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Marca Bahia Notícias

Notícia

Bauraqui retoma 'ligação astral e espiritual' para viver Cartola em musical em cartaz no TCA

Por Jamile Amine

Bauraqui retoma 'ligação astral e espiritual' para viver Cartola em musical em cartaz no TCA
Foto: Divulgação

Remontando a trajetória de um dos maiores nomes do samba no Brasil, o musical “Cartola – O Mundo é um Moinho” chega a Salvador neste fim de semana. Idealizado pelo ator e produtor Jô Santana, o espetáculo fica em cartaz neste sábado (29) e domingo (30), na sala principal do Teatro Castro Alves. Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, é interpretado pelo gaúcho Flávio Bauraqui, que já viveu o sambista carioca em outras oportunidades e foi escolhido pela própria neta do artista para o papel. O ator conta que o convite aconteceu por acaso, em um momento de descontração, após a gravação de um videoclipe no Rio de Janeiro. “Fomos no Baixo Gávea e quando estou entrando em um dos bares, estava sentado na porta o Jô Santana, que falou: ‘Bauraqui, você não vai acreditar no que aconteceu, o mundo é cheio de coincidências!’. Eu perguntei por que. E ele disse: ‘Eu tive uma reunião agora há pouco com a Nilcemar Nogueira [neta do sambista] e aí estávamos falando sobre Cartola e ela disse’: ‘Cartola já existe, Cartola é Flavio Bauraqui. É a única pessoa que pode fazer, na minha opinião'”, lembra o artista, que prontamente aceitou a proposta.


Ele e Nilcemar se aproximaram em 2004, quando o ator protagonizou o espetáculo “Obrigado, Cartola!”, encerrado prematuramente, após um mês em cartaz. Na época, Bauraqui fez um mergulho na vida e na obra do sambista, para viver Bento, um compositor que se espelhava em Cartola para criar um samba-enredo. “Acabando isso [a peça] eu me fiz a pergunta: ‘E agora, o que eu faço com tudo isso que está dentro de mim?’ Eu tinha aquela vontade de fazer, e eu sou uma pessoa muito obstinada, fiquei por muito tempo treinando a voz, vendo fotos e aperfeiçoando cada vez mais o personagem e aí de repente acaba. Ficou o vácuo. Aí a Nilcemar, muito querida, viu que eu fiquei meio triste e me chamou para algumas coisas, como a inauguração do Centro Cultural Cartola, que hoje é o Museu do Samba, lá na Mangueira, e depois me chamou para os 100 anos de Cartola”, lembra Bauraqui, contando que durante a temporada do espetáculo em 2004 chegou a usar um anel original do próprio Cartola, com quem diz sentir “alguma ligação astral e espiritual”. 

 


Amor de Cartola por Dona Zica é um dos pontos retratados do espetáculo | Foto: Divulgação


Com o novo convite para viver o artista, Flávio Bauraqui foi buscar as lembranças do passado, além de se aprofundar nos estudos. “Fui colocado de novo naquele mundo do estudo e resgate. De resgate, palavra escrita com letra maiúscula e negrito, porque realmente eu perdi o personagem e ele voltou”, compara o ator. “Eu tive que resgatar toda aquela relação que eu tive. Eu fui na casa do Cartola em 2004, eu vi a roupa, o traje que ele dormia, pijamas, blazer, objetos pessoais, relógio, tudo estava lá na casa dele na Mangueira, conheci dona Zica, enfim”, detalha o artista, explicando que a base do personagem nasceu há mais de 10 anos, mas que teve que voltar a estudar para alcançar a voz e o timbre de Cartola. “O que é a vida: eu tive que envelhecer para fazer de novo o Cartola. Muito tempo passou e eu consegui fazer com a idade dele”, lembra o Bauraqui.


Dividida em dois atos e sempre entremeada pelas canções do cantor e compositor carioca, “Cartola – O Mundo é um Moinho” passeia por fatos marcantes da trajetória do sambista, desde sua juventude, passando pelos conflitos do cotidiano, o amor da companheira Dona Zica, sua relação com a Estação Primeira de Mangueira - escola de samba que ajudou a fundar -, culminando com seus 75 anos, idade com a qual conseguiu gravar seu primeiro disco. “As pessoas ficam muito emocionadas, porque mostra como o artista negro às vezes passa por coisas. Ele passou e eu passo, mas graças a artistas como ele, que abriram a porta para a gente, eu posso agora estar como protagonista desta peça, ou no cinema, na TV”, diz Bauraqui, destacando a importância do protagonismo do negro na sociedade em um “momento que as pessoas estão tão intolerantes”. É nesta segunda parte do espetáculo, na qual o personagem chega “cada vez mais próximo do Cartola do inconsciente coletivo”, que, como nas apresentações em outras praças, músicos locais fazem participações especiais. Para as apresentações em Salvador, foram convidados Lazzo Matumbi (no sábado) e Margareth Menezes (no domingo), que sobem ao palco como convidados de uma feijoada na quadra da Mangueira e interpretam dois sucessos: “O Sol Nascerá” e “As Rosas não Falam”.

 


A Mangueira foi uma das maiores paixões de Cartola | Foto: Divulgação


A montagem tem dramaturgia de Artur Xexéo, direção e encenação de Roberto Lage, pesquisa de Nilcemar Nogueira e direção musical de Rildo Hora. Além de Flávio Bauraqui como protagonista, o elenco conta ainda com Andréa Cavalheiro, Hugo Germano, Adriana Lessa, Silvetty Montilla, Augusto Pompêo, Edu Silva, Renata Vilela, Ivan de Almeida, Larissa Noel, Lu Fogaça, Lica Oliveira, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Léo França , Rodrigo Fernando e Leonam Moraes.