Faz onze anos que um grupo de mulheres canta as antigas tradições de Itapuã. Com medo de verem cair no esquecimento manifestações culturais importantes como o Terno e o Pastoril, elas se juntaram para dividir histórias, memórias e lembranças de um tempo em que Itapuã era um bairro de mulheres e homens que trabalhavam de ganho. Os encontros, ao som de muito samba, inspiraram a criação do grupo cultural As Ganhadeiras de Itapuã formado, em sua maioria, por ex-lavadeiras da Lagoa do Abaeté, quituteiras, costureiras, amigas de infância, comadres e nativas do bairro. A intenção era resgatar a memória afetiva de Itapuã e valorizar o que de melhor havia na ex-colônia de pescadores. “Nós fizemos um resgate. Itapuã tinha tudo, Terno, Pastoril, muitos blocos de Carnaval, lugares para fazer festas e depois tudo parou. Também tinham as ganhadeiras que saíam a pé de Itapuã para vender peixe, moqueca de folha, beiju, pamonha e outros quitutes no centro. Então, juntamos pessoas para conversar sobre Itapuã antiga, as festas e as alegrias do bairro”, relembra Dona Maria Hermelina, presidente do grupo, e continua: “Fomos lembrando a época em que lavávamos no Abaeté, das rezas para Santo Antônio, as músicas de Terno... É um grupo só de pessoas simples e só temos união e alegria, porque se não tivéssemos isso não estaríamos firmes de 2004 até 2015”, diz orgulhosa. A senhora de 81 anos, que também foi lavadeira do Abaeté e atende pelo carinhoso apelido de D. Mariinha, é ganhadeira de Itapuã desde o início do projeto, que funciona como uma espécie de cooperativa, composta também por crianças e jovens.
Ouça a faixa "Festa na Aldeia" com participação de Margareth Menezes:
Para Amadeu Alves, idealizador e fundador d’As Ganhadeiras em parceria com Anamaria das Virgens, o que mudou nesta primeira década de trajetória foi o amadurecimento conquistado pelas mulheres no exercício da profissão de artistas-cantoras. “O grupo ascendeu muito rapidamente. O contato com o palco, com outros artistas e com o estúdio, qualificou o grupo. Claro que eu, enquanto diretor musical, não posso esperar das senhoras de 80 anos a mesma resposta às questões técnicas das meninas de 20”, pondera, ao explicar que agora conseguiu definir bem as funções de cada uma no projeto. “As mais antigas, além da potência da voz, têm o fundamento, a ancestralidade, o que nos dá uma força muito grande. Por outro lado, as mais jovens conseguem dar um suporte a essas senhoras, já que elas têm a memória ‘mais fresca’ para guardar a forma de uma música, um arranjo específico”. O amadurecimento citado por Amadeu também permitiu que elas estreassem um show próprio no palco do Teatro Castro Alves. “Se apresentar no TCA tem um significado muito forte, porque é o templo maior da arte na Bahia, a grande casa de espetáculos em todos os sentidos, tanto a nível quantitativo, de expectativa de público, quanto de estrutura. Então, um trabalho para chegar nesse ponto passa necessariamente por um amadurecimento”, acredita. O show, que acontece neste domingo (23), às 11h, é baseado em álbum homônimo ao grupo, lançado em 2014, e terá como convidados especiais a cantora Mariene de Castro, que participou do disco na faixa “Rainha do Mar”, e dos cantores e compositores Saulo Fernandes e Reginaldo Souza, o “Seu Regi”. A direção artística é assinada pelo ator e diretor Jackson Costa.

O ator Alexandre Nero entregou um dos prêmios à Dona Mariinha no 26° Prêmio da Música Brasileira | Foto: Divulgação
“Por ser uma apresentação em um espaço da dimensão do TCA, ela ganha uma amplitude maior. Com o suporte do diretor artístico Jackson Costa, toda a preparação está voltada para alçar o show ao nível de espetáculo, o que já vinha sendo apontado, mas agora se concretiza com uma qualidade maior desde o cenário até o figurino. A ideia é manter essa estrutura para outros shows que virão”, conta Amadeu. O sentimento de D. Mariinha para a apresentação é um mistura de ansiedade e satisfação. “Estamos nos preparando com muita alegria, ensaiando bastante para sair tudo muito bem e com fé em Deus vai dar”, torce. A felicidade pelo show soma-se a outra vivida pelas Ganhadeiras de Itapuã no início deste ano. Em março, o grupo foi indicado em três categorias do 26° Prêmio da Música Brasileira e voltou para a Bahia com duas estatuetas, a de Melhor Álbum e a de Melhor Grupo Regional. “Estávamos sem acreditar, não era bem um nervoso. Imagine só: uma pessoa que lavava no Abaeté, andava aqui em Itapuã, chegar ao Municipal? É uma emoção muito grande, muita alegria”, conta, emocionada. Em breve, as Ganhadeiras devem voltar ao Rio de Janeiro para um show, que está em negociação, assim como uma turnê internacional com apresentações na Europa e na África. Além das viagens, também está nos planos do grupo o lançamento do seu primeiro DVD, previsto para 2016. O projeto de gravação já foi aprovado pela Lei Rouanet e está em fase de captação de recursos.
Serviço
O QUÊ : As Ganhadeiras de Itapuã no Domingo no TCA
QUANDO: Domingo, 23 de agosto, às 11h
ONDE: Sala Principal do Teatro Castro Alves
QUANTO: R$ 1 e R$ 0,50 (Vendas a partir das 9h do dia da apresentação com acesso imediato do público)