‘Nasce com o dever do combate à intolerância religiosa’, diz diretora sobre filme baiano
Foto: Reprodução / Facebook
No mês em que se discute o preconceito religioso – o 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa -, tem pré-estreia, em Salvador, a animação baiana Òrun Aiyé. O curta-metragem, que conta a história da criação do mundo por Oxalá, será exibido no dia deste Orixá, nesta sexta-feira (15), às 19h, no Cine Glauber Rocha, na Praça Castro Alves. O evento contará ainda com uma exposição fotográfica de Diane Luz, com o processo criativo do filme, além de um pocket show da cantora Savannah Lima, com participação especial de Hannah Macedo.
 
A ideia para a temática do filme surgiu de uma lacuna existente no audiovisual infantil. De acordo Jamile Coelho, uma das diretoras, ao lado de Cíntia Maria, sua geração não teve referências de personagens negros quando criança. “Não se ver na tela gera uma cadeia, porque da criança faz o adulto. E toda construção cultural que acontece dentro desse processo faz com que você não se enxergue. Então se hoje a gente está vendo mais filmes com protagonistas negros, a gente ainda tem poucas referências no que diz respeito à animação”, explica a cineasta, acrescentando que “foi dessa lacuna que a gente sentiu essa necessidade, para que nossos filhos não tivessem que passar pela mesma situação, de não se enxergar”.
 

Filme conta a história da criação do mundo por Oxalá | Foto: Divulgação 
 
De forma lúdica e carregada de simbolismos, a produção propõe dar visibilidade e desmistificar preconceitos relacionados à cultura afro-brasileira. “O tempo todo as pessoas falam de Adão e Eva como mito, e quando você fala da criação do mundo através dos Orixás elas costumam dizer que é fábula. Não é fábula, se Adão e Eva existiram, a criação do mundo através dos Orixás também existe. É respeitar essa diversidade, porque a gente vive em um país laico”, afirma a diretora, contando ainda que desta forma surgiu Luna, uma das personagens principais do filme, que ouve a história do Griô sobre universo dos deus africanos, fazendo com que as crianças do Candomblé também se enxerguem.
 
A opção técnica para a realização do curta foi o stop motion, com confecção de bonecos de massa, que são movimentados e fotografados quadro a quadro. “Stop motion é uma arte muito cara. Para se ter uma ideia, aqui no Brasil, o primeiro longa feito com essa técnica foi ‘Minhocas’, há uns dois anos e meia; e o segundo está sendo produzido agora, o ‘Bob Cuspe’. É uma técnica que está tendo ascensão no país, mas, por ser muito artesanal, se torna muito cara”, explica Jamile Coelho, contando ainda que “Òrun Aiyé” levou um ano de produção  e quatro de pré-produção. Apesar do tempo, custo e dificuldade do trabalho, ele foi reconhecido com a conquista Festival Brasil Stop Motion – principal do gênero na América Latina - , na categoria “Novos Talentos”.
 

Uma das diretoras, Cíntia Maria, manuseia bonecos de massa usados em stop motion | Foto: Divulgação
 
Destaca-se no curta-metragem, ainda, a escolha dos dubladores, com nomes como Carlinhos Brown (Oxalá), Jorge Washington (Orunmilá), João Miguel (Olodumaré), Carlos Betão (Bira), Fábio de Santana (Oduduwa) e a atriz Fernanda Crescêncio (Luna). E foi na divulgação da participação de Brown no filme, que a equipe do filme, formada apenas de 20% de adeptos do Candomblé, teve um exemplo da importância do debate sobre tolerância religiosa. Em sua página e em uma postagem do Bahia Notícias (clique aqui), alguns internautas fizeram comentários depreciativas aos orixás, comparando-os com demônios. “No início do processo de divulgação do filme aconteceu intolerância, mas foi uma coisa muito pontual, não foi com a proporção que aconteceu agora. É complicado você ver que em pleno século XXI existem pessoas com mentalidade tão pequena”, comentou a diretora sobre o fato, revelando que tomará medidas judiciais para punir os agressores.
 
“A gente vai continuar fazendo. Queiram ou não queiram, vai existir sim filme falando de Orixá”, disse Jamile Coelho, lembrando nomes de pessoas homenageadas com a obra, a exemplo de Mãe Gilda de Ogum, morta após ser vítima de intolerância pela Igreja Universal do Reino de Deus; e da griô que contou a história para o roteirista Thyago Bezerra, Yá Mukumby, que teve três gerações de sua família assassinadas por conta do preconceito. “Então, o filme já nasce com o dever do combate à intolerância religiosa. Eu não gosto nem de dizer intolerância, porque acho que o que você tolera é o que você não gosta. Eu acho que você tem que ter respeito religioso. A partir do momento que você respeita a sua religião, você respeita a religião do outro”, afirma a cineasta.
 
Serviço
O QUÊ: Pré-estreia de “Òrun Aiyé”,
QUANDO: Sexta-feira, 15 de janeiro, às 19h
ONDE: Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha, na Praça Castro Alves
QUANTO: Grátis (convite deve ser trocado por entradas a partir das 18h, no dia da exibição)

Histórico de Conteúdo