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Com novidades em Salvador, Festival Varilux traz seleção do melhor do cinema francês

Por Lara Teixeira

Com novidades em Salvador, Festival Varilux traz seleção do melhor do cinema francês
Foto: Divulgação

Salvador recebeu desde a última quinta-feira (7) o Festival Varilux de Cinema Francês e este ano, pela primeira vez, contou com uma pré-estreia dos filmes para os baianos. O evento realizou debates com atores e diretores de quatro dos 21 longas-metragens da nova safra da cinematografia francesa, que serão exibidos em 63 cidades brasileiras durante o Festival. “Decidimos fugir um pouco desse eixo Rio - São Paulo, e não é sempre fácil acrescentar etapas no Festival, porque é tempo para os artistas, e financiamento também. Mas a gente realmente queria esse ano sair desse eixo, e escolhemos Salvador por que o nosso público lá é muito fiel e muito assíduo e também porque é um destino maravilhoso e sabíamos que a nossa delegação iria curtir”, admite Emmanuelle Boudier, curadora do Festival Varilux, ao Bahia Notícias. O evento se encerra no dia 20 de junho e as exibições têm entrada gratuita, sujeitas à lotação por ordem de chegada. Mais informações sobre as sessões podem ser encontradas no site do evento (acesse aqui). Na edição anterior, que ocorreu em 2017, a Mostra de Realidade Virtual foi um sucesso durante o Festival Varilux. A tecnologia, desenvolvida por líderes em inovação audiovisual na França, será utilizada para a transmissão de alguns filmes franceses. A curadoria da Mostra é de responsabilidade do cineasta e especialista francês Fouzi Louahem, que ministrou uma masterclass em Salvador na terça-feira (5), abordando aspectos artísticos, técnicos e econômicos da nova linguagem audiovisual e teve como objetivo propor ao público uma introdução às diferentes dimensões da realidade virtual. Os filmes transmitidos através dessa tecnologia estão programados para serem exibidos nos dias 9 e 10 de junho, na Aliança Francesa da Barra, e a partir do dia 10 até 17 de junho, no Espaço de Cinema Itaú Glauber Rocha. Durante os debates, que ocorreram no último final de semana em Salvador, os atores e diretores presentes responderam algumas perguntas do público sobre as temáticas dos filmes. Ao Bahia Notícias, os estrangeiros contaram que ficaram impressionados com as semelhanças entre os dilemas que os brasileiros vivem e os temas que foram abordados nos longas. "Certos filmes encontram sua época. Tenho a impressão que o filme faz eco ao que está acontecendo no Brasil, no que concerne o regresso das liberdades individuais, no nível político com todos os escândalos, o nível de educação e a questão da burguesia que monopoliza as riquezas. Isso me tocou muito. Incluo também a questão das línguas indígenas, porque os povos indígenas são marginalizados", relatou Nabil Ayouch, diretor de "Primavera em Casablanca". Já o ator principal de "Marvin", Finnegan Oldfield, acredita que o assunto do filme "é universal" e se sentiu feliz ao perceber que os longas que foram transmitidos antes da pré-estreia do Festival “tocaram” os brasileiros. "A questão da homosexualidade também é muito importante para o Brasil. Eu estava curioso para saber como vocês veem as coisas", confessou o ator. Sobre o filme “Carnívoras”, o que mais chamou a atenção da atriz Zita Hanrot durante o debate, foram as questões que algumas espectadoras levantaram relacionadas às mulheres e a maneira como elas são cobradas. “Achei interessante o argumento sobre o que a gente espera das mulheres e o desejo de sucesso que a gente impõe a elas de ser uma boa mãe e fazer tudo da maneira correta. A expectativa que a sociedade tem para as mulheres é esmagadora”, pontua Zita. A relevância desses encontros entre a delegação artística e o público está muito ligada ao retorno que eles irão receber de quem assistiu ao filme, "principalmente por ser um país que eles não conhecem", como destaca Emmanuelle Boudier. Além disso, a curadora afirma que mesmo que as culturas sejam muito diferentes, os filmes abordam assuntos universais, e que de certa forma, acaba tocando cidadãos de diversos países. "Outra coisa que é importante com essa interação com o público é que são nove anos de Festival, então temos recurso suficiente para falar que cada vez que nossos artistas voltam para a França depois dessa experiência no Brasil, eles falam que adoraram o público brasileiro, que as pessoas de lá se deixam emocionar intensamente, são muito calorosos e não hesitam em fazer perguntas. Eles sempre voltam encantados com essa interação com o público”. Existem dois critérios para as escolhas dos filmes que vão participar do Festival. De acordo com Boudier, o primeiro e mais importante é que os filmes sejam exibidos no Brasil, e para isso precisam ter um distribuidor no país que façam com que eles tenham uma “vida” após o evento. “O nosso Festival não é somente uma mostra de filmes, ele pretende ser uma ajuda à distribuição. Para o distribuidor é muito difícil lançar um filme francês, porque é muita despesa, muito gasto, muita publicidade, muita divulgação e às vezes o retorno é bem menor que o de um filme americano”, relata a curadora. Com relação à receita gerada pelo Festival, 50% do valor dos ingressos ficam para as salas de cinema e os outros 50% são destinados ao distribuidor. Dessa forma, os distribuidores se sentem mais seguros em comprar os filmes franceses, já que possuem este retorno garantido.  O segundo critério levado em consideração é a diversidade. Boudier relata que além dos filmes escolhidos serem de diferentes gêneros como comédia, drama, animação, entre outros, eles prezam na escolha de cineastas consagrados, mas também em levar jovens diretores, “pois é o momento de mostrar os novos talentos”. 


Saiba mais sobre três dos filmes que estarão no Festival Varilux:


Diretor Nabil Ayouch e atriz Maryam Touzani, do filme “Primavera em Casablanca” (Razzia)
Em Casablanca, entre o passado e o presente, cinco destinos estão inconscientemente interligados. Diferentes rostos, diferentes trajetórias, diferentes lutas, mas a mesma busca pela liberdade. E o som de uma revolta que cresce. Essa é a história do drama Primavera em Casablanca. Para Ayouch, o cinema se mostra essencial por ser uma linguagem democrática. “No Marrocos há aproximadamente 40% de pessoas analfabetas, de pessoas que não sabem nem ler nem escrever. Então o cinema como imagem, é uma mídia extremamente poderosa para mudar a mentalidade dessas pessoas. Infelizmente, um problema que nós enfrentamos é que existem poucas salas de cinema, então a circulação de filmes tem que ser feitas de várias maneiras, como os DVDs piratas, como aqui, que exercem essa função de popularizar. O filme anterior que eu fiz foi proibido. A Primavera de Casablanca só foi proibido para menores de 16 anos”, defendeu. Já Touzani explica como sua personagem mostra que tem medo, mas vai desafiar esse seu entorno. “A gente não tem certeza de como ela chegou lá, mas ela está nessa situação que ela tem que ser destemida, e ela acaba chegando nesses lugares e conhecendo as pessoas. Essas casas de dança são espaços de liberdades para mulheres que não têm muita oportunidade de aproveitar a vida, em espaços públicos, então elas vão ter esses pontos de resistência e eles se inspiraram porque isso acontece de fato, é algo que ocorre no cotidiano da cidade que eles retrataram no filme”, apontou a atriz. “É muito importante essa questão do que trata do ponto de vista. Uma das coisas essenciais é aprender a contar sua própria história. E eu acredito que se nós não fizermos, outras pessoas vão chegar e vão fazer com o posto de vista deles e não com o nosso. O Marrocos é um território de gravações para filmes europeus e americanos, mas eu quero contar a minha própria história”, completou o diretor.

 

Diretor Yannick Rénier e atriz Zita Hanrot, do filme “Carnívoras”
“Carnívoras” conta a história de Mona, que sempre sonhou em ser atriz. Ao sair do Conservatório, ambiciona um futuro brilhante pela frente, mas é Sam, sua irmã mais nova, que logo se torna uma atriz famosa. Sem recursos, Mona é obrigada a morar com Sam, que, fragilizada por uma filmagem difícil, propõe que Mona se torne sua assistente. Aos poucos, Sam vai negligenciando seus papéis de atriz, de esposa e de mãe e acaba se perdendo. Enquanto isso, Mona acredita que deve se apossar dos papéis que Sam abandona. “No filme como na realidade o mais jovem é o mais conhecido. Esse é um pouco a fonte do conflito porque normalmente na dinâmica da família o mais velho é o modelo e o mais novo acompanha e segue o caminho que o outro abriu e ali não. Essa mudança de posição cria a tensão entre as duas no filme. Mas o ponto de vista das pessoas é cruel, então quando eles começaram a escrever tomou esse tom de comédia um pouco mais ácida e um pouco mais amarga. Mas aí à medida que o filme avançou ele ficou mais denso e mais triller. No filme, a irmã mais velha sofre mais, ela tem problema com dinheiro, ela não é mãe, ela queria ter a vida da irmã dela, na vida real os dois se sentem realizados pela profissão mesmo sem ter a mesma notoriedade”, explica o diretor Rénier. “Na verdade os diretores explicaram para ela, que a Sam tem uma falha dela. Que ela sempre teve essa fragilidade, mesmo quando ela era criança, ela sempre teve isso nela. O trabalho de atriz na verdade, exacerba esse defeito dela. Ela estava sufocada pela própria vida e como ela é frágil e sufocada, eu acho que é difícil para ela ter um prazer. [...] Isso acontece na verdade também com muitas pessoas na realidade de ser mãe e trabalhar e ser atriz e não encontrar tempo e formas de se dar ao filho e ser a mamãe que esperam que ela fosse.  Além disso eu também escutei uma gravação de pessoas de desaparecimento voluntário e tinha a história de uma mulher que tinha tudo, filhos e um trabalho que ela ocupava um lugar de muito poder e responsabilidade e um belo dia ela pegou a bicicleta e foi para o interior da França sozinha e seu marido foi buscar ela e ela fugiu. Não é que ela amasse os seus filhos e marido, ela estava simplesmente sufocada”, exemplificou Hanrot. A atriz pontuou a fala de uma expectadora, que no debate falou sobre o que se espera das mulheres e do desejo de sucesso que se impõe para que a mulher seja uma boa mãe, faça tudo bem feito. “E a expectativa que a sociedade tem para as mulheres é esmagadora. tanto para a Mona quanto para a San, e com tudo que se vive hoje é pertinente [discutir essa questão”.

 

Ator Finnegan Oldfield, do filme “Marvin”
Marvin Bijou está em fuga: Primeiro de seu vilarejo em Vosges, depois da família, da tirania do pai, da renúncia da mãe e por último da intolerância, rejeição, humilhações as quais era exposto por tudo que faziam dele um rapaz ”diferente”. Fora de lá, ele descobre o teatro e aliados que, finalmente, vão permitir que sua história seja contada por ele mesmo. Para o ator Finnegan Oldfield, “Marvin” fala sobre poder “encontrar pessoas que podem nos levar a um caminho legal e nos ajudar”. “Essa é a história de Marvin, como uma coisa criativa como o teatro pode mudar a vida dele. [...] Ele quer interpretar as pessoas que ele viu, amou e conheceu. Eu acho que também é uma declaração de amor a sua vida porque ele nunca fez de verdade, porque ele nunca fez essa declaração, a gente não diria isso. Mas a história fala exatamente isso, de uma família que não consegue conversar”, comentou.