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Marca Bahia Notícias

Notícia

Com ‘percalços’ em gravações, filme sobre Divaldo estreia com foco na mensagem

Por Rebeca Menezes

Com ‘percalços’ em gravações, filme sobre Divaldo estreia com foco na mensagem
Foto: Divulgação

Apesar de ter como título “Divaldo – O mensageiro da paz”, o foco do filme que conta a história do líder espírita Divaldo Franco é a mensagem passada por ele e pela espiritualidade. O longa, que estreia nesta quinta-feira (12) em todo o país, conta o período da vida do feirense que vai de sua infância, quando teve as primeiras experiências mediúnicas, até chegar aos 40 anos, quando fundou a Mansão do Caminho.

 

A história chegou nas mãos do diretor Clovis Mello por acaso – ou talvez nem tanto. Em entrevista concedida em Salvador, Mello narrou que sua produtora recebeu a divulgação de um outro filme espírita, mas americano, e ele se interessou sobre a temática. Foi assim que ele descobriu sobre a proposta de contar a história do médium baiano. "O filme foi parar lá dentro da produtora. Em nenhum momento a gente procurou. Foi uma coisa determinada pela espiritualidade", brincou.

 

Clovis foi premiado por dirigir propagandas das Havaianas e estreou nas telonas com "Ninguém ama ninguém... por mais de dois anos", adaptação da obra de Nelson Rodrigues. A biografia do baiano é apenas a segunda vez que chega às telonas. E para ele, o assunto tratado em seu novo trabalho tem um significado maior. “Todo mundo, um dia, vai se deparar com a sua verdadeira missão. Certamente não é fazer filme de sandália, nem fazer entrevista aqui. [...] Eu podia ter feito um filme sobre violência, vários filmes de comédia passaram na minha vida. Eu fiz um primeiro, que era baseado na obra de Nelson Rodrigues, ‘A vida como ela é’. Eu acho até que tô fazendo esse [de Divaldo] pra me redimir dos meus pecados”, comparou, rindo.

 

SEM VAIDADE

Assinando o roteiro, Mello teve primeiro que entender até onde poderia ir, já que trata da história de alguém que ainda está vivo. Principalmente quando sua intenção não era focar na pessoa. “Quando a gente teve a primeira reunião, eu pensei: bem, eu estou aqui, diante do maior nome do espiritismo do país, e preciso dizer o que eu realmente acho. E eu achava que não tinha que ser um filme sobre o mensageiro, tinha que ser um filme sobre a mensagem. Na minha santa ignorância, achei que um médium do gabarito dele podia ter algum tipo de vaidade ou de ego em relação a isso. E quando eu contei o que eu achava, ele falou: 'é exatamente isso que eu quero. Não quero nenhum tipo de protagonismo e se santificação em nenhum momento. Eu quero que seja um filme engraçado, porque eu sou engraçado, mas não quero protagonismo’”, lembrou.

 

Aliás, Clovis frisa a forma humilde como Divaldo recebeu o material mesmo depois de pronto: “Ele evoluiu demais, mas continua um ser humano. Então o tempo inteiro, quando é perguntado sobre o filme, ele não fala nada, fica na dele. Eu vejo nos olhos dele que ele está feliz com tudo que está acontecendo, mas sinto que o tempo inteiro ele fica dominando essa vaidade, desse orgulho”.

 

Foi para atender ao propósito de trazer uma mensagem que tocasse o público que o roteirista fez algumas modificações na “história real” de Divaldo, não sendo tão fiel à cronologia ou às pessoas que viveram ao lado do médium. Entre as estratégias, estava juntar duas ou três pessoas em um mesmo personagem, evitar nomes reais – a pedido do próprio médium, para evitar “ciumeira” –, e até “adiantar” na história a obra psicológica de Joanna de Ângelis, para discutir uma preocupação latente tanto do biografado quanto do próprio diretor.

 

“A maior preocupação que o Divaldo tem com os próximos acontecimentos da humanidade é que provavelmente em alguns anos a maior causa de morte do mundo vai o suicídio, fruto da depressão e outros distúrbios mentais. E você não tem visto pessoas mais velhas se matando, você tem visto muitos jovens se matando”, alerta. “Na obra psicográfica de Divaldo, o que me saltou aos olhos nesse momento foi obra psicológica de Joanna de Ângelis, que ela ditou para ele aos 65 anos. Mas o filme termina com ele aos 40, então trouxe essa discussão para um momento anterior. [...] Faz muito sentido pra mim essa obra de Joanna dentro desse contexto que a gente está vivendo”, detalha.

 

Para o ator Guilherme Lobo, que vive Divaldo em sua fase jovem, foi exatamente essa ansiedade de agora que ele teve que dosar. Segundo ele, foi a preparadora de elenco Maria Silvia Siqueira que o ajudou a “desacelerar” para retratar uma outra época. "Tem uma coisa que ela me disse que é: hoje em dia, a gente espera um e-mail ou uma mensagem e fica o tempo todo vendo o celular. Naquela época, o carteiro passava uma vez por semana, e se não passava naquele horário, você não ficava o tempo todo indo na caixa de correio. Você esperava mais uma semana antes de ir de novo. Então essa pressa da nossa geração que provoca muito desespero à toa".

Guilherme Lobo, Divaldo e Clovis Mello | Foto: Stella Carvalho

INFLUÊNCIA DOS ESPÍRITOS

Na entrevista, Mello reforçou o quanto sentiu a influência direta da espiritualidade durante todo o projeto, seja ao montar a equipe, ao escolher os atores ou até ao escrever o roteiro. "Teve um momento que eu comecei a ficar com medo, porque estava fazendo uma crítica aqui, outra ali, e tinha medo de estar passando do ponto. Ele falou: 'fica tranquilo, porque se tivesse alguma coisa errada, Joanna já tinha me avisado'", lembrou.

 

Mas ter ajuda quer dizer que tudo deu certo. Pelo contrário. "O próprio Divaldo falou: 'não será fácil, vai ter uma série de coisas que vão acontecer'. E aconteceram. Mas desde o primeiro momento eu sabia que estava gravando com uma equipe que tinha evangélicos, católicos, tinha um agnóstico, um ateu... tinha de tudo. A primeira coisa que eu fiz foi pedir pra todo mundo dar a mão e falar: independente da crença de cada um, a gente tem que saber que está todo mundo junto porque a gente vai sofrer muito ataque".

 

 Tanto Clovis quanto Guilherme lembraram de situações “inusitadas” que ocorreram durante as gravações. “[Aconteceu] Não de ver, mas de ouvir. Da gente reclamar que estavam fazendo barulho e quando foram ver de onde vinha o barulho não tinha ninguém”, relatou o ator. Um outro caso curioso ocorreu em uma locação específica. A ideia inicial era gravar em Feira de Santana e Salvador, mas apesar das fachadas históricas estarem conservadas, muitos dos prédios já foram muito modificados internamente. Por isso, a produção buscou locações no interior de São Paulo, onde fazendas ainda têm áreas internas mais conservadas. Até que chegaram a uma fazenda perfeita para as locações.

 

"Tinha padres enterrados. Era um antigo seminário, que ainda tinha religiosos, com uma igreja dentro. E ali foi bem difícil. A gente tinha deixado preparado para uma cena do dia seguinte algumas coisas, objetos, livros... E quando a equipe de arte chegou no dia seguinte, tinha uma poça d'água em cima da mesa, com tudo molhado. Nós olhamos e não tinha nada que justificasse aquilo, então fomos ver o que tinha no segundo andar. Exatamente em cima estava o caixão do irmão do Divaldo que morre. Você me pergunta: tem alguma relação? Não sei. Mas que é esquisito...", relatou.