperança, onde Lourenço se apaixona por Lídia de Oxum. O conflito, como nas grandes histórias de amor, acontece quando se descobre que Lídia já é prometida a Tomás de Ogum e, a partir disso, se envolve uma história romântica em meio à turbulência entre escravocratas e abolicionistas.
Com redes sociais ativas (clique aqui), realidade impensável há 25 anos, a Ópera Lídia de Oxum ressurge, para Ildázio, em um período necessário, em que é preciso através das artes fazer vários questionamentos sobre os problemas que a sociedade ainda insiste em manter. “Nunca antes o Brasil precisou tanto de uma ópera negra que fale de reparação, igualdade social, igualdade de etnias e entre homens e mulheres, além das questão de gênero, que ainda incomodam as pessoas. Lídia é um grande quebra, a gente vive num país estranho”, finaliza.
