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Sábado, 21 de Julho de 2018 - 00:00

Rodado na Bahia, longa de Geraldo Sarno remonta pré-canganço e discute injustiça

por Jamile Amine

Rodado na Bahia, longa de Geraldo Sarno remonta pré-canganço e discute injustiça
Foto: Divulgação

Sertão dos anos 1920 e cangaço pré-Lampião. Este é o pano de fundo de “Sertânia”, o mais novo filme de ficção do cineasta baiano Geraldo Sarno, que ao longo de mais de 50 anos de carreira tem abordado em suas produções a cultura popular, a história nacional e suas problemáticas. Com cenas rodadas nos municípios de Milagres, Brumado e Vitória da Conquista, o longa-metragem conta a história de Antão, um homem que nasceu em Canudos e que com o fim da guerra, ainda criança, é levado por um militar a São Paulo, junto com sua mãe. Após a morte dela, já adulto, ele decide retornar e acaba se metendo no mundo do cangaço, na cidade fictícia de Sertânia, onde recebe outros dois nomes: Jararaca e Gavião. Contada de forma subjetiva e não linear, a história é uma projeção dos pensamentos do protagonista, que, segundo o diretor, na verdade é um anti-herói. “Se passa na cabeça, na memória dele. Porque ele foi ferido com uma bala no peito, e o filme começa com ele se arrastando na caatinga e se escondendo”, narra Geraldo Sarno. “Ele delirante, febril, caído na caatinga, aguardando a volta do grupo, que não volta”, contextualiza. 


Cronologicamente, tudo isso se passa em um dia, desde o ferimento à prisão, mas as memórias do protagonista remontam sua vida inteira, levando-o de volta à infância e à sua cidade natal. “O delírio que lhe ocorre quando ele no sonho retorna a Canudos para buscar o pai, que foi morto lá quando ele era menino. Ele reprimiu essa memória do pai morto e volta pro sertão, na verdade, nesta busca”, explica o diretor. “Ele faz uma viagem ao inferno e o inferno dele é Canudos destruída”, acrescenta. 


Quem dá vida ao personagem é o músico e ator Vertin Moura, que nasceu em Juazeiro, na Bahia, cresceu em Arcoverde (PE) e hoje reside em São Paulo. “O personagem Antão tem um link na história com o povo brasileiro. O povo sofrido, injustiçado, massacrado pelos poderosos, por gente que veio nas caravelas”, avalia o artista. “Por que eu estou dizendo isso? Porque o Antão é um filho de um vaqueiro nordestino do sertão, de um cara que vive e cuida da terra. E aí tem o massacre de Canudos, quando ele ainda era criança, e ele vê o pai ser morto pelas tropas do Exército Brasileiro. Isso tudo é o subtexto do personagem”, diz Vertin.

 


História se passa nos delírios e na memória do protagonista | Foto: Divulgação


O ator aponta ainda a complexidade de Antão, que de início envereda para o caminho do exército, influenciado pelo militar que lhe levou para a cidade grande, mas logo volta para resgatar sua história. “Esse movimento de retorno faz ele entrar nesse pré-cangaço. Isso significa a busca da identidade dele, de reconhecer quem ele era, de ele estar de um lado e ver que o lado dele era o dos injustiçados. E isso era confuso. O cangaço brasileiro era o quê? O jagunço, que era o prestador de serviço da própria polícia. Então o cangaço começa numa extensão dos poderosos para continuar mantendo seu poder a força. O Antão simboliza o personagem do rompimento desse jagunço que presta serviço pro militar”, defende o ator, lembrando que, através do roteiro lúdico e poético de Geraldo Sarno, seu personagem é a pessoa que tenta romper o sistema ao perceber como o bando, afinal, está contra o próprio povo, como marionete dos poderosos. “Antão representa a pessoa que vê as coisas. E o cara que vê as coisas sempre morre, é tirado de cena. Ele vê as injustiças, o povo passando fome, vê as negociatas que existem nas sociedades e entre os poderosos”, explica Vertin, colocando o Gavião como peça chave da transformação, que futuramente viria a ser o cangaço de Lampião, que “já não é mais um braço da máquina do governo”.
 
O longa-metragem “Sertânia” teve todas as cenas gravadas em junho deste ano, com grande participação da população de Milagres e Brumado. “O filme é feito através de edital de filmes de baixo orçamento, de estímulo à criação, e tivemos apoios locais, como das prefeituras”, conta Geraldo Sarno. “Agora vamos nos dedicar à montagem e ver se o filme fica pronto até o final do ano”, acrescenta.

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