De volta a Salvador, Tulipa Ruiz apresenta show intimista com sonoridade baiana e latina
Por Jamile Amine
A cantora e compositora paulista Tulipa Ruiz reencontrará o público baiano neste fim de semana, com o show de lançamento seu quarto disco, “TU”, em cartaz no Teatro Castro Alves, nesta sexta-feira (26); e no projeto Tamar, em Praia do Forte, no sábado (27). “Desde a primeira vez que eu toquei em Salvador já foi uma troca bem especial. Eu fui muito bem recebida, foi a primeira vez que eu saí do circuito Rio-São Paulo e fiquei muito impressionada com a aceitação das pessoas em ouvir as músicas. Sou muito apaixonada, é um publico muito carinhoso, muito interessado e muito interessante”, declara a artista, revelando ainda um sentimento particular pelo TCA, considerado por ela um palco sagrado. “Foi um dos primeiros teatros que ouvi falar na vida, por conta do show histórico de Chico e Caetano. Eu desde pequena sabia da existência, nem conhecia a Bahia, mas sabia que o TCA era especial na Bahia. É um lugar que tem uma força muito grande, faz parte da nossa memória musical”, lembra.
Se por um lado o TCA remonta suas memórias de infância, por outro, ele representa também um novo e “delicioso” desafio para Tulipa Ruiz. Isto porque o enorme palco, à primeira vista, parece antagonizar com o formato do show. “Eu vou fazer o lançamento do ‘TU’, que é um disco mais cru, de voz, violão e percussão. Esse desafio de fazer num teatro grande é muito interessante, porque a gente tem que preencher com som e com luz os espaços que não são banda”, explica Tulipa, destacando que a formação escolhida para a apresentação tem muito a ver com teatro. “Eu tenho banda, amo tocar com banda, amo baixo e guitarra. A gente tem um circuito de festival e clubes muito grande, mas o ‘TU’ é um show para teatro, porque ele é muito intimista. Ele tem narrativa de luz, ele é um outro lugar, uma outra velocidade, que não é a velocidade dos festivais e dos clubes. Ele é intimista, tem formação menor, mas o tamanho dele casa com o Castro Alves”, afirma a artista, sobre o show do disco que conta com nove faixas, sendo cinco inéditas e quatro releituras –embora a ideia inicial tenha sido criar um álbum apenas de regravações.
Confira o álbum completo:
“Eu e Gustavo [irmão de Tulipa e produtor do CD, ao lado do percussionista francês Stéphane San Juan] ficamos com muita vontade de gravar esse disco, porque a gente fez muito voz e violão, só eu e ele, fora do Brasil. E o retorno, o olhar e as observações das pessoas para esse show eram muito diferentes das de um show com banda. Era como se as músicas ficassem mais legíveis, como se as pessoas prestassem atenção tanto na letra, como na harmonia. Era como se as pessoas tivessem voltado para a essência delas [das canções]”, conta a cantora. “Eu fiquei com vontade de gravar, no sentido de tirar uma foto, para eu não perder esse lugar e esse espírito das músicas que nasceram assim. Eu não tinha pretensão de gravar um disco novo, a ideia do ‘TU’, na verdade, era registrar essas músicas ‘peladas’. Se eu não registrasse naquele momento eu ia perder essa foto”, revela a artista, lembrando que no momento da gravação a concepção inicial foi tomando outros contornos. “A gente tinha várias músicas que fazia nesse show nude, eu tinha várias preparadas, mas elas foram caindo porque foram chegando músicas novas”, diz a cantora, que atualmente, além viajar com o lançamento de “TU”, segue em fase final da turnê do álbum anterior, “Dancê” (2015).

Stéphane San Juan, Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz em Nova York | Foto: Divulgação
Tão natural como a definição de que no novo trabalho entrariam as regravações de “Pedrinho”, “Desinibida”, “Algo Maior” e “Dois Cafés”, além das faixas inéditas “Pólen”, “Game”, “Tu”, “Terrorista del Amor” e “Pedra”, veio também a sonoridade do álbum. O disco, que foi gravado em Nova York, conta com uma presença marcante da percussão, cujas batidas levam a um lugar bem familiar. “Foi interessante, porque durante o processo a gente foi falando disso. Quem produziu foi meu irmão, Gustavo Ruiz, e também o Stéphane San Juan, que toca percussão. Ele é francês, morou muito tempo no Rio, mas morou muito tempo também no Mali. Ele é baterista, tocou muito tempo com Vanessa da Mata, mas tocou também com uma dupla do Mali, chamada Amadou & Mariam. Agora ele está morando em Nova York, e a gente gravou esse disco lá com ele e com o engenheiro de som que a gente é muito fã, que chama Scotty Hard”, lembra Tulipa. “E foi muito engraçado durante o processo, porque a presença da percussão mudou tudo. O Stéphane levou a gente para outros lugares. Foi engraçado porque tem esses layers de ijexá, do batuque, da vivência do Stéphane na África, da passagem dele por ali. Tudo fez sentido na hora de fazer o disco. E aí no meio do processo a gente brincou: ‘poxa, a gente está com um francês em Nova York, a gente de São Paulo, e estamos indo parar na Bahia’. Que coisa deliciosa, foi uma coisa que surpreendeu a gente. O processo levou a gente para essa sonoridade, mas a gente também não esperava ela, não foi uma coisa planejada, ela tem a ver com esse encontro que aconteceu”, revela a cantora.
Outro encontro emblemático aconteceu na faixa “Terrorista del Amor”, um dueto com Adan Jodorowsky, em língua espanhola, composta em parceria entre a própria Tulipa, Ava Rocha, Gustavo Ruiz, Paola Alfamor e Saulo Duarte. “Eu e o Gustavo estávamos indo viajar na semana. A gente tinha feito uma música com Ava Rocha pro disco dela, e foi muito legal o dia e o processo da composição. E aí quando a gente estava indo para Nova York eu liguei pra ela e disse: ‘Ava, a gente está indo gravar, mas estamos com a porteira aberta, se pintar de novo, estamos empolgados com isso’. E a Ava disse: ‘Vem aqui pra casa, a gente faz uma comida e vê se rola alguma música’. A Ava é uma super chef, é especialista num macarrão tailandês, que chama pad thai, então ela prometeu fazer um. A gente foi interessadíssimos no pad thai e esperançosos com a música”, conta Tulipa, lembrando que na ocasião a anfitriã tinha também outras duas visitas, o cantor paraense Saulo Duarte e a fotógrafa Paola Alfamor. “A gente jantou, foi uma noite deliciosa... Teve uma hora que o Saulo pegou o violão e falou: 'e aí gente, vamos começar a fazer uma música?'. Então a gente começou a brincar de fazer essa música, e a Ava falou: 'Vamos fazer em espanhol?'. Porque eu tinha acabado de voltar da Colômbia, a Ava é metade colombiana, a Paola tinha ficado um tempo no México, então a gente estava com essa vivência de latinoamérica forte”, contextualiza a artista, sobre o nascimento da canção.

Música em espanhol foi composta a várias mãos, durante jantar na casa de Ava Rocha | Foto: Divulgação
De início, entretanto, Tulipa Ruiz não tinha certeza se “Terrorista del Amor” entraria no disco. “Fiquei me sentindo muito sozinha cantando uma música em espanhol inédita. E aí eu entendi que eu precisava de uma presença comigo, de uma pessoa que tivesse a língua muito aldente”, conta a cantora, sobre o momento de insegurança, que foi logo superado. “Eu já tinha feito umas coisas com o Adan Jodorowsky, a gente tocou na feira do livro de Guadalajara e depois participou de um prêmio de cinema no México. Então a gente já tinha se encontrado em duas situações e pra mim fez muito sentido ter a Ava, que é filha do Glauber Rocha, e ter o Adam, que é filho do Alejandro Jodorowsky, numa mesma faixa. Eu achei que completava a árvore genealógica da música. Eu fiz o convite e ele topou”, revela a artista, que no álbum canta algumas músicas em parceria com o irmão, Gustavo, e com o pai, Luiz Chagas.
Ouça a faixa "Terrorista del Amor", na qual Tulipa faz dueto com Adan Jodorowsky:
SERVIÇO
O QUÊ: Tulipa Ruiz – "TU"
QUANDO: Sexta-feira, 26 de janeiro de 2018, às 21h
ONDE: Sala Principal do Teatro Castro Alves – Salvador (BA)
VALOR: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)
O QUÊ: Serenata Especial no Tamar com Tulipa Ruiz e convidados
QUANDO: Sábado, 27 de janeiro, às 20h
ONDE: Espaço Cultural do Projeto Tamar - Praia do Forte, Mata de São João-BA
VALOR: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)
