Domingo, 04 de Dezembro de 2016 - 00:00

Artista faz de webcomic válvula de escape para preconceito e agressão

por Marcos Maia

Artista faz de webcomic válvula de escape para preconceito e agressão
Foto: Reprodução / Facebook
O quadrinista paulista Wes Nunes, responsável pela página "Manifesto dos Quadrinhos", que retrata situações de LGBTfobia e opressões em geral por meio de Webcomics (veja aqui), fez da sua arte uma espécie de válvula de escape para lidar com o preconceito e agressão aos quais foi submetido desde muito cedo. "Eu cresci extremamente sozinho. Quando eu era criança, adolescente, não tinha amigos, e a minha vida era justamente me isolar porque o contato com as outras pessoas era extremamente violento", contou em entrevista por telefone ao Bahia Notícias. Nunes afirma que sua abordagem para o preconceito, por meio do pensamento e ponto de vista de quem sofre em relação a uma determinada situação, acaba desencadeando inúmeros depoimentos de desabafo por meio da pagina do "Manifesto" no Facebook, seja através dos comentários ou mensagens privadas. Para ele, os integrantes da comunidade LGBT se sentem "absolutamente compreendidos" quando entram em contato com o seu trabalho.

"Há certas coisas que ficam presas dentro delas e que elas veem de certa maneira saindo por um outro lado através do meu trabalho. Algumas pessoas que não são necessariamente LGBT também vêm até mim e dizem que entendem ou que passaram a interpretar de determinada maneira diferente esses sentimentos", afirmou. Influenciado pelo traço oriental dos mangás e de artistas do quilate de Frank Miller (“Sin City”) e Dave Gibbons (“Watchmen”), Nunes aprendeu a desenhar a partir da observação do trabalho do irmão mais velho, que antes dele já trabalhava como ilustrador. Após passar cerca de sete anos sem desenhar, ele voltou a criar histórias em 2013, quando começou postando charges em alguns dos grupos no Facebook do curso de Geografia da USP, que acabou largando mais tarde. "Em determinado momento, por volta de 2014, eu acabei entrando em uma crise depressiva terrível, e tudo que eu fazia de ilustração começava a voltar para mim em uma questão mais introspectiva da coisa”, recordou.



Foto: Reprodução / Facebook

Foi nesse período que o artista montou “O Manifesto dos Cartuns”, que priorizava um traço diferente do atualmente utilizado e tentava introduzir um texto composto por um pouco mais de humor (embora essa nunca fosse a praia de Nunes). Com o tempo, a página acabou se transformando no “Manifesto dos Quadrinhos" no seu atual formato. Ele explica que as primeiras histórias eram muito pessoais, evoluindo a partir do momento em que ele começou a pensar de uma forma mais aberta e empática sobre si mesmo. "Não é como se eu estivesse falando sobre mim hoje. É como se eu falasse sobre mim através de um ponto de vista mais ficcional, sob a ótica de outras pessoas. Dessa forma, eu falo sobre mim e sobre essas outras pessoas, por meio de um aspecto muito sensorial, com muito mais sentimento sobre o que é está no interior de sofrer uma violência", avaliou.

Aos 13 anos, Nunes chegou a ser esfaqueado no colégio em que estudava por ser considerado “feminino” e “educado demais”, além de ter levado incontáveis surras por motivos semelhantes. "Foi algo que realmente aconteceu. Isso me desconectava do mundo e das pessoas. Eu sentia que não era compreendido, que o que sentia era completamente anômalo ao que as outras pessoas sentiam. Eu me sentia deslocado, desconectado, despersonalizado em relação ao que era a vida naquele momento", desabafou.  Atualmente, o artista trabalha no que será o primeiro volume impresso do “Manifesto dos Quadrinhos", que reunirá parte das publicações feitas nos últimos dois anos de trabalho da página (material que ele julga ser "mais maduro") e ilustrações inéditas, existindo a possibilidade de material produzido no início da empreitada que acabou não sendo exibido por "falta de confiança" também ser publicado. "A ideia é entregar algo que, de certa maneira, seja a entrega de um material impresso que faça jus ao meu trabalho e um agradecimento aos que me apoiaram", justificou.


Foto: Reprodução / Facebook

O artista destaca que o suporte, inclusive, foi fundamental em momentos de males físicos, mentais e profunda insegurança e descrença em si mesmo. "Eu preciso frisar o quão difícil é para mim fazer quadrinhos. Eu não tenho pudores em dizer que tenho depressão psicótica, que é uma depressão com sintomas extremamente desagradáveis. A quantidade de remédios que eu tomo faz com que seja extremamente doloroso fazer quadrinhos. É trabalhar com um estado de sonolência e entorpecimento muito grande. É trabalhar com a mão tremendo. Então, entregar esse trabalho, para mim, é uma vitória", avaliou. A publicação, que deve chegar às lojas em 2017 pela Chiado Editora, surgiu para Nunes como um “último suspiro” na sua relação com o mercado editorial de quadrinhos no Brasil, após diversas tentativas frustradas de fazer com que alguns de seus trabalhos que seguem engavetados chegassem ao público. "Quadrinhos sempre foi muito difícil de entrar no Brasil. A pergunta agora é: e quadrinhos LGBT? Quadrinhos com uma temática mais subversiva (entre aspas) em relação ao que é o padrão de publicações de quadrinhos (com heróis ou uma história mais padronizada)? É muito mais difícil", opinou.

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